Everyday is Halloween
4 Nós somos os Mortos
O tilintar das chaves fez um pequeno eco pela sala de estar dos Cartmans. O calor do interior da casa era um alívio para o corpo e a alma, Henrietta chegava a esfregar os braços enfaixados para atrair todo o calor pra si. Enquanto isso, Eric pendurava ao lado da porta o seu molho de três chaves.
A sala de estar tinha uma decoração simples. Tirando as paredes ridiculamente amarelas e o carpete verde vibrante, conseguia ser uma sala muito parecida com a dela própria. Mesmo os quadros de Eric com sua mãe pendurados pelos cantos a lembravam de sua casa, excluindo o fato de que nas fotos dos Cartmans não havia a presença de um pai.
Começava a conhecer um lado de Eric que não era tão comentado quanto suas atrocidades. Mais do que isso: começava a se identificar. Coexistir com um pai ou uma mãe no mesmo espaço não significava que estes eram realmente presentes, ou que eram bem sucedidos em educar. E mesmo que Henrietta tivesse um pai, não sentia como se de fato tivesse um.
— Bela imagem do JC. — a gótica apontou para uma figura de Jesus crucificado acima do sofá.
— É, minha mãe é bastante católica. — apagava da testa o desenho que dava uma ponta central ao seu cabelo. — Não te faz sentir como se estivesse queimando?
— Nah. — deu de ombros, não se importando com a provocação sobre sua antiga crença.
Assim como ela havia posto seus cabelos de volta ao normal anteriormente, Cartman bagunçava o próprio cabelo. Uma tentativa de se sentir menos vampiro e mais ele mesmo. Mesmo o pó que dava palidez à sua face ele retirava, depois de algum tempo tinha começado a incomodar.
Ao pensar nas circunstâncias atuais, uma euforia repentina cresceu dentro dele. Foi até as escadas para o andar superior a passos largos. Não era a primeira vez em que trazia uma garota para passar algum tempo em sua casa, mas todas as ocasiões anteriores terminaram em desastre. Estava decidido a fazer diferente dessa vez.
— Ei — ouvir Henrietta ainda na sala o fez parar no meio da escada. Pensava que seria seguido. — Ainda tem doces aqui.
Não compreendendo, Eric se virou para ver do que ela falava. A gótica se encontrava parada ao lado de uma mesa de canto, que suportava uma grande tigela de porcelana decorada. Uma pequena quantia de doces que não foram pegos estava largada no centro, apenas esperando para ser devorada.
— Pega isso também — alertou agarrado ao corrimão, indicando que queria ir logo.
O olhar com um tipo benigno de ganância: esta foi a reação de Henrietta ao recolher tudo o que tinha naquela tigela rapidamente, chegando a ser difícil carregar estes com os doces que já tinha. Apressadamente, foi atrás dele pelas escadas até chegarem ao andar de cima.
Irromperam pelo quarto de Eric como se suas vidas dependessem disso. Um cômodo particularmente aconchegante, com menos decorações do que teria anos atrás, mas nenhum dos dois estava dando atenção aos detalhes. Correram diretamente até a cama de solteiro arrumada, onde despejaram uma infinidade de doces em papéis coloridos até que se misturassem.
Desde balas até caramelos e chocolates, aquele pequeno mar de açúcares era de encher os olhos. Admirar a pilhagem adquirida e trocar o que não se gostava pelo que se gostava era uma das melhores partes.
— Pronta para ter diabetes? — perguntou Cartman em tom de desafio, tateando os doces junto a ela e tentando decidir por onde começar.
— Vai valer à pena. — escondia perfeitamente seu ânimo sob o véu pouco expressivo como a boa gótica que era. Entretanto, esconder o ânimo não era o bastante para silenciar a criança que acordou dentro de si. — Aí, aposto que consigo comer esses três chocolates em 30 segundos.
— Eu consigo em 20 — pegou na pilha chocolates do mesmo modelo, na mesma quantidade. Aquilo era mesmo uma competição?
Ok, aquilo era mesmo uma competição. Desembrulharam e devoraram os mesmos doces numa velocidade desnecessária e desesperada, levando Cartman a rir da cara dela quando a viu não conseguir mais mastigar. Era um chocolate de qualidade duvidosa, daqueles que grudavam no céu da boca, e ele mesmo não conseguia fazer mais nada senão rir com boca quase fechada.
Com muito custo conseguiram se livrar da teia pegajosa atrás de seus dentes, estabelecendo um empate. Enquanto Cartman ainda gargalhava com menos forças do que antes a gótica estava vermelha até as orelhas, cobrindo a boca para evitar a própria risada.
Nada disso foi um desestímulo para pararem de comer. É claro que não. Deixaram seus baldes vazios sobre o criado mudo junto a um abajur e pegaram alguns doces com as mãos, indo para pontos diferentes.
A garota passou a andar casualmente pelo quarto. Como uma crítica de arte, reparava visualmente em todas as coisas. Eric nem se importava com a gótica estar sendo folgada, estava contente por ela se sentir à vontade a esse ponto. Também não costumava ser dos mais comportados quando o assunto era ir à casa dos outros.
— As presas não incomodam, sanguessuga? — Henrietta perguntou antes de levar um chiclete ácido à boca, debruçando-se para olhar no visor do telescópio em frente à janela.
— Menos do que deveriam. — Eric respondeu sentando-se na cadeira do computador. Depois de uma caça aos doces agitada, um descanso justo. — Você acostuma depois de um tempo, é como se não estivesse usando nada.
— Pois é, quem sente é quem está por perto. Ninguém merece te ouvir falando como se estivesse com um tentáculo na boca.
— E olha que eu estava pensando em tirar, mas já que te incomoda — enfiou na boca uma quantidade considerável de candy corns, deixando a mastigação fazer bastante barulho. — Vou continuar usando.
Erguendo-se do telescópio e fazendo uma mínima expressão de desgosto por vê-lo falar de boca cheia, Henrietta mostrou para ele o dedo médio. Continuando com os sons irritantes de mastigação e fazendo uma semelhante cara irritada, Cartman correspondeu com o mesmo gesto.
Tentando ignorar os sons feitos propositalmente para incomodá-la, a gótica continuou seu tour visual pelos “aposentos do Mago” – ou foi o que pensou assim que percebeu o chapéu pontudo e azul com uma estrela bordada pendurado na cabeceira da cama. Se lembrava bem de quando uma novata com o hábito estranho de se vestir de garoto conseguiu convencer a ela e aos seus amigos que era gótica o suficiente, levando-os a participar de uma brincadeira medieval tosca ao lado dos Humanos. Sequer pôde conversar com Cartman na ocasião, não tiveram tempo para isso em meio à “batalha”.
Também viu o familiar casaco vermelho, pendurado bem na cadeira do computador. A touca azul de todos os dias, apoiada desleixadamente na escrivaninha. Se também tivesse visto a máscara do Coon, teria sido uma verdadeira viagem na nostalgia.
Tirando a cor das paredes, que eram um roxo tão elegante que a fazia pensar sobre reformar o próprio quarto, os aposentos de Eric não tinham nada de tão especial. Era bem diferente do dela, que tinha tantas decorações macabras que já não sabia mais onde colocá-las. Seus antigos brinquedos estavam em algum lugar no lixão da cidade, quebrados por ele mesmo quando seus colegas de classe exigiram que ele precisava “crescer” aos plenos 10 anos de idade, e os remanescentes estavam num baú esquecido aos fundos do armário.
Sobre o mesmo criado mudo onde deixaram as abóboras estava um diário estilizado. Ela achou interessante ter uma pequena caveira desenhada junto a outras coisas na capa, mas não cogitou abri-lo. Teve a experiência detestável de seu irmão Bradley mexer no seu, cheio de poesias mal feitas e desenhos pessoais. O mais interessante por ali eram dois pôsteres de videogames e um console portátil sobre uma cômoda, sendo este um portátil que ela mesma tinha. Um quarto de conformista, embora para ela a alma do dono não fosse.
No consumo de doces e no silêncio em que se sentiam confortáveis, os minutos passavam como se fossem segundos. Toda a concentração estava em comer, comer até redescobrirem seus limites. Quem os olhasse dessa forma pensaria que era um afogo de mágoas mas era exatamente o contrário, estavam genuinamente felizes.
Tudo ia muito bem, até Henrietta segurar no encosto da cadeira de Eric e arrastá-la pelas rodinhas. O vampiro teve um pequeno susto ao puxado para trás, mas entendeu do que se tratava ao vê-la ocupar seu lugar à frente e mexer no mouse para trazer o monitor à vida. E fazia isso com pressa demais.
— Mas que porra — Eric notou que estava agitada demais para o normal. — Que desespero é esse? Não tem computador na sua casa? Se eu tiver mais um amigo pobre eu vou jogar pedra em você.
— Eu que pergunto, não tem Spotify nessa pocilga? — falou de um jeito muito rápido. Aproveitando-se da falta de senha, vasculhava pelo sistema em alta velocidade.
Intrigado, Cartman levantou uma sobrancelha. Henrietta estava visivelmente tensa. Olhando melhor, percebeu também que ela estava tremendo minimamente. Ele já era acostumado a comer qualquer coisa de uma só vez e em grandes quantidades, mas Henrietta era? Principalmente se tratando de açúcar?
— Ô Morticia — se levantou do assento e pôs uma mão sobre o ombro dela. Tinha citado a primeira referência gótica que veio à cabeça. — Você ta bem? Está com areia na vagina?
— Estou ótima, por que não estaria? Não pareço estar? — o fitou brevemente, respondendo com a mesma rapidez e um pouco mais tensa que antes.
Depois disso, a garota voltou ao que fazia. Desconsiderando totalmente sua existência.
Eric respirou fundo; em algum momento Henrietta precisaria aprender que ignorá-lo não era boa coisa. Mas o momento não precisaria ser esse, tudo o que passava por sua mente era a impressão de que fez merda ao deixá-la consumir aquilo tudo.
Depois de alguma procura, Henrietta finalmente achou o aplicativo do Spotify. Mantendo a mão em seu ombro Eric ficava ao lado observando o que ela fazia, e nesse ponto ficou curioso: que tipo de música alguém feito ela ouviria? Uma pergunta que não teve resposta de imediato, pois a gótica digitou na caixa de pesquisa tão rápido que ele não teve tempo de ler.
A garota sorriu com vontade ao encontrar o que queria, chegando a assustá-lo, porém tão rápido quanto apareceu o sorriso sumiu. Desplugou o headset e aumentou bastante o volume, então clicou na imagem que surgiu no aplicativo. Ouvindo a música começar a tomar conta do quarto, se afastava solenemente da tela até sair do campo de visão dele.
Uma batida oca e contínua. Sintetizadores macabros. Uma voz grave e profunda pronunciando palavras numa língua que ele não conhecia. Desta maneira Eric poderia descrever a música que partia da saída de áudio, levando-o a se aproximar do monitor com estranheza para ver do que se tratava. “Katarsis”, de uma banda chamada She Past Away, cuja capa do álbum era totalmente preta com uns respingos brancos que ele não pôde decifrar.
Então isso era música de gótico? Excêntrica, para não dizer bizarra. Bastante sinistra também, bem menos animada se comparada às músicas populares, mas não lhe pareceu ruim.
Não entendendo ao certo por que ela desejava ouvir aquilo naquele momento, decidiu procurar por Henrietta. Se virou para trás, a viu se movendo com o ritmo da música, checou se ainda tinham doces o suficiente na pilha... A viu se movendo com o ritmo da música?
Apenas... O que estava acontecendo?
Eric sabia que góticos dançavam. Já os tinha visto antes. Porém o que viu foi uma dança morta, onde moviam os pés e pendiam de um lado para outro desanimadamente sempre com rosto abaixado e um cigarro na mão, sequer poderia chamar de dança. O máximo que viu de diferente foi Michael, o gótico mais alto, participando de uma competição de dança comum junto de Stan e Butters e o vídeo viral de um grupo de adolescentes góticos dançando feito maníacos – que mais causava vergonha alheia. Mas aquilo... O que era aquilo?
Meneios suaves com os braços. Olhos fechados para curtir a melodia. Um balanço sutil de quadris e o gesto de se mover de um lado a outro. Talvez seus pés se movessem também, mas não podiam ser vistos sob o vestido. Uma visão bonita e pura.
Nos movimentos lentos ao compasso da música, Henrietta ainda estava sendo gótica. Mas acima disso, estava sendo ela mesma.
A garota dançava como se não tivesse mais ninguém naquele quarto. O garoto em roupas de vampiro não conseguia se pronunciar. Já não sabia mais se isso era efeito do açúcar.
— Vai ficar aí parado, Bela Lugosi? — absolutamente do nada, a gótica mirou nele os seus olhos cinzas. — Não é porque ele está morto que você também precisa estar.
— Hã, eu pretendo — procurou não hesitar em responder. Foi pego distraído. Ao menos, ela falava com mais calma. Os movimentos dela se tornaram mais discretos para prestar atenção nele, embora prosseguissem hipnotizantes. — ...Que porra você ta fazendo?
— Estou jogando tênis, não está vendo? — se aproximou de repente, segurando-o pelas mãos.
Sem nenhum pudor, Henrietta começou a trazê-lo para o centro do quarto. Estava sorrindo de novo.
Aquilo definitivamente tinha sido um convite pra dançar. Não que fosse um problema, Eric era do tipo que gostava de festas. Muitas vezes dançava, até mesmo cantava, mas naquela ocasião estava particularmente tímido. Henrietta o havia soltado e aos poucos voltou a se mover sozinha, esperando que ele fizesse o mesmo.
— Cadê o morcego dançarino dentro de você? — indagou ao ver que ele não se movia.
— Cadê a gótica desalmada dentro de você? — replicou, indeciso entre desviar o olhar e manter-se cara a cara.
Ficando séria de repente, Henrietta desistiu de se mexer. Olhava-o no fundo dos olhos para garantir que tinha sua atenção. Talvez tivesse se soltado demais, mas não era hora de se arrepender.
— Está aqui. — inclinou a cabeça para um lado. — Mas fazendo uma coisa que não faria todo dia.
Agora não tiveram muita escolha. A pouco mais de um passo de distância, estavam fitando-se fixamente. A darkwave mórbida ainda tocava pelo quarto, mas mal conseguiam ouvi-la. Não era a maior de suas concentrações.
Justamente quando a música se tornou mais arrastada, quando o cântico turco se tornou intenso e calmo, exibiram sorrisos acanhados e sentiram as bochechas queimarem. Os corações batendo vigorosamente no peito.
Aquilo não era uma música romântica. Pelo menos, não deveria ser. Mas era este o clima que estava criando. Suas bochechas ficaram volumosas e vermelhas enquanto sorriam, se sobressaltando em seus rostos e fazendo os olhos parecerem pequenos; um pequeno preço a se pagar por estar acima do peso. Mas se consideraram fofos.
Fazer parte de uma “tribo”... Seja ela dos góticos, dos punks, dos metalheads... Às vezes também significa se inibir. Seguir à risca algumas regras para se adequar a um conjunto. Ser uma gótica estava em seu sangue, Henrietta era o que era; mas não podia sentir totalmente suas músicas ou se expressar como queria entre seus amigos. A subcultura gótica é toda focada na música, todo gótico que se preze gosta de dançar – ainda que seja algo feito “sozinho em seu quarto às três da manhã”... Mas isso não era permitido dentro de seu grupo. Os dogmas impostos por seus amigos eram bastante reclusos.
Ser um “conformista”. Gostar de suas roupas normais, não ser muito seletivo com artes ou música, querer se entrosar com todo tipo de pessoa. O que tem de especial nisso? O que tem de especial em querer ser como todo mundo? Bem... As coisas se tornam mais difíceis quando você não é como todo mundo. Quando não segue a “cartilha do certo e errado”, quando admite preconceitos e opiniões controversas, quando não faz questão de se mostrar politicamente correto ou fingir ser o santo que ninguém é.
Mas estes ainda não eram seus maiores problemas; eram gordos. Eram “feios”, pois pra boa parte das pessoas ser gordo e ser feio são sinônimos. Não eram respeitosos com as pessoas, não eram respeitosos sequer com seus pais. Não foram bem educados. Não se curvavam para o que os outros queriam que eles fossem. Eram indesejados.
Henrietta não era boa o suficiente para seu melhor amigo. Cartman não foi bom o suficiente para sua ex-namorada. Mesmo que não fossem continuar sendo exatamente desse jeito para sempre, jamais seriam bons o suficiente para o mundo. Mas se analisassem... Pareciam bons até demais um para o outro.
Não souberam ao certo de quem partiu a iniciativa. Isso sequer teve algum grau de importância. Com a calma que o momento proporcionava, reuniram carinhosamente seus lábios. Poderia parecer beijo “infantil” para muitos, mas era um verdadeiro selo de almas.
As mãos, antes juntas por várias vezes, exploravam novos lugares. As dela nas laterais de sua face, acariciando-o levemente com as unhas e as pontas dos dedos; as dele ora em suas costas, ora tocando seus cabelos. A proximidade aumentava o calor entre eles, gostavam do atrito entre os lábios separados por uma fina camada de batom preto.
Mesmo sem ousar demais, parecia o melhor beijo que já tiveram.
E o que começou como um selo de almas se tornou um beijo de verdade. Sem uso de língua, aos poucos. Conseguiam sentir o gosto de todos os doces que comeram misturados na boca um do outro, o que deixava tudo ainda mais saboroso. Em alguns momentos as presas falsas de Eric roçaram nos lábios dela, e Henrietta gostou disso. Deveria ser um ultraje estar gostando de beijar um vampiro.
Abriram os olhos abruptamente. Assim que a garota sentiu algo não identificado ser transferido através de seus lábios, Eric detectou um objeto estranho invadir sua boca.
Se desconcentraram totalmente do beijo. Desconectaram os lábios e se afastaram um pouco, olhando um para o outro. Encaravam-se igualmente impactados, até Cartman levar dois dedos à boca. Cuidadosamente retirou o objeto que lhe foi passado.
O chiclete. Pasma, Henrietta usou a mão para cobrir os próprios lábios. Tinha esquecido dele. Antes ácido, cheio de sabor e no formato de um cérebro, o chiclete na mão de Cartman estava sem sabor algum, totalmente mastigado. E agora, coberto pela baba dos dois.
Esta cena por naturalidade deveria ser nojenta, mas curiosamente não era. Pouco a pouco pararam de observar aquela bagunça cheia de saliva e voltaram a se olhar. Emitiram risos nada sutis.
Sorrindo em sua maneira discreta, Henrietta o via sorrir bem mais abertamente. Os dentes de vampiro fofamente expostos e os lábios levemente manchados de preto. Pela vontade incontrolável que tinha de voltar a beijá-lo... Como alguém poderia sentir nojo dele?
Dito e feito. A gótica praticamente voou em seu pescoço, abraçando-o sobre os ombros e sendo abraçada pela cintura em total desespero. Um pouco menos de atenção por parte dele e os dois teriam se estatelado no chão, mas Eric nem mesmo ligava. Agarrado à circunferência gordinha da gótica e a beijando com vontade, recuperou o controle curvando-a suavemente para trás. Feito uma verdadeira princesa das trevas.
Sem que percebessem, tinham feito uma troca: deram um ao outro um dia feliz. Um esquecimento para a amargura que carregavam dia após dia, apenas sendo eles mesmos. Fosse no âmbito amoroso, fosse no âmbito social, ambos pareciam carregar a maldição de serem rejeitados. Suas aparências e personalidades de modos semelhantes desagradavam os outros.
À merda todos eles.
Aquela gótica e aquele racista, antes na sarjeta e se lamentando por seus amores perdidos, já não existiam. Eram apenas ela e ele, aceitando e apreciando um ao outro exatamente do jeito que eram. Em todos os sentidos.
De pulmões vazios e lábios inchados, ficaram retilíneos de novo. Enquanto Cartman limpava as manchas de batom ofegante, Henrietta o observava com um olhar bobo. O dia de conformista ainda não tinha terminado.
— O que foi? — o antissemita sorriu de canto, o rosto um pouco vermelho.
— Nada. — rapidamente forçou uma falta de emoção. Estava baixando a guarda demais, onde estava com a cabeça?
Cartman, no entanto, permaneceu no mesmo bom humor. Já estava adaptado a esse jeito dela, e até que gostava. Dava pra ver que ela não estava infeliz de verdade, ou ele aprendeu a ver.
— Eu nunca esculpi uma abóbora. — Henrietta falou de repente. Bem ao modo gótico.
— Mais essa agora? — Eric também voltou ao seu normal. Gostava mesmo dela ser assim, quando era uma garotinha doce não tinha dado muito certo. — Por isso você é desse jeito, que vida de merda você teve.
— Vá pro inferno. — emburrou-se.
O garoto apenas riu. Que jeito de tratarem-se depois de um beijo daqueles.
Bem, queria saber os talentos dela como escultora. Não se é uma criança americana completa até que se peça doces no Halloween e esculpa um rosto maligno numa abóbora. Que tipo de coisa macabra ela desenharia em sua lanterna?
— Ainda tem uma abóbora lá em baixo. — Cartman relatou. Formou um semblante orgulhoso. — Só vou buscar porque estou de bom humor.
— Essa desculpa não cola duas vezes. — mostrou-lhe a língua, toda roxa pelos corantes do chiclete anterior.
— Não é uma desculpa, vá se foder.
Deu meia volta para ir em direção à porta. Abafou um riso curto, sem ver que detrás dele ela sorria. Henrietta retornou facilmente ao tom inexpressivo.
— Depois podemos jogar no seu Switch? — Eric a ouviu perguntar. Teve que paralisar antes mesmo de dar um passo.
É claro. Os jogos eram um gosto que tinham em comum, até a tinha visto com os amigos na época de lançamento do PSP e posteriormente Xbox One e PS4. Só não se lembrava disso até então.
Virou-se para a gótica gradativamente. Gostar do que a maioria das garotas da cidade considerava entediante talvez fizesse parte do estilo de vida inconformista. Fosse como fosse, estava animado por ter logo a ela como sua nova companhia para os videogames.
— Podemos. — deixou escapar seu sorriso de lado por um segundo. O substituiu por uma face competitiva. — E quem vencer leva os doces do outro. É sério dessa vez.
— Feito. — se inflou, bastante segura de si.
Agora sim, Eric pôs-se a andar até a saída. Feito uma boa folgada Henrietta se sentou em sua cama confortavelmente. Pouco antes de vê-lo se retirar, franziu travessamente os lábios.
— Guaxinim estúpido.
Bem abaixo do batente da porta, Cartman foi obrigado a parar mais uma vez. Sem sequer olhar para trás, sabia que ela continha um sorriso por tê-lo provocado. Acabou por ter a mesma reação.
— Vadia do necrotério. — virou a cabeça em 90º, olhando-a de soslaio. Sorriram um para o outro uma última vez.
Quando ele saiu e Henrietta ouviu seus passos descendo a escada, a gótica voltou a se sentir inquieta. Trêmula, estava como Tweek depois de dois cafés e uma crise de ansiedade, chegando a pensar se deveria levantar da cama. Também se perguntava por que não foi junto de Eric, pelo menos seria uma energia pra gastar. Questionava-se do por que não tinha sido ela mesma a ir buscar, a agonia por esperar estava a matando – sendo que ele só tinha saído há cerca de meio minuto.
E então... Seu corpo começou a relaxar. Sua mente começou a se desligar gradualmente. Seus olhos, como se cheios de areia nas pálpebras, começaram a pesar. A música “Uzakta” daquela mesma banda, tocando mais baixa e bem menos dançante que Katarsis, soava aos seus ouvidos feito uma canção de ninar.
Um detalhe curioso sobre sair de um pico de açúcar é o que acontece com o corpo quando a energia acumulada se esvai.
Com um esforço que Cartman se empenhava em não demonstrar, retornou ao quarto carregando uma abóbora com o triplo do tamanho de sua cabeça, alguns jornais antigos para forrar o chão e uma faca amolada. Malditos momentos onde tentava bancar o herói.
Estava mesmo empolgado em esculpi-la, acender uma vela no interior e deixá-la como decoração no exterior da casa com uma boa companhia. Igualmente, estava ansioso por virar a madrugada dividindo com Henrietta um lado do Joy-Con de seu Nintendo Switch, mas...
— Ah, sua puta desgraçada — acabou saindo dele como um sussurro. Bastaram cinco minutos fora, cinco minutos, e a gótica estava dormindo em sua cama.
Extremamente puto, descansou cuidadosamente a abóbora e todas as outras coisas num canto sobre o chão. Deu uma olhada final nos itens e suspirou, pensando em seu esforço não ter servido pra nada. Foi até Henrietta com uma sutileza felina em seu andar.
O que deveria ter sido uma análise... Acabou se tornando uma contemplação. Henrietta estava num sono profundo. Os olhos e lábios fechados, as costas voltadas para baixo, a cabeça bem acomodada sobre o travesseiro... E os braços cruzados em X sobre o peito. A exata posição de uma múmia em seu sarcófago, de um cadáver descansando para sempre em seu túmulo, ou de um vampiro repousando em seu caixão.
“Só ela mesmo pra dormir desse jeito.” foi o pensamento de Cartman ao tempo em que ria internamente. Seria de uma crueldade imensa tentar acordá-la. Mesmo ele tinha seus limites, dentro de seu próprio ponto de vista.
Com grande cuidado, Eric levantou um dos pés dela que caía à beira da cama. Era a primeira vez que conseguia ver suas botas. Rasteiras, de couro brilhante e bem finas na ponta, deram trabalho a ele na hora de desfazer a infinidade de fivelas. As deixou bem alinhadas sobre o chão.
Na parte superior de seu armário, recuperou um cobertor extra. Cobriu a garota em sua cama com um esmero quase desnecessário. O Halloween era uma noite bem conveniente para não se escovar os dentes – e acabar enchendo os bolsos de dentistas. As artes em abóbora e a jogatina de Switch poderiam ficar para depois.
Eric permitiu-se admirá-la mais um pouco. Achava mesmo Henrietta muito bonita, poderia fulminar quem tentasse lhe dizer o contrário. Mas beleza alguma se sobressaía à pessoa incrível e memorável que se escondia num temperamento explosivo, ofensas veladas, roupas sombrias e uma maquiagem escura.
E mesmo que ela não pudesse dizer agora... Henrietta pensava dele exatamente o mesmo. Bem... Pelo menos sobre a parte da beleza e personalidade. Cartman beijou-a calorosamente na testa como um desejo de bons sonhos, talvez por um tempo longo demais.
Estavam namorando...? Não poderia dizer, nenhum pedido direto tinha sido feito. Embora o vínculo entre eles gritasse que sim. Poderia resolver essa parte assim que acordassem, mas se tivesse que prever uma reação... “Pedidos de namoro são tão conformistas...”
Dormir ao lado dela era um desejo que ele tinha. Em contrapartida, tinha princípios pessoais de respeito; parecia cedo demais. Estendeu um saco de dormir bem próximo à cama, de modo que pudessem ao menos estar juntos em espírito. Não era a opção mais confortável, mas valia todo o sacrifício.
Antes que se rendesse ao sono em sua cama improvisada, de sapatos e capa tirados e sem suas presas falsas, Eric Cartman parou para ruminar sobre esta noite como um todo. E pensar que esteve próximo de odiar o feriado.
Henrietta estava certa. Talvez todo dia devesse ser Halloween.
* * *
Um breve epílogo (ou quase isso)
No primeiro dia de novembro, South Park Middle enchia-se de alunos com rostos cansados. Isso dos que não tiveram coragem de matar aula. A festa de Halloween tinha sido incrível, a ponto de perderem completamente a noção das horas. Houve até mesmo um concurso surpresa de fantasias, bancado pelos pais de Token com um prêmio em dinheiro.
A ótima fantasia de Médico Medieval de Kenny foi a felizarda a ganhar. Teriam sido incríveis 500 dólares para o pré-adolescente mais pobre da cidade levar para casa, mas sua sorte se desfez quando morreu sufocado diante de todos por guardar doces demais em sua máscara. Ao renascer no dia seguinte, passou o restante da manhã emburrado.
Como nas mortes predecessoras, ninguém se lembrou de absolutamente nada. O prêmio acabou indo para Kevin Stoley, com uma autêntica fantasia de Darth Vader, e nas memórias de todos estava apenas que Kenny desapareceu da festa e não voltou mais assim como Cartman.
Que por sinal... Onde estava Cartman? Tanto sumiu da festa quanto não apareceu nas primeiras aulas. Por mais que ele já não implicasse tanto com as pessoas como antigamente, há quem ficasse intrigado e há quem desse graças por sua ausência. Ao toque do sinal para o intervalo, os três elementos que restavam no quarteto principal andavam pelos corredores.
— É, estava bom demais pra ser verdade. — Kyle avistou o gordo de vermelho que faltava.
Sozinho e de costas para alguns armários, Cartman estava com os cabelos castanhos expostos e bastante distraído. Não por um celular em suas mãos, mas por um livro: um livro de bolso com aspecto bastante antigo. Não souberam qual parte foi mais surpreendente.
— Pobre. Hippie. Judeu. — o garoto os cumprimentou “amigavelmente” ao se aproximarem, levantando os olhos do livro. Ao menos continuava ele mesmo.
— E aí, bundão — Stan o saudou de volta. — Por onde esteve?
— Comendo cu de curioso. — fechou o exemplar de “Drácula” de Bram Stoker, ajeitando rapidamente a mochila em suas costas. — A festa deve ter sido boa, vocês parecem ter dado até acabarem as pregas.
Antes que qualquer um deles respondesse, tiveram as atenções tomadas pelo brilho de um detalhe. Caindo pelo pescoço de Cartman, estava um colar longo com um grande crucifixo totalmente feito de prata. Entreolharam-se, pois de diferentes formas tal adereço os levava a situações memoráveis.
Na direção contrária à que eles iam, chegava uma figura robusta totalmente trajada em preto. O colar de crucifixo não estava com ela, tampouco seu suporte e cigarro, mas a touca azul e amarela de Cartman estava. Bem acima de sua cabeça, confortando o topo de seus cabelos curtos.
Ao associarem todos esses detalhes, três queixos caíram.
— Pobre. Hippie. Judeu. — Henrietta Biggle os reverenciou ao chegar, seu ar sem emoção bastante marcado. Com uma frieza de destruir almas, deu uma olhada analítica no rosto dos três. — Conformistas.
Incapaz de controlar seu sorriso de canto e o aquecimento em seu coração, Cartman enviou a ela um olhar afetuoso. Foi correspondido com um sorriso suave e um leve rubor nas bochechas.
Sob os olhares estáticos de seus amigos, Eric devolveu a ela o seu livro e recebeu um terno beijo no rosto. Trocaram um último olhar de cumplicidade.
— Aproveitem o dia sem o amigo de vocês, aberrações. — de mãos unidas, foram embora com ela deixando um aceno de mão e esta despedida peculiar.
Os que sobraram permaneciam chocados.
— Ah, não. — Kyle lamentava. — De novo, não.
— Eu não sei, cara. — o Marsh pensou por um momento sobre a gótica com quem ele já compartilhou um grupo. Pelo pouco que a conhecia... — Algo me diz que é bem diferente dessa vez.
— Devíamos avisá-la. — o ruivo estabeleceu uma pose responsável. — Não podemos deixar que esse gordo cuzão faça com ela o que fez com Heidi, eu não vou deixar.
— (Aquela é bem diferente da Heidi. Não tem muito com o que se preocupar.) — de voz abafada pelo capuz alaranjado, Kenny saiu por um momento de seu silêncio para se pronunciar. Sendo o único a observar a gótica acompanhada por Cartman se afastar, contemplava seu belo traseiro e o corpo da mulher que seria um dia a pleno desenvolvimento. Por um lado se satisfazia por seu amigo estar conquistando a felicidade, mas por outro... Pôde apenas suspirar. — (Droga...)
— Vamos, depois vemos no que isso vai dar. — Stan tomou a dianteira, sendo seguido de qualquer maneira pelos outros dois.
Metros à frente, passaram por uma garota de costas que destrancava seu armário. Não se atentaram a ela, pois o verdadeiro foco estava no almoço que os aguardava no refeitório.
Heidi Turner estava exausta. Era uma excelente filha e uma aluna exemplar, não estava acostumada em passar boa parte da noite fora ou chegar à escola atrasada, mas foi exatamente o que aconteceu. Pete Thelman era mesmo um amor, acabou por fazê-la se distrair demais – o suficiente para esquecer os olhares desagradáveis que trocou com seu ex.
Inspirou profundamente. Lembrar-se desse momento, e consequentemente de momentos passados, estava sendo um impasse.
Mais do que ninguém, assim ela acreditava, sabia por convivência que Eric não foi de todo ruim. Na verdade, foi bom... Em grande parte. Um ombro amigo quando ela mais precisava, alguém atencioso quando ela se sentia necessitada... O defendeu até onde pôde. Mas os momentos maus... Seu egoísmo, o fato de tê-la enganado, a incapacidade de melhorar nos pontos em que estava errado... Estes momentos maus. Nada poderia apagá-los.
E era nisso que ela buscava se concentrar. Fosse por bem ou por mal, Eric Cartman era apenas uma lembrança detestável. Já o havia superado.
Pegando e guardando o mais naturalmente possível os livros em seu armário, Heidi tentava esquecer aquilo no qual pensava. Para quem pensava ter superado, estava relembrando essas coisas um pouco demais. Por um segundo, chegou a pensar: como poderia acusá-lo do manipulador que brincou com sua mente se ela própria só pensava em conseguir “melhorá-lo”?
Tolice se culpar sobre isso. Era uma boa menina, sabia o que era melhor para ele.
— Olá, Heidi — ouviu a voz amável e inconfundível de um gótico com cabelo de duas cores.
Para a surpresa dele, Heidi enrijeceu. Como que infeliz por sua presença, não se virou para olhá-lo de imediato. E quando virou tinha um olhar... Incomodado?
— Está tudo bem? — Pete tentou ser bastante suave ao perguntar.
Agarrada aos últimos livros, garota inspirou profundamente.
— Está. — arriscou um sorriso simpático. — Está tudo bem.
O rapaz não pareceu muito convencido. Heidi expirou todo o ar que havia aspirado. Ao menos por enquanto, isso pouco lhe importava.
Virou-se novamente para o armário, esperando que ele achasse conformista demais insistir em perguntar sobre o problema. Foi quando visualizou algo que não tinha visto antes, pouco antes de fechá-lo.
Largado sobre a superfície metálica, estava um envelope em preto fosco com a face virada para baixo. Chegou a se animar ao vê-lo; aquilo parecia claramente gótico, Pete pode tê-lo deixado lá para alegrá-la. Ao pegá-lo e admirar a frente, porém, seu ânimo foi trocado por dúvidas.
Estava lacrado por cera roxa, muito bem aplicada. Mas o entalhe central era o desenho de um dedo médio bastante indelicado.
Os dois se entreolharam. Tanto um quanto outro estava curioso. Sem demorar, Heidi quebrou o lacre do envelope e removeu hesitantemente o que ali estava. Uma foto.
Virou-a na vertical para ver do que se tratava. A tinta ainda transferia um pouco pros seus dedos, indicando que havia pouco tempo que foi impressa. Próximos, enquadrados somente dos quadris para cima, ligeiramente voltados um para o outro e vestidos em suas fantasias, estava a amiga gordinha de Pete com sua inexpressão tipicamente gótica... E Eric Cartman.
A melhor amiga de seu namorado atual, ao lado de seu ex-namorado. Ela como Noiva de Frankenstein, ele como vampiro clássico. Pareciam estar numa calçada, talvez um pouco cansados, como se tivessem passado um bom tempo se divertindo. E bem longe da festa.
Se Henrietta fosse semelhante a Pete no aspecto de demonstrar emoções, Heidi imaginava que não estava mal humorada de verdade. E Eric, pelo contrário: podia enxergar claramente sua felicidade, misturada com um aspecto sadista e pequenas presas vampíricas.
Em sua curiosidade desconfortável, a Turner virou a imagem para olhar o outro lado. No canto inferior da outra face, destacando-se em meio ao branco do papel fotográfico, estava uma marca de batom preto feita pela gótica que o tinha beijado. Um deboche cruel e ilimitado.
Aqueles dois... O que tinha de tão diferente naqueles dois? “Henrietta e Cartman” parecia ter algo que “Eric e Heidi”, ou mesmo “Pete e Heidi”, estava em falta. Pareciam... Compatíveis.
Por que a incomodava tanto ver que ele também estava seguindo em frente? Por que a incomodava tanto saber que a menina gótica conseguia ser tão ousada?
Pete, porém, tinha em mente outras prioridades. Era consciente do interesse que sua amiga costumava ter por ele, assim como sabia que não poderia correspondê-la além da amizade. E sabia que, querendo ou não, isso a magoava.
Se Henrietta deixou isso no armário de Heidi...
Pete estava com muito medo do que Eric poderia ter deixado em seu armário.
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