Manhattan, 02:00

Suzane cambaleava de uma rua pra outra com a arma na mão. Sem saber o que fazer com aquilo, a colocou na parte de trás de sua calça. Andar com aquilo a incomodava, aquele pedaço de metal frio em contato com sua pele quente.

Ela ouviu um barulho, e rapidamente pegou a arma. Ainda a segurava desajeitadamente, como uma mãe que segura seu filho pela primeira vez. Mas ela não estava com medo de atirar em ninguém. Seja quem fosse.

Uma silhueta apareceu. Provavelmente era homem, e deveria ter 1,80 de altura. No mínimo. Tinha pouca iluminação, quase nada, o que dava um bom cenário de filme de terror.

– Quem está aí? – Suzane gritou. Não obteve resposta.

A sombra se aproximava dela, e sem pensar, ela puxou o gatilho. Em questão de segundos, o corpo já estava no chão, arfando de dor. Ela chegou mais perto do corpo, pegou seu celular e colocou a luz na cara da misteriosa sombra que a perseguia na madrugada. Era Christopher Jane. O maldito Christopher Jane.

– Dá pra tirar essa luz da minha cara? – Ele disse. Só com a iluminação de seu celular, ela pôde ver que acertou seu ombro, e que saía uma espécie de cachoeira de sangue.

Ela jogou a arma pra longe, e o pegou em seus braços. Ela sentia uma sensação da qual não queria sentir. A sensação de que a vida de alguém depende de você. Ele está entre a vida e a morte, e só você pode salva-lo. Isso a fez lembrar seu pai, e na sua tamanha coragem para ser médico. Ter que lidar com isso todo dia, cada segundo de seus dias...

– Dá pra me ajudar ao invés de ficar encarando o nada? – Christopher gritou.

Antes de Suzane guardar o celular, recebeu um e-mail, não estava escrito nada no “assunto”, mas o seu remetente era um e-mail familiar, ela só não se lembrava de onde o conhecia. Então, para satisfazer sua curiosidade, o abriu.

Suzane, pegaram o Yuri e o mataram. Eu consegui fugir. Marquei com a senhora Kathleen Wells de nos encontrarmos no Café onde JJ trabalha, ás 9 da manhã. Os gêmeos dela foram sequestrados hoje, pela mesma máfia que nos atacou, os Cordopadri. Que Deus tenha piedade de Paul e Julie Wells. Te encontro lá. Por favor, não falte!

.ERICGIBBS.

Seu cérebro ainda estava processando as palavras que acabara de ler, até que foi interrompida pelo grito de dor de Christopher. Ela não sabia se deixava ele morrer, ou o salvava. O seu coração mandava fazer uma coisa, e seu cérebro, outra. Suzane rasgou uma parte de sua roupa, deixando sua barriga a mostra e amarrou o pano em volta do braço de Christopher. Ela o encarou, e ele desceu o olhar até sua barriga.

– Que corpão, Suzane. – Ele sorriu maliciosamente.

– Cala a boca. Eu posso te matar ainda, sabia?

– Pode, mas não vai. Se tivesse que me matar, já teria feito isso faz tempo, não?

Era verdade. Ela sentia algum sentimento por aquele cara misterioso. No mesmo tempo que ela desejava a morte a ele, também o amava. Bipolar? Não, imagina. Ela correu pra pegar sua arma, e apontou para a cabeça de Christopher, que ainda estava deitado no chão, em seu leito de morte.

Ele dava um sorriso metidinho, e suas mãos foram tremendo, até que finalmente ela abaixou a arma. Colocou a arma no quadril e pegou seu celular, discou o número da polícia e esperou alguém atender a ligação.

– Pra quem está ligando? – Suzane o olhou com desprezo. – Não é pra quem eu estou pensando, é?

– Polícia de Nova York. Qual sua emergência? – Uma voz feminina do outro lado.

– Oi, queria notificar uma agressão... – Christopher ficou pasmo, não podia acreditar que Suzane estava mesmo fazendo aquilo.

– Certo. Você poderia me dar detalhes da ocorrência?

– Não faça isso. – Christopher sussurrou. – Por favor. Eu lhe devo a minha vida.

Suzane o encarou, até que a moça do outro lado da linha não parava de insistir.

– Moça? Moça? A senhora ainda continua na linha?

– Sim, desculpe. Foi engano. – E desligou.

Suzane guardou o celular e chegou mais perto de Christopher. Ficou de joelhos ao lado dele, e começou a encara-lo. Sem avisos, ela o puxou para um beijo, foi o beijo mais desesperado que Suzane já tinha dado em sua vida. O beijo terminou logo, e ambos ficaram sem ar.

– Nossa, Suzane, não imaginava que você pudesse fazer isso...

Ela fitou a escuridão.

– Pois é, nem eu.

Suzane se levantou e foi cambaleando até a calçada. Não aguentava mais andar, seus pés já estavam com calos feitos pela sua bota. Seu cabelo estava encharcado de suor, e sua cabeça rodava. Afinal, o que eram tudo aquilo naquelas últimas horas? F.B.I. – Raptada por Valentina Rockfeller – E-mail de seu ex-namorado – Beijo com Christopher Jane, sua salvação. Ou talvez, sua total destruição.

Ela bateu na porta da casa dos Felmann. Mas ninguém atendeu. Ela resolveu deitar na calçada mesmo, encolhida. Ter um minuto de paz.

Manhattan, 06:12

Alguém a cutucava com um pedaço de pau, pensando que ela estivesse morta. Ela levantou, e viu que era um garotinho. O garoto a encarava com aqueles grandes olhos castanhos, e ela se sentiu na obrigação de dar pelo menos um ‘bom dia’ pra ele.

– Bom dia, garoto. – Ela tentou sorrir.

– Por que você anda com uma arma na cintura? – Ele perguntou.

Suzane olhou para baixo, graças a Deus sua arma ainda continuava ali. E seu celular ainda continuava em seu bolso. Era um milagre ela não ter perdido os dois.

– Sou uma policial, não sabia?

– O Tony me disse ao contrário, moça.

Suzane olhou para trás do ombro do menino e viu o delegado sorrindo pra ela. Mas desta vez ele estava com algemas em uma das mãos. E estava vindo em sua direção.

– Merda. – Ela sussurrou consigo mesma. Vendo que a coisa ia piorar pra ambas situações, o menino correu pro final da rua.

Tony estava elegante com seu terno feito sobre medida, o preto com riscas verticais combinava bem pra ele. Se não estivesse em apuros, Suzane o chamaria pra tomar café da manhã com ela. Ele chegou perto dela, e o cheiro do seu perfume se tornou mais forte. Mais enjoativo. Ela ficou com vontade de vomitar, e quando olhou para Tony, ele ainda continuava sorrindo.

– O que você quer? Além de me estuprar, claro. – Ela começou.

Ele deu um riso sarcástico.

– Suzane, como eu disse antes, você não me conhece. – Ela serrou os cílios.

– Mas eu te conheço. – Ele disse, balançando as algemas. – Por favor, vire de costas. – Ele viu a arma que estava em seu quadril, a pegou e sorriu ainda mais. – UAU! Não imaginava que você era do tipo malvada, você está me surpreendendo Suzane. Continue assim.

– Continuar assim pra que? Pra acabar na sua cama como todas as vagabundas que você pega? – Ela virou de costas e colocou as mãos na cabeça.

– Exatamente por isso. Menina esperta. – Ele apertou a primeira algema, e depois a segunda. – Não fale nada, o que você dizer poderá – Ela o interrompeu.

– Eu sei, poderá ser usado comigo no tribunal e blá, blá, blá. – Ele a empurrou para dentro do carro. – Agora, o que acha de pularmos essa parte e darmos uns pegas?

– Você não pode estar falando sério. – Tony a fitou.

– Ainda bem que você sabe. Está começando a me conhecer, DST ambulante.