Eventualmente Claricce Stracci
7 Capítulo 7
NYC, 07:00
Depois de finalmente pegar suas roupas fedendo a bebida, desceu até a recepção a fim de saber quem a tinha levado naquele hospital. Ela estava com nojo de sua própria roupa, e não sabia ficaria feliz ou com raiva ao descobrir o que teria feito ontem a noite.
Uma gordinha na recepção de óculos e roupas coloridas sorriu pra ela, Suzane retribuiu o sorriso. Ela chegou mais perto da moça que poderia ter o seu destino em mãos.
– Oi.. Moça. Você poderia me falar quem me trouxe pra cá ontem a noite? É que eu não lembro de nada, e se não fosse pelo meu médico, eu nem saberia meu nome.
– Ahh, se não é a mocinha que ficou perguntando onde eu comprava minhas roupas! Você tava chapada ontem, mas mesmo assim, continuava um amorzinho. – A moça exibiu seu sorriso amarelo. – Você me lembra minha filha.
– Fico feliz em saber disso, senhora – Suzane olhou rapidamente para o crachá dela, e voltou a fita-la. – Martha, mas eu queria saber, que jeito era o homem que me trouxe aqui ontem? Eu não me lembro de nada!
Martha olhou para baixo da escrivaninha, e de lá retirou uma ficha, e no meio dessa ficha, tinha uma carta com um envelope azul no meio dela.
– A senhora pode me contar o que viu ontem? Como eu cheguei aqui? Como tudo começou? – Ela fitou os olhos marrons dela. – Por favor, me ajude a descobrir o que eu fiz ontem a noite.
– Ok, ok, mas isso fica entre nós duas, ta? – Suzane assentiu com a cabeça. – Ontem você mal conseguia andar direito, só cambaleava de um lado para o outro como uma peteca. Você dizia que era a ‘advogada mais mal paga do mundo, e que não merecia nada daquilo que estava acontecendo em sua vida’, e insistia que seu nome era Suzane. Mas, na ficha, o nome da sua mãe está como Suzane Volaski, eu acho que você gosta mais da sua mãe do que pensa. Os psicólogos falaram que era efeito do álcool, e que em poucas horas você estaria normal de novo.
– E você pode me dizer que jeito era o homem que me trouxe ontem? Ele tinha alguma tatuagem? – Suzane tentava encaixar as peças do quebra cabeça.
Mas é claro que não era Corey, afinal, ela ainda se lembrava das suas últimas palavras ‘Você não vai sair daqui’, então não poderia ser ele. Ele até tinha a dopado, para que ela ficasse por lá, quieta, sozinha. Ela não conseguia entender mais nada sobre ontem a noite.
– Não tinha homem nenhum. Era uma mulher. – Martha falou com a voz serena.
– Uma mulher? Tem certeza?
– Absoluta. Se quiser, o nome dela está aí na sua ficha. E ela também insistiu em te deixar uma carta, parecia que ela ia viajar pra Roma, não sei. – Martha olhou por cima de seu ombro. – Querida, pode ler sua ficha na sala de espera? Algumas pessoas estão esperando para serem atendidas. De qualquer forma, espero que saiba o que aconteceu ontem a noite, estou torcendo por você.
– Obrigada. – Suzane levantou sua ficha e levou consigo.
Sentou na desconfortável cadeira da sala de espera, de lá, ouvia-se gritos de alguns pacientes e várias pessoas chorando. Era por isso que ela não queria ser igual seu pai, não podia. Ser médica exigia muito mais do que ter um diploma; ela tinha que lidar entre a vida e a morte de seus pacientes. Eles confiariam a vida nela. E ela não estava preparada a correr o risco.
Sua ficha estava como a de qualquer um, o nome completo – que ela achava que era nome de uma dama da noite –, endereço que era falso, e não tinha telefone nenhum. Para seu azar, a mulher que assinou por ela tinha um nome bastante comum, Elizabeth Jacob, e ela tinha certeza de que era falso.
Com as mãos trêmulas, pegou o envelope, e o abriu. Dentro, havia uma carta escrita a mão. Suzane estava nervosa demais pra reparar o quão bonita e redonda eram as letras, e sabia que, provavelmente, aquela carta não seria pra perguntar como ela estava, era da máfia dando seu segundo aviso. Seria possível? Ela se perguntava antes de fixar seus olhos naquele pedaço de papel e começar a ler.
Minha Querida Neta,
Quero que saiba que logo, logo, estarei ai pra protege-la de tudo e de todos. Querendo ou não, você certamente voltará para os braços de nossa querida cidade, Roma.
Eu senti tantas saudades! Pensei que estava morta, mas agora, percebo que isso foi apenas um plano genial para enganar nossos inimigos, os Cordopatri. Penso, também, que você tenha se envolvido com um deles, e que esse tal alguém tenha a ajudado a sair do cativeiro.
Estou tão feliz com as imagens que Nicholas nos enviara da noite em que você estava em seu bar! Você está viva! Minha única herdeira, e minha única neta está mais viva do que nunca. Deveria ter desconfiado de você, você sempre adorou a América... E de onde você tirou esse nome, Suzane Dudek? Ele é hilário. Mas não combina com você.
Você sempre será minha Claricce Agostina. Sempre. Eu amo você.
C. Stracci.
Ela amassou aquele papel, junto com a sua ficha, e depois de jogou no lixo. Saiu daquele hospital com as mãos trêmulas e com lágrimas nos olhos. Suzane sabia pra quem ligar naquele momento difícil, a única pessoa que cuidara dela nesses últimos 21 anos: Sua mãe. Discou os números, e esperou ela atender.
– Vamos, mãe, atende essa droga de celular! – Suzane andava em círculos.
– Você ligou para Lucy Dudek, por favor, deixe sua mensagem, responderei o mais rápido que puder. E se você for um vendedor, eu não quero nada de você. Obrigada. – A voz da gravação a fez sentir desesperada.
– M-m-mãe, onde você está? – Uma lágrima caia. – Eu quero falar com a senhora, eu preciso falar com a senhora! Mãe, se alguma coisa acontecer comigo nesses dias, não se preocupe, eu vou estar bem. Afinal, eu sempre fico bem, não é? – Ela riu em meio as lágrimas. – Por favor, não conte nada para a Tânia, não quero que ela fique nervosa, ainda mais agora que ela está grávida. Sinto saudades suas. Quando puder, me ligue, certo? – Sua voz estava trêmula. – Eu sempre irei te amar. Beijos, Anne.
Depois de desligar, limpou suas lágrimas e se obrigou a deixar seus sentimentos de lado. E então, ela tomou coragem e ligou para Lisa Fortier.
– Alô? – Lisa foi a primeira a falar.
– Alô? Senhora Fortier? Aqui quem fala é Suzane Dudek, famosa advogada em casos criminais.
– Tão famosa que está trabalhando como secretária. Eu mereço. – Lisa falou baixo demais para que Suzane entendesse o que ela tinha dito.
– Desculpe, não entendi, o que a senhora disse?
– Que eu te conheço, e que falam de você muito bem, Suzane. Então, o que quer?
Suzane parou de andar em círculos e começou a olhar a rua em movimento.
– Queria saber se dá pra nos encontrarmos hoje a tarde, umas cinco horas? Ou pode ser antes? – Silêncio do outro lado da linha. – Estou investigando os desaparecimentos da suposta máfia, e ficaria muito feliz se a senhora colaborasse.
– Ah, claro. Pode ser sim. Tenho muito a contar sobre minha Bianca. Onde você quer que seja?
– No Times Square Café. Minha amiga trabalha lá e.. Eu gosto de lá, me sinto a vontade. Pode ser, senhora Fortier?
– Claro, Suzane. Quatro horas no Times Square Café. Nos vemos lá.
E desligou o telefone. Ela pediu um táxi, e percebeu que o motorista a encarava pelo retrovisor. Parecia indiano, e tinha lá seus 40 anos. Suzane apenas sorriu quando sentou no banco de trás.
– Times Square, por favor.
– Certo. – Ele disse, meio rabugento.
No caminho, pegaram um trânsito que, segundo o rádio, levaria trinta e cinco minutos para chegar em seu destino. O clima entre os dois estava tenso, e ele não parava de olhar para o retrovisor para encara-la.
– Então... NY tem muitos turistas esses dias?
Ele deu um pulo, ficou surpreso ao ouvir a voz da garota tentando desfazer aquele clima.
– Sim. Muitos. – O taxista disse. – Não sei por que eles ainda veem aqui, se está tendo essa onda de sequestros. Será que os turistas são tão tapados assim?
– Pois é, né. – Suzane disse.
– Qual o seu nome, moça?
– Dudek. Suzane Dudek. – Ela sorriu. – E o seu?
– Talib. – Mais silêncio. – Vai demorar pra chegar ao Times Square...
– Tem razão, — Ela tirou 50 dólares do bolso. – tô indo, é que eu tô meio atrasada, sabe? – Ela entregou o dinheiro a ele. – Fique com o troco, Talib. Obrigada.
– De nad – Suzane já tinha saído do carro.
Ela correu entre aqueles carros, até chegar numa calçada e parou para descansar um pouco. Sua respiração estava ofegante, e lhe faltava ar. Uma mão tinha a cutucado, e quando ela se virou para ver quem era, se arrependeu. Ele estava mais encantador do que nunca.
– Suzane! A quanto tempo... – Christopher começou. – O que está fazendo aqui? Pensei que estivesse cuidando da sua mãe.
– É né, quanto mais eu rezo mais assombração aparece. Então, sobre minha mãe, ela morreu. Isso acontece quando pessoas tem câncer. – Ela disse indiferente. Os olhos dele saltaram. – Ou você não entende sarcasmo, ou está se fazendo de idiota, mas sim, ela está recebendo a químio, está indo bem.
– E você? Está bem? – Ele sentiu o cheiro de Jack Daniel’s em sua roupa.
– Ótima! Nunca estive tão ótima em toda minha vida. – Ela forçou um sorriso. – Eu tenho que ir, mas foi bom te ver novamente.
Ela estava pronta pra se virar quando ele pegou em seu braço.
– E sobre as ameaças por e-mail? Continua recebendo?
Suzane sentiu seu coração na boca.
– Sobre o quê? Como você sabe disso? – Ela o encarou com raiva. – Não me toque, seu nojento.
– Você me disse. Não lembra? – Christopher, O manipulador. A pessoa mais diabólica que Suzane já tinha conhecido.
– Eu não disse pra ninguém. V-v-v-você não é o Christopher que eu conheci. Fique longe de mim, está bem? Nunca mais me ligue, e eu espero nunca mais te ver em toda a minha vida! PRA MIM VOCÊ ESTÁ MORTO, Jane!! – Ela gritava no meio da calçada.
Ela correu pra mais longe daquele monstro, suas lágrimas molhavam seu cabelo. Até que ela finalmente estava reconhecendo aquele lugar em que seu sub consciência a mandava ir, era sua vizinhança. Ela andou mais uns metros até chegar em casa, sã e salva.
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