Exame Final [Hiatus Eterno]
4 Ato I: O Programa.
Notas iniciais
“É... Ainda me lembro do Daryo. Conversamos quase que todos os dias pela internet, mas tem muito tempo que não o vejo ‘de perto’. Ainda me lembro de quando nos conhecemos...".
***

2 anos atrás...
17 de setembro, 2013.
O adolescente loiro dava passos lentos pelo largo corredor do colégio. Ele olhava para todas as direções enquanto seguia para um enorme portão de ferro ao fim do caminho, esboçando tamanha curiosidade em ver aquelas decorações pela primeira vez. Seu coração palpitava fortemente, o primeiro dia de aula em uma escola nova sempre fora muito aflitivo pra ele. Todos ficavam o encarando, e como era muito tímido, ele apenas virava o rosto, envergonhado. Por sorte, os demais alunos se encontravam em suas salas, estudando, e ele era o único que vagava por ali.
— Bom, Paul, não tente parecer um robô quando ver os seus colegas. Não deixem eles pensarem que você é completamente estranho! — Dizia a si mesmo, em tom de voz baixo. — E não fique falando sozinho!
Seus olhos verdes fitaram o portão por algum tempo. Conseguia escutar a gritaria das garotas que estavam do outro lado, as pancadas que a bola de futebol dava quando batia contra a parede, a música que algum de seus futuros colegas tocava num violão. “Ai vamos nós!”.
O jovem de 14 anos empurrou vagarosamente o portão, tentando não fazer barulho, mas foi algo impossível. As barras de aço enferrujadas logo começaram a rugir, e assim que ele tornou-se visível para o outro lado, percebeu quando todos aqueles pares de olhos curiosos se fixaram em si. Não conseguiu evitar ficar corado. “Droga! Porque eles não param de me olhar?”.
“Ótimo... Eles nem piscam e eu congelei aqui. Vamos, Paul, são apenas uns... 20 estudantes. Não precisa ficar nervoso...”.
— Olá!
A amigável voz feminina estraçalhou a conversa interior que o garoto tinha com ele próprio. Ao dar-se por si, notou a garota morena a sua frente, sorrindo ternamente enquanto mantinha as mãos entrelaçadas por trás de suas costas.
— O-oi.
— Você é o aluno novo, não é?
— E-eu?
“Paul, destrave, pelo amor... A garota vai te achar um completo idiota!”.
— É, eu sou sim o aluno novo...
— Paul Baker, exato?
— Sim. Co-como sabe... como sabe o meu nome?
— A professora avisou que você chegaria hoje. Estávamos ali, aguardando você.
— “Estávamos”?
— Ah, é, e essas são minhas amigas. — A garota então apontou para as cinco meninas que a rodeavam. Paul, que não tinha as percebido, ficou muito mais abalado. — A propósito, eu sou a Mabel. E essas são a Saynara, a Alice, a Meloyree, a Evelyn e a Kate.
— Prazer. — Ele abriu meio sorriso, tremendo.
— Venha, vou te mostrar os outros!
Sem tempo para uma resposta, Paul viu quando a jovem pegou em suas mãos e saiu o puxando para a quadra de futebol. “Eles são completamente malucos!”.
— Aqueles meninos são os jogadores do time da nossa sala. — Disse, focando nos rapazes jogando bola. — Você irá conhecê-los depois, são todos meio babacas, mas com o tempo você se acostuma.
— O-ok.
— Ali está o nosso casal de pombinhos... São Luck e Michelle. — Apontou para um rapaz e uma garota que estavam abraçados nas arquibancadas. — Ao lado deles, aquelas duas garotas loucas lá, são Lila e Mizuke. E tocando violão, abaixo delas, está o Samuel. O gordinho cantando é o Owen.
— Certo... — Paul tentou captar tudo, em seguida, percebendo o garoto moreno sentado no fim da arquibancada, com o braço esquerdo engessado e ouvindo música por fones de ouvido. — E quem... quem é aquele?
— Daryo. É muito legal também, é um dos principais jogadores do time, mas está fora dos treinos porquê de seu braço quebrado. — Mabel (Collins, Estudante Feminina No. 06, líder da classe) finalmente largou o garoto. — Agora eu preciso ir até as minhas amigas, sente-se ai e fique tranquilo, logo eles te chamam pra jogar futebol.
— Tá bem. — “Mas quem disse que eu sei jogar futebol?”. — E obrigado!
Assim que a menina se afastou, Paul suspirou profundamente e seguiu para a arquibancada. Meio envergonhado por ainda ter algumas pessoas o olhando, seguiu para a parte mais alta e se sentou a alguns metros de Daryo.
Ele colocou as mãos perante a boca e voltou aos seus pensamentos. “Até que a recepção foi boa. Não caí em uma poça de lama como aconteceu na escola de Belo Monte.”.
— E aí!
Paul quase teve um infarto quando viu Daryo (Miller, Estudante Masculino No. 02) ao seu lado. O rapaz sorria com simpatia e prosseguia com o seu braço direito esticado, esperando pelo cumprimento do aluno novo.
— E-e aí. — Paul o cumprimentou com um aperto de mãos e ele sentou-se ao seu lado. — D-Daryo, não é?
— Não fique tão nervoso, o pessoal da sala é curioso mas é gente boa! — Ele disse. — Só irão te olhar desse jeito até semana que vem, depois disso tratarão você como "mais um".
— Preciso aproveitar minha fama então, né? — “O que é que que eu falei?! Meu pai! Que hora chúla para fazer piadas...”.
— E meu nome é Daryo, sim. O seu é Paul, certo?
— Aham.
— Err... Você quer jogar bola? É só chamar o Alex que ele coloca você na partida e...
— Não! — Paul gritou, dando um susto em Daryo e chamando a atenção das garotas mais próximas. — Não, não... Não sei nada de futebol, não chame eles... Não quero passar vergonha!
— Tudo bem, não fique assim. Ninguém aqui se importa se você sabe ou não jogar futebol, só querem mesmo saber se está a fim de fazer novos amigos.
— Pra mim, isso é uma necessidade! — Falou, revirando os olhos. — Sou novo na cidade e não conheço ninguém... Isso é, ninguém fora o motorista de ônibus que me jogou barro.
— Ótimo! Então... me considere um amigo. — Daryo disse, sorrindo. — Um grande amigo! Pode contar comigo para o que der e vier, beleza?
— Valeu!
***
16 de novembro, 2015.
“É... Pra dizer a verdade, nunca achei que ele estivesse falando tão sério naquele dia. Mesmo com todos os outros meninos impacientes para que ele se recuperasse e voltasse ao time, ele jamais voltou. Ainda não descobri o porquê do Daryo simplesmente abandonar o esporte que mais gostava para ficar conversando comigo, um nerd sem graça. Devo muito a ele... Espero que esteja bem e que compareça ao Alistamento, amanhã.”.
***
— Eu... Eu não quero ficar com estranhos! — Berrava a pequena garota com birra, sentada em sua cama. — Porque você precisa sair amanhã? É domingo! Você não trabalha no domingo!
— Eu já expliquei, Carly. — O garoto magro de olhos castanhos coçava mais uma vez seus cabelos espetados, tentando pensar em uma maneira simples de explicar. — Todos os garotos precisam fazer o alistamento, e o meu é amanhã. Por isso, pedi os vizinhos para que deixassem você dormir com eles por essa noite. Terei que sair de madrugada para Ambuera.
— Mas... Daryo!
— Eu sei que deve estar com medo, mas não se preocupe, eles são bons velhinhos. A senhora Nora até está fazendo um bolo de chocolate para você comer no café, amanhã. E assim que terminar lá, eu vou voltar. Não demorarei nadinha!
Por um instante, tocando levemente nas pequenas mãos da prima mais nova, Daryo pôde vê-la de acalmar um pouco. Algumas lágrimas ainda saiam de seus olhos, e seu rosto se encontrava parcialmente molhado. Pegando o primo de surpresa, Carly o deu um abraço bem apertado.
— Eu já vi como funciona “lá”. — Disse, aos prantos. — Você pode não voltar mais, não é?
— Não, Carly, não pense nisso. — O rapaz afastou a prima para que ela pudesse olhá-lo nos olhos, e começou a acariciar a sua cabeça. — Nunca vou te abandonar, tá? Se não fosse obrigatório, eu nem iria nessa besteira de Exame. Mas como você sabe, eu preciso ir. Mas não quero que fique preocupada comigo, beleza? Não vai acontecer nada de mais!
— Promete?
— Claro! — Ele sorrira, ela também. — Se você dormir demais como costuma fazer em todos os domingos, nem irá perceber que eu saí, pois já estarei ao seu lado de novo!
— Ótimo! Farei de tudo para acordar tarde!
E os dois gargalharam da brincadeira da garota.
Nesse instante, uma mulher idosa chegou ao quarto. Ela possuía uma feição amigável, simpática, e estava com as mãos entrelaçadas abaixo da cintura.
— Eu preciso ir, tá? A dona Nora e o senhor Elgine estão querendo dormir, então não faça bagunça.
A prima assentiu. Daryo elevou sua mão esquerda ao rosto dela e limpou todas as lágrimas que ali estavam.
— E nada de chorar. Pode ficar tranquila! Chegarei aqui e ainda comerei um pedaço do bolo que a senhora Nora fez pra você. Isso é, se você deixar sobrar alguma coisa...
— Claro que irei, seu bobo.
O jovem logo se levantou e ajudou a garota a se cobrir.
— Boa viagem! — Carly desejou, contente.
— Boa noite de sono. Nos vemos amanhã, priminha.
Assim que Carly fechou os olhos e se acomodou ao seu travesseiro, o maior virou-se de costas e seguiu em silêncio pelo corredor.
— Cuide dela pra mim, senhora Nora. Prometo voltar quando puder!
— Nem precisa pedir, Daryo. Vocês são como filhos para eu e Elgine, ela ficará muito bem até a sua chegada.
— Obrigado!
Sem mais nada a dizer, Daryo caminhou para a porta de saída e deixou a casa. Estava uma noite um tanto quente, no entanto, ele sentiu um vento frio gelar sua espinha no momento em que pisou na rua para atravessá-la. Foi estranho, mas tratou de ignorar e seguiu, ainda precisava separar uma roupa e seus documentos para o alistamento.
“Ela perdeu os pais em um acidente... Sobreviveu por um milagre. Sou o único familiar que ela conhece, a única pessoa na terra em quem ela confia. Jamais posso decepcioná-la, nunca vou abandoná-la como fizeram comigo... Amanhã será apenas uma “saída” de duas horas, espero que ela fique bem. Tomara que consiga descansar e que não fique pensando nesse Exame estúpido. Eu sei que não serei sorteado para o Programa. Sei que estou no mundo para cuidar da Carly. E nada irá me distanciar dela!”.
Quando finalmente deixou seus pensamentos, Daryo se viu já em seu quarto, deitado na cama e olhando para as suas próprias mãos, que faziam um arco acima de sua cabeça. Ele não conseguiu evitar um pequeno riso amarelado ao recordar-se de que um de seus amigos de escola sempre fazia aquilo com as mãos. “Como você anda, Paul? Seja como for, amanhã nos encontraremos novamente, melhor amigo.”.
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