Entrar no exército parece uma tarefa fácil, se você for homem. Aqui, o machismo ainda tem vez, deixando que mulheres trabalhem apenas dentro de casa, o que para mim soa ridículo. Desde pequena, o sonho de servir era o que fazia meu peito se aquecer de emoção. Parecia fácil, era para ser fácil, mas nunca foi. Com o passar do tempo, percebi que batalharia muito fora, para depois batalhar ainda mais dentro. Em fim, muito tempo depois, eu consegui. Já estávamos no meio da segunda guerra mundial, eu treinava os soldados junto com Peggy Carter, minha parceira de trabalho. No momento, estávamos em um café qualquer, discutindo sobre os soldados:
—Soldado Rogers é, claramente, o mais esforçado deles, apesar de todos os problemas.— falei, tomando mais um gole. Por mais que os dois insistissem em esconder, todos sabiam que rolava algo entre Rogers e Carter, nem que fosse paixonite boba.
—Isso não tem o que discordar.— ela sorri, olhando para baixo, envergonhada.
Com um certo tempo servindo, acabei prestando atenção nela. Sabia seus costumes, quase todas as roupas de seu armário, estilo de cabelo favorito, e conseguia arriscar (e, na maioria das vezes, acertar) completar seus pensamentos. Nos olhos de nossos colegas de serviço, não passava de amizade forte, pena que eu sabia que não era isso. Afinal, me sentia atraída por Peggy, mais do que me senti por qualquer outro homem. Nos pensamentos da madrugada, cheguei a conversar sobre com Steve, ele me ajudou a clarear a longa jornada, me assegurou que poderia contar com ele. Eu não era a única que agia estranha ali, aliás, nós quatro agiam estranhos. Steve, desde que voltara da missão de resgate da 107, sempre arranjava um jeito de dar uma escapada do treinamento para me ver no outro lado da base, treinando junto com outra equipe. Bucky vivia em cima de Peggy, por mais foras que levasse. Não éramos normais, certeza absoluta, isso era bom: precisamos de um pouco de paz de espírito, principalmente quando falamos de guerra.
—E como vai você e Steve?— arrisquei perguntar, que mal faria?
—Eu e Steve? Oh, Agente Johnson, não seja tola. Steve só tem olhos para você.— respondeu, fazendo a típica cara desafiadora. Dei uma leve risada, balançando a cabeça em sinal de negação.
—Não é exatamente assim que a banda toca, Peggy.
—Falando assim, parece até homossexual.
Meu sangue concentrou-se na bochecha após o comentário. Eu me sentia completamente desconfortável, ainda mais por ver que Steve não poderia me ajudar agora.
—Se falei algo errado, por favor, me desculpe.— Peggy falou, parecendo mais sem graça do que eu.
—Tudo bem.— sorri.
Olhei para o relógio, constatando que era hora de voltar para a base. Pegamos o carro, com o motorista de Stark, e logo chegamos ao local. Steve, como sempre, nos esperava na porta, junto de Bucky:
—Boa tarde, senhoritas.— James foi o primeiro a se pronunciar, demorando seu olhar em Peggy.— Como foi a hora de descanso?
—Estava sendo ótima, até agora.— a morena diz, dando um sorriso irônico.
—Boa tarde, Patty.— Steve sorri.
—Como vai, loiro?— sigo o embalo dele.
—Ah, estou bem. Meu treinamento de hoje já acabou, conversei com o coronel e ele disse que você não treinaria hoje, e, sabe como é, eu queria saber se você...
Meu querido amigo Rogers não era o mais experientes com as garotas, nem de longe. Se eu não o conhecesse tão bem, poderia dizer que este estava fazendo drama, entretanto, ele realmente não sabia chamar ninguém para sair. Sorri, o acalmando.
—Continue, Steve.
—Você acabou de sair da cafeteria, seria inútil te convidar para voltar para lá.— ele fala, tristonho.
—Quem sabe, nós não podemos dar uma volta no quarteirão?
Não queria dispensar Steve na primeira jogada, queria dar uma chance a ele, era um ótimo rapaz. Afinal, pelo o que ele me conta, não teve tantas oportunidades com mulheres, e que gostaria de tentar antes de ganhar a guerra. Eu posso tentar desencalhar ele, não é?
Peguei minhas coisas no quartel, e segui Steve. Ele me levou para dar algumas voltar no Brooklyn, contou-me histórias de quando ainda era frágil, como conheceu Bucky, e até porquê entrar no exército, sabendo que duraria pouco.
—Tinha homens sacrificando a vida, não tenho o direito de fazer menos do que eles. Sempre pensei assim, acho que sempre vou pensar.
Estávamos encostados na moto, perto de um grande lago, comendo um salgado qualquer que tínhamos comprado no mercado da esquina. Logo, o saco acabou, e eu fui jogar no lixo. Quando voltei, reparei que Rogers me observava, como se a qualquer momento eu fosse quebrar:
—Algo de errado?— perguntei, varrendo o lugar com o olhar, temendo estarmos sendo seguidos.
—Seus olhos parecem mais escuros com a luz da lua.— o tom baixo deixou claro que ele estava distraído demais para responder. Apenas assenti, e me aproximei novamente dele.
Sabe aquela atração toda que eu sentia por Peggy? Então, eu não sentia por Steve. Claro, havia afeto ali, mais admiração, mais amizade do que namoro. De certo, ele não sentia a mesma coisa, provavelmente, com ele era mais intenso, mais vívido, mais amor. Me senti pressionada naquela posição. Steve ainda me olhava, com as bochechas levemente coradas, parecia não conseguir desviar o olhar. Algo me impulsionou, talvez meu lado heterossexual aclamasse aquilo, então o beijei. Sua língua receosa brincava com a minha, se acariciavam, junto com a mão dele que parou na minha cintura. Não tínhamos muita habilidade com aquilo, eu resolvi parar. Puxei meu corpo para trás, mesmo não querendo sair de perto dele. Rogers me olha confuso:
—Fiz algo errado?
—Não, Steve.— deitei minha cabeça em seu ombro.— Talvez o que você sente por mim, é o mesmo que eu sinto por Peggy.
—Amizade?
—Amor.
O mês passara rápido. Várias coisas aconteceram; entre elas, a suposta morte de Barnes (já que pelos menos conhecimentos, não era realmente possível ele ter morrido ali, considerando que fora experimento da H.I.D.R.A). Steve ficara revoltado, resolveu atacar diretamente o Caveira Vermelha, o que não me agradou muito. Missão suicida, era o nome do que ele queria fazer. Ocorrera tudo bem, apesar de alguns soldados mortos, até a hora que Rogers deteu Caveira Vermelha, mas tinha uma grande responsabilidade: alguma coisa, que eu não sabia exatamente o que era, iria atacar diretamente Nova Iorque. Ele teria que pousar na água. A última pessoa que conversara com ele fora Peggy, já que eu não estava em perfeitas condições de falar com ninguém.
Os meses seguintes foram os piores. Eu me sentia sufocada comigo mesma. As poucas pessoa que me ouviam era Howard e, obrigatoriamente, Coronel Philips. Howard sabia da minha história com Steve, consequentemente, com Peggy. Éramos grandes amigos, eu sempre o ajudava com invenções novas, e ele sempre me dava total apoio.
—Patrícia, minha querida, não adianta ficar vegetando no sofá, como se isso fosse trazê-lo de volta.— Howard fala, me oferecendo um drink.
—É a única coisa que eu sei fazer, Howard.— dou um gole.— Oh, sim. Como vai o caso do mercado negro?
—Você sabe. Eles teimam como mulas, falando que fiz intencionalmente, por mais que eu queira justificar.— ele revira os olhos, mostrando estar entediado.
Eu até continuaria o assunto, se Jarvis não entrasse na sala, falando que há ligações para mim. Desde que Howard quis dar de foragido, quem ficara com as rédeas da situação fora eu, como consequência, a carga caía toda para cima de mim. Andei até o outro cômodo, com uma desculpa na ponta da língua:
—Residência Stark, Patrícia.— respondo.
—Alô, Patty.— escuto Peggy.— Quanto tempo. Por quais eventos anda se metendo?
—Se não se importar, seja breve. Tenho algumas papeladas para mandar para algumas pessoas chatas.
—Quero que me acompanhe no evento de amanhã. Se não for pedir muito.
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