Everything I could never tell you
2 Capítulo 2 - Never Break The Chain
Notas iniciais
O cubículo de Remus Lupin era como qualquer outro cubículo de um garoto de dezesseis anos que estudasse em colégio interno. A cama padrão, a cortina circular que dava privacidade quando precisasse, o beliche separado por estruturas mágicas que cortavam e alongavam a cortina para quando precisasse fugir de seu colega de cama que dormia na parte de cima. Na ponta da cama, um baú onde guardava seus pertences mais preciosos. Tudo que recolhia em suas aventuras possuía certo significado, lembranças boas e ruins, memórias que poderia visitar sempre que desejasse.
Bem em cima desse baú, um pacote dourado com fita vermelha piscava reluzente sob os raios solares de primavera. Remus correu para abrir o presente como quem corre de um detetive prestes a desmascará-lo; não porque fosse um crime, longe disso, mas a última coisa que gostaria era de que seus amigos o pegassem em momentos vulneráveis feito aquele prestes a acontecer. Sabia que os presentes de Sirius sempre seriam os melhores, mais bonitos e mais especiais, porque ele o entendia como ninguém.
“Moony? É você? Alô-ô!”
A voz que logo revelou-se ser de Peter Pettigrew apressou-o para abrir o pacote antes que o garoto chegasse aos pés da escada do dormitório masculino. Mas Remus esqueceu-se de tudo isso quando segurou o presente em suas próprias mãos; uma câmera novinha em folha. Uma câmera mágica, das que deixam as fotos se mexendo. Das que imprimem na mesma hora que são clicadas. Quando Peter achou-o, finalmente, o primeiro clique veio, com o susto.
“Ai! Por Merlim, Moony, meus olhos!”
“DESCULPE!”
“VOCÊ QUASE ME DEIXOU CEGO, SEU IDIOTA”
“Calma, Pete, é só o flash. Viu?”
Os olhos de Peter pararam de piscar para então apreciar o objeto. Era uma câmera de metal bruto, forjada por duendes da Cornuália. Talvez tenha lembrado disso por conta de uma propaganda qualquer numa revista semanal entregue no correio de Hogwarts.
“Uau”, Peter segurou a câmera finalmente, admirando-a, “Como conseguiu uma dessas?”
“Ganhei do meu pai”, mentiu, e nem soube ao certo o porquê.
“Que maneiro, cara! Vamos ter as melhores fotos de aniversário agora! Inclusive, já ia até esquecendo e olha que eu vim aqui te procurar pra isso”, deu risada, “Reservamos duas mesas no Três Vassouras para hoje a noite”
“Mas meu aniversário é só amanhã”
“A lua cheia também. E queremos ficar muito bêbados, largados no meio da rua sem lembrar do próprio nome. Não dá pra fazer isso enquanto cuidamos de um lobisomem que mistura álcool com poção repressora”
Remus tentou ficar bravo, mas foi tarefa impossível. Estava feliz. Feliz por celebrar aquele marco com seus amigos, feliz por perceber que sua condição nunca o havia impedido de ser querido e amado. Apesar disso, sentia-se mal, constrangido ao extremo, por ter ganhado aquela câmera fotográfica. Sabia que Sirius gostava de presentes caros, que dinheiro nunca fora um problema para ele, mas sabia também que não poderia retribuir com nada à altura quando chegasse os aniversários dos outros, quando chegasse o Natal e a formatura do ano seguinte. Respirou fundo e afastou o pensamento rapidamente.
“Tudo bem, me esperem lá embaixo que eu já vou”, e assim esperou que Peter tivesse sumido para então escolher algo que pelo menos parecesse menos surrado. Acabou por encontrar uma camisa de botões azul, uma calça de linho e tênis preto. Seus dedos pararam em cima do gaveteiro e seu coração congelou por alguns segundos.
Pensou em como era uma ideia tola aquela de se arrumar para um simples encontro com os meninos. Nunca havia precisado provar nada a eles e não seria agora que o faria. Ainda assim, puxou um pente em cima do gaveteiro e encarando o espelho ajeitou o penteado para uma diagonal esquerda. Guardou o pente no bolso da capa e vestiu-a já pulando os degraus para fora do dormitório masculino. E foi quase no mesmo instante que os seus amigos (não somente Peter e James, mas Sirius já havia voltado e dividia o sofá com Marlene e Lily) viraram o rosto para ele, cada qual com seu próprio olhar de surpresa e empolgação. Sirius assobiou fazendo arruaça; Marlene fez um sinal com os dedos (aquele sinal que chefs de cozinha fazem para elogiar pratos, patético, eu sei); Lily sorriu e James e Peter fizeram uma reverência.
“Ah, pelo amor de Deus, eu não posso me arrumar uma vez na vida?”
“Não é a roupa, monsieur”, James se levantou, em tom solene, “É a classe, o andar, o cheiro”.
“Cheiro?”, Lily franziu a testa. Todos os outros, até mesmo Marlene, demonstraram pânico. Remus anotou mentalmente para questioná-la sobre isso depois.
“Deve ser meu novo hidratante, Lil, pra você não é nada demais. Sempre usei na sua frente”
“Ei, isso foi uma cantada?”
“QUÊ?! NÃO, CLARO QUE NÃO. JAMES!”
Ele levantou a sobrancelha.
“Eu juro. Somos todos amigos e assim como eu, sei que nenhum de vocês faria isso. Agora, se o clima for ficar assim, quem não vai querer mais sair com vocês sou eu”. Remus então deixou a Sala Comunal para se dirigir ao corredor sozinho.
Sirius ficou bravo. Sem dizer nada, seguiu para alcançar o amigo. Peter deu uma olhada rápida em James, depois para a porta, depois para James de novo.
“Tá bom, eu vou lá falar com ele”
“Eu acho que todos nós deveríamos, na verdade”, pela primeira vez, Peter foi a voz da razão naquele grupo, “Esqueceram que tudo isso era pro aniversário dele, por Merlim!”
“Tem razão, Pedrinho, o show continua”, foi Marlene, com uma piscadinha e puxando Peter de um lado e Lily de outro, “Vamos todos celebrar”
E embora Peter tenha achado que a confusão havia se resolvido após um papo cheio de desculpas e abraços, não seria tão simples assim quanto imaginava. Era apenas o primeiro de muitos outros dias de confrontos entre seus amigos. Por alguma razão, algo acontecia, como um elo feito a diamantes, frágil e delicado, que começava a trincar, tendo apenas um vislumbre do que antes fora uma corrente indestrutível.
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