Eventualmente Claricce Stracci
6 Capítulo 6
Manhattan, 20:00
Corey trazia mais uma rodada de bebida para Suzane. Só quando ela reparou bem no bar em que tinha entrado, viu que horas eram. Eram oito horas. Essas horas ela deveria estar falando com algum parente de algum desaparecido. Eu passei três horas bebendo? Pensava ela. Tudo a sua volta rodava, não tinha ninguém naquele bar além dos dois, e ela sentia uma forte ânsia de vómito. Deveria ter feito uma careta, pois logo Corey lhe veio dar assistência.
– Está com algum problema, Suzane? – Ele se agachou pra ficar a altura de seu rosto. – Está passando mal? Quer que eu chame um médico?
– Não preccccisa não. Eu sou médica. – Mais uma mentira.
– Eu sei quem você é, Suzane. Você não conseguiu me enganar, cretina. Você é a pior mentirosa que já conheci!– Corey falou num tom ríspido.
Ela estava pronta pra dar um tapa na cara dele, até que seu cérebro finalmente conseguiu processar o que ele tinha acabado de dizer.
– Ahnn? Do que você está falando? – A voz de Suzane estava fraca. – Você não tem moral nenhumaaa pra falar de mim, já que você roubou seu nome de um cantor de rock em decadência. Custaria pegar o nomenzinho de Adam Gontier? Ou até mesmo o Ozzy? Seu ridículo. Patééético.
– Você não engana mais ninguém aqui, Suzane Dudek. – Ele sorriu.
Ela arregalou os olhos no momento em que ele disse seu nome verdadeiro. Será que ela tinha lhe contado? Ou, será... Que ele queria sequestra-la? Como o resto dos jovens?
Enquanto ele está indo, eu já estou voltando.
– Quer sssaber de uma coisa? Sou uma Dudek mesmo. Não tenho vergonha disso e muito menos orgulho, muito pelo contrário. – O álcool a obrigava falar coisas que não tinham sentido algum. – E agora quer saber pra onde eu vou?
Suzane se levantou e ficou na frente de Corey. O 1,64 de Suzane não era nada comparado ao 1,85 de Corey, mesmo assim, ela juntou toda a coragem que tinha e o metralhava com o olhar.
– Onde? Num puteiro? – Zombou Corey.
Suzane exibiu um sorriso esnobe.
– Vou sim. Combinei com a sua mãe de nos encontrarmos lá. – Ela tomou o último gole de sua bebida, e olhou para a cara do garçom. Ele estava furioso. – Vai ser um encontro e tanto! Sua irmã também me prometeu de que ia passar por lá...
– Você não vai sair daqui hoje. – Ele disse.
Corey fechou os punhos e a encarou, até que ela desviou o olhar.
– Eu não vou sair daqui? Você não vai deixar? Que pena. Sei mais leis do que você possa imagin – A voz dela foi falhando, e só depois de sua cabeça cair com tudo no chão, percebeu que estava dopada.
E então, tudo ficou preto.
NYC, 05:46
Com os olhos fechados e respiração fraca, Suzane estava tonta ainda, como se metade do álcool que tomara na noite anterior tivessem seu organismo ainda. Ela sentia uma forte dor de cabeça. Sua mãe havia lhe ensinado algumas massagens que ajudariam a reduzir a dor, mas quando ela foi tentar passar a mão pra ver se tinha algum machucado ou algo do gênero, algo a impediu. Ela estava amarrada numa cama. Abriu os olhos, e o quarto branco e as luzes fortes a fez semicerrar os olhos para conseguir se acostumar melhor com o ambiente.
Estava tomando soro, mas, pra quê? Ela não se sentia doente, apenas um pouco tonta, o que era normal pra quem tinha acabado de tomar um porre. Ninguém estava em seu quarto, e isso fez com que ela ficasse com medo.
– Alguém? Alguém pode me ajudar? – Ela gritava numa tentativa de socorro.
Uma enfermeira com os cabelos ruivos passava por ali e viu que alguém estava a chamando. Entrou no quarto de Suzane, e sorriu de forma amigável.
– O que eu posso fazer por você, minha senhora?
– Primeiro, como eu cheguei aqui? E por que eu estou amarrada? Não sou nenhuma assassina! – Suzane a olhava com desconfiança.
– O seu marido trouxe a senhora, disse que a senhora bebeu muito na noite anterior, parece que a senhora anda muito deprimida ultimamente.. Ahnn, não sei bem da história. Ah, mil desculpas senhora, vou chamar o médico encarregado desse caso para falar com a senhora... Só um momento. – Seu tom de voz continuava amigável, embora sua expressão dizia totalmente o contrário.
A ruiva foi dando as costas, quando Suzane gritou:
– E você pode me dizer qual o nome dele?
Ela parou por um segundo, como se estivesse pensando pra responder.
– Ele já vem falar com a senhora. Um minuto.
Não demorou muito para que o médico finalmente chegasse. Alguma coisa nele era familiar, talvez fosse os cabelos negros, ou os olhos castanhos brilhantes. Suzane desceu o olhar até finalmente chegar ao crachá dele: Eric M. Gibbs. Merda.
Ele sorria como um galã, e Suzane sentia uma certa saudade dele, já que ele foi seu primeiro namorado, seu primeiro amor. E o primeiro a desistir dela. Será que ele ainda lembra de mim?
– Olá senhora... – Ele olhou pra ficha médica que estava no pé da cama. – Heather Volaski, como se sente?
– Meu nome não é Heather! – Ela disse furiosa.
– É o que está escrito aqui. – Eric chegou mais perto para conferir o soro.
– Por que estou presa? Não matei ninguém, e também nunca roubei. Que mal eu te fiz?
Eric riu e olhou no fundo dos olhos da moça.
– Senhorita Volaski, seu marido afirmou que você é psicótica, por isso a prendemos. Não nos leve a mal... Estamos sendo cautelosos com a sua doença, não sabemos se é realmente perigosa ou se seu marido exagerou. Voltando ao seu caso, você bebeu muito e veio parar aqui, agora está se recuperando. Vai ter uma ressaca daquelas hein. Mais alguma pergunta?
Suzane tinha lágrimas nos olhos, e sentia rancor por Gibbs.
– Você alguma vez me amou, Eric? Ou foi tudo uma armação pra você conseguir pegar a Claire? – Ele fez uma cara de assustado. – É, ela mesma, Claire Smith, lembra dela? Por que eu me lembro muito bem.
– Suzane? É você mesma? — Ele colocou a mão na cabeça. – Minha Michelle?
– Nunca fui sua, e você sabe que eu odeio esse nome de stripper. Agora, pode me dar alta pra eu sair logo daqui? – Ela sabia que ele ia falar ‘não’. – Por favor, Eric. Por todos os momentos bons que passamos...
Ele olhou pra ficha médica novamente.
– Por que mudou de nome? Achei que adorava os apelidos, Anne, Suzy, minha Michelle, — Ele pegou a ficha médica dela e começou a analisar. – mas pelo jeito me enganei. Não sabia que estava casada. Meus parabéns.
Suzane bufou de raiva. Eric estava mais lindo do que nunca, e finalmente se tornara médico.
– Pode tirar essas amarras de mim? Antes que eu te mate enforcado.
– Ah, claro, me desculpe. – Ele começou a desamarra-la de forma delicada, para que não sentisse dor nenhuma. – Pronto. Agora me conte toda a história.
Suzane massageou seus pulsos, e sua dor de cabeça tinha piorado. Ela se levantou e ficou na frente de Eric. Sua intuição a dizia pra não ficar mais tempo naquele hospital, ou ia sofrer graves consequências.
– Então, me sequestraram e botaram esse nome em mim. O motivo? Eu não sei. Agora, por favor, eu tenho que investigar alguns desaparecimentos. – Ela tentou empurra-lo, mas ele estava parado como uma pedra. – Saia da minha frente, Eric.
– Não.
Ela se sentiu tentada a desafia-lo, mas chegou a conclusão de que manipula-lo seria bem mais fácil e menos cansativo.
– Olha Eric, não to me sentindo muito bem... – Suzane se jogou pra cima dele. – Eu acho que chegou minha hora. Avise a Tânia que ela pode ficar com minha TV, eu não ligo.
Ele a carregou e a colocou suavemente deitada naquela cama. Suzane estava gemendo, fingindo uma doença que provavelmente nunca teria, ele colocou o soro de volta em seu braço. Nos olhos castanhos havia preocupação, e talvez aqueles brilhos em seus olhos, fossem amor. Ela bocejou.
– Me deixe dormir agora, sim? Mais tarde você faz os exames. Prometo que vou ser boazinha. – Ela forçou um sorriso. – Estou com sono.
– Claro que sim. – Ele foi deixando a sala, até que a olhou pela última vez. – Eu sempre te amei, Suzane.
Depois que ele estava longe o suficiente pra não vê-la mais, ela tirou a agulha de seu braço, se levantou e foi vigiar a porta. Quase não tinha nenhum médico lá, era muito cedo. Ela saiu andando pelo corredor até que um guarda a puxou pelo braço.
– Fugindo, hein? – Ele disse com a voz autoritária.
– Não, seu guarda. O doutor Gibbs me deu alta. Se quiser pode ir perguntar pra ele. Eu te espero. – Ela sorriu.
– Você vem comigo, mocinha. – Ele a carregou, apesar dos socos que ela lhe dava.
Chegando a sala de Eric, o guarda deixou Suzane andar sozinha, mas com ele do lado. No momento em que ela entrou na sala, sentiu um cheiro diferente... Perfume feminino? E era dos bons! Ela sabia que já tinha sentido isso antes, mas não conseguia lembrar da onde. A sala era verde, a cor favorita do ex. Só tinha móveis de madeira escura, bem do jeito que ele gostava. Não tinha nenhuma foto, apenas o diploma dele na parede. Fútil.
A cadeira dele estava de costas, e dava pra ouvir os beijos desesperados que trocavam. A cadeira rangia a medida que os beijos foram ficando mais quentes.
– Não é verdade que o senhor me deu alta, senhor Eric? – Suzane falou em alto e bom som, e sorria.
Ele virou a cadeira, e em seus braços estava a enfermeira que atendera Suzane. A ruiva antipática. Eric exibia frustação, e sua parceira, prazer em Suzane ter visto aquela cena.
– Isso é verdade, senhor Gibbs? – Perguntou o guarda, cortando aquele clima tenso.
– Conta pra ele, Eric. Que você já foi meu namorado, e que agora, é meu médico particular. – Suzane provocou.
– Isso é verdade, Eric? – A ruiva lhe deu um tapa. – Nunca mais me ligue. Nunca mais olhe na minha cara! – E saiu da sala marchando.
– Joana!!! Volte aqui! – Ele gritava, o guarda não sabia se olhava pra fugitiva ou para o doutor que pegava colegas de trabalho.
– Não é verdade, Eric? Você me deu alta, né? Ele não quer acreditar em mim..– Suzane arqueava uma sobrancelha.
– Suma da minha frente, Suzane! – Ele saiu da sala trotando.
Ela olhou pro guarda.
– Já que tudo isso está entendido, pode, por favor, dar minhas roupas e pertences?
– Qual o seu nome moça? – Ele a encarava.
– Suz.. Heather Volaski.
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