Evil Always Wins Or So I Thought
3 Capítulo 2: Chamas sem cinzas
O passado se torna transparente diante daqueles que mancham suas almas com a tinta da criação.
Dentro de um retrato, há uma lembrança de quem você é, de quem você foi…
E de quem ainda será.
Suas escolhas pertencem apenas a você.
Por isso… tente não estragar tudo novamente.
...
Uma tosse forte rasga meu peito.
A realidade me atinge de súbito. Sinto meu coração disparar — e então abro os olhos.
Mas, antes que eu consiga entender o que está acontecendo…
Uma pancada repentina atinge meu estômago, arrancando o ar dos meus pulmões.
Ouço risadas ao redor, enquanto minha visão ainda está turva.
— Olha quem acordou…
Outro golpe me acerta, fazendo meu corpo tombar de lado. Logo em seguida, alguém pisa na minha mão.
À medida que meus sentidos voltam, percebo uma figura encapuzada pressionando meus dedos contra o chão. Não o reconheço de imediato… mas entendo perfeitamente sua intenção.
Sou puxado pela gola.
Outro soco.
Desta vez, no rosto.
Minha cabeça gira, e caio de costas no chão daquele beco imundo.
— Levanta, porra! Tu não queria brigar? Cadê aquela confiança agora?
A voz me obriga a prestar atenção.
Abro os olhos e encaro minha mão machucada.
Ela parece… menor do que eu me lembrava.
Ah…
Por algum motivo, acho essa situação estranhamente engraçada.
Limpo o sangue do rosto.
— Que mão leve… — digo, forçando um sorriso enquanto tento me erguer. — Acho que me lembrei de você… o filho da cavaleira Sarah, não é?
As memórias voltam.
Eu vivia provocando esse cara quando era mais novo… se não me engano, mais cedo naquele dia, tentei dar em cima da irmã dele.
Ele não gostou.
Então eu o chamei para uma briga.
A situação agora não está ao meu favor…
O que uma pessoa boa faria aqui?
Pedir desculpas? Nunca fiz isso… será que devo tentar?
— Olha… desculpa se fui ofensivo com a sua irmã. Mas, se era pra me bater desse jeito, acho que ela mesma teria um punho mais firme.
— Como é? Tu acabou de falar o quê? — ele rosna. — Acho que esse bastardo do marquês perdeu o resto da noção que ainda tinha.
Dois capangas me seguram pelos braços.
É… não deu certo.
— Vamos fazer você chorar e rastejar de volta pro colo do marquês. Quero ver você implorar desculpa por tudo que nos fez passar.
Eles vão mesmo me espancar…
Droga.
Preciso pensar rápido.
Talvez… fazer com que me derrubem antes? Se eu desmaiar logo, pode acabar mais rápido.
— Ah, não fode… para com esse discurso meia-boca e me bate logo. Heh. — cuspo sangue. — E, já que estamos nisso… o único colo pra onde eu queria voltar chorando agora é o da sua irmã, aquela gost—
O soco vem antes que eu termine.
O impacto abre um corte no meu lábio.
E apaga minha consciência.
Haha…
O resultado dessa luta foi bem diferente no passado.
Mesmo cercado por todos aqueles garotos, nenhum sequer chegou perto de mim.
Eu sempre fui cheio de truques.
Na verdade, já esperava que viessem em grupo.
Minha família descende da lendária linhagem do meio-dragão Bras Hanrim. Por isso, temos uma afinidade natural com o controle de chamas.
Naquela época, escondi uma pedra de magma em um anel.
Com ela, invoquei fogo.
E tentei matar todos eles.
Mas não saiu como eu queria.
Eu ainda não dominava aquele poder.
Não os matei… mas os feri o suficiente para mutilá-los. Alguns perderam membros. Outros carregaram queimaduras pelo resto da vida.
Lembro dos gritos.
E lembro… de ter achado satisfatório.
Meu pai descobriu.
Ele teve que se curvar diante das famílias daqueles garotos.
Depois disso… nunca mais me olhou da mesma forma.
Acho que foi por isso que usou sua autoridade para tirar aquela magia de mim.
Ficou claro que eu não era confiável.
Espero… ter mudado isso.
Espera…
Já estou acordando? Tão rápido?
Uma dor absurda invade meu corpo de repente.
— Levanta e luta, porra! — alguém rosna, me chutando. — Cadê aquele sorriso arrogante agora, Makiel Hanrim?
Meu corpo jovem reage antes da mente.
Meus dedos se fecham por instinto.
Minha unha raspa na pedra de magma.
O calor surge.
A magia primordial do fogo desperta em minha mão.
As chamas dançam entre meus dedos — selvagens, intensas — fazendo meus agressores recuarem.
O poder gira, contido.
Como lobos presos por coleiras.
Meu corpo grita para que eu os queime.
Mas desta vez… eu sei.
Se eu fizer isso de novo…
Se eu escolher o mesmo caminho…
Vou perder tudo outra vez.
Solto o ar lentamente.
As chamas se apagam.
Eles veem o fogo desaparecer e relaxam. Logo começam a rir.
— Ué? Essa é a famosa magia dos dragões? Um foguinho bonito. — ele debocha. — Me assustou por um segundo… mas foi decepcionante.
Ele se abaixa, sorrindo.
Meu corpo dói por inteiro… mas ainda reúno forças para uma última ação.
— Pega a magia aqui… — digo, erguendo o dedo do meio.
— Hã? — ele arregala os olhos, surpreso. — Hahaha… você é engraçado.
O chute vem como resposta.
Encolho o corpo, tentando proteger o rosto enquanto os golpes se acumulam.
— Seu arrogante… — ele cospe. — Isso é pela minha irmã!
Outro impacto.
— Ahh!! — grito, sentindo a consciência vacilar.
Fecho os olhos.
Dói.
Tudo dói.
Mas, desta vez… eu aceito.
Ele não mentiu.
Eu mereço isso.
Então vou pagar pelos meus pecados, da forma que for.
Quando finalmente se cansam, eles se afastam.
Ainda consciente, escuto suas vozes enquanto vão embora.
— Vamos deixar ele aí? E se contar pra alguém?
— Não vai. — responde o outro. — Se não quiser outra surra, vai ficar quieto.
Heh…
Menos de quinze minutos depois, apago novamente.
Uma recepção nada calorosa de volta à vida.
…
Enquanto isso, um pouco mais distante…
Uma garota aguardava sentada na calçada, próxima a uma escadaria, protegida pela sombra de uma estátua junto ao portão.
Ela tira um pequeno espelho e ajeita o cabelo, observando, através dele, o tamanho imponente dos portões.
Ferro escuro. Símbolos entalhados à mão.
E um silêncio pesado — estranho para um lugar onde tantas pessoas viviam.
A jovem aperta o pano do avental entre os dedos, torcendo o tecido com nervosismo.
Era seu primeiro dia ali.
Finalmente poderia atravessar aqueles portões — o lugar onde sua mãe trabalhou por tanto tempo.
Não era exatamente um sonho.
Mas sempre teve curiosidade.
E agora… estava ali.
Mesmo sem ela.
De repente, a garota se assusta ao ver uma mulher surgir pelo portão, chamando-a.
— Você é a filha da Elira, certo?
Era a empregada-chefe.
Assim que a jovem se aproximou, foi avaliada sem disfarce: dos sapatos gastos ao cabelo desalinhado.
Seu rosto carregava cansaço e autoridade — moldado por anos de serviço e pouca tolerância a erros.
— S-sim! — respondeu, apressando-se.
— Sua mãe foi uma boa mulher. Trabalhadora. — disse, sem suavizar o tom. — Espero que esteja tendo o descanso merecido.
Uma breve pausa.
— Como devemos chamá-la?
— Pietra…
— Certo. Sinta-se em casa, Pietra. Espero que encontre seu lugar aqui, como sua mãe encontrou.
Sem esperar resposta, a mulher se virou e começou a caminhar pelos corredores da mansão.
Pietra a seguiu, tentando acompanhar o ritmo enquanto ouvia uma sequência interminável de regras, horários e advertências.
Tudo parecia excessivo.
Tetos altos demais.
Janelas longas demais.
Tapetes luxuosos demais — provavelmente mais caros do que tudo que ela já tivera na vida.
— Como mencionei, apesar de ser seu primeiro dia, sua principal responsabilidade será a ala principal. Porém, com a bagunça desses últimos dias… você ficará encarregada do jovem mestre.
O passo da garota falhou por um instante.
— O… filho mais velho do marquês? Pensei que outra pessoa cuidaria dele… foi o que me disseram. Algo mudou?
A empregada-chefe parou e se virou lentamente.
— Sinto muito por empurrar isso para você… — suspirou, esfregando os olhos. — É o Makiel. Ele sempre foi problemático. A última candidata desistiu só de ouvir o nome dele.
Ela pousou a mão no ombro da garota.
— Escute bem… isso não será fácil.
Pietra permaneceu em silêncio.
— Os boatos não são exagero — continuou. — Ele é instável. Arrogante. E perigoso quando contrariado.
Seu tom ficou mais firme.
— Se ele ultrapassar qualquer limite… venha direto até mim. Pedirei punição imediata ao pai dele.
A jovem assentiu, ainda sem compreender totalmente o peso daquilo.
Perigoso…
Ela repetiu a palavra em pensamento.
No fundo, acreditava que fosse apenas mais um jovem nobre mimado.
Nada que não pudesse suportar.
Ela precisava daquele trabalho.
Precisava daquele teto.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, passos apressados ecoaram pelo corredor.
Um guarda surgiu, com o rosto tenso.
— Senhora… encontramos o jovem mestre!
A frase caiu como um choque.
— O quê? O que aconteceu? — perguntou a empregada-chefe imediatamente.
— Houve uma briga. Nas ruas externas. Ele está inconsciente. Precisamos de um curandeiro.
Pietra levou a mão à boca.
— Ele já está a caminho — completou outro guarda.
Poucos instantes depois, o silêncio da mansão foi quebrado por vozes e pelo som metálico de armaduras.
Uma maca cruzou o corredor.
Pietra se afastou instintivamente, mas não conseguiu desviar o olhar.
O jovem sobre a maca parecia pequeno demais para a fama que carregava.
Roupas rasgadas.
Manchas arroxeadas.
Um corte aberto no lábio.
Seu peito subia e descia com dificuldade.
Então…
Aquele era Makiel?
O pequeno monstro.
O herdeiro perigoso.
O filho do marquês.
Um aperto estranho tomou o peito da garota.
Não era medo.
Era dúvida.
— Preparem um quarto, água quente e chamem Patrícia imediatamente — ordenou a empregada-chefe. — E você… venha comigo.
Ela lançou um olhar firme para Pietra.
— Este agora é o seu trabalho.
Pietra assentiu.
Mas a imagem não saía de sua mente.
Se aquele era o garoto que todos odiavam…
O que, exatamente, haviam feito com ele lá fora?
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