Exônimo
2 Capítulo 2 - Você
Notas iniciais
Sua mão tremia ao tocar seu rosto, somente um toque com a ponta dos dedos a fazia segurar a respiração para não gemer de dor. Estava horrível, seu olho esquerdo parecia ter sido arrancado com violência, porque? pensava. Olhou em volta para encontrar a saída do quarto.
Passando pelo corredor, tropeçava em pilhas de livros. Sua caminhada barulhenta chamou a atenção de alguém mais a frente, que riu.
Existia pouca iluminação e Nilo se apoiava nas paredes para avançar, imaginou por quanto tempo teria dormido e que tipo de pó era aquele. Quando chegou ao fim do corredor, uma ampla sala se abriu, isso seria uma toca? No meio da sala tinha uma mesa e duas cadeiras uma de cada lado, em uma delas estava o garoto que a fez dormir. Nilo conseguia ver seu perfil com a pouca iluminação, no centro da mesa algumas velas iluminavam o ambiente. Ao se aproximar vagarosamente, notou que ele cortava algo na mesa. No centro dela, próximo as velas, podia ver uma ave não muito grande, mas com uma coloração incomum nas plumagens.
— Parece mais calma do que imaginei que estaria. – disse sem olhar para a garota.
Nilo não disse nada e se aproximou do garoto, parou a sua frente, olhou para seu rosto de perfil e viu que a faixa cobria somente um de seus olhos, justamente o olho direito, no canto da boca dele notou um leve indício de sorriso. Virou o rosto. Nilo tapou a boca com a mão dando um passo para trás.
O menino riu abertamente e voltou sua atenção para a mesa, ele cortava habilmente apenas a nervura central das pequenas folhas espalhadas pela mesa.
— Porque?
— Porque sou cego.
Nilo sentia lágrimas quentes caírem de seu único olho. O menino não lhe deu atenção e continuou com o que estava fazendo, depois de cortar as nervuras das folhas colocou em uma cumbuca e amassou com um amassador, dentro misturou com outras coisa que estavam sobre a mesa, coisas que Nilo não fazia ideia do que seja. Por fim, cuspiu dentro, um caldo escuro e pastoso foi o resultado final.
— Vai queimar um pouco, mas é para o seu próprio bem.
Nilo segurou o choro tentando entender o que se passava, então o garoto puxou a ave carinhosamente para mais perto dele, enfiou alguns dedos na cumbuca e em seguida passou de baixo da asa da ave. No momento em que ele abriu sua asa a menina viu o quão bonita era sua plumagem, toda com um branco puro sem manchas e em seu dorso penas vermelho vivo.
A ave se debatia e emitia sons agonizantes enquanto o garoto passava a pasta nele, fazendo as folhas da mesa e algumas penas voarem, frascos caírem e até algumas velas apagarem. Saia fumaça de onde a pasta era passada fazendo Nilo estremecer só de pensar na dor que a ave estaria sentindo.
— Pronto, pronto, em poucas horas estará novo em folha. – ele soltou a ave, acariciando-a. – Como conseguiu isso? – silêncio. – Sabia que não deveria ter deixado ir procurá-la sozinho. – disse o menino irritado e arrependido ao mesmo tempo. – Vamos juntos da próxima vez, Aru.
Ele está mesmo conseguindo se comunicar com o pássaro?
— Como fez isso? — Nilo perguntou, o menino voltou sua atenção para ela, achava muito estranho encarar seu próprio olho em outra pessoa.
— Uma experiência que testei, agora estamos ligados. – ele sorriu triunfante, olhando para o pássaro.
— Não... Digo, como meu olho funciona em você.
Ele olhou para ela e desta vez seus olhos se iluminaram. Levantou-se tirando a faixa que cobria seu olho direito. Um buraco circular, totalmente vazio. Por dentro não tinha sangue seco formando uma crosta como Nilo imaginava, era como uma tigela de madeira perfeitamente redonda. A menina arqueou as sobrancelhas. Ele é feito de madeira por dentro! Ele deixou a faixa no encosto da cadeira, levantando-se. Aproximou-se dela, fazendo-a sentir um arrepio de medo e segurou seu ombro tão forte que chegava a doer. Levantou uma mão com unhas afiadas e arrancou seu próprio olho, alguns fios de raízes pequenas enxarcadas de... Sangue? ... Escorriam até seu lábio superior. Nilo ficou tão aterrorizada com a cena que mal podia respirar. O garoto cego segurou seu rosto com uma mão e com a outra afundou o olho esquerdo de volta na menina. A dor era mínima, ela viu seus dentes machados de sangue quando sorriu e em seguida ele lambeu seu olho recém colocado. Agora sim, dor, muita dor. Urrava tanto que sua garganta ardia fazendo-a tossir em meio aos gritos. O garoto teve que segurar seus pulsos para que não arrancasse o olho de volta na esperança de cessar a dor.
— Só mais alguns segundos. – disse o menino que não parecia nem um pouco compadecido de sua dor.
E realmente segundos depois Nilo sentiu a dor diminuir, mais alguns segundos e já conseguia piscar com os dois olhos e em poucos minutos sua visão voltava de um breu. Piscava sem parar custando a acreditar.
— Estou enxergando!
— De nada.
— De nada? Mas você que me cegou! – gritou indignada.
— E vou cegar de novo. — Nilo o encarou, ele estava falando num tom muito sério para ser uma brincadeira de mau gosto. – Mas não agora. Será de forma indolor como da outra vez.
— Não vou deixar.
Ele riu. Andou normalmente, como se enxergasse, até a cadeira onde estava sentado anteriormente, do encosto puxou sua faixa suja de terra. Amarrou em torno de sua cabeça, mexas de cachos com folhas caiam rebeldemente por cima da faixa.
— Vem aqui e junte suas mãos em forma de concha.
Nilo balançou a cabeça tentando entender a mudança repentina de assunto. Se sentia irritada e violada. O garoto andou até uma bancada no canto da parede, um pouco acima dela viu algumas prateleiras com várias coisas, tudo muito bagunçado, da mesma forma que o resto da “casa”. De uma das prateleiras ele pegou um pote de vidro, abriu-o e encheu a mão com pedras azuis. Guardou o pote e em seguida entrelaçou os dedos. Do outro lado da sala, Nilo conseguia ouvir o som das pedras batendo uma nas outras dentro das mãos do garoto. Aos poucos ela viu que das unhas do garoto saíam raízes formando uma extensão de seus dedos enquanto ele os repuxava, tinha uma expressão concentrada, apesar de não poder ver seus olhos. Os dedos entrelaçados do garoto formaram uma esfera parcialmente simétrica do tamanho de uma bola de boliche. Para soltar-se da bola, o garoto cortou com os dentes a ponta de seus dedos, saiu um pouco de sangue, mas assim que ele os lambeu, o sangue coagulou instantaneamente. Soprou as pedras azuis de dentro esfera trançada e elas se acederam. Uma luz azulada muito bonita envolveu todo o ambiente, tinha muito mais alcance que uma simples vela. Ele estendeu a esfera para Nilo.
Ela caminhou até ele relutantemente e pegou a lanterna esférica.
— Isso são... Seus dedos. – ele nada disse. Nilo sentiu-se enjoada por um momento, mas depois encarou novamente as pedras acesas.
— Dura cerca de doze horas. No quarto do fundo tem uma porta atrás da cortina, tem água limpa no barril.
Cortina?
— O casaco do caçador está lá, tinha um rastreador nele, eu o destruí. Também achei isso no bolso da sua roupa.
O menino tateou a bancada para pegar um pequeno frasco de vidro com um líquido transparente cheio até a metade.
— Não sei o que é, não encontrei nada parecido em meus livros também. –devolveu o frasco para a menina.
Nilo encarou o frasco por um momento mas sua mente estava em branco, por fim guardou no bolso.
— O que você quer de mim?
— Preciso dos seus olhos emprestado. Bom, pelo menos um deles.
— E porque acha que vou te ajudar?
— Você não tem escolha, pelo menos se os seus olhos estiverem em mim, ninguém te reconhecerá. Terá que trocar essas roupas também. – disse olhando-a de cima a baixo. Nilo sentiu uma pontada de irritação.
— Como assim, o que você sabe sobre mim? Eu sou procurada?
— Não sei muito, mas sei que vocês são valiosos para a maioria dos governadores. Eu poderia te entregar e eles fariam o que eu quisesse. – disse com desdém. – Mas não se preocupe, não vou te entregar eu ainda preciso dos seus olhos.
— Porque os meus olhos?
Ele nada disse, mas sorriu.
— Você realmente não se lembra de nada mesmo. Sabe em quanto tempo terei essa sorte de novo? Talvez em dez mil anos... Não posso deixar passar.
O pássaro fez sons parecidos com seu nome, tirando a atenção do cego que inclinou a cabeça na direção do som. Suspirou.
— Não vou exagerar, Aru. – disse conversando com o pássaro sobre algo. – Talvez um pouco. – sorriu arqueando uma das sobrancelhas, mas logo ficou sério. – Vou... Tentar, mas não prometo nada.
Nilo olhava do pássaro para o garoto sem entender nada. Quando a conversação pareceu ter acabado ele disse:
— Como devo chamá-la?
A menina não confiava nele, mas depois de saber do rastreador no casaco, achou que não devesse confiar em ninguém. Tinha muitas dúvidas, se ela estivesse realmente sendo procurada, porque os caçadores não a capturaram de uma vez? Ao invés se darem ao trabalho de colocar um rastreador, pensou a menina. Nada fazia sentido, mas imaginou que seria muito pior estar nas mãos dos governadores. Talvez fosse intuição ou um lampejo de lembrança, mas Nilo suava frio ao pensar nos líderes do mundo. Enquanto sua mente estava embaralhada de pensamentos, olhava em volta e então seu olhar pousou na lanterna a sua mão. De repente uma conclusão iluminou a sua mente.
— Você está fugindo.
Acertara em cheio ao perceber a surpresa na expressão do menino. Isso a fez ter certeza de que ele não a entregaria, então poderia estar segura, por enquanto. Talvez não tanto.
— Pode me chamar de Nilo.
O garoto demorou um pouco para perceber que ela tinha respondido á sua pergunta, balançou a cabeça absorto em pensamentos.
— Você.
Nilo esperou que ele continuasse, mas nada mais disse.
— O que tem eu? – perguntou impaciente, depois de alguns segundos.
— Meu nome.
— Qual seu nome?
— Você.
— Você?
Ele assentiu com a cabeça, Nilo estava confusa no começo, mas logo entendeu.
— Foi o nome que me deram. – ele disse dando os ombros. Antes que Nilo perguntasse, ele continuou. – Vivi um tempo em Grabato, antes de ficar cego, foi lá que consegui esse nome.
O silêncio tomou conta do lugar, a garota duvidava se Grabato era um bom lugar para viver.
— Pode me dizer como ficou cego? – perguntou cautelosamente.
— Uma bruxa me enfeitiçou porque eu não estava conseguindo achar sua agulha, então ela disse que se eu não conseguisse enxergar sua agulha no chão, eu não enxergaria mais nada.
— Sinto muito.
— Não sinta, logo estará igual a mim. – disse com naturalidade.
Toda a empatia da menina foi lançada fora com esse comentário. Você pareceu sentir sua irritação.
— Veja pelo lado positivo, terá seus olhos de volta depois que eu recuperar os meus. – finalizou com um sorriso.
***
Nilo puxou a cortina para encarar uma porta, um pouco baixa de mais, em forma de arco. O ambiente era um pouco apertado e quase vazio. Um barril grande com água limpa estava a sua espera. Nilo percebeu que nesse quarto também tinha um espelho grande no canto da parede. Porque tantos espelhos na casa de um cego?
Depois de limpar-se, Nilo colocou uma grande camisa levemente amarelada e fechou seus únicos três botões até a gola. As mangas eram longas e largas de mais, então rasgou-as. Nilo não tinha certeza se essas roupas eram de Você, uma vez que ele não usava exatamente roupas muito menos sapatos, somente uma espécie de bermuda folgada até abaixo dos joelhos amarrados por cordas de cipó nas canelas e um pano na cintura. Deve ter roubado, pensou sem remorso algum enquanto desfazia suas tranças.
O quarto em que estava era pouco privado e não possuía portas além da detrás da cortina, não deixando Nilo relaxar o suficiente para conseguir dormir, mesmo de olhos fechados, então achou melhor dormir no chão do banheiro. Forrou o chão com outras roupas e deitou-se. Já tinham se passado várias horas desde então e a lanterna já emitia uma luz mais fraca, com muito menos alcance. Mexeu-se de um lado para o outro durante toda a noite, não conseguia pregar os olhos apesar do cansaço, pensando que a qualquer momento ele entraria lá para roubar seus olhos. Sentou-se.
— Não vai conseguir dormir desse jeito, mas se quiser, posso te ajudar.
Uma voz vinda do escuro assustou Nilo. Cerrou os olhos para tentar enxergar, algo moveu-se em sua direção.
— Não precisa ter medo, somos amigas. – disse uma menina iluminada pela fraca luz da lanterna.
Fale com o autor