Fairview, 03:20

Suzane acordou de um maldito sonho que tivera – desde que Giovanni saiu, não conseguia pensar em outra coisa a não ser uma coisa que a vingue, e não tinha nada melhor do que fugir daquele presídio com o resto das vítimas, deixando Giovanni e sua gangue para morrerem sozinhos –, seus olhos estava saltados e seu coração batia a mil. Ela olhou ao seu redor e viu que não tinha ninguém a espreita, que tudo estava absolutamente escuro e silencioso, naquele momento era apenas ela e o iPad. Ela pegou o aparelho e começou a pensar pra quem digitaria seu primeiro e-mail pedindo socorro. Talvez para sua mãe? Não, Lucy ia fazer um escândalo, e isso só ferraria mais ainda com as coisas. Ou talvez, Tânia? Também não, sua irmã não poderia passar por isso, ainda mais agora que estava carregando outra vida dentro de si. Descartou Christopher Jane de seus pensamentos, já que ele não era nada menos que um traidor, Eric estava morto, a única pessoa que restava era... A poderosa Valentina Rockfeller! Ela começou a digitar rapidamente, acompanhando seu raciocínio.

Valentina! Eu fui sequestrada pela família Stracci, preciso da sua ajuda.

Ela olhou para aquilo que tinha acabado de escrever e apagou tudo, começando tudo de novo.

Rockfeller,

Não sei se você liga pra isso mas, eu fui sequestrada. Não foi um sequestro qualquer, eu fui sequestrada pela droga da família Stracci. Sim! Os reis de Roma! Os soberanos da Itália! Faltam-me as palavras para lhe contar o quão fodida eu estou, e pra ajudar Giovanni está tentando me obrigar a vender as malditas armas. Que fique claro que ainda não fiz nada ilegal, ainda não. Quero sua ajuda pra conseguir sair daqui com as vítimas veteranas, novatos também. Quando puder, rastreie esse iPad, e saberá onde diabos estão nos escondendo. Eu só posso te informar que isso daqui é um sítio mal acabado, provavelmente antes de ficarem aqui estava completamente abandonado, e isso fica próximo de Manhattan, eu te diria que não levaria duas horas de carro, como eu disse, é pertinho.

Eu daria tudo pra sair daqui o mais rápido possível.

Faça-me um favor antes de vir aqui, busque um mandato de prisão para Christopher Jane! Ele é a sua principal prioridade, ele é um dos mandantes da máfia rival e matou meu ex, Eric. Não que eu não esteja feliz com isso, mas é que ele o matou como se isso não fosse nada demais, como se ele fosse um maldito inseto insignificante, e isso é totalmente desumano.

Me salva logo, enquanto mais você demora, mas eu apodreço nessa maldita cela.

Ela admirou aquilo que acabara de escrever, e decidiu escrever mais um pouco.

Ah, e por favor não fale nada á minha família.. Sabe como os Dudek são, não?

Preciso de você, Suzane Dudek.

Ela demorou para apertar “enviar”, aquele pequeno gesto mudaria todo o seu futuro, talvez a ajudaria ou talvez a atrapalhasse, mas isso não importava agora, ela sabia que estava fazendo o melhor que podia, e isso fez com que ela soltasse um riso fraco no meio da escuridão.

Guardou o iPad e ficou encarando o nada, pensando num milhão de coisas que poderiam estar escondidas lá... Imagem mental: Tânia com 10 anos de idade assustando Suzane, dizendo que no escuro existia forças do mal, os chamados demônios, prontos para ataca-la em qualquer momento de sua fragilidade, por isso ela tinha que se manter forte, sempre forte, independente da situação em que estava. Os olhos de Tânia brilhavam a medida que sua voz foi ficando mais alta, e ela sabia que de alguma forma, tudo que ela estava falando era verdade.

Afinal, nós somos os nossos próprios demônios, sempre procuramos o divino para nos salvar, para nos tirar da escuridão, mas no final... Nós acabamos engolidos por ela. E Suzane estava sentindo isso na pele, abandonada, sozinha, com fome, com medo... Estaria pronta pra morrer se não tivesse uma coisa: A esperança.

Ela se deixou engolir pela escuridão, para finalmente poder descansar em paz. Desta vez, ela se sentiu agradecida por não sonhar nada, não ter mais nenhum pesadelo.

Fairview, 08:00

– Claricce! Suzane, ou seja lá quem você for... Acorde! Por favor! Oh, merda, vamos! – Suzane se levantou lentamente e sua visão foi ficando cada menos mais embasada e mais clara... Merda! Já amanheceu! Ela ficou triste por não ser Bianca a acorda-la, mas sim Lindsey. – Já que, bem, você sabe algumas coisas de mim e Giovanni me contou algumas coisas suas, quero lhe pedir um favor.

– Você não tem direito algum disso. – Respondeu rispidamente, ainda meio zonza.

– Eu sei mas – Suzane a cortou.

– Fale logo o que você quer e vá embora, se for pra ouvir mimimi, prefiro ficar dormindo, ruivinha. – Suzane se encostou na parede e arqueou uma sobrancelha.

– Hoje a noite teremos um jantar, e finalmente conheceremos a nossa líder! Nossa verdadeira ‘Dom’, e você terá que ir.

– Não vou. Não mesmo. De jeito nenhum.

– Bem, eu acho que você não tem escolha, Suzane. Você vai e ponto. Fiquei clara? – A dor de cabeça de Suzane só aumentava a medida que a voz de Lindsey foi ficando mais aguda, cada vez mais a irritando mais e mais.

Lindsey tirou uma sacola de trás das suas costas e a jogou para Suzane, e em seguida deixou o quarto, tomando todo o cuidado do mundo para não bater a porta. Quem era a irmã boa? Ela ou Ashley? Suzane tinha suas dúvidas, mas preferiu não chegar a nenhuma conclusão, isso faria com que sua dor de cabeça piorasse.

Ela abriu a sacola e lá tinha um vestido da cor que Suzane mais detestava: Verde escuro, ela o pegou e desdobrou, era tomara que caia e muito comprido, parecia aqueles vestidos de debutante, não pra uma moça como Suzane. Isso vai ficar ridículo em mim, ela pensou consigo mesma. Suzane deixou o vestido de lado e voltou a dormir, não aguentava mais pressão pra cima dela, tudo que ela queria era um pouco de paz.

Fairview, 18:40

Giovanni estava furioso, como Lindsey poderia ser tão fraca em relação a Suzane/Claricce? Seu smoking estava todo passado, e como não queria amassa-lo, andou lentamente até o quarto de sua amada, no caminho, aproveitou para pegar o sapato da moça que Lindsey esquecera de dar. Por um minuto, ficou com medo da reação dela, mas esse sentimento logo passou quando pensou em quem conheceria hoje. Ele abriu a porta e lá estava Suzane, esplendorosa.

O vestido verde que tinha escolhido se encaixava perfeitamente em seu corpo, e ela fez um coque em seu cabelo, deixando suas bochechas e seu pescoço a mostra. Ela está tão bonita quanto a verdadeira Claricce, pensou Giovanni.

– Aqui está o seu sapato. – Giovanni lançou os calçados em direção a moça. – Você esta maravilhosa.

– Meu filho, nem se eu tivesse parecendo uma mendiga, eu estaria maravilhosa, eu sou maravilhosa de qualquer jeito, e isso você deve agradecer a minha mãe, já que ela fez com carinho e a genética teve a bondade de me favorecer um pouco. – Suzane riu. – E aí, quem iremos conhecer hoje a noite? Sua mãe?

– Não, ela é a chefona disso daqui, ela que mandou nós te sequestrarmos, ela estava com tudo em mente antes mesmo de você nascer... Ela é a nossa líder.

– E qual o nome dela? – Suzane perguntou enquanto colocava seus sapatos.

– Vamos descobrir. – Ele deu a mão pra ela e caminharam em direção ao salão do sítio.

Tudo estava decorado com dourado e branco, parecia que estavam num casamento: todos ali presentes estavam com as roupas mais caras que se podia imaginar, e não pareciam tão... Assassinos. E ladrões. E mafiosos.

Giovanni a olhou nos olhos e abriu um sorriso.

– O que vai querer pra beber? Hoje é uma noite especial, não vá economizar nos drinques!

– Uma água, pode deixar que mais tarde tomo todos os drinques dos quais eu tenho direito, meu primo. – Ele deu as costas pra ela, deixando-a sozinha no meio daquela gente toda.

Capo Stracci a agarrou por trás e a apertou como se fosse a coisa mais importante do mundo, e ao seu lado, estava Nick.

– Você está linda, minha neta. – Stracci disse orgulhoso.

– Está uma verdadeira princesa, uma verdadeira Stracci. – Nick completou.

– Er... Obrigada. – Suzane olhava pra todos os cantos do salão procurando Giovanni para salva-la daquela confusão. – Então, quando a moça vem?

– Estamos quase lá, minha neta. – Stracci deu as costas e começou a cumprimentar outros vendedores de armas afiliados.

– Então... Já pensou naquilo que eu te disse? Sobre o divórcio e tudo mais? – Nick perguntou.

– Não.

Ele franziu a sobrancelha e ela tentou se corrigir.

– Não, é que não tem dado tempo pra isso, sabe como é essa vida de Stracci, Giovanni e eu saímos pra vender armas, fazer negócio. – Suzane o olhou nervosa. – Mas pode ter certeza que pensarei no assunto assim que possível.

– Acho bom.

Giovanni veio correndo em sua direção e a puxou pelo braço, a fazendo correr no meio da multidão. Ele estava eufórico, como um adolescente que vai no show de sua banda favorita, ele ia finalmente conhecer seu ídolo.

– Você não acredita quem é a nossa Dom, é a Beatrice! Beatrice voltou! Ela ressuscitou, assim como você, minha querida!! – Ele gritava.

– Quem diabos é Beatrice?

– Olá, minha herdeira favorita. – Antes de ver quem era, ela já sabia quem era dona daquela voz, ela era tão familiar e tão presente em sua vida que fez com que Suzane tivesse calafrios. Sua melhor amiga agora era sua pior inimiga.

Notas finais
Vocês já tem uma suspeita de quem é a famosa Beatrice? E por que Suzane está metida nessa louca história italiana? Seu passado será revelado no próx. capítulo. Muitas máscaras vão cair...