Expletis Omnibus

2 Capítulo 2 -Improvável


AMÉLIA

Escombros e poeira, só o que resta no antigo supermercado. Mais uma cidade decepcionante para Amélia, a escassez de alimentos tem aumentado, nessa proporção não vai demorar para que os sobreviventes morram de fome, ou comecem a mudar o cardápio. Uma das vantagens de viajar só é que não tem que se preocupar com armazenamento de alimentos, Amélia já viu grupos serem atacados e mortos por excesso de peso. Os saqueadores são rápidos em seus ataques, podem farejar e rastrear bandos de sobreviventes. É como se o marco zero tivesse dado a eles o poder da caça. Para evitá–los é necessário não deixar rastros e vagar só é uma boa forma.

Andando por uma rua, Amélia decide que é melhor mudar de cidade, seguindo a faixa da praia. Mas algo não está certo, mesmo sem nada na cidade é estranho a ausência de movimentação de grupos, durante toda a noite Amélia ouviu gritos longínquos e baques, os claros sinais da presença de saqueadores na região. Já quase na saída da cidade, Amélia observa um letreiro parcialmente destruído, e o anuncio , “Les Misérables”, sua mãe lhe contava sobre filmes e peças teatrais, da cidade do outro lado do oceano que os criava, dos melhores que iriam ser premiados por reconhecimento, sua mãe foi no passado uma atriz e dizia que Amélia seria também um dia, tudo fora planejado para isso, até seu nome fora inspirado na personagem favorita de sua mãe Amélie Poulain.

Um ronco distante chama sua atenção, não pode ser possível, foram todos destruídos. Talvez ela apenas esteja enlouquecendo de vez, o barulho fica mais alto e próximo. Amélia congela, sabe que não pode correr sua cicatriz não permite. O tempo para pensar é curto, começa a caminhar, tropeça, entra em uma rua estreita lateral, úmida e escorregadia, atravessa mais umas ruas, o som do motor a segue, parece adivinhar aonde ela vai, acelera seu passo, sente um fisgada na coxa, a dor é perturbadora, mas precisa continuar, o veículo para na rua atrás dela, sente passos em sua direção, resolve se esconder embaixo de uma placa de que formava um vão com alguns escombros. Retira da bolsa o canivete que seu protetor lhe dera antes de morrer, e se prepara, não vai desistir, ela vai lutar, ou então morrer antes de ser levada novamente. Os passos ficam mais próximos, é o fim. Amélia prende a respiração, os saqueadores devem ter rastreado suas pegadas, devia ter escolhido um lugar melhor que o museu para se esconder, não consegue ficar calma, as lembranças da ultima vez em que foi pega a assolam, lembra–se da menina que teve o seio arrancado por um deles apenas para que se divertissem. Lembra–se da dor, sua cicatriz dói tanto como se quisesse lembra–la da dor. Amélia consegue enxergar pelo vão, e vê um par de botas, sujo de poeira, e com sangue nas pontas, um homem como consegue visualizar, armado, armas são raras, ele fica mais alguns segundos parado e então sai. Grita algo em uma língua que Amélia não conhece, e logo após ela ouve o som do motor do veículo se afastar.

Ela ainda não está segura, sabe disso, prefere ficar no seu esconderijo improvisado por mais algumas horas, a dor ainda é forte, ela não conseguirá escapar novamente se sair dali daquele jeito. E depois ela irá pensar em alguma forma de sair da cidade. Mas a dor é o de menos para Amélia nesse momento, quem seria aquele homem? E porque ele andava em um veículo, Amélia sabia que a maioria havia sido destruído e os que restavam estavam avariados demais para serem usados.

Após o marco zero, a única forma de se locomover era usando as próprias pernas. E as de Amélia não iam bem.

Após se ajeitar, usando sua bolsa como travesseiro, conclui que aquele era um bom lugar para se esconder, Amélia começa a pensar em sua mãe, no cheiro do seu cabelo, cheirava a maça ela pensa, sua mãe vivia afagando seus cabelos quando lhe contava histórias, às vezes as histórias eram sobre pessoas que lutavam pelo bem de todos, pessoas que tinham segredos e que lutavam secretamente por um mundo melhor. Amélia sempre se perguntou o porquê dessas pessoas não terem evitado o marco zero, as guerras que precederam, podiam pelo menos ter salvado sua mãe.

Passos a assustam, mas não são os mesmos, estes são mais leves. E se aproximam rápido, vem da mesma direção dos outros, mas sem a mesma determinação, mesmo assim é uma ameaça, Amélia não sabe o que fazer, apenas se encolhe, novamente puxa o canivete pronta para atacar, não vai se entregar, não vai tão facilmente como uma lebre encurralada.

Os passos se aproximam, Amélia vê os sapatos que emitiam os passos, não são botas, são diferentes dos que ela conhece, com uma estrela e algumas letras borradas e sujas de lama.