Evil Always Wins Or So I Thought
2 Capítulo 1: A Galeria
Após a minha promessa, aquele purgatório vazio simplesmente se desfez.
Cores que antes não existiam começaram a surgir e, de repente, me vi em um quarto branco. Eu estava sentado em um banco torto de madeira cinza.
Meu corpo ainda era feito de luz, e eu não fazia ideia de onde estava.
À minha frente, uma porta se materializou do completo nada. Antes mesmo de se abrir, ouvi alguém bater.
Então ela se abriu.
Uma figura estranha entrou.
Era um homem alto, de membros longos, vestindo um terno azul elegante e luvas brancas. Sua postura era impecável. Porém, havia algo estranho em seu rosto…
Uma máscara branca de raposa, feita de madeira lisa e pálida.
Mas estava invertida — o focinho apontava para cima, como se o rosto estivesse virado ao contrário. Os olhos eram apenas fendas escuras esculpidas na madeira.
Ao me notar, ele se aproximou, intrigado.
— Que estranho... como você saiu de lá, amiguinho? — disse a figura.
Fiquei completamente imóvel ao perceber que ele falava comigo. Mesmo sem entender nada, tentei reunir coragem para responder.
— Eu… fiz uma promessa.
Minha voz saiu fraca da minha pequena forma de luz.
Ele pareceu surpreso e inclinou a cabeça.
— Uma promessa? Para quem?
— Não sei ao certo… mas ele me deu uma segunda chance.
Ele permaneceu em silêncio por alguns instantes, observando-me. Talvez estivesse pensando em como me levar de volta… ou tentando entender se aquilo fazia algum sentido.
— Então foi isso? Hm… — murmurou. — Nesse caso, me siga.
Ele saiu pela porta estranha.
Sem muita escolha, flutuei atrás dele. Assim que atravessamos, a porta se fechou atrás de nós e desapareceu da parede.
Logo percebi que aquilo não era apenas um corredor.
O lugar se abria em várias direções, como um enorme labirinto de mármore branco. Colunas altas sustentavam arcos gigantescos, enquanto novos caminhos surgiam entre escadas e passagens que pareciam não ter fim.
Entre algumas paredes havia esculturas antigas e pilhas de livros esquecidos.
Em certos pontos, o teto se abria, revelando o céu azul e nuvens que passavam lentamente acima das colunas. Pequenas plantas cresciam entre as pedras claras, quebrando o branco frio do mármore.
Ao atravessar um arco largo, avistei um pátio distante cheio de estátuas gigantes quebradas.
Mas o que realmente chamava minha atenção eram os quadros nas paredes.
Havia muitos deles.
Quase todas as paredes daquele lugar possuíam um.
Alguns estavam perfeitos. Outros, rachados ou manchados, como se o tempo tivesse passado cruelmente por cima deles.
Enquanto caminhávamos… tive a estranha sensação de que aquele lugar simplesmente não tinha fim.
O homem começou a falar enquanto pegava um caderno e anotava algo. Seus passos silenciosos ecoavam suavemente entre as colunas.
— Então, pequeno… você se lembra de como era o seu nome?
Olhei novamente para os quadros e esculturas ao nosso redor, ainda tentando absorver cada detalhe daquele labirinto de mármore.
— Ah… sim… meu nome era Makiel.
Ele inclinou levemente a cabeça, como se reconhecesse aquele nome.
— O Bras Hanrim? O marquês louco?
Um arrepio percorreu minha forma. Aquela simples menção ao meu nome trouxe uma forte sensação de vergonha.
— É… sou eu.
Ele folheou o caderno e anotou algo rapidamente.
— Isso explica muita coisa… O patrão nunca gostou das cores do seu quadro. — disse ele. — Isso quer dizer que você se arrependeu de todo o mal que fez?
— Sim… me arrependi das minhas escolhas. Prometi que, se tivesse uma nova chance, faria tudo diferente. E então… acabei vindo parar aqui.
Parei por um instante ao perceber algo que ele havia dito.
— Espera… você disse meu quadro? O que quis dizer com isso?
Ele sorriu de um jeito estranho, quase irônico — mas parecia genuinamente interessado.
— Eu disse quadro no sentido literal. Um retrato, para ser mais exato. Tudo e todos possuem um retrato aqui na galeria. Eles representam sua história, do início ao fim. Verdadeiras obras de arte.
— E sobre sua visita… relaxa. Isso acontece de vez em quando. A maioria das histórias mal terminadas costuma manchar a beleza da galeria. Por isso, algumas pinturas recebem uma segunda camada de tinta… embora raramente funcione.
Observei o lugar ao redor mais uma vez. Só então percebi algo em suas palavras.
— Galeria, é?
— Sim. — respondeu. — Este lugar é a linha tênue entre a realidade e a irrealidade. Onde vida e morte se encontram, onde sonhos nascem e onde as almas descansam.
Ele abriu os braços de maneira elegante.
— E também… a galeria pessoal do Criador.
— Criador? Tipo… Deus? — perguntei. — E quem é você? Trabalha aqui?
Ele parou por um instante diante de um quadro rachado, cruzando os dedos sobre o caderno.
— Não exatamente… Sou apenas um viajante na boleia do destino. Apenas mais um fio entre a tesoura e a navalha. Alguém como você, que se arrependeu de seus pecados. A diferença é que eu não tenho mais um lugar para ir ou chamar de lar.
Ele passou os dedos pela moldura velha de um retrato de uma dama, endireitando-o como se aquilo o incomodasse.
— Meu quadro foi removido há muito tempo.
— O Criador, vendo que eu não tinha mais um lugar, permitiu que eu ficasse aqui para organizar a galeria para Ele.
Ele voltou a caminhar.
— Pedir meu nome não adianta muito aqui… mas a maioria das pessoas que eu guiei acabou me chamando de… Curador da Galeria.
Ele riu levemente, como se achasse o nome curioso.
— Sei que parece mais um título… mas pode me chamar assim.
Fiquei em silêncio por um momento.
— Removeram seu quadro? Quer dizer que você não pode voltar?
— Exatamente. Quando o Criador não fica satisfeito com um dos quadros, ele é retirado da parede. Isso aconteceu comigo.
Ele ajusta a máscara.
— Inclusive… o seu estava quase sendo removido.
Meus movimentos hesitaram.
— Isso quer dizer que eu iria…
— Desaparecer? Provavelmente sim. Eu mesmo tive sorte de continuar aqui como Curador.
Ele disse aquilo com naturalidade, como quem comenta sobre o clima.
— Mas ainda bem que você se arrependeu a tempo, não é? — continuou. — Porém, aviso logo: apenas se arrepender não é suficiente para agradar o Criador. Ele é bem crítico quando se trata de repintar um quadro.
Ele fechou o caderno.
— A expectativa sempre é alta quando Ele decide dar uma segunda chance.
Permaneci em silêncio enquanto o seguia pelos corredores. As sombras se alongavam sobre o mármore branco, e cada passo ecoava como um sussurro distante.
— Curador… — comecei, hesitante. — Você parece conhecer minha história. O que acha? Realmente fui tão terrível assim?
Ele não respondeu imediatamente.
— Eu mereço uma segunda chance? O que preciso fazer para não decepcionar o Criador? E se eu fizer algo terrível de novo? Ou me esquecer da promessa?
Ele fechou o caderno com um leve estalo e parou diante de um quadro completamente em branco.
O ar parecia mais denso ali, quase carregado de expectativa.
— A tinta já foi removida — disse ele. — Este é o seu quadro.
Seus olhos, escondidos nas fendas da máscara, pareciam me analisar.
Ele coçou a cabeça, como se ponderasse as palavras.
— Bem… sobre suas perguntas…
Sua voz era calma, firme.
— Já vi todo tipo de história. Todo tipo de quadro. Mas ainda assim não conheço nem metade deste lugar.
Olhei para a tela em branco, tentando compreender o peso daquilo.
Meu coração batia mais rápido.
— A vida… — continuou ele — não é apenas escolher o que parece melhor. Você precisa sentir o que quer fazer… e agir pensando no que precisa fazer.
Respirei fundo, absorvendo cada palavra.
Ele observou um pequeno detalhe na parede antes de continuar.
— Você fez escolhas terríveis na sua primeira vida. Se arrependeu e vai tentar novamente. Só isso já é algo do qual se orgulhar.
Ele inclinou a cabeça.
— Se eu fosse você, apenas diminuiria essa antiga fome por poder… e tentaria focar em algo que te faça bem.
Fez uma pequena pausa.
— Um hobby, talvez… tricô?
Um riso involuntário escapou de mim — nervoso, mas aliviado.
— Tricô? É… quem sabe? Nunca fui uma pessoa boa… mas talvez isso me dê algum norte.
Ele assentiu lentamente e deu alguns passos para trás, anotando algo no caderno.
— Apenas mantenha a calma e siga em frente com fé.
Ele levantou o olhar para mim.
— Ah… e no caminho para cá, o Criador pediu para eu lhe entregar isto.
Um relógio de bolso flutuou de sua mão até mim, como se tivesse vontade própria.
Quando tocou minha mão, senti o metal frio e pesado. Ao mesmo tempo… era estranhamente familiar, como se sempre tivesse sido meu.
— Um último aviso… sempre que um quadro é repintado, um mal diferente surge para manter o equilíbrio. Seu mundo provavelmente enfrentará dificuldades por causa disso… então isto vai lhe servir muito bem.
Fiquei olhando para o objeto por alguns instantes.
— Hm… obrigado.
Virei-me para o quadro, vendo meu reflexo em seu vidro.
O Curador se inclinou levemente.
— De nada.
Sua voz ecoou suavemente pelo salão.
— Então… tenha cuidado e dê o seu melhor.
Fiquei em silêncio, absorvendo o peso de suas palavras.
O relógio pulsava levemente em minha mão, como se me chamasse para dentro daquele quadro.
Dei um passo à frente e entrei.
Antes de desaparecer completamente, ouvi sua voz ecoar uma última vez:
— Boa sorte, pequeno.
— E até a próxima…
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