Algumas horas se passaram desde que Jéssica havia começado a falar. Ela falava rápido e parecia empolgada como se fosse o plano mais perfeito do mundo. Na verdade, nem era um plano, era uma fuga.


Giba, André e eu ficamos responsáveis de pegar mantimentos, varremos as lojas, cada um com uma mala grande, pegando tudo que não precisava ser cozinhado ou pré-preparado. O cardápio era variado e tinha de tudo um pouco: Enlatados, biscoitos, doces e salgadinhos. Nada no momento era muito nutritivo e saudável, mas era o que tinha no momento. Tínhamos que cuidar com a comida, pois a última coisa que queríamos era alguém com dor no estomago. Peguei duas garrafas de Johnnie Walker e pensei ‘’foda-se o estomago’’.


Quando voltamos, as meninas estavam preparando um armamento pesado. Passaram de cozinha em cozinha recolhendo botijões de gás.


Estávamos prontos para sair do Shopping e seguir para o batalhão, cada um tinha uma mala com alguma coisa e assim fomos logo para o estacionamento. Assim que chegamos lá, lembramos a bagunça que havia acontecido mais cedo e o mais importante, que quase havíamos sido mortos. Se não fosse pela Ramona estávamos definitivamente mortos ou pior, transformados.


Embarcamos no ônibus, que estava com a lataria amaçada devido golpes de armas e de zumbis. Acredite, não deixamos de cogitar um plano onde ermaríamos o ônibus até os dentes de munição, mas num Shopping sem muita opção, perderíamos tempo, já que os zumbis já estavam na porta de vidro e obviamente já sabiam que estávamos ali dentro. Sentamos perto do motorista, cada um com sua arma. Eu segurava o machado, Maytê a moto serra, Jéssica o tridente, Gilberto estava com o 45 na cintura, Ramona estava com o taco de baseball e André com o Winchester. Enquanto o portão abria, devagar, algumas mãos por baixo já podiam ser vistas, afobadas e algumas faltando alguns dedos. Logo, corpos estavam rolando para dentro do estacionamento escuro, e quando o portão se abriu por completo o lugar já estava infestado pela horda faminta. Gilberto acelerou contra os zumbis, atropelando alguns e com muita dificuldade conseguiu sair do estacionamento. As ruas já estavam cheias. Ninguém vivo, apenas aqueles corpos putrefatos e caindo aos pedaços. O cheiro já podia ser sentido de longe, entrando pelas frestas das ferrugens do ônibus, mas o cheiro não era o que mais nos incomodava. O medo ainda era o principal motivo de estarmos lutando pela sobrevivência. A superestimada sobrevivência.


A viagem foi bem calma. A impressão era que os zumbis sabiam que era inútil nos atacar.

Depois de uns trinta minutos chegamos num rua limpa, com um número muito baixo de zumbis vagando pelo asfalto. O Exército era muito grande, com muitos compartimentos e um campus, era quase uma cidade cinematográfica. Os terrenos eram protegidos por muros de 9 metros e o grande portão estava fechado. Eu e a Maytê descemos rapidamente, um cuidando da retaguarda do outro e assim abrimos o portão enquanto Giba entrava com o grande veículo. Enquanto ele entrava percebi que os terrenos estavam completamente vazios, nenhum movimento dentro das instalações. Entramos e fechamos o portão e voltamos para dentro do ônibus. Giba estava andando devagar enquanto analisávamos o perímetro.


– Viram alguém? – Perguntou Giba.


– Não – Algumas vozes responderam.


– Alguma coisa? – Perguntou Giba novamente.


– Parece que não – Respondi sozinho.


O ônibus ficou estacionando na frente do primeiro campus, onde ficava a entrada do exercito. Mais a frente ficava o campo de treinamento e nos fundos o campo de futebol, basquete e vôlei. Descemos rapidamente e começamos a verificar a área. Fizemos um pente fino e para nossa surpresa, estava limpo, nem um sinal de vida ou morte lá dentro. Levamos mais ou menos umas três horas para checar o lugar todo com mapas, o terreno era realmente muito extenso, a busca foi cansativa, mas pelo menos sabíamos que por enquanto estávamos protegidos.


Nenhuma arma sobrou, era apenas o que tínhamos. Não havia comida também, e a sensação de ter feito algo certo era gratificante. Arrumamos quartos. As meninas dormiriam em um e eu e os meninos dormiríamos em outro. Ainda estávamos pensando se alguém faria vigia de madrugada, pois todos estavam exaustos. Depois de descobrir que ainda existia água encanada, todos tomaram um longo banho gelado e sem premeditar, dormimos a noite toda, como crianças. A madrugada foi tranquila, nenhum barulho, nenhuma interrupção, nenhum gemido e o melhor de tudo, sem medo. O único barulho que se ouvia na noite era a respiração nos quartos.

Acordei assustado, dei um pulo da cama e durante alguns segundos havia esquecido completamente onde estávamos. Giba e André pularam da cama no mesmo instante, também assustados. Olhamos uns para os outros e rimos. Arrumamo-nos rápidos e saímos para ver o que as meninas estavam fazendo.

– Eu acho que devíamos jogar futebol depois – Sugeriu Giba.


– Eu odeio futebol – Disse por minha vez antes que alguém falasse mais alguma coisa.


– Agente pode jogar vôlei – André deu a ideia.


– Não, não se você quiser ficar vivo – Disse rindo.


– Tem alguma coisa que você saiba jogar? – Giba franziu o cenho.


– Nem vídeo game cara, nem vídeo game – Eu parei para pensar, e percebi que não sabia praticar nenhum esporte, e naquele momento aquilo me deixou pra baixo, mas no segundo seguinte lembrei que as pessoas estavam comendo umas as outras e fiquei bem novamente.


Andamos para fora das instalações e vimos as meninas de longe.


– O que vocês estão fazendo? – Gritei.


– Cala a boca, para de gritar, vai que um deles escuta – Disse Giba.


Arqueei a sobrancelha. – Relaxa Gilberto.


Quando chegamos mais perto percebi que as meninas estavam sentadas no gramado do jardim da entrada, com uma toalha no chão cheia de comida em cima.


– Uiaaa – Expressou-se André com um sorriso de orelha a orelha – Eu estou faminto – Disse já se sentando e pegando um pacote de bolacha recheada.


– Nossa, isso é demais, é como se nada tivesse acontecido – Disse feliz, me sentando do lado da Jéssica.


Ramona me fitou – Isso é que me preocupa. E se alguém aparecer aqui?


– Agente põem eles pra fora – Disse Giba com a boca cheia de comida.


– Espero que seja fácil assim – Disse Maytê comendo pêssegos em uma latinha.


– Precisamos de um plano completo. Quer dizer, se é que vamos sobreviver aqui, precisamos criar um esquema maior de segurança, vamos precisar voltar ao centro pra buscar comida... – Comecei a falar e todos pararam para ouvir.


– Vamos apostar aqui mesmo? Vamos ficar aqui? – Perguntou Jéssica.


– É o melhor lugar no momento best.


– Esse lugar é muito seguro, nenhum zumbi vai conseguir pular um muro assim tão alto. Temos que reforçar o portão – Sugeriu Maytê.


– Ok, vamos terminar de comer e ver o que podemos fazer... Sei lá, bloquear a passagem com o ônibus, talvez. Vemos o que é melhor.


O resto da manhã foi tranquilo e ninguém se preocupou em arrumar a bagunça que ficou no gramado. Aquilo era libertador. Foi o que aconteceu. Era quase meio dia e reforçamos o portão trancando as entradas, colocando o ônibus encostado nele e colocamos arame farpado por cima. Depois voltamos para um breve almoço e começamos a economizar comida, já que não queríamos sair tão cedo de lá. O resto da tarde passamos conversando, montando estratégias e demos conta quando a noite tomou o lugar.


– Agente podia fazer uma festa — Sugeriu Ramona.


– Festa? — Perguntei.


– Claro, agente pode beber o whisky que você pegou e sei lá, ouvir música do celular de alguém.


– Nem pensar — Eu disse.


– Mesmo que eles escutem, Lucas, não vão conseguir entrar, não vão conseguir passar o portão e muito menos o muro — Maytê parecia animada com a ideia.


Eu parei para pensar. Estávamos naquilo a menos de uma semana e já passamos por tantas coisas. Antigamente era normal nos reunirmos para beber e ouvir música, sem fazer muita agitação, e talvez fosse aquilo que estivéssemos precisando no momento para seguir em frente, um pouco do que costumávamos ser. E depois, se entrassem, daríamos contas, até por que é impossível entrarem, eu mesmo chequei isso.


– Ok — Eu dei um sorriso — Quero ver agente ficar alegre com apenas uma garrafa para seis pessoas — Disse rindo.


– NO MATTER — Gritou Maytê colocando a musica no seu celular.


Caos. Ficamos completamente bêbados, e deu apenas duas doses para cada. Talvez seja por que bebemos puro mas no momento seguinte estávamos no campo de basquete, bebendo, rindo e caindo. Jéssica pegou a bola para tetar acertar o aro, mas ela mal conseguia avistá-lo e estava rindo demais.


O celular de Maytê acusou ''Feel so Close'' e corremos pro meio da quadra dançar. Segurei nos ombros dela enquanto dançava e rebolava e ela sorria de orelha a orelha como se estivesse sob efeito de êcstase.


Gilberto estava jogando futebol com André e Ramona no outro campo, e por incrível que parecesse, Ramona tava dando um show neles.


Por algumas horas realmente não nos preocupamos com o que estava acontecendo do lado de fora. Todos pensaram que estávamos a salvo.


Eramos um bando de idiotas.


Já era quase cinco horas da manhã quando relógio de alguém apitou. Abri o olhos de vagar e percebi que eu estava deitado no meio da quadra, ao lado estava Maytê, ainda dormindo e mais pra frente Jéssica, sentada e chorando como um bebê.


– O que foi best? — Perguntei.


– Você sabe o que foi — Disse ela com a voz manhosa.


– Ah, cala a boca, você ta bêbada — Olhei para os outros campos procurando os meninos e a Ramona — Você viu eles best?


– Eles foram explorar a área best — Disse ela ainda meio tonta, mas consciente.


– Que área? Já olhamos tudo.


– Eu não sei, eles falaram que encontraram um jardim.


Começei a cututcar a May.


– May, May, wake up.


Ela abriu o olho e me olhou assustada — O que foi? Eles entraram? — Ela começou a procurar o moto serra.


Ajudei ela a se levantar e Jéssica foi com agente em direção às instalações.


– Relaxa, estamos seguros. Você lembra de ter encontrado um Jardim na hora de vasculhar o lugar? — Perguntei ancioso.


– Não, agente olhou tudo, não foi? Só se foi a área que os outros procuraram — Ela respondeu.


– Pois é, isso que esta me intrigando. Eles não falaram nada sobre isso — Disse de cabeça baixa, pensando.


– Mas parece que eles encontraram agora best — Avisou Jéssica — Eles encontraram enquanto agente tava aqui beben...


Um grito fino e longo de menina ecoou por toda a instalação. A voz rouca era inconfundível, era a voz de Ramona. Logo uma sequência de tiros começou a ser disparada.


Maytê trouxe um mapa correndo, e abriu numa mesa de vidro grande, passamos um pente fino para saber o que havíamos deixado para trás na hora de checar o perimentro.

Apontei para uma área pequena no fundo do exército, onde ficava muito escondido — O que é isso?


Maytê olhou na legenda e sussurrou ''droga'' — É uma passagem, para treinamento em campo dos militares. É uma passagem direta para a floresta.


– Como deixamos isso passar? — Eu estava ficando apavorado.


Vi giba correndo em nossa direção, ja sujo de sangue.


– ENTRARAM, ENTRARAM PELA MATA — Dizia com pressa e estava tremendo.


– Vamos pegar as armas e correr pra lá, temos que ajuda-los o mais rápido possível. Vamos, Vamos — Disse.


Todos pegaram suas respectivas armas e corremos para a passagem onde o giba nos levou. Ramona e André estavam a frente, salvos, mas a uns dois metros deles, pude ver um mar de cabeças, saindo de trás das árvores, se infiltrando nas instalações do exército e estavam famintos e com mais raiva ainda, como se soubessem que estavam sendo enganados.


Uns 300 zumbis eram poucos, um batendo no outro e andando de um jeito desordenado.


Mayte abaixou a moto serra, sem esperança — Agente vai morrer, não vai?