Eventualmente Claricce Stracci
14 Capítulo 14
Manhattan, 07:00
Dessa vez, a levaram para uma sala de interrogatório diferente. Aquele era pior, com manchas de sangue seco nas paredes, e com um ar gelado que a fazia tremer. Tony se sentia a vontade com aquele tipo de ambiente, parecia que estava em casa, já pra Suzane, aquilo dava dor de cabeça e a vontade de sair de lá era maior que tudo.
Uns policiais que mais pareciam uns armários a empurraram, fazendo-a entrar naquela sala desesperadora. Ela olhou pra aqueles homens com um olhar mortal, gravando em sua mente o rosto de cada um. Suzane decidiu sentar, esperando alguém a culpar de qualquer coisa. De novo. Talvez a culpassem pelo aquecimento global, ou também pelos crimes de Henry Lee Lucas. Mas ela sabia como se defender, e principalmente, a lidar com aquele delegado.
Passaram-se quinze minutos e ninguém veio a interrogar, nem a pressionar. Talvez estivessem fazendo isso de propósito, para que ela fique mais nervosa ainda. Aquela sala a fazia lembrar da clínica de seu pai, gelada, sem vida. Imagem mental: Lá estava o grande Spencer Dudek com sua enfermeira, Ellen Gilmour, assinando alguns papéis. Suzane estava escondida em um dos grandes armários de seu pai, e por um buraco, estava vendo tudo o que estavam fazendo. Por quinze anos ela suspeitava que seu pai traía a sua mãe, e hoje, ela ia saber se era pura paranoia, ou se era verdade.
– Então, Spencer... Quando vai largar de Lucy e me fazer sua mulher? — Ela a olhava com malícia.
– Minhas filhas não vão te aceitar.. — Sua expressão estava cansada. — Tânia nunca me perdoará, e Suzane, bem, Suzane vai fazer de tudo pra nos separar. — Spencer a olhou de canto. — Não podemos mais prosseguir com isso, Ellen. Me desculpe.
– Eu vou contar pra sua esposa, agora. — Ellen saiu da sala.
Spencer abriu sua gaveta, e de lá tirou vários comprimidos, todos de várias cores, pegou um copo de água, e bebeu todos de uma vez só. A inocência de Suzane achava que ele estava com problemas de saúde, quando na verdade, ele estava cometendo suicídio.
Os passos de Tony a fizeram sair daquela lembrança infeliz que tivera durante sua adolescência, e viu que ele estava encarando-a.
– No que estava pensando, meu amor? — Ele perguntou com um sorriso idiota no rosto.
– No quão frouxo você é.
– Suzane, Suzane... — Ele riu. — Você sempre com as melhores respostas, não é?
– Com gente idiota eu costumo falar assim, sabe, gente com probleminhas. Esse é o seu caso, Hopkins. — Suzane o encarou. — Fico me perguntando... Será que todas mulheres que você interroga, você quer as estuprar? Você me dá nojo.
– E você me dá tesão. — Suzane o fuzilou com os olhos. — Achei que gostasse de respostas assim, querida.
– Eu posso responder assim. Você não. — Ela olhou para o teto. — Será que pode me soltar logo? Ou quer que eu suba na mesa de novo?
Ele abriu uma ficha que tinha em mãos. Ele parecia pensar antes de falar com ela.
– Suzane Michelle Dudek, filha de um renomado médico e de uma professora. Irmã de uma psicóloga e cunhada de um engenheiro. Por que estava com aquela arma? — Ele jogou sua ficha na mesa.
– Tô bonitona né? — Ela olhava sua foto.
– Me responda.
– Por que eu quis. Por que eu quero. Por que a vida é minha. Pra me defender.
– Defender? Do que? — Ele sentou na cadeira.
– De pervertidos do seu tipo. — Ela olhou para as algemas. — Dá pra tirar isso?
– Não. O que a arma de um agente estava fazendo com você?
– Puta que pariu. — Ela ia terminar de tentar se explicar, quando alguém abriu a porta. Era Valentina Rockfeller.
– Quem é você? — Tony se levantou e ficou de frente com a visitante. — Não pode estar aqui.
– Na verdade, eu posso. — Valentina mostrou seu crachá do FBI. — Vim levar Suzane de volta.
– Você não pode fazer isso, estamos no meio de um interrogatório.
Suzane se levantou, ergueu as mãos, até que Tony finalmente cedeu e tirou suas algemas.
– Na verdade, acho que já acabamos esse interrogatório. — Suzane sorriu.
– Onde posso pegar minha arma? — Valentina parecia imponente.
– Era sua arma? Por que Suzane estava com ela?
– Por que eu quis dar pra ela. A arma é minha e eu faço o que eu bem entender com ela, não acha? — Valentina olhou todos os cantos daquela sala. — Pelo o que eu sei, Suzane não matou ninguém, então você não pode ficar com a minha arma. Não sem um motivo, e isso meu amigo, você não tem. Agora, por favor, pode me devolver antes que eu tenha que ligar pra minha diretora?
– Toma trouxa. — Suzane riu baixo.
Elas acompanharam Tony até a secretaria, onde ele entregou a arma e pediu desculpas a agente. As duas saíram de la rindo. Valentina entregou a arma novamente a Suzane, que se recusava em pegar.
– Não, eu não quero.
– Vai, pega. É pro seu bem. — Valentina implorou. — Por favor.
Suzane pegou a arma e saiu.
Ela se sentou num banco na Times Square e observou o mundo a sua volta. E mesmo rodeada de pessoas, ela se sentia triste, perdida e sozinha. O destino estava rindo da infelicidade de Suzane, e ela sabia disso. Só que isso não ia durar muito tempo. Ela não faria durar. Ela o pararia antes que isso a matasse.
Manhattan, 08:30
Eric já estava no Café, esperando Suzane. Ela apareceu, e sentou ao seu lado. Sem ao menos lhe dar um simples bom dia. Eric percebeu que ela tinha bolsas escuras de baixo dos olhos, e isso o fez questionar se a saúde de sua ex.
– Como você está? — Ele perguntou.
– Bem. — Ela não olhou para ele.
– Não minta pra mim.
Suzane se virou pra encara-lo.
– Eu estou bem, só não estou feliz.
Uma mulher com a aparência de uns 45 anos sentou-se com eles. Seus cabelos negros estavam amarrados num coque alto, e estava com um óculos escuro.
– Kathleen? — Eric perguntou.
– O que vocês querem saber dos meus filhos?
– Só um momento, vou tomar um ar. — Suzane saiu perto deles, e foi para fora do Café.
Ela começou a encarar todos a sua volta, pensando no qual teria potencial pra ser um psicopata, ou um assassino.
– Suzane! — Uma mulher ruiva a chamava. Do lado dela, tinha dois grandalhões assustadores.
– Quem é você?
A mulher foi chegando mais perto, e sussurrou em seu ouvido:
– Eu sou a sua morte.
Ela olhou para os dois grandalhões.
– Peguem a Claricce. Ora.¹
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