Evolução
5 Compras
— Vocês vieram nos salvar? – Alice perguntou aquilo em um tom como se eles fossem incapazes de tal ato. – Vocês? Salvar? Há. Ontem eu vi Jesus zumbi
— Pare de graçinhas ok? Nos estamos na mesma situação que vocês. – respondeu um dos soldados. – Estamos em um acampamento militar, passamos de cidade em cidade juntando civis que ainda estão vivos.
— Legal, vamos pra mais um abrigo. Teremos onde dormir criançinhas.
— Na verdade, dirigir de noite é um pouco perigoso. Vamos passar a noite no shopping.
Estavam todos espremidos no carro que os militares usavam. Eram três soltados e oito pessoas em um carro para cinco. Alguns mutantes e infectados tentavam seguir o carro, mas não conseguiam, não havia nem uma criatura obscura. Retirei meu celular do pulso e olhei as horas, era apenas nove horas da noite. O carro continuou sua trajetória ate o shopping, havia milhares e milhares de infectados ali.
— Atrás do shopping temos um caminhão pronto para sair em fuga. E é por lá que vamos entrar, a entrada principal esta lotada de zumbis.
O carro deu a volta no shopping e chegamos a um enorme portão, era onde entrava a carga que chegava. O militar buzinou três vezes seguidas, deu uma pausa, e novamente buzinou. Os infectados que estava naquele portão se viraram e correram em direção ao carro, enquanto isso o portão se abria e dois militares que estavam lá dentro atiravam nos infectados.
...
O corredor que andávamos era apenas para funcionários, pequeno, escuro e estreito. Os militares que iam à frente conversavam e cochichavam sobre nos. Eu sempre pensei que mulheres tinham fetiche por compras e que se elas ficassem meses sem fazer alguma, quando entrasse em um shopping ficariam locas. Bem... eu estava enganado. Não seriam elas que ficariam locas... e sim... eu.
Simplesmente ao ver aquele shopping, vazio, sem monstros, com lojas, objetos e sem pessoas para cobrar o valor das roupas... o paraíso é na terra.
No shopping havia mais ou menos treze militares, todos homens. Eles devoravam as garotas, eles olhavam Alice, Fernanda, Juliana e Nathalia como se fossem cordeiras prontas pra satisfazerem seus caprichos. O shopping estava com todas as luzes ligadas, o chão e paredes eram de azulejos azuis e brancos, no primeiro andar havia uma enorme fonte. Eram quatro andares, todos enormes.
— O Ultimo andar tem comida. Vocês devem estar famintos.
— Queremos doces!! – os gêmeos apenas tinham fome de açúcar.
— Comam a comida que vocês ganham doces. – Fernanda os pegou pela mão e começaram a andar
Obviamente a comida da área de restaurante do shopping deveria estar podre, então fomos ao supermercado. Os gêmeos foram direto a área de doces e besteiras, Alice foi à de frutas e Fernanda nos absorventes antes de tudo.
— DANTE! – Alice me gritou
— SIM?
— ACHEI O SACO DE ARROZ, VEJA SE TEM ALGUMA LOJA AQUI ONDE PODEMOS COZINHAR.
— OK.
No mesmo supermercado peguei algumas panelas e fui procurar outra loja para podermos fazer a comida.
...
— Hmm, a quanto tempo não como algo descente como isso. Delicia! – apenas um soldado falou, mas todos confirmaram com suas cabeças.
— É o tempero do amor. – se explicou Alice
— É, o tempero do amor se chama, “Aprendendo a cozinhar” que ela roubou na livraria daqui.
— Dante... Abre a boca mais uma vez e você terá que comer com um tubo “xuxado” na sua garganta.
...
Ainda era apenas onze horas da noite. Os gêmeos estavam dormindo, Alice e Fernanda falaram que iam trocar de roupa, mas eu sabia que Alice estava dando uns pegas na Fernanda. Algüs conversava com os militares, eu não gostava daquilo, pra que ficar conversando com eles? Não era ciúme, eu só não queria que ele ficasse lá, nada de mais.
Voltei para o segundo andar e fui em direção às roupas. Peguei uma calça jeans escura, um all stars novo, uma camiseta e uma jaqueta, estava frio. Continuei passando de loja em loja procurando alguma roupa melhor que aquela. Alice e Fernanda estava deitadas, dormindo abraçadas em uma cama da ‘Colchões e Camas’.
— Gostei da roupa. – Era a voz de Algüs. Virei-me e respondi
— Ah. Brigado.
— Me ajuda a escolher uma?
— Ah. Tudo bem. – sorri
Acompanhei ele ate a loja de roupas que eu havia entrado pela primeira vez.
— Já viveu algo estranho com esses zumbis? – ele puxou assunto enquanto procurava alguma roupa de seu agrado.
— Já. – ri – um dia, só havia um mês que tudo isso havia começado. Era janeiro agora de 2013, eu tava no banheiro, era um banheiro tipo de shopping sabe? E eu tava em uma daquelas cabines, ai eu vi uma sombra, pensei que alguém estava lá pra usar o banheiro né. Quando percebo, o zumbi ta lá embaixo passando por baixo da porta da cabine.
— Nossa, ate quando você ta cagando eles te perseguem?
— É a vida. E você?
— Não que eu lembre. Eu já vi um zumbi cair no chão.
— O que? – eu ri alto – COMO!?
— Ah. – ele riu também. – Eu estava correndo de um, e tinha um buraco na rua, um daqueles buracos causando por esses problemas geográficos que estão acontecendo todo dia sabe? – confirmei com a cabeça. – Então, eu desviei daquilo, mas o homem não, ele bateu o pé no buraco sei lá, que cai de cara no chão. Eu, sei lá, eu fiquei olhando aquilo e comecei a rir. Depois parei de rir, tinha um robô atrás de mim.
— Que horror. Sorte sua ter sobrevivido.
— É, já volto.
Ele entrou na cabine e enquanto ele trocava de roupa ninguém falou nada.
— Dante. Entra aqui me fala o que achou.
— Ah, pode sair.
— Vem logo.
— Ok, ok. – abri a porta do provador e entrei. – Ue... fico, boa... – fiquei um pouco com vergonha de estar lá sozinho com ele.
— Dante... – ele me olhava nos olhos aos poucos seu corpo se aproximava do meu. — ...
— Al-Al-Algüs.
— Xiii. – ele colocou deu indicador nos meus lábios. – Não diga nada.
Seu corpo já pressionava o meu contra a parede, virei meu rosto para o lado enquanto sussurrei seu nome, delicadamente sua mão puxou meu rosto para cima. Seus lábios tocaram os meus.
— Dante... Eu quero ser o seu motivo para você lutar contra tudo isso, e quero que você seja o meu motivo.
Fechei meus olhos e aos poucos fiquei na ponta dos pés. Os lábios dele ainda tocavam os meus, mas não nos beijávamos, apenas ficávamos no desejo. Seu corpo pressionava o meu mais contra a parede, sua mão tocou meu rosto o acariciando. Suas duas mãos pegaram meus braços e os levaram ao seu pescoço, ele me puxou pra cima e eu enrosquei minhas pernas em sua cintura. Agora ele me pressionava ainda mais contra a parede. Suas duas mãos agora seguravam meu rosto com cuidado. Nos beijamos.
Seus lábios tocavam os meus carinhosamente. Nossas línguas se encontravam aos poucos. Fomos parando de nos beijar aos poucos, eu queria mais. Continuei de olhos fechados, mas eu sabia que os dele estavam abertos. Ele me observava e sorria.
— Você é tão lindo. – sua mão voltou a acariciar meu rosto. – Tão... Ah...
— Tão seu?
— Meu?
— Eu quero ser.
— Lindo. Vem. Vamos dormir.
Ele me colocou no chão e saímos de lá, fomos ate a Colchões e Camas, passamos por Alice e Fernanda, consegui perceber que as duas estavam sem veste alguma por debaixo dos lençóis, Fernanda estava, digamos, descabelada. Fomos ate a ultima cama e nos deitamos. Algüs me abraçou por trás e ficou fazendo carinho em meu rosto ate eu adormecer.
...
Abri meus olhos e vi Algüs a minha frente, em pé. Esfreguei meu olho e o fitei. “Algüs? Tudo bem?” perguntei. Ele não me respondeu. De sua boca o sangue escorria, seus olhos tinham uma expressão de fúria. Ele pulou encima de mim na cama e eu tentava esquivar.
Levantei da cama desesperado, fora tudo apenas um sonho. Respirei fundo e deixei meu corpo cair para trás novamente. Graças a Deus tudo havia sido apenas um sonho. Virei para o lado com um enorme sorriso, que se desfez ao ver que ele não estava ali. Saco.
Me levantei e caminhei pela loja de colchões e cama. Esfreguei meu olho e procurei a escada rolante para o terceiro andar. Entrei no supermercado que havia lá a procura do meu café da manha. Leite e achocolatado. Agora eu parecia um morto-vivo. Meus olhos estavam semicerrados, meu cabelo estava completamente armado e bagunçado, a gola larga da minha camisa havia caído pro lado, mostrando meu ombro. Meus passos eram lerdos e sonolentos, meu rosto estava inchado.
Voltei para o supermercado e peguei uma escova e pasta dental. Fui para o térreo, estavam todos lá, já acordados. Já estava na hora de partir. Eu tomava meu leite achocolatado e ficava ouvindo eles. Alice e Algüs estavam com alguns militares pegando mantimentos no shopping. Os gêmeos dormiam no colo de Fernanda. As pessoas que achamos no hospital estavam sentadas quietas. Pelo menos o pai e a filha.
— Fernanda, cadê aquela mulher? Que a Alice arrebentou a cara. Qual o nome? Nathalia.
— Não vi ela. Pior. Cadê ela?
Os infectados batiam na porta querendo entrar. Alguns apenas nos observavam calmamente. Fui ate a fonte escovar os dentes, o banheiro estava muito longe. Não estava com um bom pressentimento de tudo aquilo.
— TODOS AQUI NO TELHADO AGORA! – a voz de Alice pode ser ouvida em todo o shopping.
...
— Cadê a Nathalia?
— Não sei. – já estávamos lá encima. Podíamos ver os muitos infectados que cercavam o shopping. – Acordei hoje cedo e não a vi. – Algüs me abraçou por trás. – Ninguém viu não?
— Eu vi ela hoje. – a voz de Juliana estava manhosa. – Lembra mano?
- Sim. – gêmeo respondeu – ela falou que não estava bem, que precisava sair, precisava fazer algo, ela não podia ficar aqui.
— Parecia uma loca, me deu medo. – completou a gêmea
— Isso vai dar em merda, não podemos sair daqui e largá-la. Venham, vamos procurá-la. Ah, vocês estão com as armas?
— Não! – todos responderam
— Sabia! Eu vi um monte de revolveres na mesinha.
— Minha espada ta ali – Algüs apontou.
— Uma espada. Ai vida. Que útil não?
...
Era apenas sete da manha. O frio estava forte. Descemos pro andar de baixo, o refeitório, fomos pro terceiro, segundo, primeiro. Não achávamos a Nathalia. Ela simplesmente havia desaparecido.
— EU VOU SAIR DAQUI!!! – era a voz da Nathalia
Olhei para cima, ela estava no segundo andar, encima de um carro de golfe. Sim, nesse shopping tem de tudo.
— EU VOU SAIR!! – ela berrava
— Meu Deus, deu a loca nela.
Subimos todos para o segundo andar.
— Não se aproximem mais! – ela apontou uma arma para nos.
— O que você quer fazer? Vá com calma. – O militar tentava acalmar a mulher. – Nos estamos indo embora, venha.
— Parem de mentir. – ela deu um tiro com uma escopeta que acertou o ombro dele. – Ou eu penduro vocês igual eu fiz com o gordinho no hospital.
— Meu Deus... Isso é tão filme de terror que passa nos cinemas.
— Dois votos Alice.
Ela acelerou o carro e foi em direção a porta de vidro. Bem. Vocês ainda lembram quando eu falei q a tecnologia evoluiu não lembram? Então...
O carro quase tombou para o lado enquanto descia as escadas, ela continuou ao máximo no vidro. Ela bateu. O vidro não quebrou. Viva a tecnologia.
— Vamos embora?
— Vamos.
— Vocês estão loucos? Vão ajudar aquela mulher e nos ajudaremos o nosso parceiro. – o militar ordenou isso olhando diretamente a Alice.
— Fudeu. – Falei com o maior tédio
— Aposto minha faca que ela acaba com ele em 3 minutos. – Fernanda olhou para mim
— Ele tem treinamento. Dou sete minutos.
— Quem, você pensa que é pra ficar dando ordens em mim? – Alice nunca se deu bem com ordens, as historias que Fernanda, que conhecia seu irmão, me conta são aterrorizantes. – Você vai pegar essas suas ordens e enfiar no seu...
— Veja a nossa situação senhora. Eu sou superior a você.
— Senhora... superior...
— Er... cinqüenta segundos pra ela estourar a cara dele. – Fernanda se auto corrigiu
— Ou menos...
— Vem aqui que te mostro o superior.
— Gente... – Juliana começou
— O vidro... – e os gêmeos começaram seu ritual de um completar o outro.
— Esta...
— Se...
— Partindo...
Todos olharam o vidro, Nathalia estava batendo a arma nele, e aos poucos o vidro que já estava fraco, por causa da batida, ia se rachando. Nathalia se afastou, pegou sua escopeta e mirou no vidro.
— Mais que vadia.
Alice pegou a faca da Fernanda que estava em sua bota e começou a descer as escadas correndo. Jogou a faca em direção a Nathalia e pegou seu revolver. A faca acertou o carro, o que fez Nathalia olhar pra trás e esquecer de atirar no vidro. Alice mirou na perna da garota e disparou três tiros, dos quais apenas um lhe acertou. Ela caiu e largou a arma.
— Vaca. Quer matar a gente? – Alice chegou onde Nathalia estava. Ela ficou um tempo calada.
...
Aquilo apenas nos atrasou mais, já eram dez da tarde. Estávamos entrando no caminhão. Nosso próximo rumo é a base militar. Nathalia estava completamente insana, os militares a amarraram e a jogaram no caminhão. Estávamos todos na carga do caminhão.
Os portões se abriram, deram a partida no caminhão, tiros, vozes mandando entrarem logo no caminhão. O caminhão andou, ele dava pequenos solavancos como se passasse por cima de algo.
Finalmente a sensação de estarmos sendo salvos e um fim estar chegando a isso encheu meu coração.
Fechei meus olhos dando um suspiro de alívio, e quando os abri, o caminhão havia capotado.
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