Notas iniciais
gra·to adjetivo Agradecido, agradável.

— Dá para acreditar? Falta pouco para termos nossos braços de volta, teme.

Sasuke preferiu não responder, sabendo que Naruto continuaria a conversa com ou sem sua participação.

— Me sinto um completo inútil tendo que fazer tudo com a mão esquerda. — O loiro suspirou dramaticamente.

— Você é um inútil de qualquer jeito. — Embora rudes, suas palavras não continham malícia ou veneno algum; apenas faziam parte da conduta padrão.

Naruto sorriu e soltou uma exclamação de falsa indignação.

O Uchiha se sentiu agradecido quando o Uzumaki preferiu não retorquir e, assim, deixando um silencio confortável permear a atmosfera do escritório médico onde estavam aguardando.

Sasuke tinha a vaga impressão de que Naruto sabia exatamente quando ele queria ser deixado sozinho com os seus próprios pensamentos e quando não – o que fazia seus lábios arquearem em um sorriso involuntário.

Ele certamente não merecia metade da devoção que Naruto lhe direcionava.

Mas Sasuke precisava dela, e ele pensaria duas ou três vezes no presente momento antes de negar qualquer sentimento meramente positivo vindo de Naruto, Kakashi e principalmente-

A maçaneta da porta moveu-se vagarosamente.

Sasuke sentiu uma pontada de antecipação ao virar parcialmente a cabeça na direção do barulho quase imperceptível de estalo porque ele sabia quem entraria no cômodo em menos de dois segundos:

A única pessoa que o deixava se sentindo inquieto internamente, o fazendo se lembrar de quando tudo o que ele mais queria no mundo era a atenção de Uchiha Itachi.

Sakura trancou a sala ao entrar e sorriu amigavelmente para seus dois ex companheiros de time, falando seus nomes como saudação.

— Você está atrasada, Sakura-chan.

— Dia agitado no hospital, Naruto.

Observando a figura da menina – mulher, ele se corrigiu – recostada em sua mesa de atendimento, Sasuke pôde notar traços de fadiga e exaustão por uso excessivo de chakra.

Ele não tinha qualquer direito de interferir no modo como Sakura fazia o seu trabalho no hospital ou muito menos repreendê-la, mas não pela primeira vez, ele desejou que se sentisse mais à vontade para demonstrar sua insatisfação com a mania da Haruno de exagerar.

Não tardava para que esse desejo se tornasse um tanto quanto irracional quando ele parava para pensar em tudo o que ela havia feito na Guerra.

Sakura começou a falar – mais para o Naruto do que para ele – sobre o andamento das próteses e do tratamento que ela aplicaria nas partes remanescentes de seus braços durante aquele mês e todo o procedimento de cura que ele decorara já na primeira sessão.

Sasuke podia admitir para si mesmo que só continuava indo ao hospital para aproveitar da companhia de Naruto e Sakura.

Às vezes, o Uchiha tinha a certeza de que dada a oportunidade, ele gostaria de aproveitar seus últimos meses em Konoha ao lado dos dois. Todos os dias. Eles nem ao menos precisariam se falar – até porque Sasuke demoraria mais algum tempo para começar a gostar de interações desnecessárias – ou interagir diretamente.

Ele só gostaria de ter os dois ao seu lado nem que fosse para aproveitar de um silêncio.

O fim da Guerra certamente o deixara mais mole, ele contemplava com certo desconforto.

Mas Sasuke não podia fazer nada se toda vez que olhava para Naruto e Sakura um sentimento de gratidão o inundava e o deixava sem ar. Ele nunca conseguiria colocar em palavras uma retribuição adequada a todos os esforços dos seus amigos. Todo o tempo gasto com ele, todas as dores...

Nunca.

Ele era grato por cada gesto já feito por eles, mas principalmente, ele era grato por ainda estarem vivos.

Ao seu lado.

— Sasuke-kun? — Ele olhou diretamente nos olhos verdes de Sakura, demonstrando que ela agora tinha sua total atenção. — Posso examinar você primeiro?

Sasuke, sem dúvida alguma, era grato por ainda ser capaz – ainda que não fosse merecedor – de receber o sorrido acolhedor de Haruno Sakura toda vez que ela lhe fazia essa mesma pergunta.