Everything Has Changed
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Entro em casa sorrindo como um abobado. Eu e a Lydia quase nos beijamos! Ok, quase, mas já é alguma coisa. É claro que eu queria ter beijado ela, mas não fiz isso por dois motivos:
1- Ela ia me bater
2- Ela está arrasada e não queria que ela pensasse que estava só me aproveitando da fraqueza dela
Fecho a porta e vejo que minha mãe está colocando calda de chocolate em cima de um bolo. Dou um breve aceno e passo por ela.
–Thomas, o que você tava fazendo?
Fui estudar com a Lydia, depois quase morri, levei um tiro no ombro, e agora to aqui.
–Eu tava estudando com a Lydia. – falo tentando parecer convincente.
–Até agora?
–Ela tava com muita dificuldade mesmo na matéria. – isso foi tão idiota. Nem eu mesmo acreditaria nessa mentira esfarrapada.
Minha mãe larga a colher e olha pro relógio da cozinha.
–São sete horas.
Engulo em seco. Eu sai de casa às três horas, nós paramos de estudar umas cinco horas.
–Escuta, eu não nasci ontem. – fala a minha mãe e abre um sorriso. –Vocês estavam em um encontro?
Meu rosto esquenta.
–Não!
–Meu filho, tá bem na cara que você gosta dessa garota. – fala ela. –Não é segredo pra ninguém.
–Mãe...
A porta se abre nesse momento e meu pai entra na sala. Vou agradecer ele pro resto da minha vida por ter interrompido, porque sinceramente eu não to com vontade de conversar. Meu ombro ainda dói e eu to cansado demais.
–O que não é segredo pra ninguém? – pergunta meu pai enquanto deixa a bolsa do trabalho em cima da cadeira.
–Eu tava falando pro Thommy que não é segredo pra ninguém que ele gosta daquela menina... A... Como que é o nome dela mesmo?
Eu tenho certeza que ela se lembra, mas tá afim de me irritar.
–É Lydia, mãe. – resmungo enquanto reviro os olhos. –Agora se vocês me dão licença, eu vou tomar um banho.
Vou pro meu quarto, pego minhas roupas já que agora que levei um tiro não posso sair andando sem camisa nessa casa, se não eles vão ver a cicatriz e isso não pode acontecer em hipótese alguma. Ligo o chuveiro e tiro o curativo pra poder lavar o ferimento da bala. O negócio tá feio demais. Lavo meu ombro cuidadosamente, ainda está muito sensível.
Saio do chuveiro, me visto e vou pro meu quarto. Encontro meu pai sentado na beirada da minha cama.
–Oi, pai. – falo e me aproximo dele. –Aconteceu alguma coisa? – já começo a ficar meio desesperado. –O senhor tá sentindo alguma coisa?
Ele solta uma risada.
–Eu to bem, Thomas.
–Certeza? – pergunto com a testa franzida.
–Absoluta. – responde ele me tranquilizando. –Eu queria falar com você da Lydia. Eu quero conhecer ela. Quero dizer, eu vi a menina na igreja e a mãe dela, mas nem conversamos.
Quase engasgo.
–Hein? Por que?
–Você gosta dela, meu filho. E ela parece ser boa pessoa. Ao contrário daquela Ashley. – ele faz uma cara de desgosto ao lembrar da ruiva.
Será que é tão óbvio assim que eu gosto da Lydia?
–Nem me fala dessa Ashley. – falo e então levanto uma sobrancelha. –Por que você quer conhecer a Lydia? Tipo, você já respondeu, mas não saquei ainda.
–É simples: eu não ando muito bem, você sabe disso. – diz ele dando de ombros. –E eu quero conhecer ela melhor, avaliar, dizer se acho se ela vale a pena ou não.
Solto uma risada.
–Ela vale a pena, pai. – falo com sinceridade. –Não tenha dúvidas.
Tenho vontade de contar que hoje ela entrou na minha frente para que eu não morresse. Aquilo lá nossa... não tenho nem palavras pra descrever como eu fiquei me sentindo quando aquilo aconteceu. Eu queria gritar pra ela sair, eu preferia levar dez tiros do que ela morrer por causa de mim, na verdade, prefiro levar dez tiros do que ela morrer.
–Então... que tal chamá-la pra um jantar ou coisa do tipo?
Dou risada.
–Ela não iria vir, sério. Qual seria o motivo do jantar? A gente não tem nada, ela vai achar esquisito.
–Inventa alguma coisa, filho. – fala o meu pai e ri. –Dá seu jeito.
Ele se levanta e coloca as mãos nos meus ombros. Reprimo um grito de dor.
–Se... se eu me for, eu quero ter certeza de que você será feliz, ou pelo menos tentar dar uma ajudadinha com as coisas. Sou o único homem que sobrou, tirando o seu irmão e sou seu pai afinal das contas. – diz ele.
–Pai, não fala isso. Você ainda vai viver muito. – falo mais pra mim do que pra ele.
–Espero que esteja certo. – diz ele com um sorriso. –Eu te amo, Thomas.
–Também te amo pai.
Ultimamente tantos ataques estão acontecendo com ele com tanta frequência, que pelo menos uma vez ao dia a gente fala isso um pro outro. Ele sai do meu quarto.
Me jogo na cama e fecho os olhos. O simples aperto que meu pai deu no meu ombro esquerdo foi o suficiente pra eu sentir uma dor lancinante. Não sei como vou fazer pra ir na escola amanhã, mas eu tenho que ir. Não tenho motivo pra não ir. Eu poderia inventar todo o tipo de coisa pros meus pais, mas eu tenho quase certeza que a Lydia vai e eu quero vê-la.
Abro um sorriso ao lembrar-me dela e de novo, do nosso quase beijo. Ela parecia tão assustada quando eu segurei o rosto dela. Será que ela nunca beijou alguém? Pela primeira vez paro pra pensar nisso. Será? Balanço a cabeça, isso não interessa. Qualquer tentativa minha de beijá-la e vou levar um soco, mas pelo menos eu sei que ela se importa comigo e isso já é o suficiente pra me fazer sorrir como um idiota.
Quando estou quase cochilando, minha mãe vem até o meu quarto.
–Você quer jantar? – pergunta ela.
–Não, mas valeu.
Eu só quero dormir, por mais que seja cedo. Ela se aproxima de mim e coloca a mão na minha testa e então, afasta-a.
–Você está se sentindo bem?
–Aham, por que?
–Você tá meio abatido.
Ela não pode saber de nada.
–Eu to só com um pouco de dor de cabeça. – respondo, não é totalmente mentira. De verdade, minha cabeça lateja. –Acho que vou tomar um remédio e dormir.
Não sei se é uma escolha sábia, já que hoje não foi um dia, digamos, agradável. Nunca vou esquecer o momento em que uma arma foi apontada pra minha cabeça. Posso ter pesadelos.
–Você não ia no cinema com a Laura?
Droga, tinha esquecido que ela ia fazer isso hoje. O aniversário dela é hoje, eu já dei parabéns é claro.
–Vou ligar pra ela. – falo. –Ela vai entender.
Minha mãe assente e sai.
Laura faz aula de violão comigo e é minha amiga, embora não tenhamos tanta coisa em comum assim. Por exemplo, ela é popular, bem rica, o pai dela é dono de uma boate famosa aqui e em outras cidades, e ela não se importa tanto em estudar. Pra ela é mais na base da curtição, mesmo assim nós somos amigos há um certo tempo. Já tive uma quedinha por ela quando a gente se conheceu no ano passado, mas não foi nada sério. Acontece que ela é super bonita e legal, então já viu. Mas a gente só ficou uma vez e depois continuamos amigos e não tocamos no assunto. Nem faz tanto tempo assim que isso aconteceu, foi no começo do ano. Ela tinha acabado de terminar com um namorado dela e estava inconsolável. Eu também não estava lá no meu melhor momento e a gente deu um beijo numa festa e só. Foi no calor do momento.
Pego o celular e disco o número dela. Ela atende.
–Oi, Laura. – falo.
–Oi, Thomas.
–Desculpa, mas não to passando muito bem e não vai dar pra ir com vocês no cinema. – falo. –Tudo bom por você?
–Poxa, Thomas. Mas tudo bem, melhoras. Hoje não vai ter quase nada mesmo. Só chamei o meu namorado e o povo da aula de violão pra ver um filme.Nada demais.
–Desculpa mesmo, Laura.
–Tá beleza. Você vai na festa sexta, né?
O pai dela vai fechar a boate só pra festa dela. Ela vai chamar acho que todo mundo do segundo ano da escola dela, eu e mais alguns amigos. Ela tem muitos amigos, pelo menos companhias. É impressionante. Não tem uma vez que você a vê num shopping sozinha. Mesmo assim eu tenho a impressão de que ela é meio solitária, como se a maioria dos amigos dela só andassem com ela por interesse.
–Pelo que eu sei, sim. – falo rindo. –Pelo menos eu estou contando que vou. Só se acontecer um apocalipse zoombie.
Laura ri.
–Se tivesse um apocalipse zoombie ia ser demais! – ela é viciada nessas coisas ligadas ao sobrenatural. –Eu tenho que ir, se não vamos chegar atrasados pra sessão.
–Ok então, tchau.
–Tchauzinho.
Ela desliga a chamada e coloco o celular embaixo do travesseiro. Deito com a barriga pra cima para evitar possíveis dores no ombro e fecho os olhos. Geralmente o que vem na minha cabeça ultimamente é o rosto da Lydia. Sendo rindo ou revirando os olhos. Hoje é ela com seus olhos cheios de lágrimas. Até então nunca tinha a visto chorar, mas quando ela virou pra falar comigo na hora que ela disse que eu era o namorado dela (esse foi de longe o ponto alto do meu dia!) eu vi as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Descobri não gosto de vê-la chorando, nem um pouco.
Abro os olhos, então logo volto a fechá-los, o cansaço me invadindo. Então vem a imagem daquele nojento, o tal do Arnaldo. A arma apontando pro meio da minha testa. Abro os olhos de novo, nervoso. Não sei se serei capaz de dormir. Me ajeito na cama, mas não me sinto nada confortável. Pego o celular e mando uma mensagem pra Katherin.
Eu: Katherin, preciso da sua ajuda.
Katherin: Oi. Ajuda pra...?
Eu: Me passa o número da Lydia?
Se eu pedisse pra Lydia alguns dias atrás, com certeza ela ia dizer não e até agora eu não tinha tido a ideia de pedir o celular dela.
Katherin: Vish, não quero arrumar confusão com ela
Eu: Ela que arrume barraco comigo depois, é importante
Katherin: mas tipo, vocês vivem no mesmo prédio, por que não vai falar com ela??
Não faço ideia do por que não faço isso.
Eu: Passa aí o numero dela fazendo o favor
Katherin: Tá
Ela seleciona o contato e me manda. Agradeço-a e então fico olhando pro número da tela, o número da Lydia. Quero ligar pra ela, mas não sei o que falar. Então clico na tela e coloco o celular no ouvido.
–Alô?
–Lydia, é o Thomas...
–Só um minutinho. – fala ela.
Faço que sim com a cabeça. Meu coração tá batendo diferente só de ouvir a voz dela.
–Pronto, eu tava no quarto da minha mãe, ela já tá dormindo. Não queria acordar ela.
–Entendo... Eu também estaria dormindo agora, mas eu não to conseguindo.
Ela solta uma risada e eu abro um sorriso.
–Também não to. Ei, como você conseguiu meu telefone?
–Pedi pra Katherin.
–Vou matar aquela menina! – fala ela, mas percebo que não está tão zangada como aparenta. –Enfim, por que me ligou?
–Não sei, eu só não consegui dormir e pensei em falar com você. Mas se você quiser ir dormir e me deixar com meus problemas, beleza. Sua cara fazer isso.
Acho que falei o que não devia, porque ela fica uns segundos sem falar nada.
–Lydia, eu...
–Cala a boca, Thomas. – agora ela tá irritada de verdade.
–Você tem algum tipo de bipolaridade? – pergunto realmente curioso.
–Vai te catar!
E ela desliga, assim, do nada. Essa garota é complicada, não tem outra explicação. Tento ligar de novo, mas ela não atende, mas eu quero saber o que eu fiz de errado. Então eu vou no Whats App e clico nela.
Eu: Lydia, que que eu te fiz?
Ela tá online, só não sei se vai responder.
Lydia: Você ainda duvida das coisas? Fala sério.
Eu: Coisas? Que coisas?
Lydia: Eu não sei se você se lembra, mas eu te defendi de todas as maneiras possíveis pra você não morrer.
Eu: Claro que eu lembro...
Lydia: E daí você com papinho de que eu to lavando as mãos pra você. Quer saber de uma coisa, eu deveria mesmo. Não sei o que me deu na cabeça pra te defender daquele jeito!
Ouch, essa doeu.
Eu: Desculpa, então.
Ela não responde e acho que não vai mesmo responder.
Bloqueio o celular e coloco-o embaixo do travesseiro. Vai ser uma noite longa.
Lydia e eu estamos dentro de uma salinha pequena, eu sentado em uma cadeira, ela em outra. Nossas mãos estão para trás, presas por uma corda resistente. Nossos pés estão da mesma maneira. Nossas bocas estão tampadas com um pano para que ninguém possa nos ouvir. Me debato, ela também, mas não adianta nada. Olho pelo canto do olho para ela e vejo que está de olhos fechados, provavelmente rezando. Quando vou fazer o mesmo, entram Arnaldo e seus dois capangas: Machado e Carlão.
–Vejo que ainda estão aqui. – fala Arnaldo com sarcasmo. –Nós tivemos uma ótima ideia.
Resmungo um “Que ideia?”, mas não falo realmente, porque o som simplesmente não sai da minha boca.
–Você, menino, pode participar da nossa quadrilha e se recusar, nós te matamos. – diz ele dando de ombros. –Já a minha sobrinha é inútil aqui. – diz Arnaldo normalmente, sem nenhum momento de hesitação. –Vamos matá-la.
Meu coração acelera mais, se é possível. Começo a me debater de novo, numa tentativa totalmente inútil de me livrar das amarras e dar um jeito de salvar a Lydia. Mas eu não consigo, é tudo em vão. Vejo-a com os olhos arregalados de pavor e então, ouço um estampido e abro os olhos.
Estou suando como um condenado e meu coração bate a mil. Quando eu disse que podia ter pesadelos, eu não podia estar mais certo. Minha respiração é pesada e arfo, não sei como não gritei. Coloco a mão na testa e sinto as gotículas de suor. Pego o meu celular e vejo que ainda são onze horas da noite. Não é tão cedo, mas também não é tarde. Eu peguei no sono umas sete e meia e já tive mais de um pesadelo, mas o único que eu consegui acordar foi esse.
Tenho uma necessidade absurda de falar com a Lydia agora mesmo, mas eu não posso ligar pra ela agora, ela com certeza está dormindo. Vou cambaleante até o banheiro, ainda afetado por causa do pesadelo. Abro a pia e jogo água no rosto.
–Ela está bem. – repito pra mim mesmo. –Ela está bem.
Volto para a cama e me recuso a fechar os olhos. Se for pra eu ter mais pesadelos, eu prefiro nem dormir. Ligo a luz e a princípio, espremo os olhos por causa da claridade, mas logo meus olhos se acostumam à luz. Então saio do quarto e ando silenciosamente pelo apartamento até chegar na sacada. Abro a porta de vidro e vou para fora. Sinto um vento frio, mas não me importo. Aqui estou me sentindo bem melhor do que no meu quarto. Os postes de luz estão ligados e não tem quase ninguém na rua. A sacada do meu apartamento tem uma tela, então deixo o queixo apoiado na sacada, olhando para baixo e tentando normalizar meus batimentos cardíacos. Depois de uma meia hora, fecho a porta de vidro e volto para o meu quarto, desligo a luz, mas fico com os olhos abertos.
Quando finalmente não aguento mais e fecho levemente os olhos, pego num sono bom e sem nenhum sono e felizmente, nenhum pesadelo, então o despertador do meu celular começa a tocar e me sento na cama, assustado. Acabo tombando pra fora dela e batendo o ombro no chão. Solto um grunhido de dor, desligo a droga do despertador e esfrego os olhos com as mãos. Parece que eu dormi por três minutos, mas foram mais de quatro horas.
Pego a roupa pra escola e vou pro banheiro. Tomo banho pensando nos pesadelos e me perguntando como será que a Lydia está. Desligo o chuveiro e coloco as roupas. Vou pra cozinha e vejo minha mãe preparando o café. Vou até ela e dou um beijo em sua bochecha.
–Bom dia, Thomas.
–Bom dia, mãe. – sento na bancada e pego uma xícara.
Minha mãe coloca a cafeteira em cima da mesa e coloco café.
–Dormiu bem? – pergunta ela com a testa franzida. –Você parece ainda mais abatido do que ontem.
Cara, como que as mães percebem as coisas tão bem? Tomo um gole do café antes de responder.
–Não dormi muito bem. – falo dando de ombros.
–Mas ontem você já não tava com uma cara muito boa. – fala ela preocupada.
Conto até dez mentalmente, tentando formular uma boa mentira.
–São as provas. – eu preciso imediatamente de umas aulas de como mentir bem, porque sério, até eu não acredito em mim mesmo. –Muita coisa, muita pressão. – ela levanta uma sobrancelha. –Você sabe, vestibular ano que vem.
–Mas você nem tocou na palavra “vestibular” comigo nesse ano! – fala ela desconfiada.
–Pra você ver, esse negócio faz tanta pressão na minha cabeça, que nem consigo falar sobre! – falo balançando a cabeça, parecendo frustrado.
Antes que ela possa falar mais alguma coisa, vou pro meu quarto, soco os materiais de qualquer jeito na mochila e calço os tênis. Coloco um moletom e volto pra cozinha. Ela continua no mesmo lugar.
–Tchau! – falo e saio de casa, apressado.
Vou até a garagem. Olho pra bicicleta, a bicicleta olha pra mim e eu reviro os olhos. Sei que vai doer se eu for com ela na escola, mas o que mais eu posso fazer?
–Thomas! – é a voz da Eloisa, a mãe da Lydia.
Viro-me para ela. Lydia está ao seu lado, e pareço ter tirado um peso das minhas costas, ela tá bem. Abro um sorriso largo. E então me lembro da discussão desnecessária de ontem à noite. Tem discussões que eu sei que é culpa da menina, ela teima com tudo, sério. Mas ontem fui eu quem pisou na bola.
–Oi. – falo dando um aceno.
A Lydia revira os olhos apenas. Ela também não parece estar em seu melhor dia. Está com olheiras e seus olhos estão vermelhos. E eu chego a uma conclusão: preciso aprender a controlar meus batimentos cardíacos quando eu a vejo. Sério, um dia eu vou acabar tendo um enfarte e a cota de enfartes na minha família já tá grande.
–Você está melhor? – pergunta a mãe dela se aproximando.
–Sim e vocês?
–Melhor na medida do possível. – fala a mãe dela, mas só pela cara dela dá pra ver que não tá nada bem, obviamente não falo nada. –Você quer uma carona?
A Lydia dá uma cotovelada na mãe dela e Eloisa olha feio pra ela.
–Não precisa... – começo a falar.
A mãe dela me interrompe.
–Precisa sim, vamos lá. – insiste ela.
Faço que sim com a cabeça.
–Esperem só um minutinho, vou tirar o carro da garagem. – diz ela.
Então ficamos eu e Lydia na frente do prédio e ela olha pra direção oposta de onde estou. Minhas palmas da mão começam a suar e seco-as na calça jeans. Abro a boca pra falar, mas então fecho-a. Dou um passo e loco recuo.
–Hey... Oi. – dou um tapa na minha testa como punição, pareci um idiota falando agora. Ela não responde. –Olha, Lydia, não foi a minha intenção magoar você ontem.
Ela se vira para mim, os braços cruzados.
–Na verdade, eu nunca tenho intenção de magoar. – falo com sinceridade. Suas bochechas ficam coradas e dou mais um passo pra frente. –E a gente passou por tanta coisa ontem... será que não dá pra você dar uma trégua?
–Trégua? – repete ela. –Eu não fiz nada pra você, você que fica falando besteira. – diz Lydia. –Sabe, Thomas, eu me arrisquei muito ontem e você veio falando que eu sou egoísta e que não to nem aí? Se eu não tivesse um pingo de consideração, eu deixaria meu tio te matar.
E sim, realmente falei, sei que falei besteira. Ela entrou na minha frente pra eu não morrer e eu disse que ela não tá se lixando pro que acontece comigo ou deixa de acontecer. Além disso, acho que não é aconselhável chamar uma garota de bipolar.
–Será que dá pra me desculpar? – pergunto.
Como ela não responde e se vira pro outro lado de novo, eu puxo-a pelo seu pulso e ela acaba de frente comigo de novo. Meus batimentos logo voltam a acelerar. O rosto dela fica vermelho e coloco uma mão na sua cintura, sem pensar. Solto o seu pulso e seguro o seu rosto, puxando-a para mim. Ela me olha completamente assustada e inclino meu rosto na direção do seu. Nossos narizes roçam levemente.
–O que me diz? – pergunto numa voz quase inaudível.
–O que raios você pensa que tá fazendo? – pergunta ela com a voz falha e sinto sua respiração no meu rosto. Eu vou perder o controle se continuarmos tão próximos desse jeito. Já ia responder, mas ouvimos o som da buzina do carro da mãe da Lydia. Ela se afasta de mim andando apressadamente. Meu rosto está quente, provavelmente muito vermelho. E eu nunca a vi tão vermelha desse jeito.
Pelo visto a mãe dela tava sem o controle e buzinou pro porteiro abrir o portão. Espero que ela não tenha visto a cena de segundos atrás.
A mãe dela aparece com o carro e Lydia entra rapidamente, sentando no banco da frente. Entro no carro, meu coração ainda bate como se tivesse dançando samba, funk e pagode ao mesmo tempo.
Não falo nada no caminho, a Lydia também não.
–Boa aula pra vocês dois. – fala a mãe dela quando chega na escola.
–Obrigado. – falo no mesmo tempo que a Lydia fala “Obrigada.”
A mãe dela sorri e eu saio do carro. Lydia vai andando apressada na frente. Abro um sorriso apesar de tudo e vou para a sala. A Lydia não deve estar com vontade de não ver nunca mais na minha cara por conta da vergonha. Ela se senta na frente da Katherin como sempre e eu na sua frente.
–Oi, Thomas. – cumprimenta a Katherin.
–Oi.
–É impressão minha ou vocês vieram juntos?
–Infelizmente, não é impressão sua. – resmunga a Lydia.
–O que eu perdi? – pergunta a Katherin curiosa.
–Absolutamente nada. — fala a Lydia rápido demais, parece que ela não mente muito bem também.
Katherin levanta uma sobrancelha.
–Certeza? Ou você não quer falar?
E é aí que eu entro em ação.
–Ontem quando a gente foi estudar, eu acabei caindo da bicicleta e a Lydia caiu junto. – falo tentando parecer o mais confiante possível.
Lydia segura o riso, Katherin parece estar preocupada.
–Daí eu fiquei com um forte hematoma no ombro, e tá doendo até agora. – falo fazendo uma expressão de dor. –Então a mãe dela me ofereceu uma carona.
Katherin parece desconfiada, mas não fala nada. Lydia vira-se e me pega observando-a, o rosto dela fica corado e tenho uma vontade imensa de apertar suas bochechas. A gente fica assim, só se olhando e isso é estranho e bom. Ela não consegue desviar o olhar dos meus olhos e eu também não consigo.
–Hum... então,você me perdoa? – pergunto ainda olhando-a nos olhos.
A minha vontade é segurar o rosto dela e terminar o que começamos na frente do prédio antes de a mãe dela buzinar.
–Não sei. – responde ela. Eu não desvio o olhar e seu rosto fica cada vez mais vermelho. –Por que você tá me olhando assim? – pergunta ela com a testa franzida. –Tem alguma coisa no meu cabelo? – ela começa a passar as mãos na cabeça e por um impulso, puxo a sua mão e seguro-a entre as minhas.
Minha pele começa a formigar.
–Não. – falo. –Não tem nada com o seu... o seu cabelo...
Inclino o meu rosto em sua direção.
–Bom dia, turma! – fala Amy entrando na sala.
Lydia puxa sua mão da minha me olhando como se eu fosse doido. Eu adoro a Amy, mas estou com uma vontade enorme de fazer ela desaparecer. Ainda estou de frente para a Lydia, então inclino meu rosto na direção do seu, mas dessa vez minha intenção é beijar sua bochecha, é o que resta. Faço isso e ela me afasta até que educadamente.
–Você tem que parar de fazer isso. – fala ela.
–Isso o que?
–Parar de me beijar. – diz ela constrangida.
Abro um sorriso.
–Acredite, quando eu realmente te beijar e você descobrir o quão bom é, não vai querer que eu pare nunca.
Ela fica vermelha mais uma vez, mas consegue revirar os olhos. Viro-me para frente e Amy começa a explicar a matéria.
–Amanhã é o show de talentos. – fala a Katherin.
Nós dois estamos dentro da sala do inglês.
–A gente precisa fazer alguma coisa pra vender. – fala ela e assinto. –Acho que o que dá pra gente fazer rápido é doce.
–Falando em doce... – falo já sorrindo ao ver Lydia entrar na sala.
Katherin chama-a com um aceno e ela chega perto de nós.
–Estávamos falando que amanhã é o show de talentos e que precisamos fazer alguma coisa pra vender. – fala a Katherin.
–E o que decidiram? – pergunta a Lydia trocando o peso do corpo de um pé para o outro, mal olhando pra mim. Eu até que entendo-a, ela é toda na defensiva e hoje nós ficamos próximos como nunca antes.
–Fazer doces. – respondo.
Ela faz que sim com a cabeça.
–Mas que horas? Porque hoje nós temos teatro. – fala ela pensativa. –Teria que ser depois, só que acaba oito horas.
Nós três ficamos em silêncio, então tenho uma ideia.
–Vocês podem ir lá em casa depois do teatro.
Meu pai queria conhecê-la e não vejo melhor oportunidade do que essa. Lydia parece pensar por um momento.
–Não vai atrapalhar sua mãe?
Faço que não com a cabeça.
–Só tenho que ver com a minha mãe, mas acho que ela deixa. – fala a Katherin.
–A minha também. – diz Lydia, mas não parece muito contente com a ideia. Então ela franze a testa, parecendo se lembrar de algo importante.
–Que foi? – pergunto.
–A gente tem que chegar no teatro dez minutos depois que sair daqui! – fala ela. –Como faremos? A minha mãe não vai poder me levar hoje e de qualquer modo, acho que de carro ia demorar mais.
–Damos um jeito. – falo e ando até ela. Passo o braço ao redor de seus ombros.
Lydia me olha com um ódio mortal, mas não solto-a.
–Dá pra me largar ou tá difícil? – fala ela, delicada como sempre.
–Tá muito difícil, você não faz ideia.
Ela revira os olhos, corada de novo. Parece que ela sempre fica vermelha quando eu lanço minhas indiretas, que sejamos francas, são bem diretas.
–Bom, se tá difícil, é melhor que fique fácil. – dispara ela. –Me larga agora, Thomas. – fala ela com raiva.
–Não. – falo rindo e pego-a em meus braços.
Ela começa a me estapear, se debatendo.
–Não tem graça! – grita ela. –Thomas, para com isso agora! O que você tá...?
–Cala a boca e me beija, garota. – falo sem rodeios.
Agora tem um montinho em torno de nós dois, Katherin só faltando dar pulinhos de entusiasmo.
Lydia tem uma tonalidade da cor de molho de tomate misturado com pimenta.
–Me põe no chão agora! – grita ela, se debatendo. Sinto suas unhas cravarem no meu braço, vai ficar com marcas.
Inclino meu rosto na direção do seu pela terceira vez no dia.
–Você quer o meu beijo, por que não faz isso logo? – falo baixinho. Perdi a noção do perigo, eu sei. Ela nunca deu indícios de que quer me beijar, mas eu suponho que ela queira e muito.
Então ela faz uma coisa surpreendente: ela consegue se livrar de mim e quando consegue fazer isso, me dá um chute que, sem exagero, seria capaz de me lembrar do dia que eu nasci. Tá doendo tanto, mas tanto, que eu começo a gritar.
–Você é louca! – grito.
Todo mundo olha chocado pra Lydia.
–Na próxima vez que você fizer graça com a minha cara, eu juro que eu te mato! – fala ela e se afasta de mim.
O professor logo chega, eu fico com dor pelo resto da tarde e não vou atrás da Lydia porque eu tenho amor à minha vida.
Katherin, Lydia e eu (tomei bastante cuidado em ficar numa distância segura da garota) saímos correndo como loucos pela rua. O problema é que começou a chover e não trouxemos guardas chuvas. Lydia escorrega e quase cai no chão, pego-a a tempo, ela murmura um “valeu”, mas logo trata de se afastar de mim.
Chegamos na porta do teatro e ficamos embaixo do grande toldo, arfando.
Então vejo Laura andando, a diferença é que ela tem um guarda-chuva em uma mão e sacolas na outra. Ela me vê, se aproxima e joga as coisas no chão, sem brincadeira. Laura vem correndo até mim e ela dá um beijo na bochecha. Sem querer viro o rosto um pouco e nossos lábios se encontram por um milissegundo. Meu rosto esquenta. A menina que eu gosto tá aqui do lado.
–Ops. – diz ela rindo.
Olho pro lado, Katherin e Lydia olham pro teto. Daria tudo para estar na mente da Lydia e saber no que ela está pensando sobre isso.
–Hum... essa é a Laura. – falo pra elas. –Essa é a Katherin, e essa é a Lydia.
Lydia cumprimenta-a com um sinal com a cabeça.
–Thomas, desculpa pelo beijo. – fala Laura.
–Ele é seu namorado, não tem que se desculpar. – fala a Katherin, parecendo ressentida por eu não ter contado da minha suposta namorada e também porque ela parece torcer para que eu e Lydia fiquemos juntos.
Laura vira-se para ela com um sorrisinho.
–Thomas não é meu namorado, embora beije muito bem.
De novo, sinto o rosto esquentar.
–Bom, Laura. Eu tenho que ir pra aula de teatro. A gente se vê por aí. – falo.
Ela faz que sim com a cabeça.
–Thomas, depois tenho que falar com você.
–Falar, sei... – fala a Lydia rindo.
Tenho vontade de ir nela e fazer ela calar a boca, mas me contenho. Laura pega as coisas no chão e vem até mim de novo.
–Gabriel terminou comigo. – diz ela e pela primeira vez noto que seus olhos estão vermelhos.
–Sinto muito. – falo com sinceridade.
Ela dá de ombros e força um sorriso.
–Ele era idiota. – fala ela, mas assim ainda assim não parece nada bem.
–Você ainda vai achar alguém bom pra você. – falo.
Ela abre um sorriso.
–Espero que esteja certo. – ela dá um beijo na minha bochecha e se vira para as meninas. –Bom, eu to indo, prazer em conhecê-las. – então ela se afasta.
Fico chateado por Laura, ela já teve uns três namorados esse ano e não é porque ela é como Amanda ou coisa do tipo, ela simplesmente acha que encontrou a pessoa certa e é isso. Ainda me sinto um pouco constrangido pelo nosso selinho de minutos atrás.
Nós três entramos no edifício.
–A Laura não me é estranha. – comenta a Katherin.
–Gente, vamos logo se não a gente atrasa. – fala a Lydia. –Sabe que horas são? Faltam só dois minutos!
Posso estar louco ou talvez só ache isso porque eu gosto muito dela e por querer que ela goste de mim também, mas parece que ela não tá muito afim de falar da Laura. Decido alfinetá-la pra ver sua reação.
–É que a Laura é muito gata, daí quando vê ela uma vez não esquece do rosto nunca mais.
Lydia apenas revira os olhos.
–Se não querem me ouvir, ok. Eu vou entrar. – diz ela e entra no teatro.
Katherin me puxa pelo pulso.
–Que foi? – pergunto.
–Eu sei que você gosta da Lydia, isso é bem óbvio, mas acho que você forçou a barra hoje na escola. – fala ela.
Se a Katherin tá falando isso é porque a coisa tá feia pro meu lado mesmo.
–Você acha? – pergunto já sabendo a resposta.
Ela faz que sim com a cabeça.
–Thomas, a Lydia já é meio temperamental com você e você vai fazer isso... Ela deve estar se sentindo muito envergonhada. Você sabe, ela não é o tipo de garota atirada e tudo mais.
Lydia está bem longe de ser atirada. Tem tanta garota naquele colégio que na primeira vez que me vê só falta me agarrar. A Lydia não... Ela ficou na retaguarda o tempo todo, desde o primeiro dia que eu a vi. Confesso que eu gostei do jeito dela e então ela esqueceu o caderno e descobri que ela tava morando no mesmo prédio que eu. Não fui só pra devolver o caderno, eu só não conseguia tirar ela da minha cabeça. E eu ainda não consigo parar de pensar nela a todo momento.
–Eu sei, eu não penso assim dela.
Katherin sorri.
–Eu sei que você não pensa assim dela, só que talvez ela ache que pense, eu não sei. Só sei que você fez graça com a cara dela hoje na frente de todo mundo.
Faço que sim com a cabeça.
–O que eu faço pra concertar?
–Não fica tentando beijar ela, pelo menos não em público. – fala a Katherin e me dá um tapinha no braço. –Mas se for beijá-la, prepare-se pros hematomas.
Nós dois rimos.
–Você acha que ela gosta de mim? – pergunto com expectativa.
Katherin ri.
–Acho que você já sabe a resposta, mas não se entusiasme muito não. Com a Lydia, nada é certeza. – debocha ela e dá um tapa de brincadeira no meu ombro do tiro.
–Ai!
Ela franze a testa.
–Que foi?
–Nada, é o ombro que eu caí ontem. – minto.
–Ah, desculpa.
–Beleza. – falo. –Obrigado por me dar um toque sobre o que eu fiz hoje.
–De nada. – diz ela e entramos no teatro.
Recebemos um xingo leve do professor, porque estamos dois minutos atrasados e Lydia levanta uma sobrancelha como se dissesse “Eu avisei.”
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