Eve: Minha Maligna Namorada.
9 A questão de Eve
Notas iniciais
Ele está deitado do outro lado da sala, tenho pensado nesse garoto há mais de um mês, talvez dois, queria estar junto dele, queria poder contar a verdade.
Meu nome é Eve G. Woiciekoski, e meu pai é um demônio.
Não tenho amigos muito próximos ou relacionamentos, tenho escondido metade de mim para todas as pessoas que se aproximaram até hoje, Michael é um bom garoto, e eu gosto dele, mas talvez tê-lo beijado não tenha sido uma boa idéia. Talvez tenha o colocado em risco.
Não se sabe ao certo quando nasceu o primeiro demônio, diz à lenda que surgimos pouco depois do primeiro humano, dizem que foram criados por um anjo que se sentiu menosprezado por ter que se sujeitar aos humanos aos quais ele considerava inferiores. Um anjo que se voltou contra o seu pai e foi banido para outra dimensão, o inferno, lugar onde ele criou seres diferentes, seres que não se continham apenas alimentando o corpo, precisavam alimentar a alma. Como? Comendo pecados. Pecados arrancados de almas humanas.
Se isso é verdade? Não sei, meu pai acredita então eu meio que acredito também. Mas o fato é que a milhares de anos meus antepassados caminham sobre a terra se alimentando dos males encravados nas almas humanas. Mas é um bom negócio, não? Os demônios se alimentam, e os humanos ficam sem pecados na alma, mas há um pequeno probleminha ai.
As almas são grandes massas de energia vital, para os humanos a sua existencia só pode ser notada na morte, mas para os demônios elas são um grande aglomerado azul claro dentro das pessoas, mais brilhante em alguns, menos em outros, às vezes pode tomar tons amarelados com a euforia dos humanos, ou avermelhados quando eles estão com aquele sentimento especial. Mas elas têm outras funções alem de demonstrarem os sentimentos, elas carregam os pecados, e é ai que está o problema.
Humanos cometem muitos pecados em suas vidas, cada um é uma pequena mancha preta que surge na alma, eles se assemelham a gotas de óleo, pontinhos pretos que flutuam no fundo azul brilhante, às vezes ficam vários a deriva, as vezes se ligam criando manchas disformes, mas geralmente ocupam pouco espaço na alma, raramente ocupam mais da metade de sua massa, nesses casos ao sair do corpo a alma fica pesada e afunda direto para o inferno onde terá seus pecados consumidos por demônios, o detalhe é que os pecados ficam presos na alma, ou seja, só podem ser devorados se a parte que os abriga for devorada junto, as almas são consumidas e a fome dos demônios passa. Por algum tempo.
Acontece que junto com o número de humanos, o número de demônios vai aumentando, as almas que descem para alimentar a insaciável fome dos demônios às vezes não são o suficiente e então alguns emergem para se alimentar, como? Dos pecados de almas ainda vivas.
Como eles, às vezes, tenho que me alimentar de pecados, mas poucas vezes, odeio fazê-lo, me enoja, mas é necessário, quase morri uma vez por não comer.
Essa condição de híbrida fez com que meus pais me escondessem por anos, não tinha amigas me visitando, não podia trazer o garoto que eu gostava pra conhecer os meus pais e é claro, devia me comportar. Direto da escola pra casa, essa tem sido a minha rotina por anos, por sorte alguns amigos me ligam, outros falam comigo por internet, e tem o Michael, que andava quilômetros por dia para me buscar na estação de trem. Ficava conversando comigo no terraço do prédio perto da minha casa e me ajudava na escola, ele era um dos meus melhores amigos, e eu lhe agradeci dando um beijo, dando esperança para ele de um possível relacionamento que nunca daria certo.
Olho para ele deitado dormindo do outro lado da sala, tenho pensado nele a mais de um mês, queria estar junto dele, queria contar a verdade.
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