Everlasting

14 Capítulo 13: Salvação


Notas iniciais
Olá pessoal!
Como estão?
Antes de falarmos de 'Everlasting', gostaria de agradecer pelos comentários em 'Signal Fire'. Vou continuar com aquela fanfic assim como continuarei com essa.
Sobre esse capítulo, creio que muita gente vai ficar feliz com ele.
Indico uma música do Gotye que é extremamente Faberry, chamada Save Me.
Façam bom proveito, boa leitura!

29 de novembro de 2012. Lima, Ohio.

Yesterday I died, tomorrow’s bleeding...”

(Shattered, Trading Yesterday)


Eu não cheguei a acordar, isso é, eu sequer dormi.

Alguma coisa estava muito errada dentro de mim naquela madrugada. Melhor, alguma coisa estava seriamente danificada dentro de mim naquele dia. Meus olhos sequer demonstraram cansaço enquanto eu observei a noite cair, virar madrugada e depois, amanhecer sob os raios fracos e inconstantes de um céu encoberto por pesadas nuvens carregadas. Minha respiração não mudara, não se tornara pesada enquanto eu suspirava. Não houve lágrimas, tampouco. Nem soluços, nem gritos, nem fúria...

Apenas a dor. Uma dor que não se manifestava em forma física e sim, emocional. Eu podia sentir meu coração explodir dentro do meu peito, assim como escutava cada pedaço da minha alma gritar de agonia quando eu pensava nela. Mas de uma forma estranha e confusa, eu não conseguia transformar tudo isso em um grito ou um ataque de choro. Era como se eu estivesse presa em um filme mudo, no qual, minha figura catatônica encarava o teto calada e centrada.

Talvez, eu estivesse sufocando aquela dor inconscientemente. Ou meu corpo, já debilitado, estivesse se defendendo e preservando minha integridade física. Quem sabe fosse a minha mente, cansada de ver meu coração sofrer, me levando para um mar de divagações que pareciam felizes. Sonhos e pensamentos que incluíam uma Rachel Berry sorridente e estonteante ao meu lado. Uma Rachel que não me fizesse pensar naquela última Rachel que tive em meus braços: quebrada, inconsolável e apagada.

Apenas meu coração parecia ter plena consciência do que acontecera, apenas ele parecia se lembrar das palavras duras e mentirosas que eu dissera a Rachel. Apenas ele me culpava e me jogava imagens do choro de Rachel em momentos que eu estava de guarda baixa. Mas quando isso acontecia, o tique-taque voltava e minhas dores também. E não foi surpresa que senti, durante toda a noite, meus braços arderem. E com surpresa notei uma dor nova, um pouco acima da testa, próxima ao couro cabeludo. Dor semelhante a um corte profundo feito a faca.

Eu conseguira passar a manhã inteira na cama, mas tive que descer para almoçar. Encontrei minha mãe assobiando uma música qualquer assim que desci as escadas, caminhei até ela e a abracei apertado. Minhas dores diminuíram um pouco, mas nada muito significante. Ela me apertou junto de si, receosa, mas ainda assim, carinhosa. Depois, bagunçou meus cabelos e, com um sorriso preocupado, perguntou:

- Onde está Rachel? Quando cheguei, não a encontrei e você já estava dormindo.

- Rachel foi embora, mãe. – Respondi magoada enquanto apanhava o garfo e esperava que ela me servisse. Judy olhou por cima dos ombros para mim e eu pude ver a preocupação dela assim como pude sentir as minhas dores e meu fiel tique-taque martelando em minha cabeça. Minha mãe colocou um prato enorme de salada em minha frente e eu suspirei. – Ela foi embora por minha causa.

- O que você fez, Lucy Quinn Fabray? – Judy perguntou um pouco fora de si, com aqueles olhos claros me fuzilando e transbordando decepção. Dentro do meu peito, meu coração fungou machucado por ter que repetir os fatos da noite anterior, mesmo que de forma indireta. Olhei para ela pedinte, mas ela ignorou minha expressão derrotada e insistiu na batalha de olhares. Respirei fundo, derrotada e respondi trêmula:

- Eu fiz o que era melhor para mim e para ela, mamãe.

- Você não pode decidir o que é melhor para ela, Quinn. – Minha mãe sentenciou séria e eu pude sentir o olhar fugaz que ela me dava enquanto tentava me concentrar, em vão, na minha salada. O tique-taque estava quase me enlouquecendo e eu mal conseguia segurar o garfo devido a dor nos meus braços, isso sem mencionar as pontadas de dor em minha testa. – E mesmo que pudesse decidir, deveria saber que o melhor para ela é estar com você, aquela garota te ama, Quinn. Será que você é mesmo tão fria quanto seu pai e não percebeu isso?

- Primeiro, não me compare com meu pai. – Respondi seca e soando mais amarga do que eu gostaria, Judy arregalou os olhos e fez um gesto com as mãos de que não se importava. Crispei os lábios e larguei o garfo sobre o prato, provocando um barulho estridente. – Segundo, será mesmo que a Rachel deve ficar comigo? E terceiro, eu não a mereço.

- Não é você que deve estipular se a merece ou não. É Rachel que está se entregando para você de corpo e alma depois de você fazê-la terminar um namoro. É ela que tem que se decidir para quem entregar o próprio coração. – As palavras firmes e sinceras de minha mãe estavam parecendo balas, rompendo o escudo de culpa e redenção que eu construíra em torno de mim naquela noite.

Olhei para ela, tentando me manter firme, mas sentindo as lágrimas chegarem aos meus olhos lentamente. Judy parou de falar e se aproximou de mim, me envolvendo em mais um abraço pesado e tranqüilizador, envolvi os braços dela com apertos firmes de minhas mãos e afundei meu rosto em seu peito enquanto chorava. Judy afagou meus cabelos e beijou minha cabeça, eu suspirei e disse sôfrega:

- Os pais dela a fizeram escolher, mamãe. Eu não posso simplesmente tirar um amor desses da vida dela.

- Não só pode como pode entregar um ainda maior para ela, Quinnie. – Minha mãe aconselhou sabiamente próxima ao meu cabelo, senti a voz dela ecoar em minha cabeça, clareando a minha mente repleta de dor e desespero. Ela respirou fundo e me apertou em seus braços, eu me aconcheguei ao colo que ela me oferecia. – Eu vi nos seus olhos o que você sente por ela, Quinnie. E também, vi nos olhos dela o que ela sente. Um sentimento desse tamanho não nasce para ser sufocado.

- Vai ser melhor para ela! – Justifiquei débil e levemente desesperada, porque só eu sabia o quanto doía abrir mão dela, mas o quanto me dilacerava saber que eu estava temporariamente passando pela vida dela.

Eu não podia deixar uma cicatriz tão imensa no peito de Rachel, ainda mais se ela não tivesse ninguém ao lado dela para protegê-la quando eu fosse embora. Eu não podia chegar, virar o mundo dela de cabeça para baixo e depois partir, como senão me importasse. Porque importava e eu estava ali com ela, para fazê-la feliz. E a noite passada revelou que, talvez, eu tenha entendido as coisas da pior forma ao me aproximar dela...

- Não, não vai ser melhor para ela. E sabe por que, Quinn? – Minha mãe se afastou de mim e puxou o meu rosto para que eu a olhasse nos olhos. Ela estava centrada, disposta a me fazer voltar atrás e ir atrás de Rachel. Eu a encarei, me sentindo pequena em sua presença e acenando negativamente com a cabeça em resposta a sua pergunta. Judy suspirou e sorriu, calma. – Porque pior do que terminar um relacionamento, é terminá-lo quando ainda há sentimento. Isso sim deixa uma sensação terrível e um gosto amargo, porque sempre existe a possibilidade das coisas seguirem por outro caminho... Não desista, não seja covarde. Não fraqueje, seja forte por ela, lute. Se preciso, enfrente os pais dela, obrigue-os a gostar de você. Não deixe Rachel a mercê de rapazes e meninas que não a merecem. Porque só você entende do brilho dela e só você sabe o quanto ela precisa se sentir amada.

As palavras de minha mãe soaram como um tapa em minha cara. Eu olhei para ela, perdida em meio a uma onda de energia quente e tranqüilizadora que se instalava em todo meu peito. Algo tinha mudado dentro de mim, algo tinha se consertado. Eu sorri fracamente e minha mãe beijou minha testa antes de sair da cozinha, indo trabalhar. Revirei a salada no prato e suspirei.

Tinha muito que pensar e, principalmente, muito que sentir.


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Entenda bem, eu nunca fui dramática e nunca deixei que meus problemas pessoas atingissem a minha postura em relação às outras pessoas ou ao que eu era na escola. Eu consegui enfrentar uma gravidez sem fraquejar e me mantendo segura atrás de uma máscara de sarcasmo e desprezo quando, na verdade, eu estava me apegando àquela pequena pessoinha dentro de mim.

Fui traída por, talvez, um dos poucos namorados do qual gostei. Vi a loser da escola roubar meu namorado quaterback. Subi ao topo da cadeira alimentar do McKinley para depois ser jogada aos tigres e, estranhamente, me encontrar ao lado dos excluídos. Eu era Lucy Quinn Fabray e me reergui tantas vezes foram necessárias. Mas eu fiz isso por mim, para provas os outros que eu ainda era a Abelha Rainha e que eles tinham que me engolir.

Mas não era isso que estava acontecendo agora entre eu e Rachel. Eu precisava ter forças e enfrentar as dificuldades, não só por mim, mas principalmente por Rachel. Eu estava convencida de que ela estava sendo o elo mais fraco na nossa relação. Era ela quem estava perdendo pessoas e sentimentos enquanto eu estava segura, presa na redoma de amor e proteção que meus amigos e minha mãe pareciam dispostos a me envolver.

Eu estava perdida nas decisões que tinha que tomar. Um lado de mim dizia que não era certo decidir o futuro de Rachel e que se eu voltara, foi por ela e eu tinha que ficar ao lado dela. Mas outro lado, talvez aquela porção altruísta de mim, dizia que o sofrimento de Rachel era por minha causa e que eu tinha que me afastar. Eu estava pendendo para o meu “segundo” eu. Só que as palavras de minha mãe abalaram as minhas estruturas e, principalmente, fizeram surgir em mim algo que eu tinha tentado esconder por tanto tempo.

Era o egoísmo.

Judy inflamou o sentimento de “posse” em mim. Rachel era minha, disso eu tinha certeza. Nossos caminhos se cruzavam o tempo todo naquele período do colegial. Rachel fizera parte de todos os momentos que me mudaram e me fizeram amadurecer. Rachel era minha alma gêmea, não no sentido sentimental e pesado da palavra. Mas no sentido real. Ela era a minha metade, ela me carregava na vida dela e ela era a responsável por essa Quinn atual.

A Quinn que amava, a Quinn que abria mão do orgulho e, essencialmente, da Quinn que temia perdê-la mais do que a própria vida. A pontada na minha têmpora voltou mais forte, eu massageei o local sem obter qualquer resultado, sabendo que a dor era emocional e não física. Os braços arderam tão intensamente que eu me deitei de bruços no sofá, mordendo a almofada para não gritar de dor. Minha mente estava cega pelo tique-taque ressoante e incansável e eu, de olhos fechados, tentava lutar para não chorar.

Mãos firmes e afobadas envolveram meu rosto e me puxaram em direção a um colo desconhecido. Eu suspirei pesadamente enquanto me deixava envolver por uma pessoa que acariciava meus cabelos e dizia que tudo ia ficar bem. Eu deixei meus braços envolverem a cintura daquela pessoa enquanto me afundava em lágrimas.

- Shiii... Vai ficar tudo bem, calma Q.

A voz doce e sonhadora foi facilmente reconhecida. Abri meus olhos devagar, deparando-me com o tecido vermelho do uniforme das cheerios do WMHS. Ergui a cabeça lentamente e encontrei os olhos azuis de Brittany me olhando com preocupação. Droga Fabray, B estava quase chorando por sua causa. Me coloquei sentada rapidamente, sendo invadida por uma náusea passageira. Suspirei e limpei as lágrimas antes de perguntar:

- O que está fazendo aqui, Britt?

- Eu tive um pressentimento ruim na escola hoje em relação a você, daí fiz S nos trazer aqui. – Brittany respondeu calmamente e me puxando para um abraço de novo, eu me afundei nos braços dela e escondi meu rosto em seu pescoço.

Brittany suspirou pesadamente e sua cabeça movimentou-se em direção a porta de entrada, Santana tinha acabado de entrar. O lugar ao nosso lado do sofá afundou e eu senti uma mão em minhas costas, fazendo carinho e escutei um suspiro pesado da latina. Ergui o rosto do pescoço da loira e apertei a mão de Santana entre as minhas. A latina olhou triste para mim e perguntou abalada:

- Que porra a Berry fez contigo, Quinn?

- Ela não fez nada, não é culpa dela. – Respondi evasiva e me levantando do sofá, me sentindo subitamente sufocada pela presença das duas ali. Andei até a extremidade da sala e pude escutar o solado do tênis de Santana batendo atrás de mim. Me virei e ela me encarava com a sobrancelha arqueada e a expressão bitch, suspirei e ela perguntou agressiva:

- Claro que fez, Fabray. Man Hands estava com o Finnocence hoje na escola. E, pelo que eu saiba, ela estava contigo desde sexta-feira!

- Ela estava com Finn? – Repeti incrédula, sentindo minha garganta apertar e o meu coração sangrar dilacerado dentro do meu peito. A náusea me invadiu de novo e eu me segurei a estante para não cair. Brittany lançou um olhar irritado para Santana antes de envolver a minha cintura e me sustentar. Respirei fundo, estava cansada de tanta dor. – Ela estava bem com ele?

- Porra, claro que ela não estava bem, Juno! Não percebeu o quanto aquele projeto de megafone gosta de você? – Santana questionou ainda mais agressiva e se aproximando perigosamente da onde eu e Brittany estávamos. Eu arqueei a sobrancelha para ela, claramente duvidando do que ela podia me dizer, a latina bufou furiosa e cruzou os braços na frente dos seios. Olhei de esguelha para Brittany e a loira encarou isso como uma deixa para dizer:

- Rach estava forçando-se a sorrir, Q. Não era aquele sorriso de 10000 watts que estamos acostumadas a ver e Finn parecia convencido demais.

- Eu e Rach tivemos alguns problemas ontem, acabamos discutindo e resolvemos acabar com o que tínhamos antes que se tornasse grande demais para segurarmos. – Respondi evasiva e suspirando pesadamente. Brittany balançou a cabeça negativamente e eu vi Santana Lopez postar-se em minha frente, impressionantemente forte e decidida, antes de esbravejar:

- Escute bem, Fabgay: eu nunca te vi tão feliz como você estava na sexta-feira quando toda essa merda com a Berry começou. Eu não quero saber o que vocês fizeram, eu não quero saber o que aconteceu. Quero que você vá agora a casa dela e resolva esses problemas antes que ela seja engolida pelo T-Rex!

- Não tem mais o que fazer, Santana! – Eu praticamente tive que gritar enquanto saía do aperto de Brittany e dava às costas as duas. Minhas lágrimas que eu segurara durante toda a noite finalmente caíram dos meus olhos, o gosto salgado em meus lábios parecia queimar minha pele. – Rachel vai ser mais feliz com ele do que comigo.

– ¡Cobarde! Se trata de su primer amor, quizá, el único amor que tuvo en la vida, Fabray! – Santana me pegara pelo colarinho da camisa e agitava todo meu corpo, com uma expressão amedrontadora e perigosa nos olhos. Brittany tentava nos separar, mas Santana continuava a me balançar enquanto eu segurava suas mãos, tentando me soltar. — Usted es el único que puede hacerla feliz, carajo!

Tão logo Santana gritara em meu rosto, ela me soltara, respirando com dificuldade enquanto caminhava a passos secos para fora da minha casa e batia a porta. Brittany deu um beijinho em meu rosto e fez uma carinha de desculpas antes de sair correndo atrás dela. Eu me joguei no sofá e respirei fundo, jogando meus cabelos para trás com um movimento das mãos. A porta tornou a ser aberta, mas eu não me virei para ver quem era.

- Além disso, eu e B sempre teremos a sua retaguarda Q. Não precisa temer. – A voz rouca de Santana soou ofegante e os lábios dela tocaram o topo da minha cabeça. Eu me encolhi no sofá, abraçando meu próprio corpo, escutando-a ir embora e levar todas as minhas certezas consigo.

Rachel estava com Finn, Rachel estava fingindo estar feliz com ele de novo. Meus esforços foram em vão, ela jamais seria feliz com outra pessoa exceto comigo.


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Fiquei sabendo que esteve com Finn hoje, está tudo bem? – Quinn.

Reli a primeira mensagem que enviara a Rachel naquele dia, já era noite e com certeza ela estava em casa. Mas ela não respondera essa mensagem e muito menos a que viera em seguida.


Olha, eu sei que não quer falar comigo... Mas, eu só quero saber se você está bem. – Quinn.

Mais uma vez fui ignorada e a dor instalada em meu peito só aumentou de proporção. Fiz uma careta e tomei uma decisão arriscada: eu iria a casa de Rachel, nem que fosse para ficar do lado de fora ou ter que sair correndo dali porque o pai dela me perseguiria com uma espingarda.

Apanhei as chaves do meu carro e saí dirigindo pelas ruas de Lima escorregadias devido à mistura de neve e chuva. Dessa vez, eu estava imersa em sensações que me impediam de me lembrar dos meus medos de dirigir. Meus braços tremeram? Sim. Minha vista embaçou em alguns momentos? Também. Mas meu coração batia tão aliviado e tão acelerado em meu peito que eu simplesmente ignorava o tique-taque e suas conseqüências apenas para chegar viva a casa de Rachel e, ao menos, pedir desculpas a ela.

E assim eu o fiz. Quando cheguei a casa dela, a garagem estava vazia. Mas a luz de seu quarto, no andar superior, estava acesa. Praticamente saltei do carro. Não estava me perguntando se ia ou não tê-la de volta, o que estava provocando um gosto amargo em minha boca era a possibilidade dela não me perdoar.

Rachel tinha todos os motivos para não me perdoar, afinal, eu era uma tremenda filha da puta quando eu queria. Eu tinha uma tendência natural a ferir Rachel, até mesmo quando tentava protegê-la.

Saltei do carro. Coloquei-me embaixo da janela dela e apanhei algumas pedrinhas do chão, jogando-as no vidro. Rachel não me respondeu e eu escutei o som do interior do quarto aumentar o volume. Pude ver que ela estava andando de um lado para o outro em frente a janela. Suspirei desanimada e saquei o celular, digitando mais uma mensagem:


Desça aqui, ao menos deixe que eu tente explicar as coisas. – Quinn.

Antes mesmo que eu recolocasse meu celular no bolso, a mensagem chegou. Fria, curta e seca.


Não temos nada para conversar. – Rachel.

Suspirei derrotada e olhei inconsolável para a janela. Estava frio, mas isso não me incomodava. Eu sentei embaixo da janela e escutei quando o volume diminuiu e uma nova música se iniciou. Eu conhecia aquela e me coloquei em pé em um salto, respirei fundo e acompanhei a voz de Gotye:


In the mornings

I was anxious

Better just to stay in bed

Didn't want to fail myself again

O volume da música não foi aumentado, como eu esperava. Olhei para a janela e Rachel tinha parado de andar de um lado para o outro. Agora ela estava parada em um ângulo que tentava esconder-se de mim entre as cortinas. Eu sorri, ela queria me escutar. Coloquei as mãos nos bolsos do casaco e continuei tranquilamente.

Running through all the options

And the endings

Were rolling out in front of me

But I couldn't choose a thread to Begin

Um carro passou por nós enquanto eu não tirava os olhos da janela, esperando que Rachel aparecesse. Pude ver que ela não se esforçava mais em se esconder, sua silhueta sentou-se ao lado da janela e eu, fechando os olhos, podia vê-la sorrindo desconcertada antes de fechar a expressão mais uma vez. Porque ela sabia que deveria estar chateada comigo.


And I could not love

Cause I could not love myself

Never good enough, no

That was all I'd tell myself

And I was not well

But I could not help myself

I was giving up on living

Talvez Rachel jamais entendesse quão reais essas palavras da música soavam para mim. Ela nunca entenderia que naqueles poucos dias, me fizera amá-la e, principalmente, me amar também. Rachel não entenderia jamais que ela estava me salvando de tantas coisas simplesmente por ser capaz de amar e de me perdoar. O amor realmente tinha um ar de perdão, Rachel estava me ensinando aquilo.


In the morning

You were leaving

Traveling south again

And you said you were not unprepared


Rachel Berry sempre esteve preparada, sempre esteve disposta a amar. Ela sempre se arriscou, sempre lutou por aquilo que a fazia feliz. Rachel poderia parecer egoísta aos olhos mais julgadores, mas ela só lutava por seus sonhos e pelos seus amores. Rachel era uma mistura de coragem e intensidade que inflamava todos que estavam a sua volta. Talvez eu nunca fosse capaz de dizer em voz alta, mas era justamente essa obstinação que me fizera voltar e amá-la cada vez mais.


And all the dead ends

And disappointments

Were fading from your memory

Ready for that lonely life to end


Eu e Rachel éramos duas almas solitárias, duas sozinhas vagando no meio do Glee. E nós, inconscientemente, nos buscávamos uma na outra para encontrarmos um pouco de paz. Eu demonstrava isso através dos xingamentos e apelidos que lançava em sua direção e ela, através da ânsia de querer se igualar a mim. Mesmo quando nos odiávamos, nós duas só queríamos que pudéssemos deixar as diferençar de lado e nos encontrarmos.

Nós só queríamos uma para outra e por que, Meu Deus, eu demorei tanto para perceber isso? Por que eu tive que desaparecer da vida dela e voltar para perceber que meu encaixe era ela?

And you gave me love

When I could not love myself

And you made me turn

From the way I saw myself

And you're patient, love

And you help me help myself

And you save me

Rachel me salvou. Rachel me fez sentir viva quando eu já morria. Rachel me fez acreditar no amor depois de tanto tempo vendo-o se distorcer diante das minhas relações fracassadas. Aquela pequena morena, com um coração enorme dentro de si, me fez acreditar em milagres e nos amores eternos.

Rachel nunca saberia que me salvou de uma eternidade sozinha e desesperadora. Ela nunca saberia que me trouxera de volta. Mas eu estava disposta a mostrar a ela como ela me salvara das aparências, dos relacionamentos de fachada e da realidade cruel e imprevisível.


You save me...


A música acabou e eu vi a janela se abrir devagar, no mesmo instante que um carro entrara na garagem dos Berry. Pela visão periférica, pude ver Leroy Berry sair do carro furioso e caminhar em minha direção.

Um sorriso maroto se abriu em meu rosto quando eu pulei a cerca branca de meia altura dos Berry e entrei feito um furacão no carro. Quando eu dei partida no carro e saí cantando pneus dali, Leroy esbravejava mil palavrões em minha direção.

Eu só consegui parar de correr com o carro quando estava próxima a minha casa, a mistura de adrenalina e felicidade invadiu meu peito, fazendo-me rir. Eu me apoiei no volante enquanto respirava fundo e sentia uma onda quente percorrer meu corpo todo. Meu celular vibrou em meu bolso e eu sorri quando vi que era uma sms de Rachel.


Obrigada por nos salvar de novo. Te amo. – Rachel.

E eu tive que me controlar para não morrer de felicidade.


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Notas finais
O que acharam?
Acho que me redimi depois dos eventos do capítulo anterior. Santana e Judy não são duas perfeitas?
E Quinn e Rachel não são extremamente bobas? HAUHAUHSAUSA
Peço desculpas pelos erros, comentem e recomendem!
Beijos e até a próxima (: