Manhattan, 15:48 PM

A Corporativa Hunter existia a anos. Talvez fosse mais velho que seu gerente. Na verdade, era uma Corporativa de Negócios: homens com dinheiro iam lá pra ganhar mais dinheiro. A cidade de Nova York era assim, todos queriam cada vez mais, especialmente o dinheiro – ainda mais agora que os EUA enfrentavam a maior crise de todos os tempos.
Suzane estava agitada como qualquer segunda-feira rotineira, sempre com um telefone em cada mão e revendo o contrato de vários empresários famosos. Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Aquilo facilmente a assustava, e numa tentativa falha de organizar suas metas e pensamentos, passou a mão em sua cabeça. Seu chefe, o senhor Mason, não permitia nenhum erro se quer, e era isso que fazia seu trabalho de secretária ser mais difícil que qualquer outro. Talvez a vida de advogada criminal fosse melhor, lá não teria nenhum Mason.

Seu telefone tocou, e de imediato ela atendeu. Era sua mãe. Desde que se formara no ensino médio jamais a vira, e isso fazia seu coração ficar em pedaços. A saudade era tanta que se ela estivesse em casa, estaria chorando. Como sempre, Lucy queria saber como a filha estava, e principalmente como estava seu trabalho. Lucy sempre quis que sua filha seguisse a profissão do pai, Dudek era um respeitado médico, e estava crescendo nos negócios quando faleceu de forma misteriosa, mas Suzane recusou essa possibilidade milhões de vezes, argumentando que não era “sua profissão dos sonhos”. A mãe dela já estava sabendo da crise, mas não queria ouvir aquilo da boca da filha. Ela não se permitia, preferia continuar enviando o dinheiro mensal – uma pequena mesada — da filha sem fazer perguntas.

Depois de desligar o telefone, deixou-o em cima da mesa, e tentou organizar os papéis, quando notou que sentado em sua frente tinha um homem. Seus olhos eram de um azul congelante, quase que brilhavam, e seu cabelo era preto. Esse cara é muito bom pra ser verdade, talvez fosse uma divindade grega pensava ela enquanto forçava um sorriso.

- Olá senhora... – Ele deixou um ponto de interrogação no ar para que ela pudesse se apresentar.

- Dudek. Pois não? Em que posso ajudar?

Ele apoiou suas mãos na mesa, obrigando Suzane a olhar em seus olhos.

- Se me permite. Sou Christopher Jane, prazer. – Ele estendeu a mão para cumprimenta-la, ela repetiu o gesto. – Tenho uma reunião marcada com o senhor Mason.

Ela olhou pra agenda do Mason. Não tinha nada marcado pra agora. Seus olhos castanhos percorreram a sala numa tentativa falha de amenizar seu nervosismo, e quando finalmente voltou a olhar nos olhos dele, ele já exibia um meio sorriso.

- Não tem nada marcado pra agora. Tem certeza que é com o Mason? Charles Mason? – Suas mãos tremiam enquanto ela tentava organizar os contratos. – Você pode estar enganado com a data, senhor Jane.

— Absoluta. Me faça um favor, ligue pra sala dele agora e diga que é o Chris que está aqui, seu velho e bom amigo. Com certeza ele vai me deixar entrar.

Ela apenas concordou com a cabeça, e fez o que ele pediu. Mason atendeu no terceiro toque, o que significava que ele estava ocupado, e aquilo significava que Suzane tinha de ser breve.

- O que é, Suzane? – Ele falou bufando.

- Então senhor Mason.. Tem um homem aqui me falando que conhece o senhor, e não sei se devo deixar ele entrar.. – Suzane revisou o olhar entre o telefone e Christopher, que agora já estava sentado e falando baixinho no telefone.

- Qual o nome dele?

- Christopher Jane. – O outro lado silenciou. – Ele diz que é um velho amigo do senhor. Devo deixar entrar?

Mais silêncio.

- Senhor Mason?

- Claro, claro. Deixe-o entrar, e quando ele estiver aqui, por favor, não me interrompa com nada e nem com ninguém. Desmarque todas as minhas reuniões que eu tinha hoje a tarde e como desculpa, fale que aconteceu um imprevisto.

- Ok.

Depois de desligar o telefone, Suzane voltou a olhar o homem, que já estava de pé esbanjando um belo sorriso.

- Viu só? O que eu te disse? Ele me deixou entrar, certo?

Ela deixou escapar um sorriso.

- Sim, senhor Jane. Ele finalmente deixou você entrar. – Ela o fitou. — Quer que eu te acompanhe até a porta?

- Muita gentileza de sua parte, senhorita Dudek. Mas não, eu me viro bem aqui. Obrigado. – Ele chegou mais perto de Suzane, e começou a sussurrar. – Posso saber qual é o seu primeiro nome, senhorita?

- Suzane. Suzane Dudek. – Ela falou com os olhos vidrados, seu coração estava a mil, e sua respiração estava ofegante.

- Obrigado mais uma vez, Suzane. – Ele sorriu e sumiu naquele imenso corredor.

A tarde foi bastante corrida, desmarcando e remarcando reuniões tão importantes quanto ela mesma, a maioria era com políticos, e quando chegou ao último número pra ligar, bateu aquele nervosismo que a fazia sentir que estava fazendo a coisa certa. Aquela sensação que ela tanto gostava.

- Alô? Por gentileza, com quem eu falo?

- Alô? Aqui é Amy Brooke, secretária do vice prefeito, Henry Castle.

Aquela voz fina fez Suzane ter arrepios.

- Oi, senhora Brooke. Aqui é Suzane Dudek, da Corporativa Hunter. Gostaria de remarcar a reunião que seria hoje, pois aconteceu alguns imprevistos com o senhor Mason. Tudo bem pra você? – Silêncio. — Pode ser semana que vem?

Amy fez uma pausa, e suspirou antes de responder.

- Olha, Suzane, vou ser bem direta com você, não acho que o Henry vai gostar disso. Ele demorou meses pra conseguir marcar uma reunião com o Mason, e bem no dia me falam que tudo está cancelado por causa de alguns imprevistos?! Vou avisa-lo, qualquer coisa ele passa aí mais tarde. Obrigada pelo aviso, passar bem.

E Amy desligou na cara dela. Suzane estava esgotada, preferia mil vezes um tribunal, defendendo um cara que certamente era o errado da história, com todas aquelas testemunhas e público do que essa vida de ‘remarcar’ e ‘marcar’ horário com um homem metido a rico.

Eram quase sete horas da noite quando um homem de aparência de mais ou menos 50 anos entrou na sala com o rosto vermelho, e começou a bufar de raiva. Pela sua aparência física e nas atitudes que ele demonstrava, Suzane diria que ele era um búfalo. Com certeza. Não pesava menos de 90 kg, e aquele terno caro o fazia parecer maior. Ele logo foi batendo na mesa de Suzane, deixando-a assustada.

— Onde está o grande Charlie? Eu quero falar com ele! Eu preciso falar com ele! Será que você não entende isso, mocinha? – O homem foi gritando, e seu rosto foi ficando cada vez mais vermelho.

- Ele não pode te atender agora, mas semana que vem ele tá com a agenda livre, e se o senhor quiser, posso marcar para segunda-feira de manhã. — Suzane falou no tom mais calmo que conseguia, mas viu que sua tentativa de passar calma pro ‘búfalo’ foi em vão.

- Não! Não! E não! Eu demorei meses pra conseguir marcar uma merda de uma reunião com ele e exijo esse meu direito agora!

- Deixa eu ver se adivinho, senhor Henry Castle, não é? – Ele confirmou com a cabeça. – Sinto muito, mas ele realmente não pode te atender agora.

Henry foi em direção ao escritório de Mason e abriu a porta com tudo, o que causou um barulho ensurdecedor, Suzane vinha logo atrás dele desesperada, temendo o pior.

- Eu sinto muito senhor Mason! Eu disse que ele não poderia entrar mas.. – A voz dela foi falhando quando ela viu Christopher se levantar.

- Tudo bem, já estava de saída mesmo.

Aquela cena fez com que Suzane ficasse realmente preocupada com seu emprego. Ao olhar pra cara de Charles Mason, o grande patriota da cidade, ela saiu da sala dele e foi direto para sua mesa. Ela colocou as suas mãos na cabeça na tentativa de se acalmar. Frustação. Raiva. Medo. Tudo isso se encontrava em Suzane nesse exato momento. Emoções a dominavam.

- Idiota, idiota, idiota, idiota... – Ela foi repetindo pra si mesma, num sussurro.

- Ele? Ele é um idiota mesmo. – Christopher se materializou na frente dela.

Ela levou um susto com aquela voz, o que fez ela colocar a mão em cima de seu peito. Ela começou a andar em círculos, o que a deixava mais nervosa ainda.

- Não, eu tô falando de mim. – Ela se forçou a olhar nos olhos dele, e só depois que uma lágrima desceu até seu pescoço ela percebeu que estava chorando. – É que, depois dessa crise, não sabia o que fazer, e esse emprego é tudo que eu tenho... Por favor... Me desculpe...

- Pelo que eu vi, você não é idiota, Suzane. Nem chega perto de ser uma. – A voz dele parecia como a de um cantor de ópera. A tranquilizava. A deixava num estado de paz que ninguém jamais a deixara.

- É que eu tenho certeza que vou perder meu emprego depois dessa, que maravilha! – Ela já estava com as mãos tampando o rosto.

- Não se preocupe, eu vou falar com Mason depois. Seu emprego está garantido. – Ele foi dando as costas, quando finalmente olhou pra trás. – Boa noite, senhorita Suzane Dudek.

Ela continuou o olhando sumir no meio da escuridão da noite, até que se deu conta de que estava enfeitiçada por aquele rapaz. E em meio aos seus pensamentos, percebeu o quanto isso poderia ser perigoso.