Hinata odiava comemorar o seu aniversário. Naquele ano chegaria a casa dos trinta e isso era algo que vez ou outra enchia sua testa de rugas.

Costumava ouvir que trinta era a idade do sucesso — os filmes geralmente retratavam dessa forma —, mas sentia-se na pior fase da sua vida. Tudo bem que estava praticamente encaminhada; foi pedida em casamento há pouco tempo, assim como sua melhor amiga, Sakura, e também já planejava ter filhos com o noivo — Naruto. No entanto, ainda assim, a sensação que crescia em seu interior mostrava que não era plenamente feliz.

Para que seu dia não passasse em branco, o Uzumaki convenceu a Hyuuga a reservar uma mesa em um bar badalado da cidade. Além disso, também chamou o casal de amigos para acompanhar a noitada; Sasuke — colega que conheceu na faculdade — e Sakura — sua amiga desde a infância. Não estava nada empolgada e também não contava com a possibilidade de se animar em uma noite igual aquela; contudo, mesmo assim seguiu para o local após um longo e exaustivo dia de trabalho.

Chegando lá, checou as notificações de seu telefone e encontrou uma mensagem de seu noivo:

Amor, chegarei atrasado. Muito trabalho no hospital.

Bufou irritada. Quando Naruto combinava algo com ela, sempre acontecia um atraso ou outro, e aquela era a comemoração do seu aniversário. Esperava que o noivo não a deixasse plantada como já fez outras vezes.

Ao passar pela porta do estabelecimento, deparou-se com um aglomerado de pessoas que bebiam e conversavam como se não houvesse amanhã. O público era dos mais diversos tipos de gente: desde os engravatados ao pessoal mais alternativo.

Hinata ainda trajava a mesma roupa que usou em seu dia de trabalho — a ideia de ir até a sua casa apenas para tomar um banho e trocar-se não parecia tão convidativa, já que estava cansada e a chance de se embrenhar em suas cobertas e não sair mais era grande. Ao notar que seu traje não estava lá tão inadequado, suspirou aliviada.

Caminhou pelas mesas cheias do bar e estava prestes a chamar o garçom para que indicasse qual havia reservado, quando avistou Sasuke. Ele estava escorado em uma das inúmeras banquetas do local, segurando uma long neck em uma mão e com a outra, seu celular. Estava concentrado na tela e não viu Hinata se aproximar:

— E aí, Uchiha. — Ela cumprimentou, acomodando-se em um dos assentos desconfortáveis.

Ele desviou o olhar para encarar a morena que o observava com seus grandes olhos claríssimos e sorriu.

— E aí, trintona — caçoou, dando um longo gole na bebida em seguida.

Sasuke tratou de bloquear a tela de seu telefone e guardá-lo novamente no bolso; no momento, gostaria de dar atenção à amiga.

— Olha só quem fala! Você faz aniversário antes que eu, não pode tirar sarro de mim. — Ela riu, fingindo estar ofendida com a brincadeira. — Cadê a Sakura? — perguntou quando deu falta da mulher de cabelo rosa.

— Precisou ficar até mais tarde no hospital. Acredito que ela chegará daqui a pouco.

Hinata concordou levemente com a cabeça e comentou que Naruto também chegaria mais tarde. Não era a primeira vez que isso acontecia, já que seu noivo também era médico e vez ou outra os plantões se estendiam mais que o desejado; portanto, decidiram pedir uma rodada de bebidas para que não cansassem de esperar.

Já na quarta ou quinta cerveja, a conversa entre os amigos estava mais fluída:

— Você se lembra que, quando nos conhecemos na faculdade, você era toda certinha e não faltava a uma aula sequer? — Sasuke comentou, dando uma gargalhada alta demais para o gosto de Hinata.

Ela odiava se lembrar dessa época, pois foi quando nutriu uma paixão platônica pelo Uchiha — sentimento que nunca teve coragem de externar, pois acreditava não ser correspondida.

— Lembro… e lembro que você usava um cabelo de emo ridículo! Ainda bem que na noite que você conheceu a Sakura eu tinha te convencido a cortar aquela coisa. — zombou, divertindo-se da expressão irritada dele.

— Ei! Olha quem fala, hinadragonballl. — Ao ouvi-lo, a Hyuuga sentiu todos o seu corpo esquentar de raiva.

Odiava o apelido que a Haruno havia dado a ela quando era criança, e não pôde deixar de se lembrar da noite que a rosada contou sobre a existência dele para Sasuke:

Era fim de semestre e já fazia alguns meses que o Uchiha e a perolada cultivavam uma amizade genuína. Decidiram ir para uma choppada universitária comemorar a chegada das férias e Hinata pensou que seria legal levar a melhor amiga junto; talvez assim, Sakura a ajudasse a se aproximar mais de Sasuke.

Ela havia comentado sobre a amizade que surgiu entre ambos e deu a entender estar gostando do moreno — coisa que ela apoiou firmemente desde o primeiro momento. Ao chegarem na tal choppada, o encontraram com um amigo também: Naruto.

Desde o primeiro momento que o loiro a avistou, grudou em seu pescoço igual carrapato. Parecia ter se apaixonado à primeira vista, e isso de certa forma estava deixando Hinata um pouco chateada; em certo momento, o Uchiha conversava abertamente com a amiga — que demonstrou uma animação fora do normal quando o conheceu —, enquanto o Uzumaki insistia para que dançassem juntos.

Em determinado segundo, observou Sakura apoiar a mão no peito de Sasuke, coisa que o moreno pareceu não se importar. Um bolo se formou em sua garganta ao notar o quão próximos estavam e uma vontade súbita de sumir a acometeu.

— Bom, eu estou um pouco cansada… — Hinata anunciou, já se levantando do local que estava. — Vou indo nessa.

— Calma! Já vai? — Sasuke perguntou, levantando-se também.

Os olhares se cruzaram e a perolada hesitou. Aquele pouco tempo em que se encararam parecia ter durado uma eternidade; sentia-se hipnotizada pelos orbes ônix, mas logo foi resgatada para a realidade ao ouvir a voz de Sakura:

— Ah, por que já vai, hinadragonball? — A perolada arregalou os olhos para ela, que apenas riu ao perceber a expressão irritada da amiga. — Qual é! Era seu apelido! Sasuke não sabia? — Ao notar a expressão confusa do garoto, tratou logo de explicar: — Ela era feinha demais quando pequena, por isso comecei a chamá-la assim.

— Sakura! — exclamou em tom repreensivo.

Foi inevitável não se sentir envergonhada pela situação. Apenas ela e Naruto deram risada, e Hinata percebeu o olhar acalentador do moreno para si. Mesmo assim, continuou movimentando-se para ir embora; não quis discutir com a amiga.

— É sério, estou cansada e vou para minha cama. Essa semana entregamos muitos trabalhos e eu estou exausta.

O Uchiha abriu a boca para argumentar, mas foi interrompido por Naruto:

— Eu te levo! Estou de carro — O loiro exclamou, levantando-se também.

A Hyuuga nada falou, apenas se deixou ser conduzida pelo Uzumaki até a saída do lugar. Deu um tímido tchau para os que ficaram e, antes de deixar de fato a choppada, ousou olhar ambos de longe: os quais conversavam tão próximos que podia jurar ter visto Sakura dar um beijo nele.

— Hina! Desculpe, não quis te chatear. — Sasuke a chamou, despertando-a de seu devaneio.

Ela riu sem graça e tratou de dar mais um gole em sua bebida.

— Não é isso, é que… Sakura joga baixo demais quando quer algo, contar aquilo pra me deixar sem graça na sua frente foi demais — falou sem pensar, fechando os olhos em sinal de arrependimento logo em seguida.

— Como assim? — perguntou ele sem entender.

— Não é nada, estou falando muito já — murmurou, fazendo um sinal negativo com a cabeça.

— Fala, Hinata. — Os orbes ônix a encararam com a mesma intensidade daquela noite.

Sentiu-se pressionada e por isso decidiu virar todo o conteúdo de sua bebida de uma só vez. Se fosse para contar a ele o que sentia quando se conheceram, precisava do estímulo da bebida.

— Ah, Sasuke… eu era louca por você. Mas assim que Sakura te viu naquela choppada, decidiu que você seria dela. — O Uchiha arqueou uma de suas sobrancelhas ao ouvi-la e o clima que antes era descontraído, acabou tornando-se pesado. — Qual é! Você sabia disso… Eu ficava toda boba quando você estava por perto. — Ela sorriu, tentando manter uma conversa espontânea.

Sasuke demonstrou estar claramente consternado com a declaração da Hyuuga. Nem em seus sonhos mais fantasiosos imaginou que isso poderia ter de fato acontecido.

— Não, eu não sabia — respondeu. — Se eu soubesse… — Deixou escapar, seguido de um suspiro audível. Não conseguia encará-la mais, estava compenetrado em observar suas próprias mãos. — Eu também era louco por você.

— Você o quê?! — Hinata perguntou incrédula, piscando os olhos freneticamente como se aquilo fosse capaz de acordá-la de alguma ilusão.

— Quando perguntei a Sakura na época, ela me falou que você curtia caras iguais ao Naruto — contou, voltando a encarar as pérolas expressivas da Hyuuga. — Quando vocês começaram a sair, tive a confirmação… por isso nunca te falei nada.

Hinata estava chocada com aquela enxurrada de informações. Sua boca se abriu e seus olhos agora estavam arregalados; não era possível que sua melhor amiga tivesse feito algo do tipo com ela. Desde que eram pequenas, sempre existiu uma competição entre as duas, mas nunca dessa magnitude.

— E-eu não sei o que falar — declarou, fechando os olhos com força após cobrir a face com as mãos.

Um silêncio constrangedor tomou conta da mesa. Só era possível ouvir o barulho das pessoas que conversavam animadas ao redor, junto com o tilintar das bebidas e uma música que servia como plano de fundo: Every Breath You Take do The Police.

Every breath you take

Every move you make

Every bond you break

Every step you take

I'll be watching you

— Me diga somente uma coisa, Hinata. — Sasuke quebrou o silêncio, chamando a atenção dos olhos pérola para ele. — Você ama o Naruto?

Ela mordeu o lábio ao ouvir aquela pergunta. Temia que alguém a questionasse daquela forma, pois seria obrigada a externar o que verdadeiramente sentia pelo noivo: dúvida. Nunca soube se o que nutria pelo Uzumaki era amor ou comodismo.

Every single day

Every word you say

Every game you play

Every night you stay

I'll be watching you

As sensações que ele provocava nela estavam longes de serem as mesmas que o moreno de olhos penetrantes despertava; custava admitir para si mesma, mas os sentimentos em relação a Sasuke sempre foram mais fortes.

Os ônix a encaravam como se sua vida dependesse daquela resposta, e a Hyuuga não soube como respondê-lo. Para fugir daquele confronto, apanhou uma nota de cinquenta dólares que seria o suficiente para pagar a sua parte da conta e levantou daquela banqueta com um pouco de dificuldade; suas pernas estavam bambas pelo nervosismo.

— Não faça isso comigo, Sasuke. Passaram-se anos… — A voz embargada revelava o que sentia implicitamente. — Você está noivo e eu também… Vamos fingir que essa conversa nunca aconteceu. — Ao dizer isso, deu as costas no intuito de ir embora o mais rápido possível.

— Espera! — Ele pediu em tom de urgência levantando-se do seu lugar. — Responda a minha pergunta, por favor.

Hinata o olhou por cima dos ombros, com a visão turva por conta das lágrimas que estavam prestes a cair e respondeu:

— O que eu sinto por ele não chega aos pés do que eu sinto por você, Sasuke. — E sem esperar uma resposta, rumou para fora daquele bar com a cabeça a mil.

Since you've gone, I've been lost without a trace

I dream at night I can only see your face

I look around, but it's you I can't replace

I feel so cold and I long for your embrace

I keep crying, baby, baby, please

Os pensamentos que pairavam vez ou outra em sua mente vieram à tona como uma avalanche capaz de destruí-la por inteiro. Sempre imaginou como as coisas teriam sido caso Sakura e Naruto não estivessem presentes naquela noite, mas logo essas ideias mirabolantes se perdiam, justamente por achar que o Uchiha nunca a retribuiu com a mesma intensidade. Agora que teve a confirmação bem na sua frente, tudo estava ruindo aos poucos dentro de sua cabeça.

— Hinata! — Ela o ouviu chamá-la quando já estava perto do seu carro.

— Sasuke, por favor… — Começou, virando-se para encará-lo. — Não adianta mais conversarmos sobre isso.

— Adianta sim! — Ele gritou, agarrando-a pelo braço. — Eu penso em você todos os dias… Se você quer saber, meus sentimentos pela Sakura também não chegam perto do que sinto por você! Desde a hora que eu te vi lá dentro, antes mesmo de conversarmos a respeito disso tudo, eu soube que não deveria casar amando outra — desabafou. — Se não for para ficarmos juntos, eu prefiro ficar sozinho!

Oh, can't you see?

You belong to me

How my poor heart aches

With every step you take

As lágrimas, que antes rolavam de forma contida, começaram a molhar o rosto alvo com violência. A vontade súbita que sentiu de beijá-lo naquele exato momento a fez tomar uma decisão por impulso: agarrou a nuca de Sasuke sem delicadeza alguma e puxou-o para o beijo que ambos tanto esperavam.

Os lábios se chocaram com violência, revelando a vontade implícita que sentiam em descobrir o sabor de ambos. As línguas travavam uma batalha incansável, enrolando-se como se pertencessem uma a outra desde o exato momento que se conheceram; as mãos do Uchiha se emaranharam nos fios escuros da Hyuuga, e a partir daquele momento, aproveitaram cada segundo daquele beijo como se fosse o último.

Se separaram quando o ar faltou e o peso da culpa surgiu.

— Meu Deus… — Hinata sussurrou, cobrindo a boca com as mãos. — O que iremos fazer agora?

— Vamos embora! — respondeu Sasuke, divertindo-se com a expressão assustada dela. — Podemos ir para a minha casa de campo até resolvermos…

— Olhe! — Hinata exclamou, cortando a sua linha de pensamento.

Ela apontava para um ponto fixo atrás dele, e por algum motivo seu coração disparou com a possibilidade de ser Sakura ou Naruto.

De fato, quando se virou para encarar o local que Hinata havia apontado, tratava-se do carro do Uzumaki; contudo, havia algo esquisito. Os vidros estavam embaçados e por mais que os movimentos parecessem sutis, o carro balançava para frente e para trás.

A boca de ambos secou e, mesmo sem coragem, caminharam para perto do automóvel. O que viram através do vidro foi capaz de deixá-los tão chocados quanto a declaração que fizeram um para o outro minutos antes: Sakura e Naruto se agarravam de forma depravada, o que resultou em um pequeno grito partindo de Hinata:

— Mas o que é isso?!

A voz estridente acordou ambos do momento íntimo que viviam, e ali a Hyuuga pôde observar um par de olhos azuis arregalados em sua direção.

— Hina! — Naruto exclamou, abrindo a porta do carro em desespero.

Sakura sequer levantou o olhar para encará-los — no momento em que foi flagrada, abaixou a cabeça e cobriu o rosto com as mãos. Continuou naquela mesma posição enquanto Sasuke, Hinata e Naruto discutiam no meio da rua.

Já sabia que havia feito algo imperdoável.

(...)

Cerca de 9 meses haviam se passado do ocorrido.

No momento em que descobriram sobre o caso do Uzumaki e da Haruno — que revelaram acontecer há meses —, decidiram expor os reais sentimentos para a dupla também; sentiram-se à vontade para contar a verdade.

O loiro tentou a todo custo reverter a situação, dando para Hinata até mesmo o presente que havia comprado: uma calça jeans que viu em uma das lojas mais caras da cidade.

— Toma! É teu presente, Hina… não me deixe! — choramingou, estendendo o pacote em sua direção.

— Ah, que lindo! Ganhei um chifre e um jeans… — ironizou. — Esqueça, Naruto! — respondeu, esquivando-se de um possível contato com ele. — Eu vou embora com o Sasuke. — Dito isso, agarrou o braço do Uchiha, puxando-o para longe daquela cena horrorosa.

Quando Hinata e Sasuke se lembravam daquela noite, costumavam rir das reações diversas que tiveram. Sakura, diferente do Uzumaki, permaneceu o tempo inteiro dentro do carro e não dirigiu palavra alguma a eles; nem quando contaram sobre o que sentiam um pelo outro e, de certa forma, aquilo não os surpreendeu. Desde que a conhecia por gente, era desse jeito que reagia quando errava.

O casal não soube mais sobre o paradeiro da dupla; a única informação que tiveram foi que enfim assumiram um relacionamento. Parecia errado a forma como as situações se desenrolaram, mas na visão da Hyuuga, não poderia ter sido melhor.

Hinata vez ou outra sentia falta da amizade da Haruno — foram muitos anos juntas — e sentiu mais ainda quando, em uma manhã fria de outono, percebeu estar com a menstruação atrasada.

A descoberta da gravidez aconteceu três dias depois e Sasuke não poderia estar mais feliz. Talvez no futuro pudesse conversar com a ex-amiga e partilhar essa felicidade também; a esperança de um reencontro desse acaso do destino ainda prevalecia.

Não existe cedo ou tarde, não existe certo ou errado. As coisas acontecem quando tem que acontecer.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!