Evite

2 Jonathan


05 de Julho, 25º pós-Revral

Quatorze andares abaixo do solo fica o necrotério da companhia. Pode facilmente ser confundido com o interior de um jardim de infância, de tão colorido que é. Só depois de algum tempo perceberiam onde realmente se encontravam. Ideia da Lilium, para deixar o lugar com uma atmosfera mais viva. Bem, mesmo todas s ores que o necrotério possui não muda o fato de um nível 3 ter sido morto, e isso era uma péssima notícia.

Saio da plataforma e já procuro por Rivai, a responsável por todo o andar.

Muitas pessoas, ao serem colocadas num mortuário, não ficariam no melhor estado quando percebessem onde estavam. Mas não Rivai. Aquela mulher tem uma estranha obsessão por esse ramo da Medicina, em particular. Todas as vezes que a perguntam o porquê, ela explica como é relaxante “ver seus rostos serenos no sono eterno”.

Vai saber.

– Aberração – Sussurro, olhando aquele bando de cores que escondiam os mortos.

– Não é muito educado falar mal de mim no meu local de trabalho, senhor – A moça do terno branco aparece de um quarto verde, empurrando a maca de um dos seus “pacientes” – O que o senhor deseja?

– A caixa do nível 3. Onde está?

– É mesmo. Eu me assustei quando Seth apareceu com o distintivo – Ela começa a andar, me guiando pelo corredor laranja.

Nas portas, placas catalogam o mês, ano e tipo de gente que lá há. Questões financeiras ou raciais não são os termos utilizados, tampouco qualquer outra característica, enquanto vivos. Já o que aparece são os diferentes modos que cada um encontrou o seu fim. Continuo a seguir a doutora até chegarmos à única porta sem classificação.

– Funcionários são mantidos aqui, mas ainda não me conformo, – Abre a porta e coloca o cadáver que levava no canto da sala. Provavelmente continuaria a trabalhar nele depois que se livrasse de mim – níveis 3 não começam a receber o treinamento? O broche parecia ser antigo, então como pode ter sido morto?

– Sim, recebem. E não faço ideia, mas já estou escolhendo o grupo para acabar com isso antes que outro nível 3 ou superior apareça.

– Sinta-se à vontade para me escolher – Ela vai aos armários e pega duas máscara. Me entrega uma depois de pôr a sua própria – Coloque, pode infectar o cara.

– Não gosto desse tipo de coisa.

– Pena. Você me deu autoridade máxima aqui embaixo, coloque a porcaria da máscara antes que você tenha que colocar uma touca e óculos.

– Ainda pode ser mandada embora. Me mostre o morto.

Agora com essa coisa sufocante, ela vai até uma espécie de geladeira e tira uma caixa das quatro que lá haviam. É bem pesada, é fácil concluir, vendo o esforço que ela faz para colocar em cima da mesa de autópsia. A pior parte é quando Rivai abre a caixa e o fedor da decomposição invade a sala. Há quanto tempo ele deve estar morto?

– Só dei uma olhada rápida, tenho outros dois para checar. O cara que fez isso deve ter muita prática – Ela enfia a mão no recipiente que guardava os restos – Soube direitinho onde arrancar.

– “Arrancar”?

– Arrancar! – Ela está animada com a situação, pega um dos braços decepados e aponta os ligamentos que antes se ligava ao ombro – Veja bem, se fosse cortado com um machado ou afim, a carne diria, porque os músculos, vasos e tendões seriam rompidos uniformemente, mas não foi assim. – Ela segura o braço pela mão e deixa o resto balançando no ar e pingando sangue na mesa – Posso ver queimaduras de corda no pulso. Então ele foi amarrado e suspendido ainda vivo, – Ela coloca o membro de volta na caixa e finalmente fecha a caixa, apoiando-se na mesa – mas não foi a causa mortis; foi esquartejado apenas depois de morrer. Também, como não achei uma cabeça, a identificação vai ficar um pouco mais difícil. A insígnia estava um horror, o nome e o NR foram raspados, deixou apenas um “Sanders” que quase deixávamos como ilegível.

– Conhece algum Sanders?

– Não saio muito dos necrotérios, mesmo quando me manda para outras regiões. E certamente não me misturaria com níveis 3 que não fossem meus pupilos. O único que me vem à cabeça é o protegido do Professor, mas falei com os dois ainda ontem, então está bem.

– E a preparação para as Olimpíadas?

– Já liberei espaço para os que virão. Alistei uma, dessa vez! – Ela sorriu, enquanto tirava a máscara e guardava suas tralhas – Pelo o que Demis me disse, esta será gloriosa!

– Certo.

Tiro aquela coisa sufocante da cara e são da sala. Lembro bem o caminho de volta.

– Ei, chefe – Quando viro, ela está apoiada na porta da sala verde, de onde tirou o corpo – Acha que aparecerão mais caixas?

Minha resposta tarda a aparecer, ela simplesmente fica presa em minha garganta. A reputação da Evite é baseada na onipotência dos meus funcionários, agora...

– Chefe? – Ouço a voz dela, abafada e distorcida na minha cabeça – Você está bem?

– Estou – Desperto daquele curto transe e olho para ela. Pergunto-me quanto tempo me deixei levar – Provavelmente. Vamos esperar que seja apenas outro descartável e que o responsável só deu sorte de pegar um nível 3. Já sabe o que fazer se outra dessas aparecer.

– Sei, sei. Agora vá dormir um pouco, senhor – A doutora passa os olhos pelo meu rosto e faz uma careta – Não dorme há um bom tempo, não é? Sua cara está terrível.

– O caso daquele intérprete consumiu todas as minhas energias.

Oito dias. Aquele sujeito morreu e minhas noites foram enterradas junto. Mercus Alguma-Coisa, achado morto com um tiro na cabeça e uma arma na mão. Graças a Ametyr, dividimos o tempo em quatro.

– Não se preocupe, vou assim que organizar um grupo para lidar com essas caixas.

A aberração gargalha e corre para sacudir minha mão. Mesmo sem poder ver boa parte dela pela máscara e óculos noto seu rosto se iluminando, ou talvez fosse apenas o próprio andar, conectado ao chip de Rivai e dá àquela louca total controle aos mortuários.

De quem foi essa ideia mesmo?

Ah, sim. Lilium.

As luzes começam a piscar e as paredes vão cedendo o seu azul para um branco sujo e sem vida. As paredes se aproximam a cada vez que o quarto é tomado por escuridão. É normal, meus andares fazem o mesmo, mas o frio súbito e o pânico me tomam mesmo assim.

– Muito obrigada pelo convite. Eu e Demis ficaremos lisonjeados quando tomarmos parte no grupo.

As paredes só param quando toda aquela sala se transforma no corredor que há pouco tempo estivemos. Ela solta a minha mão, o que tira meu equilíbrio e me faz cair.

– Demis? – Tento me levantar, mas meus membros me traem e me mantêm no chão – Certo, vocês estão dentro. S-só... Não faça isso de novo!

– Me desculpe. – Ela me ajuda a levantar e me guia a plataforma. Nem sei porque ainda vou ao necrotério, isso se repete todas as vezes que vou lá – Eu me esqueci completamente!

– Repita e está fora. E dê prioridade à caixa, já que está tão envolvida. Faça ainda hoje a autópsia completa.

– O que mais faria aqui embaixo? Comê-lo?

A porta se fecha e sou levado até o último andar, um dos restritos a mim. Aciono a iluminação e encaro o cimento aparente nas paredes daquele andar vazio. Ficaria daquele jeito pelo tempo que desejasse, e se dobraria ao meu querer. Mas nesse momento, só quero um pouco de calma para poder organizar o caso em paz. Então a única coisa que se modifica no ambiente é a aparição de uma mesa, mantida atrás da parede, com pilhas de papéis e uma cadeira. O andar continua no cimento puro, sem janelas ou qualquer outra coisa que desse a ele um ar hospitaleiro. Sento na cadeira e começo a analisar a ficha dos não-descartáveis com mais atenção que normalmente.

É que normalmente, a reputação da minha adorada companhia não está em jogo. E se a imprensa descobrisse que mataram um nível 3? Não, isso não poderia acontecer de jeito nenhum.

Outra pilha vai se formando a cada vez que termino de ler uma ficha.

Me parece que a original nunca vai acabar.

As duas se equivalem no tamanho, mas a primeira continua tão alta.

Agora devo ter passado pelo triplo de funcionários que tenho na Evite.

As duas pilhas alcançam o teto.

Quando encaixo outra ficha deixada de lado, ela desmorona. A escuridão é acordada pelo barulho e toma o andar para ela.

Acordo com um susto e o som dos passos da mulher, que só fica visível a metros de mim. Viro a cabeça na direção oposta.

– Não posso ficar nem um minuto sem que você se intrometa? Me dê quinze minutos sozinho.

– “Quinze minutos”? – Ouço um suspiro e me levanta pela gola – Estás acá a quase dois dias, moe hir. Já dispôs de vários “quinze minutos”. Onde estão as fichas?

– O que?

Demoro um tempo para perceber que elas não estavam mas na mesa, mas em todo o resto da área.

– Presumo que já organizaste um grupo, uma vez que dormias.

Me solta e bato a cabeça da mesa, mas um grunhido é tudo o que respondo.

– Senhor, o grupo.

– Keen, Heir... Decida o resto, não estou com cabeça para isso.

– Tens 18, és legalmente um adulto. E não sou tua mãe para fazer decisões quando quiseres fugir do trabalho – Ouço o som dos papeis se movendo. Ametyr deve estar recolhendo as fichas no chão. Viro a cabeça e confirmo minha teoria.

– Você é a segunda no comando, então faz o que eu não quero fazer.

Silêncio, e permanece assim por longos segundos.

– Certo – Ela termina de juntar as fichas e me olha – Mandarei o 311 à Sala Azul. Está falando sobre um caso em andamento novamente.

Não espera pelo meu consentimento ao sair e levar a escuridão com ela. Ainda quero descobrir como ela faz esse truque.

Levanto da cadeira e aquele quarto se modifica para que se pareça com o meu em Dissae, o que não requer muito esforço: Janelas, móveis e uma cor nas paredes. Minha preocupação diminui consideravelmente agora que Ametyr tomou conta da organização, menos trabalho para mim. Entretanto, duvido que ela me deixe a par da situação, agora que deixei o peso nos ombros dela.

A Evite pode cair e eu ser o último a saber.

Notas finais
Nota: Apenas pessoas a partir do nível 8 podem ter um andar conectado ao chip. E mesmo assim, não são todos que recebem o privilégio.