Manhattan, 17:00

Ela correu o mais rápido que pôde, seus pés mal tocavam o chão, e seus cabelos voavam com a intensidade da corrida. Já não respondia mais por suas ações, a adrenalina estava a mil. Se pudesse, sumiria num piscar de olhos. Ficaria longe de tudo, e principalmente, de todos.

Diminuiu a velocidade, e entrou no 'Joe's Grill and Bar', o que mais parecia uma convenção de pessoas mal acabadas. Os motoqueiros presentes lá a olhavam com malícia, e com um pouco de deboche. Afinal, o que uma mulher de terno e aparentemente de bem com a vida faria lá?

Suzane sentou numa cadeira, e esperou um garçom vir atendê-la. Quando ele veio, a encarou de cima a baixo, com a expressão de quem diz "Tem certeza de que quer ficar aqui?", sua aparência era de um cara normal, deveria ter seus 20 anos, e as tatuagens em seu braço fizeram Suzane pensar se ele já estivera preso. Ela desviou aquele pensamento, e decidiu focar no rapaz, e se possível, analisa-lo. Uma coisa chamou a atenção de Suzane, o nome escrito no crachá, Corey Taylor.

– Então mocinha, o que vai querer? – Ele perguntou com a caneta e um bloco em mãos, olhando para o outro lado do bar, pensando no quão careta deveria ser a tal moça arrumadinha. Deveria ser da polícia em busca de drogas.

– Não é verdadeiro né? – Ele fez cara de confuso. – Quero dizer, seu nome, não é de verdade.

O olhar de Suzane foi nervoso, e ele logo entendeu do que ela estava falando, isso o fez sorrir.

– Ahnn, não. Não é. Achei que uma moça como você não soubesse dessas paradas... Sem ofensas.

– Relaxa, não me ofendi. Agora, por favor, me traga uma dose de Jack Daniel's.

Ele assentiu com a cabeça, mas antes de virar as costas para a moça misteriosa, decidiu olhar nos olhos da mesma e fez a seguinte pergunta:

– Então senhorita, como você sabe quem foi Corey Taylor?

Suzane arqueou uma sobrancelha.

– Digamos que nem sempre eu fui uma boa moça. What a wicked thing to say, you never felt this way – Ela cantou em voz baixa. – é o melhor cover que já fizeram. Stone Sour neles!

– Uhuu, isso aí. – Corey fingiu estar entusiasmado. – Já trago sua dose.

– Tuuudo bem.

Suzane percorreu os olhos naquele bar em busca de alguém que lhe parecesse amigável. Ninguém. Todos naquele bar pareciam mortos, ou estavam a esperando ansiosamente.

Um homem com uma barba que mais parecia um bode, vinha na direção de Suzane, o que fez ela desviar o olhar rapidamente, e focar no grandalhão que estava para enfrentar. Ele estava com óculos escuros, uma jaqueta de couro preta, e uma calça e sapatos pretos. Deveria ter uns 50 anos – ou mais. Ela logo lembrou da sua adolescência, da discussão com sua mãe, uma discussão que mudaria a vida dela. A discussão que ela mais se lembrava, e apesar de tudo, agradecia Lucy por tudo que lhe dissera naquele dia.

– Suzane Michelle Dudek, tire imediatamente essas roupas pretas, ou eu juro, eu mato você!!!! – Lucy gritava com a caçula.

Suzane se olhava no espelho, a maquiagem estava pesada, suas roupas inteiras pretas, sem nenhum detalhe de qualquer outra cor. O penteado que ela fez mais parecia um ninho de algum passarinho revoltado. E a atenção que ela ganhava por isso compensava todos os quinhentos dólares gastos naquela porcaria. Isso a fez sorrir.

– Nem fodendo!! Se quiser, venha tirar você mesmo. – Suzane rebateu. – Eu não sou mais a menininha da mamãe, por favorrrr né mãe! Me poupe de discursos sem noção.

Lucy apareceu na porta do quarto da sua filha, e a olhou com desgosto.

– Filha, por favor, olha o que você está fazendo. Meça suas palavras quando são digeridas a mim! Amanhã é seu vestibular, era pra você estar estudando com o seu namorado.. – Lucy entendeu a expressão da filha. – Não me diga que terminou com Eric Gibbs!

– Mãe, ainda não terminei com ele.. Ainda não. Só quero que você entenda um negócio, eu NÃO vou fazer medicina! Não é por que o grande doutor Spencer Dudek faleceu que eu tenho que fazer o que ele fazia também né? Eu sei que você sente um vazio enorme, e eu também, mas o senhor ‘fodão’ em medicina sempre defendeu fazer aquilo que fosse do seu interesse. E eu odeio tanto medicina quanto os médicos!

Você só pode estar de sacanagem comigo, mãe.

Lucy deu uma última olhada em sua filha.

– Vai fazer o quê? Que profissão você quer seguir, Suzane? Vai ser gótica de carteirinha?! Saiba que você está ridícula assim, nem parece gente.

– Eu vou ser advogada criminal. — Aquela frase certamente mudou a vida dela.

– Ok, vou ligar pra Pâm e falar que você deixou o filho dela na mão. De novo.

Suzane riu daquilo, e quando se deu conta, o grandalhão já estava na sua frente, a estudando cuidadosamente.

– O que você quer?

– Estava pensando, o que uma princesa dessas faria num lugar como este? – Ele não deixou espaço para resposta. – Que tal nos divertirmos?

– Meu namorado vai chegar daqui a pouco, e ele não vai mandar nenhum recado se você encostar um dedo em mim, ele vai agir. Johnny Blade é o nome dele. – Johnny Blade era o criminoso mais procurado das Américas, e havia rumores de que ele estaria em NYC, mais especificamente em Manhattan. O homem fez uma cara de assustado. Ele sabia de quem ela estava falando. BINGO!

– Creio que pela sua cara você já descobriu com quem está mexendo. E, se tentar qualquer coisa com qualquer outra garota que tem idade pra ser sua filha, iremos atrás de você, valentão. Vamos te caçar como um leão caça um veado; Você é a presa perfeita... Ainda mais agora que Johnny está com abstinência... Ele sente saudades de matar, sabe?

– Não senhora, eu sei, eu sei. Desculpe pelo mal entendido. Eu não queria causar essa confusão, juro. Eu sinto muito. – Ele olhava pro chão.

Suzane esbanjou um sorriso esnobe.

– Sem problemas, agora suma da minha frente antes que eu mande meu guarda te perseguir, torturar, e te matar. Uma morta lenta e dolorosa. – Ele assentiu com a cabeça, demonstrando medo. – E não se esqueça, nada de menininhas.

O grandalhão que parecia invencível, agora estava parecendo um daqueles cachorrinhos abandonados. Corey certamente ouvira a conversa, já que quando foi entregar a bebida pra Suzane, abaixou a cabeça e não a olhou nos olhos.

– Não precisa olhar pro chão. – Ela riu. – Eu não mordo.

– Desculpe senhora – Corey a olhou sem jeito. – eu não queria... Mas a senhora realmente dá medo, sabe?

– Como se eu não soubesse disso. – Suzane deu um belo gole em seu Jack Daniel’s, e saboreou cada ml de álcool presente naquele copo. – Por favor, evite usar o senhora. Meu nome é Blade. Suzane Blade.