Evite
8 Stulbach
Vinte de setembro, vigésimo quinto pós-Revral
A arena era cercada totalmente, com apenas duas saídas para o público, duas para os funcionários e uma de serviço. Demis (?) o guiou pelo túnel que precedia a saída de serviço, passava por dez metros abaixo da arena até encontrar a entrada subterrânea da Sede – Stulbach sabia bem, estudara as plantas cautelosamente – e o local era tão bem planejado que interferência alguma poderia desabá-lo.
Se bem que mais parecia um corredor de hospital, em sua opinião.
— Como conseguiu entrar aqui? – Ele decidiu iniciar uma conversa, e Stulbach conseguiu perceber o sotaque nortenho – Pouquíssimos tentaram invadir, e acho que você é o primeiro a realmente conseguir, sabe? Ao menos no tempo em que estou na Evite. Qual o seu segredo, docinho? Tem um amigo ou dois aqui?
— Peguei as vestes de um descartável a caminho da arena e continuei segui com os outros funcionários. Parar dentro da arena, no entanto, foi um engano que não trouxe grandes problemas.
— Vou anotar isso para os próximos jogos, para que a façanha de Stu não se repita – Sorriu e olhou para trás, olhando para o moreno.
— Stulbach, não ”Stu”.
— Por favor. Você é um nível três sem guardião, Stu. – O sorriso foi embora tão rápido quanto apareceu, e a expressão que tomou seu lugar legitimamente alertou o estranho – Agora, encontremos um guardião para você, intruso.
O resto do percurso foi de silêncio desconfortável. Algumas vezes passaram por descartáveis, que murmuravam e lançavam olhares odiosos para os dois. Stulbach não entendeu a princípio, deveria ser aplaudido, um exemplo de coragem. Então o ruivo explicou:
— Você se acostuma, docinho. Não acho que muitos apostaram em Meena, e com certeza ninguém apostou em você. Além disso, os dispensados certamente tinham amigos. Novidade seria se esses 4três não existissem.
— Eles vão ficar assim para sempre?
— Por quê? Te incomoda, docinho? – Conteve o riso, voltando a olhar para a frente – Não, normalmente acaba quando você recebe seus privilégios, como nível três.
— “Privilégios”?
— Coisa básica, claro. É basicamente nada, se considerar o que os topo de carreira têm, ainda mais porque é só o nível três. Cento e sessenta K por mês, acesso limitado à data-base da empresa, para pesquisa em missões passadas. E a partir do nível três, você não é obrigado a ficar nos prédios dia e noite, apenas em missões, por segurança. Não que isso algum dia foi um incômodo para você.
Demis – ainda estava incerto se esse seria o nome real do rapaz – entrou na plataforma de nível e apertou um dos botões mais elevados.
— Ah! – Continuou enquanto Stulbach olhava o chão se afastar – Seu guardião será como um guarda-costas para você, é importante comentar.
— Será você meu guardião?
— Por favor, claro que não! – O ruivo riu e segurou o queixo do outro com força – Odiaria ter que dar fim a uma carinha tão bonita quanto a sua. Terá alguém mais disposto a lidar com a sua merda.
A plataforma parou subitamente e as portas se abriram, fazendo Stulbach quase perder o equilíbrio. Demis – que nome estúpido – pareceu não se notar. Ou se importar.
— Vá na frente – Ordenou.
Olhou o superior, um tanto desconfiado. Concluíra que a garotinha deveria ser a mais importante de lá, visto que sequer ousaram tocá-lo depois de três palavras suas. Passou os olhos pelo corredor azul-marinho e engoliu o seco antes de sair da plataforma. O nortenho o seguiu logo atrás, cantarolando uma canção conhecida.
— Há quanto tempo está no Sul? – O nível três resolveu perguntar. Percebeu que Demis perdera parte do sotaque, mais ainda se portava como alguém do Norte.
— Uma década, quase – Respondeu – Vim visitar a família e a Governante Carvalho, da Central. Quando percebi já havia se passado um ano e resolvi ficar de vez.
— Foi porque entrou na Evite?
— Seu nível não é alto o suficiente para esse tipo de intimidade comum superior, Stu. Me pague uma bebida, primeiro.
Sentiu-se queimar de desgosto e calou-se, enfim. Entendeu porque o jovem grisalho emitia tanta negatividade perto de Demis. Os dois continuaram no silêncio pelo resto do caminho no corredor sem fim, sendo Stulbach guiado com ordens rápidas de “direita” e “esquerda”.
E quando o descrevia sem fim, pouco exagerava. Um corredor sem portas, apenas mais e mais passagens, sem placas ou qualquer outro tipo de identificação, como um labirinto. Havia janelas em todos os corredores, separadas regularmente e perfeitamente simétricas, mas não conseguia distinguir o que era real e o que não passava de uma projeção.
Olhou para trás e viu Demis olhar de relance para uma das janelas e a tomou como verdadeira. Nela, viu que estavam em uma das costelas do edifício, na terceira ou quarta, onde aqueles acima do nível cinco ficavam, de acordo com o que lera. Aquele lugar, no entanto, parecia pertencer a uma só pessoa. Não encontraram outros durante todo o percurso.
— Quase lá, docinho – Ele anunciou, apontando para a esquerda – Por lá e chegamos, Stu.
O azul foi perdendo a vez para o bege e as janelas deram lugar para candelabros equidistantes e bustos esculpidos. Uma única porta de... Madeira... Encontrava-se no fim do corredor. O nível três desacelerou o passo e olhou as cabeças, perfeitamente enfileiradas e identificadas com placas douradas.
Ethels, diziam as placas, eternizados no mármore e com ouro nos olhos. Dois estavam incompletos, então deduziu que se tratava das crianças que encontrou mais cedo.
— Meu guardião é um artista, então? – Ousou tocar um dos bustos, que se desequilibrou e caiu no chão, quebrando em pequenos pedaços.
O ruivo precisou cobrir a boca para abafar a gargalhada.
— Qual é a graça? E se ele vir isso?
O outro apenas apontou para a placa da estátua destruída.
— Atirado de um arranha-céus em nonagésimo pré-Revral. – Respirou fundo e empurrou um pedaço de mármore com a bota – E não, ela não é nenhuma artista. Só... Bastante leal a essa família, por alguma razão.
“Ela” repetiu em mente. Mulheres eram poucas lá, vira pelas Olimpíadas, e certamente piores que os demais. Seria fácil passar por ela.
— O que fazem aqui?
Um barítono surgiu atrás dos dois, congelando Demis no lugar. Forçou um sorriso e virou-se, precisando levantar a cabeça para olhar o homem. Parecia um inseto, perto do loiro, mas não por culpa de Demis. O gigante estava sério e, ao contrário do nortenho, não lhe pareceu que relaxaria a expressão tão cedo.
— A mestra não ficará contente se estiver tentando furtá-la novamente.
Demis soltou um riso nervoso e levou as palmas à altura do peito, como se tentasse acalmar um animal selvagem.
— Venho em paz, Seth. Não se preocupe – Demis apontou com a cabeça para o novato – Jonathan mandou arranjar um tutor para este aqui, então cá estou. Sua mestra está?
— Em missão – encarou o nível três com olhos sem brilho – Está certo em deixa-lo cá? Deve se lembrar do pupilo anterior.
— ... Sim. Claro. – Demis puxou Stulbach pelo queixo para perto de si, sem deixar de olhar o gigante – Mas a própria Lilium disse para manter essa carinha bonita viva, então nem Ametyr pode se livrar dele.
Seth encarou Stulbach com os olhos opacos, apenas o constante piscar de luz que os sulistas compartilhavam. O moreno se soltou da mão do outro.
— Vamos, Seth. Vai ser divertido – Demis sorriu novamente.
O gigante suspirou e coçou a cabeça, claramente sem paciência para lidar com o ruivo. Ele parecia trazer desgosto a todos que conhece.
— Ele não chegará perto deste setor – Seth apontou na direção contrária a da porta para o nível seis – Terá um para ele assim que possível.
— Ametyr não pode matá-lo, não se esqueça.
— Não esqueço – Respondeu rispidamente. Olhou para a porta, alerta, voltou a Demis no segundo seguinte – Devo ir agora. Sugiro que faça o mesmo.
Demis bufou e deu meia volta para sair, mas ao primeiro sinal de hesitação, Seth colocou uma mão nas costas dele e o empurrou pelo resto do caminho, não se importando em chamar Stulbach.
O moreno ficou em seu lugar, olhando a porta de madeira no fim do corredor. Lera que o uso era proibido no Sul, então se intrigava por esta existir lá. Queria ver de perto, mas mesmo estando a pouco metros de distância, havia algo no corredor que o impedia de se aproximar.
Medo?
Não. Se aquele homem sentisse tal coisa, sequer colocaria os pés naquele lugar. Autopreservação, talvez. Não medo.
Por baixo da porta escapou piche, como se fosse tudo o que existisse do outro lado. Era nauseante o modo que o negro tomava posse do chão e paredes acima. A escuridão evitava tocar seus pés, e o homem também não fazia questão de ser tocado, afastando-se até que suas costas encostassem na parede. Esse pareceu ser a intenção das sombras, cercando-o pelo chão e saindo do plano das paredes, como tentáculos. Imobilizaram o nível três pelo quadril e pescoço e lhe cortaram o ar.
Conseguia sentir a escuridão penetrar-lhe a carne, adentrando lentamente cada célula asfixiada do seu novo ser. Sabia o que era, o nome veio à mente enquanto espasmava sem ar, tentando arrancar as sombras do pescoço, mas pouco adiantou. Deixou ser totalmente coberto pelo negro, perdendo a consciência.
Noir.
Sem informação de data
Acordou desesperado por ar, como se despertasse de um terror noturno. As luzes que infestavam o lugar impediam-no de ver qualquer coisa, e as mãos doíam como se tivessem sido destroçadas, mas sentia bem os dedos se movendo; os pulsos, nem tanto. Haviam amarrado Stulbach durante o tempo inconsciente?
Quando os olhos se acostumaram com a claridade, viu que suas suspeitas estavam corretas. Estava no que parecia ser um quarto de hospital, com cores além do necessário, mas suas amarras eram visivelmente improvisadas com cordas trançadas à... Maca? Certamente não era uma cama de hospital, sem nada além tábua de metal desconfor--- oh.
Um mortuário, é claro.
Tentou inutilmente se livrar dos nós que o prendia, e como consequência, derrubou a mesa de ferramentas ao seu lado, espalhando os instrumentos pelo chão com bastante barulho.
Vozes abafadas se manifestaram no corredor e seu coração disparou. Passou a debater-se na mesa de autópsia, procurando livrar-se das cordas, mas tanta força em suas tentativas que a revirou, batendo a cabeça no branco do chão.
— Veio daqui – Uma mulher falou, abafada pela porta.
Ouviu a porta deslizando e os passos se aproximando, até que Stulbach visse duas mulheres. Uma era conhecida: a mulher de cartola que escolhera Meena para as Olimpíadas.
Tentou falar, mas nenhum som saiu de sua boca. Tentou de novo, com mais força, como se gritasse, mas em vão.
— Acho que seria mais eficaz se você tirasse as amarras antes de tentar sair por aí mudo – Ela arrumou os óculos e sorriu para a outra, que permaneceu em silêncio – Vai ter que adestrar seu pupilo a só sair do lugar quando mandarem, senão pode ter problemas.
A outra era a sua guardiã, então. Usava óculos escuros mesmo estando sob um teto, e os traços não eram... A cabeça doía muito para conseguir raciocinar.
Decidiu que nomeá-las Cartola e Óculos Escuros seria mais fácil para você acompanhar.
Óculos Escuros deu a volta pelas ferramentas espalhadas pelo chão e virou a mesa e Stulbach com pouca dificuldade. Ele tentou puxar os braços para si novamente, e novamente ele falhou. As duas fizeram pouco caso da tentativa.
Cartola tirou um par de luvas do jaleco e as vestiu.
— Meena disse que o nome dele é Stulbach – Cartola foi aos armários e pegou uma seringa e um frasco de vidro – Sem chip de interface, então vou ter que dar um jeito.
— Em quanto tempo? – Óculos Escuros perguntou, se afastando do pupilo.
— Duas semanas, no máximo – Cartola foi até Stulbach e furou sua veia com a seringa, recolhendo o sangue do homem – Darei um bracelete enquanto isso, ainda precisa encomendar do departamento.
— Faça isso.
Tirou a agulha do braço do outro e esvaziou a seringa no frasco, deixando-o na mesa de ferramentas, agora levantada – não tinha certeza que quando isso aconteceu, mas estava em ordem novamente.
Óculos Escuros não falava muito, percebeu. Parecia deixar tal trabalho para Cartola, ou qualquer outro que estivesse disposto a fazê-lo.
Cartola repetiu o procedimento mais duas vezes, recolhendo o sangue e o colocando no frasco, até que ficasse cheio. A visão se Stulbach ficou pesada pouco depois, tentou olhar ao redor e focar a vista, mas tudo estava tão embaçado e tão frio...
— Deve ter sido sangue demais – Óculos Escuros cruzou os braços e se encostou no armário.
— Ah... Tente ficar acordado – Cartola levantou o tom enquanto estalava os dedos perto de seu rosto – Vamos, vamos!
Stulbach virou a cabeça para o lado e tentou afastar a mão da doutora, mas então lembrou-se que suas próprias estavam atadas à mesa.
— Desacorde-o e dê um jeito nele. Não posso ter um pupilo que se nega a ceder um pouco de sangue com dignidade – Ela se afastou do armário e saiu da sala.
— Sim, senhorita. – Cartola esperou a porta se fechar para ir ao armário – Vocês dois vão se divertir à beça.
Viu a doutora voltar com um tipo de adesivo dérmico. Stulbach pareceu confuso, mas ela apenas abanou com a mão e sorriu.
— Isso é para que volte a falar – Explicou, levantando o queixo do homem e pressionando o adesivo contra seu pescoço – Deram um parecido para você para enfraquecer os músculos, esse é o antagonista. Demora alguns minutos para neutralizar por completo, então vai ter que esperar quietinho.
Franziu o cenho e tentou focar a visão em Cartola. Tudo ainda era impreciso em sua visão, e ele odiava isso.
Desamarrou seus pulsos e tornozelos. A parede se abriu e de lá surgiu uma poltrona, para que Cartola sentasse e esperasse ele se acostumasse com o sangue correndo novamente.
Stulbach esperou um pouco e sentou-se na mesa a seu ritmo, esfregando os pulsos. Olhou na direção da porta, a mulher não voltaria para checar nos dois, certo?
— Não se preocupe. Se ela fosse voltar, ainda estaria preso.
— Não me preocupo.
A mulher riu e estendeu a mão para ele. Moça de Satre. Ou Faber. Regiões presas a costumes antigos. A visão voltou ao normal aos poucos.
— Rhiyvai Keen. Guardiã de Meena, você conheceu a pobrezinha na arena.
Olhou a mão, a doutora e respirou fundo, tentando falar.
— ... Sei quem você é.
Obviamente ignorando o cumprimento, Rhiyvai tomou a mão de volta para si como se houvesse sido queimada. Forçou uma risada e sorriu para o rapaz, exibindo mais dentes do que deveria ter.
— Sabe? Wow, Demis não mentia quando disse que sabia seus caminhos. Bom garoto. – Ela bateu as palmas e o sorriso morreu – Agora, seja sincero. Você sabe em que tipo de merda você se meteu, nortenho?
Silêncio. Rhiyvai passou a mão pelo rosto e afundou-se na poltrona.
— Foi o que pensei – tirou as luvas e apontou um dos armários – Ultima gaveta. Ponha o bracelete e—Bem... Boa sorte. Eu já cumpri minha sentença.
Rhiyvai gesticulou com a mão e a porta se abriu. Tekkai? Stulbach levantou-se e fez como lhe foi instruído, mas antes que pudesse ir, foi lhe chamada a atenção novamente:
— Quando começar os treinos com Ametyr, tente não reclamar muito, senão vai acabar me vendo mais do que gostaria.
Manteve-se calado, assentiu com a cabeça e saiu da sala, fazendo caminho pelo corredor colorido até a plataforma de nível, onde pôde olhar melhor o bracelete.
Era uma peça composta por dois arcos de metal, que uma vez fechados fizeram um barulhento TEC, impedindo-o de tirar o bracelete a partir de então. Conseguiu identificar uma saída de som e um código de símbolos em relevo. Demorou-se nele.
Olhou o painel da plataforma e viu um leitor a nível dos olhos. Stulbach estendeu o pulso com o código virado para cima e a plataforma se ativou. Preferiria permanecer com o bracelete, se significasse não precisar ter aquela aberração nos olhos. Apertou o botão e esperou. Seria tudo mais fácil do que esperava.
Saiu do prédio, mas os domínios da empresa se estendiam até o encontro do jardim com a rua. Pelo o que lera, o jardim era a interseção para funcionários e civis. Descartáveis e pessoas e uniformes azuis e verdes conversavam tranquilamente com os outros, de vestes cotidianas. Poderiam ser seus guardiões, como Ametyr era para o homem agora, ou apenas família. Nenhum uniformizado ousava sair do quarteirão, mesmo sem vigilância nos limites do jardim. Estariam encarcerados?
Tateou os bolsos. O comunicador ainda estava lá. Não poderia fazer contato agora; ouvidos em todos os cantos. No entanto, era preciso.
Foi até a rua, sentindo os olhares dos funcionários em suas costas. Perguntaria o porquê, mas pouco importava.
Quando atravessou a rua, o bracelete começou a apitar; lento, agudo e ritmado. Sentiu uma picada no pulso, mas não se incomodou.
Poucos passos depois, a visão se foi e sentiu apenas a colisão com o chão frio, ouvindo o salto de alguém de aproximando.
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