Everybodys Fool
5 Tears
Jacob POV
O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.
"Amor" — eu disse — e floriu uma rosa
embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais oculto do jardim,
mas seu perfume não chegou a mim.
Aplausos seguiram o fim do poema que eu tinha escrito para o início do musical. Todos na sala pareciam ter gostado bastante do que tinham acabado de ouvir. Sim, eu era um dos personagens principais junto à Renesmee e mais dois atores, mas acabei colocando um pouco mais de poesia no musical.
Já estávamos no terceiro dia de reunião com os roteiristas, compositores – teremos músicas originais – e os atores principais. O musical será baseado na obra de Shakespeare: Sonhos de uma Noite de Verão, uma releitura ousada e ainda mais cômica.
Eu já estaria feliz por participar de um projeto como este, na verdade estou radiante por poder ver Renesmee diariamente. Ok, a equipe é muito legal e eles me receberam muito bem, algumas garotas até bem demais, mas isso faz parte. Nenhuma delas chegava aos pés da minha inspiradora.
Ela era educada, gentil e o galpão parecia se iluminar quando ela chegava. Estava sempre com um livro nos intervalos, comentou que tinha gostado bastante das minhas obras e eu fiquei encantado já que as tinha escrito para ela.
Este era um detalhe que eu não podia deixar transparecer já que ela era uma mulher casada e com um filho pequeno. Claro que ela não estaria só. Eu não me permitiria ter esperanças, vê-la todos os dias já deveria ser suficiente. Deveria.
Fui para casa com a cabeça nas nuvens horas depois.
Renesmee POV
- Carmen! – chamei apressadamente enquanto colocava tudo que precisava para o dia numa bolsa enorme.
- Senhora? – Carmen aparecera na porta.
- Você poderia levar Andy hoje? – pedi já que estava bem atrasada.
- Claro, vou acordá-lo. – ela disse e logo foi para o quarto do meu bebê que ficava em frente ao quarto que hóspedes que eu estava dormindo desde a briga com Alec.
Só tive tempo de dar um beijinho num Andy quase acordado e correr para o meu carro.
Não suporto atrasos. Os atores principais deviam dar exemplo, eu não podia chegar trade na primeira semana de ensaio. Parei em frente a um café a caminho do galpão, não era bom chegar lá com o estômago vazio. Estacionei na minha vaga e andei até o galpão deliciando-me com o efeito do café quente em meu organismo.
- OPS!
Só tive tempo de virar o rosto para a direita e sentir um líquido quente cair no meu braço.
- Tá queeeenteee! – gritei e tirei o casaco que usava sobre o vestido ao mesmo tempo.
- MEEEU DEUS! ACABO DE QUEIMAR RENESMEE CULLEN!
Uma mulher baixa, esguia, com o cabelo curtinho, usando um sobretudo caramelo bastante charmoso encarando-me com olhos esbugalhados e ressaltados pela maquiagem no estilo twiggy.
- É agora que sou demitida! – ela falou desesperada enquanto me ajudava.
- Não exagere, não foi nada! – falei sem conter o sorriso afinal o casaco tinha me protegido.
- Mil desculpas senhora! – disse ela ainda tensa.
- SENHORA! – minha vez de me alarmar – Assim eu me sinto idosa, Renesmee, por favor. – dei meu melhor sorriso.
- Ok então deixe-me tentar salvar esta preciosidade. – ela falou sorrindo e apontando para o casaco.
- Obrigada pela delicadeza... – parei, pois não sabia o nome dela.
- ALICE! – respondeu ela com um belo sorriso.
- Obrigada Alice, mas tenho que encontrar minha maquiadora urgentemente.
- Bem, acho que eu posso ajuda-la nos dois aspectos Renesmee. – Alice piscou.
Nem precisei entrar para chegar linda ao local de ensaio. Além de simpática e fashion, Alice também é a chefe da equipe de maquiadores do espetáculo. Simpatizei com ela desde o primeiro contato. Ela me contou parte da sua história na primeira conversa que tivemos, falou como viveu num orfanato nos primeiros anos de vida e fora adotada por uma família de Nova York, que tem vários irmãos na mesma situação e que parte deles trabalha na produção. Por fim ela havia conseguido seu lugar na equipe por ter muitos contatos com personalidades do teatro.
- Pronta para arrasar! – ela finalizou com um floreio.
Passei os primeiros dias praticamente confinada, fazendo pesquisas e discutindo a personagem com os outros atores principais, o diretor e alguns produtores. Conversava com Alice todos os dias enquanto ela me maquiava e mal via Jacob. Eu deveria estar feliz por não ter que conviver tanto com ele e ficar com sentimentos tão confusos perto dele.
Por volta da terceira semana os bailarinos estavam ensaiados, os cenários prontos e, segundo o diretor, podíamos começar os ensaios com agrupamento de pessoal – atores, dançarinos e músicos juntos no palco.
Enquanto minha vida profissional voltava a ativa, minha vida em família ficava ainda mais complicada. Alec e eu ainda dormíamos em quartos separados e Andrew já sentia a frieza entre nós. Ele estava muito tristonho nos últimos dias, decidi leva-lo para escola com maior frequência e pedi que Carmen se dedicasse mais a ele contratando outra pessoa para cuidar da casa.
Estava me sentindo mais só do que nunca. Não tinha amigas verdadeiras, nem contato com a família. Na verdade tinha um acúmulo de situações para lidar. Meu emocional estava abalado, não conseguia me concentrar, decorar as falas, no domingo anterior a quarta semana de ensaio ouvi Alec chegar bêbado mais uma vez. Subia as escadas quando ele chamou:
- Re-nesmeeee?
Assustei-me com o tom da sua voz. Virei-me lentamente e o vi apoiado no portal de entrada da nossa casa com a camisa manchada de vermelho. Mal consegui pensar, só corri na sua direção e gritei por Carmen.
- O que — O que aconteceu Alec! – falei nervosa.
- AN? – balbuciou ele antes de começar a vomitar e logo depois desmaiar.
- CARMEN! – chorei.
- Calma senhora. – ela o virava de lado no chão enquanto a cor voltava ao rosto de Alec – A camisa só está manchada de vinho e ele vomitou porque bebeu demais.
Sentei-me no chão ao lado dos dois, estava ofegante e com a pulsação acelerada.
Momentos depois, o levamos até o quarto e dei um banho no meu marido "trêbado" e o deixei dormir assim que percebi que ele estava bem.
Não relaxei a noite toda, depois da ceda que o meu amigo protagonizara horas antes tinha me deixado revoltada. Desci para tomar um chá e dei de cara com ele encarando a geladeira. Estava apenas de bermuda e não tinha me visto ainda. Sentei lentamente na mesa de serviço. Logo ele me viu.
- O que fazes aqui Sra. Cullen? – gracejou ele com alguma surpresa quando me viu.
Tentei ignorar e esperar que ele bebesse logo o leite de garrafa que estava na sua mão esquerda. Ele fechou a geladeira, acabou com o líquido da garrafa e então foi sua vez de me observar. Lentamente colocou a garrafa na pia e sentou na minha frente, sua fisionomia já não refletia mais a ironia de segundos atrás.
Encaramo-nos por alguns segundos e eu me levantei da mesa para preparar o meu chá.
- Você acha que pode continuar me evitando desta forma? – disse ele petulante.
- Enquanto você me tratar assim, sim.
- Você tem obrigações como minha mulher. Esqueceu?
Respirei fundo quando ele se aproximou de mim.
- Eu não dou a mínima para as suas necessidades. – falei pausadamente.
- Você deveria. – disse ele deslizando os dedos frios pelo meu antebraço.
- Ultimamente tenho nojo de você. – joguei cada palavra com o maior desprezo que pude colocar na voz – Você não é mais o homem que conheci, o marido que amei e o pai carinhoso que Andy tinha.
- TINHA? – berrou ele trincando os dentes e apertando meus braços no mesmo lugar de semanas atrás.
— Solte-me seu idiota! — chorei em seu aperto.
- Você não entende que é minha? – ele me olhava como louco. – MINHA! – gritou.
Num momento de distração dele peguei a chaleira que tinha acabado de colocar no fogo e bati na cabeça dele com toda força que pude. Corri assim que ele me soltou.
- VADIA! – berrou ele enquanto eu corria.
As lágrimas desciam pelo meu rosto quando cheguei a quarto de Andy. Entrei rapidamente e tranquei a porta.
- Mamãe? – Andy disse acordando.
Sentei perto dele e o abracei com força tentando conter os soluços que me chacoalhavam.
- Que foi mamãe?
- Nada meu amor. – falei controlando a voz – Adultos também choram, mamãe só está muito triste.
Com inocência e sabedoria infantil, meu bebê me abraçou forte e ficou aconchegado a mim até eu me acalmar.
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Saí cedo de casa na segunda de manhã. Deixei Andy na escola e fiz questão de garantir que ninguém além de Carmen poderia pegá-lo na saída. Passei no café de sempre e decidi dar uma olhada nos apartamentos que estavam para alugar numa rua próxima, praticamente entre o café e o estúdio. Alguém apertou meu braço antes que eu entrasse no prédio.
- AI! – exclamei puxando meu braço de volta.
- Ui! Desculpa Diva! – Alice também se assustara.
- Você me assustou de verdade Alice! – falei tentando disfarçar a dor fora do normal.
- Desculpa! Não tive essa intenção, mas o que houve com o seu braço? — disse ela com um olhar preocupado.
- Você tem um minuto? – perguntei desistindo de entrar no prédio e me dirigindo ao café.
- Claro. – respondeu ela com um sorriso terno.
Hoje seria o dia de primeiras provas de figurino para o musical e eu precisaria da ajuda de Alice. Meus braços já estavam amarelados devido a violência de Alec ontem e eu precisaria que ela me ajudasse a esconder as marcas para que comentários não começassem a surgir então decidi desabafar.
Contei minha história para Alice, minha origem e meu presente, principalmente como me sentia perdida com o meu casamento. Ela só me ouviu e me deu força dizendo que nunca contaria a ninguém, que me admirava muito em todos os aspectos e que eu poderia sempre contar com ela.
Senti-me bem melhor depois de contar a alguém, Alice me passou segurança, passei a considera-la uma boa amiga. Fomos juntas avaliar o apartamento e decidi que esta seria a minha melhor opção. Assim que cheguei no estúdio procurei um telefone e comuniquei minha decisão a Carmen.
Eu me mudaria hoje. Pedi que ela organizasse tudo que era meu e de Andy e providenciasse a mudança. Ela iria conosco e não daria nenhuma satisfação a nenhum empregado e muito menos a Alec que chegaria quando a mudança já tivesse terminado.
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Cheguei atrasada à reunião com os escritores, diretores e atores principais. Jacob estava sentado ao lado da mesa de reuniões com óculos de leitura, uma perna apoiada sobre a outra enquanto lia um livro aparentemente antigo. Ele estava duplamente charmoso naquele contexto. Todos me olharam amigavelmente apesar do meu atraso, Verne, o diretor principal, não foi tão acolhedor, mas Jacob levantou-se assim que ouviu minha voz e puxou uma cadeira para mim e sentou-se ao meu lado esboçando um sorriso encantador que me fez corar.
- Obrigada. – foi o que consegui dizer.
Concentrei-me na distribuição dos horários que cada par de atores começaria a ensaiar. Verne havia dividido o elenco principal em pares por conta do enredo da peça – Sonhos de Uma Noite de Verão – que era formado por seis atores principais dois casais e duas fadas que ditam os acontecimentos da estória.
Minha personagem era Hermia, filha de Egeus que fazia parte da corte do rei grego Theseus. Eu era apaixonada por Lysander – Jacob- que também me amava, mas meu pai queria que eu me casasse com Demetrius – Stevan – que havia deixado clara a intenção de me ter como esposa.
A estória se complica quando Egeus pede ajuda de Theseus para unir Hermia e Demetrius colocando os três mais a melhor amiga de Hermia, Helena (Eva) – apaixonada por Demetrius — numa floresta povoada de fadas responsáveis pelo rumo da estória.
Recebemos nossas falas e começamos as leituras dramatizadas para moldar os personagens. Cada par teve uma grande sala reservada para tais ensaios e o meu par era claramente Jacob.
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- Você estava lendo Shakespeare antes da reunião? – disse quando nos encaminhávamos a saída do estúdio depois de uma manhã de reunião.
- Não. – respondeu ele calmamente – Estava relendo um autor antigo para relaxar.
- Relaxar?
- Sim, afinal esta será minha primeira peça. – disse ele com um meio sorriso.
- Ora não se preocupe, pelo que vi na sua seleção você parecia bem seguro.
- Seguro? – questionou ele muito mais para si mesmo – Talvez porque era um poema meu, mas não estou certo que minhas habilidades são suficientes para uma peça de tamanho porte, ainda mais por atuar com uma atriz com tamanha destreza e encanto.
Senti as maçãs do rosto queimarem levemente quando ele sorriu no final da frase. Encaramo-nos por alguns segundos, olhei em seus olhos já livres dos óculos de leitura que o deixavam mais formal e vi um lindo homem com sorriso de menino enquanto seu cabelo curto tremulava com o vento da rua.
- Você conhece algum lugar perto onde posso almoçar? – disse ele quebrando o contato entre nós.
- Er, tem um restaurante divino a duas quadras daqui. Já almocei lá algumas vezes.
- Huuum. Você me acompanha? – disse ele hesitante.
Eu não queria almoçar só, mas estava contando com Alice pra isso. Um almoço não significaria nada também, gosto de conversar com ele.
- Sim, eu estava indo pra lá.
Seu sorriso em resposta foi deslumbrante.
Caminhamos calados até o local e comemos também sem falar muito. Não aguentava mais o silêncio e resolvi quebra-lo voltando ao assunto inicial.
- Você só lê poesia?
- Não. — disse ele com tom surpreso – Também gosto muito de prosa.
- Você estava lendo poesia então? – estava claro que ele tinha uma tendência maior para o estilo que escrevia.
- Sim. – disse ele mais relaxado – Quer que eu leia alguns versos pra você?
Nem terminei de mastigar o último pedaço de bolo inglês para confirmar com a cabeça. Ele sorriu em resposta.
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Senti os olhos marejarem com as últimas palavras e não contive algumas lágrimas quando ele fechou o livro e me encarou triste. Tentei disfarçar com um sorriso forçado, mas logo ele sentou-se ao meu lado e ofereceu-me seu lenço para secar meu rosto.
Foi só o que ele fez, ficou perto de mim e não perguntou mais nada. Abraçou-me quando saímos do estabelecimento e guiou-me até o estúdio. Entramos na sala designada para o nosso ensaio e prontamente devolvi seu lenço.
- Desculpe. – disse voltando a mim.
- Não se desculpe Renesme, lágrimas vêm da alma. Só receio que as suas não sejam de felicidade ou apreciação. – disse ele acariciando meu nome com sua voz forte e chegando cada vez mais perto de mim.
Ele beijou o topo da minha cabeça e saiu da sala dizendo que ia dar-me um tempo para que nós começássemos a ensaiar.
Coloquei minha bolsa num canto da sala, pendurei meu casaco sem me perdoar pela explosão momentânea, mas ainda tentando avaliar a reação de Jacob, seu olhar triste, seu apoio e seu efeito sobre mim.
Notas finais
Mais um capítulo liiindo na área o/
Tive uma semana super corrida, mas consegui me dividir em 50 para terminar de escrever este capítulo pra vocês.
Obrigada pelos comentários do capítulo anterior, este é para as leitoras lindas que acompanham Evy *-*
Leitoras antigas! Voltem de onde vocês se escondem! Kkkkk
Um grande beijo a todas, espero que gostem ;)
:*
N/B: Meninas, quero um Jake poeta pra mim!
Espero que tenham gostado do capítulo.
Contamos com vcs para o próximo vir rapidinho.
Beeijos e até mais.
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