Evil Ways
35 Você está namorando a minha garota.
Notas iniciais
Haymitch andou até a varanda, olhou o quão bonita a noite estava e decidiu que se jogar de lá de cima não era a melhor opção – e mesmo que fosse, ele já não tinha coragem alguma. Peeta o acompanhava logo atrás, bem nervoso como ele pode reparar e ainda sem a mínima noção de alguma ideia do que poderia estar acontecendo.
Ele virou de frente ao seu filho, colocou as mãos no bolso e respirou fundo. Como é que eu vou falar pra esse garoto que eu quase tracei a mãe dele?
— Haymitch? — Peeta chamou sua atenção. — E então...?
Haymitch olhou novamente para Peeta, e de repente se assustou com a semelhança entre Peeta e Big Bill, seu irmão mais velho, na ocasião em que Haymitch contara a ele que estava de partida, em meados de 92, ainda no Texas. Respirou fundo, devagar, limpou a garganta e tirou as mãos do bolso para, em seguida, dar tapinhas leves na coxa. Como começar?
— Antes de qualquer coisa, eu queria saber... Hãn... Como que você e minha Katniss vieram parar aqui essa hora, sozinhos!? — Haymitch incentivou, com um sorrisinho malicioso.
Embora soubesse que não era esse o assunto, Peeta não pode deixar de sorrir com as manias de desviar assunto que seu pai tinha (tão igual a ele), e Haymitch soube na hora que fazer Peeta falar primeiro tornaria as coisas muito mais fáceis para ele.
— Nós estamos oficialmente namorando agora. — Peeta respondeu genuinamente, com um sorrisinho de canto, que sumiu rapidamente ao fazer uma constatação importantíssima que havia passado despercebido até então. — Quero dizer, não se preocupe. Eu vou cuidar bem dela por você. — Peeta falou. — E eu sei que Katniss é como sua filha muito antes de eu ser seu filho. E eu prometo não decepcioná-la, nem ser um canalha ou coisa do tipo. — Ele completou.
Em algum lugar no passado, Peeta já fora um canalha.
Talvez no ensino médio com Ruth, a garota que Finnick arrumou para ele. Ou com Glimmer e Wiress, as mulheres que o deixaram maluco e que serviram de tópico engraçado em uma de suas primeiras conversas com Haymitch. Mas há muito tempo não sentia nada que não fosse atração por qualquer garota. E desde o momento que viu Katniss, ele estava perdido – embora talvez perdido não fosse a palavra certa. Era o contrário: Ele finalmente estava no caminho. Ele encontrou o caminho.
— Eu sei que não vai, filho. — Haymitch o abraçou, e estendeu o gesto por quanto tempo conseguisse. Quando viu que já estava desconfortável – e até embaraçoso – soltou-se de Peeta. Agora, comece a falar de Effie, ele pensou.
Obviamente, ele falhou outra vez.
— E então... Como aconteceu o pedido? — Haymitch perguntou, ignorando a sua consciência e tentando se odiar um pouco – sem sucesso.
— Estávamos falando sobre Finnick e Annie, quando eu admiti que ficaria arrasado se ela sumisse do nada... — Peeta falou. Falou que ficou espantado com a naturalidade que Katniss – tão retida e cautelosa – levou aquelas palavras. Depois, quando ela confessou o mesmo e ele se sentiu o cara mais sortudo do planeta, e também o mais aliviado, ele a beijou e a pediu em namoro, que respondeu ‘sim’ cantando uma canção para ele. Ah, cara! Aquela noite, por mil motivos – cujos próximos viriam logo a seguir – estava sendo inimaginável para Peeta.
Haymitch também se viu surpreso. Primeiro, porque era muito raro ouvir Katniss cantar, ele sabia muito bem a razão. Segundo, porque Katniss não era muito de expressar sentimentos, especialmente expressá-los cantando como se morasse num musical da Disney. Definitivamente, não só pelo estranho cabelo loiro, mas Haymitch sentiu que estava perto de uma nova Katniss.
— E então, você já está preparando alianças e essas coisas? — Haymitch perguntou.
— Você sabe que vai ser o meu padrinho. — Peeta deu uma piscadinha para Haymitch, que não segurou o riso. — Agora chega de enrolar nos assuntos sérios, certo? Diz aí o que temos a discutir.
A gargalhada anterior de Haymitch sumiu em milésimos e um novo silêncio preencheu o ar. Cacete!
— Peeta... Então. Eu realmente não sei como dizer isso.
Já chega, era o que pensava Haymitch. Estamos cheios disso, eu e você, maldita consciência. Porque ele simplesmente não conseguia jogar as palavras para fora? Qual é! Era o medo de lhe dar com as consequências delas? Olha ele ali, pronto pra conseguir coisa melhor na vida! Pronto pra ter Effie, pronto para ter uma família, pronto para suportar a reação de Peeta, mesmo que fosse horrível. Afinal, Peeta era seu filho, e ele não sofreria represarias do seu próprio garoto. Seria uma conversa de homem pra homem, e se fosse necessário brigar por Effie, ele brigaria. Chega disso.
— Peeta, você está namorando a minha garota. — Haymitch falou. — E eu estou saindo com a sua.
A reação não foi imediata.
— O que? — Peeta perguntou.
Não era nada irônico da parte dele, não. Nem era a reação espontânea vinda do choque. Ele simplesmente não tinha compreendido o que as palavras de Haymitch significavam. Era como se elas estivessem ali, misturados, e ele simplesmente na captou a mensagem nelas. Era como ouvir uma música e não entender o que o cantor falou num trecho aleatório dela.
— Você está namorando a minha garota? O que...
E foi só então que ele compreendeu.
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