Evocação
5 Sete Anos de Azar
Notas iniciais
O apartamento da república onde Nadya estava alojada tinha três quartos e ela os dividia com duas garotas, sendo assim um quarto para cada uma, além de uma cozinha, uma lavanderia e um banheiro comunitário. Era apenas o terceiro dia que Nadya estava ali e já tinha percebido que as outras garotas com as quais ela dividia o apartamento não pareciam ser potenciais “amigas”. Ambas pareciam ser de famílias ricas e não estavam muito a fim de fazer amizade com uma garota pobre e do Interior, o que deixava Nadya revoltada. Como ainda podia haver pessoas com preconceitos tão idiotas? De qualquer maneira, ela não precisaria “aturar” Raissa e Paula por muito tempo, já que as duas haviam comentado muito brevemente que só utilizariam aquele “cafofo” – que era como se referiam ao apartamento – durante a semana, aos fins de semana ficariam na casa dos pais, o que deixaria Nadya com bem mais privacidade.
O quarto em que Nadya dormia era extremamente confortável, uma cama de solteiro ao lado da janela, uma mesa para estudos com um abajur de aspecto antigo em cima e ao lado da cama havia um criado mudo com algumas gavetas, tudo simples, mas extremamente organizado. O local também tinha wi-fi, o que não ajudava muito já que Nadya não tinha um computador.
– Ótimo, isso acaba de entrar para minha lista de prioridades, preciso urgentemente de um notebook, mas antes preciso de um emprego. – Comentou consigo mesma enquanto se sentava na cama e observava a vista pela janela.
Suas aulas começavam apenas às 19:00h, o que dava a ela um bom tempo para ir a biblioteca dar uma olhada nos livros que ela precisaria usar pelos próximos meses.
Após tomar um banho para tirar o suor da corrida que havia feito um pouco mais cedo, enquanto ela se arrumava seu celular – que havia ganhado no penúltimo aniversário – tocou. Número desconhecido. Atendeu:
– Alô?
Estática.
– Alô? Quem é?
– Estou com saudades de você meu amor...
A voz familiar do outro lado da linha fez com que ela revirasse os olhos. Quando será que David a esqueceria de vez?
– Olha David, estou meio ocupada agora, sabe, estudando, então se não se importa...
– Só liguei para ver como você estava, afinal, já tem três dias que você se mudou e não me mandou nenhuma mensagem desde então...
– Acredito que não temos muito que conversar – enquanto segurava o celular contra a orelha com o ombro, terminou de calçar uma rasteirinha, que ironicamente, havia sido presente dele. – Então, até mais.
E desligou, sem esperar qualquer resposta dele. Só porque ele não queria que ela “anunciasse” ao resto das pessoas que eles haviam terminado, não havia qualquer razão para que ela fingisse para si mesma que eles ainda tinham alguma coisa. David era passado.
Terminou de se arrumar, ignorando os toques de mensagens no celular e saiu em direção à biblioteca da Universidade.
〔〄〕
A tarde passou “voando” para Nadya, ela perdia completamente a noção do tempo quando se via em uma biblioteca rodeada por livros, e logo estaria na hora de suas aulas. Correu de volta até a república para pegar seus materiais e seguir para a escola. Suas duas colegas de apartamento estavam na cozinha fazendo um lanche e quando Nadya passou pela bancada da pia da cozinha, esbarrou em um espelho de mão, derrubando-o no chão. Ele se estilhaçou em mil pedaços.
– Desculpe Paula, foi sem querer, assim que tiver dinheiro compro um novo pra você, tudo bem? – Desculpou-se Nadya.
– Imagina querida, é só um espelho. – Respondeu Paula.
– Porém, sete anos de azar baby! – Completou Raissa.
– Bobagem, eu não acredito nessas superstições tolas.
Sorrindo para si mesma pela besteira que eram essas superstições, seguiu para mais um dia de aula na tão sonhada faculdade.
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