Exchanged.
5 5.
Notas iniciais
Ingrid se joga nas minhas costas enquanto eu saio do banheiro após a Educação Física. No mês que se passou depois da festa na casa do Robin, nós acabamos por virar melhores amigas. Sorrio com o seu gesto e a carrego pelas pernas, sabendo que ela odiava o gesto.
– Me larga, vou cair. — Ela grita em meu ouvido. Começo a correr pelo ginásio vazio e sua risada ecoa. — Se eu cair, quando eu me levantar, você não vai gostar! — Giro com ela em minhas costas e ela bate em mim com força.
– Eu duvido que você consiga encostar um dedo sequer em mim quando eu te colocar no chão.
– Não duvide, Emma! Me larga, agora.
– Seu pedido é uma ordem, Rainha de Gelo. — Uso o apelido que ela odeia e a largo no chão e ela cai. Saio correndo.
– Porra, Emma! — Grita. — Eu vou te matar. Eu vou te matar! — Estávamos sozinhas na quadra, ela correndo atrás de mim. Meu treinamento na luta havia me dado força, porém ela ainda conseguia ser mais veloz.
Ingrid me agarra pela cintura e começa a dar murros em meu braço, mas eles não doem, estava acostumada a levar piores. Seguro seus braços e os cruzo, virando seu corpo de costas para mim e a segurando com força, porém com cuidado para não machucá-la.
– Você sabe que não vai conseguir daqui. — Aviso e ela continua se debatendo.
– Arrgh!
– Vamos, Ingrid. — Provoco. — Você é melhor do que isso, cadê os anos de treinamento em quadra?
Ela tenta virar meu corpo por sobre o dela, mas eu sou mais forte e acabo nem saindo do meu lugar. Depois de um certo tempo treinando, meus braços haviam começado a se delinear e agora pareciam até mais musculosos.
– Se você disser a palavra mágica eu te largo.
– Eu não vou dizer. — Ela se debate mais um pouco e eu a aperto mais ainda contra o meu corpo, respirando em sua nuca.
– Então nós vamos virar a noite aqui, porque eu não vou te largar.
– Emma, eu te odeio.
Eu dou risada.
– Experimente dizer o contrário disso daí, talvez eu te solte.
– Eu. Te. Odeio. — A aperto mais ainda, se é que era possível. — Eu vou contar até três para você me largar.
– Boa sorte.
– Um…
– Uau, ela sabe contar. — Provoco. — Continue.
– Dois…
Minha respiração fica pesada quando eu percebo o quão perto estávamos. A viro de frente para mim, sem soltar seus pulsos e dessa vez os coloco para suas costas.
– Três.
– Contou.
Percebo que ela alternava os olhares entre meus olhos e minha boca e, inconscientemente, acabo fazendo o mesmo. Admito para mim mesma que sentia vontade de beijá-la.
– Emma… — Ela avisa, mas já é tarde demais.
Abaixo meu rosto e capturo seus lábios com os meus, segurando-a pelos pulsos contra meu corpo.
Afrouxo o apertão e suas mãos vão parar em meu pescoço, enquanto as minhas enlaçam sua cintura. Sua língua serpenteia para a minha boca e, mentalmente, agradeço por ter escovado os dentes.
Mantenho os olhos fechados até o beijo acabar, o que acontece quando sentimos a necessidade de respirar. Ela olha para mim e esconde o rosto em meu peito, dando risada. Eu afago seus cabelos e dou risada também.
Eu havia acabado de beijar a minha melhor amiga, aquele foi um ótimo primeiro beijo.
Ingrid e eu saímos de mãos dadas do ginásio. Depois do beijo, nós apenas demos risada, pegando nossas coisas e saindo logo em seguida. Ao chegar na parte externa, que continha o campo de futebol de grama, nos deparamos com algo que nunca esperaríamos, nem eu, nem ela.
Regina estava aos beijos com Robin.
Trocamos um olhar de nojo e eu, particularmente, me senti completamente desapontada. Depois de tudo que havia acontecido, depois de ele tê-la agarrado a força, ali estava ela, trocando beijos com aquele infeliz.
A raiva cresce dentro de mim e eu sinto vontade de ir lá para tirar satisfações, mas Ingrid me puxa antes que eu possa fazer algo.
– Você não é a mãe dela. — Repete.
Eu respiro fundo, procurando toda a paciência que eu precisava.
– Eu preciso chamar ela.
– Finge que não viu, Emma. — Ela diz. — Quando chegar lá no carro você liga para ela, mas não briga com a garota. — Seu tom de voz é calmo e eu agradeço pela presença dela ali, pois, se não fosse ela, eu quebraria o nariz de Robin Hood pela segunda vez.
– Eu vou matar essa menina. — Digo, entredentes.
– Vai nada. — Me puxa pela mão. — Vem, vamos.
– Ela estava beijando ele! — Fico indignada.
– Eu vi, Emma. — Ela continua me puxando. — Mas nada do que façamos agora vai mudar isso, então vamos.
Dou o assunto por encerrado e, mesmo queimando de raiva, sigo o conselho de minha amiga e vou para o carro me controlando para não matar a intercambista e o garoto que ela estava beijando.
Socar.
Desviar.
Chutar.
Repasso a sequência em minha cabeça enquanto treino com o saco de areia estrategicamente colocado em meu quarto.
O suor escorria pelo meu rosto, mas eu não me importava, quanto mais socos eu desferisse, mas a minha raiva seria extravasada. O motivo da minha raiva? O beijo de Regina e Robin atrás das arquibancadas.
Smells Like Teen Spirit, de Nirvana, ecoava pelo quarto e eu, desajeitadamente, tentava socar no ritmo da música.
Eu beijei Ingrid.
Um soco.
Regina beijou Robin.
Desvio.
A brasileira era idiota.
Um chute.
O beijo de Ingrid era bom.
Outro soco, dessa vez direto.
O que ela tinha sentido beijando o Robin?
Dou um cruzado de esquerda e me imagino quebrando o nariz daquele idiota mais uma vez.
Eu não sentia ciúme dela, mas era assinar uma documento afirmando ser idiota ao ainda falar com ele. A garota parecia ter esquecido tudo que ele havia feito com ela na festa que aconteceu há algum tempo atrás.
Não falei nada com ela sobre ter visto a cena, mas dei tratamento de gelo, assim como Ingrid havia recomendado. Ela veio no carro tagarelando com meu irmão, porém não dei uma palavra, ela não merecia que eu gastasse minha saliva tentando descobrir o que se passava em sua cabeça.
– Emma? – Henry aparece no quarto me chamando. – Uau, você está mesmo nessa de luta, hein?
– Não é nada, garoto. – Paro um pouco e enxugo o suor que escorria pela minha testa. – O que foi?
– Eu estou gostando de uma garota. – Diz de uma vez só, encostado na porta.
– Feche essa porta e sente aqui. – Ele faz o que digo e entra no quarto, fechando a porta atrás de si. — Abaixa o som também. — Henry mexe no som e, rapidamente, o volume diminui. Se joga na cama e eu me sento a seu lado, ignorando meu suor.
– O nome dela é Violet, ela é do sétimo ano. Veio de Portugal. Mas não é intercambista como Regina, está morando aqui de verdade.
– Ela é mais nova, o que te dá certas chances... Essas garotas se amarram em garotos mais velhos.
Henry sorri de forma galanteadora.
– Eu sei... – Ele faz uma pausa. – Eu queria ajuda para levar ela no cinema.
– É por isso que você veio falar comigo, né? – Brinco com ele e meu irmão sorri. – Você é muito interesseiro!
– Eu te amo, você sabe. Porém, negócios são negócios, eu já tenho o dinheiro, queria alguém para levar e buscar a gente.
Antes que eu pudesse falar, ouvimos batidas na porta. Regina coloca a cabeça para dentro timidamente e pergunta se pode entrar. Nós dois dizemos que sim e ela entra. Me sinto envergonhada ao perceber que não usava blusa, apenas um top de malhação. Não tinha vergonha de meu irmão, mas, com ela, as coisas eram um pouco diferentes.
– Eu só vim pegar minha escova, sei que você está chateada comigo. – Diz. Henry olha para mim sem entender e eu faço um sinal indicando que explicaria a situação depois.
– Regina. – Chama ele. – Fica aqui também, preciso da ajuda de vocês duas.
– Minha? – Ela coloca a mão sobre o peito. – Qual o problema?
– Eu quero levar uma menina ao cinema, mas iria ficar muito chato que eu pedisse a minha mãe... Então pensei em pedir a Emma.
– Ok, mas... – Ela senta na cama também. – Onde eu entro nessa história?
– Se você e Emma dissessem que iam no shopping, e aí eu me oferecesse para ir junto, ela não desconfiaria.
– Eu não sei não, viu Henry. – Me pronuncio pela primeira vez na noite. Não estava de acordo com ter que passar duas horas rodando num shopping sozinha com Regina, não depois do que ela havia me feito passar.
– Ela não quer passar tempo comigo. – Diz a morena.
– E se eu não quiser? – Provoco.
– Eu não sei o motivo de sua raiva. – Ela encara suas unhas. – Precisamos conversar.
– Henry, eu te levo, ok? – digo. – Agora, sai daqui. Preciso trocar umas palavras com certa brasileira.
Ela revira os olhos para mim e eu assisto meu irmão sair do quarto.
– Qual o seu problema repentino comigo?
– Sério que você não sabe?
– Não. — Faz uma pausa. – Eu te chutei de madrugada?
– Regina, eu já falei que você não chuta. E outra, eu não sou criança a ponto de querer te esganar só por causa de uns chutes.
– Então qual o problema? – Ela bate nas coxas e eu sinto vontade de rir de seu nervoso.
– Você. Robin Hood. Arquibancadas. – Ela liga os pontos e faz uma careta.
– Você viu?
– Eu e Storybrooke inteira vimos. – Olho em seus olhos. – Depois do que ele fez, é sério isso?
– Ele me explicou que estava bêbado naquele dia. – Ela se levanta da cama e começa a andar pelo quarto. – Ah, Emna, ele é tão romântico.
– Vou fingir que não ouvi isso. – Faço uma cara de nojo. – Ele é nojento.
– Emma, a gente está namorando.
– Vocês o quê? – Eu acabo gritando e ela se assusta. – Vocês o quê? Você é maluca?
– A gente está namorando, escondido, claro. – Ela junta as mãos com ar de sonhadora. – Emma, ele é um fofo! Sério, um amor de pessoa, se você conhecesse ele iria mudar sua cabeça.
– Mudar a minha cabeça? Você parece que não está se ouvindo… Quer que eu te lembre o que aconteceu naquela festa na casa dele? Se você não lembra, eu lembro. — Aumento o tom de voz. — Eu lembro dele te agarrando e você querendo sair dos braços bêbados dele. Eu lembro de ter que derrubar ele no chão. Eu lembro de você completamente assustada.
– Emma, calma. — Pede.
– Eu não vou ter calma. — Levanto da cama e passo a mão pelos cabelos. — Você parece não lembrar do dia que ele quase te estuprou, porque meu Deus... Você é muito burra, desculpa te dizer. – Ligo o som no volume mais alto e ela me olha desapontada.
– Eu achei que você fosse minha amiga.
– E amigos se irritam uns com os outros quando eles fazem merda, que nem você está fazendo agora. — Volto a socar meu saco de areia. — Se puder sair do meu quarto eu agradeço. — Uso meu melhor tom de desprezo e volto a descontar minha raiva.
Na sexta-feira de noite, Henry aparece pronto na porta do quarto e eu dou risada. Ele vestia um sobretudo preto masculino, uma calça jeans, camisa pólo cinza e seu inseparável cachecol, sem contar com o forte cheiro de perfume que emanava de seu corpo.
– Vamos? — Pergunta para mim.
– Você já falou com os pais?
– Já, disse que você e Regina iam no shopping comprar roupas. — Eu arregalo os olhos, meus pais sabiam que eu não estava nem aí para roupas, mas ele continua. — Inclusive, eles deram o cartão. Minha mãe quase chorou quando eu mencionei a palavra roupas.
– Aquele sem limites?
– Ele mesmo. — Henry sorri.
– Nem pense em gastar, quem vai gastar sou eu! — Digo. — Eu não vou pagar a gasolina usada para levar você e sua namorada com a minha mesada.
– Mercenária.
Eu dou língua para ele e levanto da cama. Tiro o celular do carregador e o coloco no bolso, não antes de confirmar com Ingrid se ela iria mesmo para me fazer companhia.
Henry bate na porta do quarto de Regina, avisando a ela que estava na hora de sairmos. Desde o dia da nossa briga, ela havia voltado para lá e pegado um leve resfriado devido ao frio.
Ela que chamasse o Robin para aquecê-la.
Regina aparece com uma calça jeans, camisa social e botas de cano alto, mas evito observá-la muito, para não cair na vontade de falar com ela. Descemos as escadas em silêncio e meus pais dão várias recomendações a mim sobre como eu deveria tomar conta de todos.
Quando chegamos no carro, Regina vai para o banco do carona.
– Vai no fundo, Ingrid vai com a gente e ela vai na frente.
Ela não diz nada, mas sei que não havia gostado do meu pedido. Não me importo, assim que seriam as coisas dali em diante. Traço o caminho em minha cabeça, passaria para pegar Ingrid primeiro, depois pegaria a namoradinha de meu irmão e seguiríamos para o shopping.
Ingrid morava num prédio de três andares, que era um antigo corpo de bombeiros. Quando chego lá, ela já está embaixo me esperando. A “Rainha de Gelo” faz menção de entrar na parte traseira, mas eu indico a ela que o carona estava livre. Mesmo gostando bastante de Ingrid, boa parte do que eu estava fazendo era para provocar Regina.
A loira entra e me abraça desajeitadamente, cumprimentando os outros logo após. Regina não responde o boa noite dela.
– Esse perfume todo é seu, Henry? — Ela pergunta.
– Sim. — Ele usa um tom de voz orgulhoso.
– O irmãozinho de Emma não é mais uma criança. — Ela provoca e eu reviro os olhos. Sua mão esquerda repousa levemente em minha coxa enquanto dirijo, mas não percebo.
– Ele não é uma criança desde o dia que quebrou o primeiro braço de um oponente. — Respondo e todos riem, menos Regina.
– Falou a pacífica. — Ele brinca.
– Verdade, essa daí de pacífica não tem nada. — Olho para Ingrid indignada, eu era bastante pacífica.
– Eu sou bastante calma! — me defendo.
– Falou a garota que quebrou o nariz de um cara numa festa, apenas porque ele… — A voz da loira morre quando ela lembra que Regina está no carro.
– Pode falar, Ingrid. — É a vez de Regina falar. — Pode falar que Emma quebrou o nariz do meu namorado porque ele estava me beijando.
Me controlo para não esmurrar o volante, não havia sido daquela forma. Eles nem namoravam, e ele, ainda por cima, estava bêbado.
– Vamos mudar de assunto, pode ser? — Uso toda a paciência que me restava e me controlo. Ingrid aperta minha coxa, tentando me transmitir calma, e eu puxo o ar com força. De um momento para outro, o clima no carro ficou pesado.
Seguimos para buscar a namorada de Henry em silêncio, como a casa de Violet era perto, em pouco tempo chegamos lá. A menina também esperava na frente da casa.
Henry desce do carro e abre a porta para ela, que sorri com o gesto. Seu inglês ainda era fraco, pior até do que o de Regina, e vamos o resto do caminho todo rindo enquanto eu envergonho Henry na frente dela. Só paro quando ele ameaça me envergonhar na frente de Ingrid também.
A intercambista vai calada, apenas falando quando Violet disse que também falava português e elas conversaram um pouco, deixando todos nós de fora. Mesmo sem entender uma simples palavra do que elas estavam dizendo, deu para perceber que o inglês americano era completamente diferente do britânico.
Chegamos no shopping e eu estaciono.
– Nove horas eu quero todo mundo de volta para o carro. — Digo, principalmente para Henry e Violet. — Se a gente chegar depois de nove e meia em casa, nossos pais me matam. E depois eu volto e mato vocês! — Ele puxa a garota pela mão, mas, antes que ele vá muito longe, o chamo mais uma vez. — O cartão, garoto… Achou que eu fosse esquecer?
Ele solta um xingamento baixinho e eu dou risada, pegando o cartão que ele estende para mim.
– Juízo, viu? — A loira pede.- Nada de beijar ela no escurinho do cinema.
– Ingrid! — Seu rosto fica vermelho e eu percebo que até a intercambista segurava uma risada. Guardo o cartão que ele havia me entregado no bolso e abraço Ingrid pela cintura, que se mantinha parada ao meu lado.
– Se divirtam. — Diz Regina, acenando para os dois.
– Pode ir, Regina. — Digo, e a morena arregala os olhos para mim. — Você não achou que eu fosse ficar com você no shopping, né? — Pergunto, ironicamente e ela abre a boca para falar algo, mas desiste.
Ingrid tenta falar também, mas eu peço que ela se cale. Não iria aturar uma pessoa idiota por uma noite inteira. Se eu me senti mal por fazer aquilo? Sim, mas ela havia escolhido ser idiota pelo Robin.
Puxo minha amiga pelo espaço a dentro, já sabendo quais lojas ir. Olho mais uma vez para trás e penso em voltar, mas sigo firme.
– Volta, Emma. Ela não deve conhecer nada daqui. — Ingrid se compadece. Paro e fico de frente para ela. — Vai lá, eu prometo que não vou brigar com ela.
– O problema não é você. — digo. — É ela.
– A garota está apaixonada, não merece isso.
– Merece sim. — Sou enfática. — Assunto encerrado, vamos esquecer que brasileiros existem essa noite.
Ela merecia aquilo.
Merecia, não é?
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