Eventualmente Claricce Stracci
16 Capítulo 16
Guttenberg, 9:15
– O quê? — Suzane tentava entender o que tinha acabado de ouvir, e encarou aquele homem que dizia ser seu marido. — Eu não tenho namorado, marido, porra nenhuma. Sou só eu, e eu.
Nick abaixou a cabeça, e David continuava a negar com a cabeça.
– Você não disse isso... — David a reprova.
– Sim, ela disse. — Ashley revirou os olhos e voltou a focar na estrada.
Lindsey voltou a dirigir, e começou a encarar Suzane pelo retrovisor. Seus olhos queimavam Suzane, e chegou até dar um certo arrepio. Todos ficaram tensos, quietos demais, o carro fedia como qualquer jaula de zoológico: medo, suor. Os olhos de Suzane percorriam a todo interior do carro, guardando em sua memória cada detalhe, cada rosto.
– Mas, então, Claire, o que você tem feito na América? — Lindsey perguntou.
– Puta que pariu, eu nasci aqui. Quem diabos é Claire? Vocês se enganaram, eu não sou e nunca fui nenhuma Claire... Bem, pelo menos não que eu saiba. — Suzane pensou um pouco. — Quem sabe eu tinha sido essa tal de Claire em vidas passadas, ela era uma prostituta?
Eu acho que sim.
– Por que insiste em falar isso? — Nick perguntou enfurecido.
– Por que é verdade! Eu não sei por que vocês insistem em me chamar de Claire, seja do que for. Meu nome é Suzane Dudek, nasci e cresci em Manhattan, e vocês, seus cretinos, acham que sabem tudo a meu respeito, quando na verdade não sabem de nada! Não sabem nem meu nome, e nem minha história.
– Por que insiste em esconder sua identidade? Tens tanta vergonha assim de ter meu sobrenome? — Nick a olhava com desprezo. — Se for esse o problema, então a solução é assinar um contrato, mas por favor, não negue suas origens. Giovanni vai ficar muito triste ao saber que você se recusa a admitir que é a herdeira da família mais famosa de toda a Itália, e agora, será a família mais falada das Américas. Você não pode renunciar a tudo isso, Giovanni e nós não vamos deixar. Não vamos deixar você acabar com a nossa família!
– Que? Quem é Giovanni? — Suzane quis saber. — E que diabos de família é essa? Do que você está falando?
O carro parou. As irmãs tiraram o cinto e saíram do carro, e em seguida, David e Nick fizeram o mesmo, deixando-a sozinha naquele carro. Ela queria escapar, mas sabia que se tentasse, ia ser capturada. Afinal, eram quatro contra um. O mundo não era justo. Não mesmo.
Perdida em meio de seus pensamentos, levou um susto quando ouviu alguém abrir a porta do carro e percebeu que nunca tinha visto tamanha beleza. Seus olhos azuis a perfuraram, e ela se perguntou se aquilo poderia ser uma alucinação. Eu estou ficando louca?
– O qu.. — Giovanni não a deixou terminar.
– Você não queria saber quem era Giovanni? Pois bem, sou eu. — Ele a puxou com força, e a fez cair no chão com tudo. — Seja bem vida de volta, Claricce.
– Suzane! Meu nome é Suzane. — Ela gritou, passando a mão na cabeça. — Que porra, será que ninguém entende isso? Ou será que entendem ou fingem não entender?
Giovanni soltou um riso diabólico.
– Eu sei que você não é a Claricce, mas meu tio ficará feliz em saber que a neta dele voltou dos mortos. — Ele se abaixou para encara-la. — Você vai fazer tudo que eu mandar, ou você morre.
– De qualquer jeito eu vou morrer, sendo você me matando, ou pela ordem natural. Eu não ligo. — Suzane o olhava com nojo. — Vai cortar esse cabelo de boneca, depois nos falamos.
Ele começou a puxa-la pelo braço e pedras começaram a rasgar sua camisa. Era um lugar bonito, com grama verde, e um tremendo céu azul. O tempo era agradável, a casa mais parecia uma mansão, e era linda, e se Giovanni não estivesse a arrastando como uma condenada a forca, ela diria que era uma bela casa no campo de alguma família clássica dos Estados Unidos.
– Puta que pariu! Vai se foder, seu viadinho de merda. Me solta! Quem você tá achando que é? — Suzane gritava.
– Eu sou um Stracci. — Giovanni falava com orgulho.
Ele a soltou, e quando ela se recompôs, viu que tinha um velho em sua frente com lágrimas nos olhos, o velho correu pra abraça-la.
– Senti tanta a sua falta, Claricce! — Ele a soltou. — Espera, onde está Nicolas? Onde está seu marido?
Antes de responder, Suzane deu uma olhada rápida pra Giovanni, que a olhou de cara feia.
– Eu não sei onde ele está. Me desculpe.. Mas como é seu nome? — Suzane fingiu rir. — Essa história de viagem pra América me deixou um tanto confusa em relação aos meus amigos e parentes.
Naquele momento, Capo Stracci se convenceu de que era realmente Claricce. Sua neta tinha voltado. Finalmente!
– Como você não sabe onde está seu filho? Você está louca? — Stracci perguntou. — Você o deixou em Roma ou em Manhattan?
– Espera, meu o quê? — EU TINHA FILHOS?
– Seu filho, Nicolas. Onde ele está? — Suzane percebeu que tinha que entrar no jogo dele.
– Está num lugar seguro. — Ela sorriu e olhou para Giovanni. — Poderia me dizer seu nome?
– Luggi... Mas pra você é avô, minha querida. Estou tão feliz que esteja novamente conosco!
Uma moça de cabelos escuros apareceu atrás do velho. Ela usava um terno duas vezes maior que seu número, ela estava com a cara vermelha, como de quem chora horas antes de dormir.
– Com licença, senhor Stracci? — Ela disse.
– O que você quer, Pietra? — Ele respondeu num tom ríspido.
– Espera, qual o nome dela? — Suzane tinha a impressão de que já tinha a visto antes em algum lugar, só não lembrava onde.
– Pietra Stracci, minha senhora. Eu faço parte dessa família agora.
– Não faz não.
– O que você quer dizer com isso, Claricce? — Giovanni estava desconfiado.
– Você é Bianca Fortier.
Só depois de pronunciar essas palavras, ela percebeu o quão ferrada ela estava. Como não tinha percebido isso antes? Ela fora raptada pela máfia, e ao que parecia, ela era a peça mais preciosa daquele quebra-cabeça.
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