Evariny

10 - Liberdade ou prisão -


Murtagh se sentiu abalado. Após o encanto de Evariny, Thorn voou o mais rápido possível, para se distanciar dali. Quando conseguiram cerca de meia hora de distância, pousaram, para que o Cavaleiro revertesse o feitiço. A energia gasta para tal foi imensa, embora não para quem o faz, e ele se sentiu esgotado, por isso mandou a Galbatorix uma mensagem, e acampou em um vale, distante de tudo e protegido por magia. Tão logo se sentaram, com uma fogueira já acesa, e Thorn o bombardeou com sentimentos de confusão, raiva e temor.

Você é maluco? Devia ter matado a meio elfa e acabado logo com isso, porque se não percebeu, era exatamente o que ela estava tentando fazer.

Ah, Thorn, não me venha com lições de moral, está bem? Você sabe que eu não poderia! Galbatorix pode me torturar, ameaçar de morte e até enfeitiçar, mas agora sei que poderei ser livre! Lembra-se de nossa primeira luta com Eragon, quando ele disse que se meu nome mudasse eu poderia fugir? Pois bem, na época eu o odiei, por me dar uma esperança falsa de fuga, mas hoje sou agradecido a ele, percebo que afinal não é tão impossível assim mudar meu nome, e que se o fizer poderei deixar aquele maldito castelo!

Murtagh, você mesmo disse que o Rei saberia se isso acontecesse, e logo descobriria o novo nome. E alem do que, uma pessoa não muda completamente do dia para a noite, demora pra isso acontecer.

Mas temos que tentar! –esbravejou o Cavaleiro – Sei que demorará, e que o Rei tentará nos impedir, mas temos que tentar! E não somos mais os mesmos, estamos mudando, e logo poderemos articular uma primeira fuga.

Então, boa noite – disse o dragão –, ao amanhecer conversamos, pois a hora já se adianta, e a jornada de amanhã será longa.

Certo. Boa noite, Thorn.

Durma bem, garoto.

Murtagh acordou com o sol nascendo, e resolveu deixar seu dragão dormir por mais algumas horas. Levantou-se, e resolveu procurar comida.

Andou um pouco, e encontrou algumas frutas em um arbusto, próximas ao rio. Desde que aprendera a estender sua mente, detestava caçar, por mais que comesse carne no palácio de Galbatorix.

Não muito tempo depois, sentiu que Thorn despertava, e seguiram viajem rapidamente, de forma que ao anoitecer já avistavam Urû’Baen. Como imaginavam, o rei logo exigiu sua presença e, como fazia sempre que mandava-os em missão sem monitorá-los, foi vasculhar a mente do jovem Cavaleiro.

Murtagh não queria que ele soubesse sobre o que ele sentia pela Amazona, de forma que ocultou partes da luta e da conversa, fazendo parecer que ela o obrigara a fugir após uma breve luta.

-Uma Amazona... – disse o Rei – Montada em um dragão-prisma. Obviamente é aquela mestiça, filha daqueles bastardos, e que eu permiti que ficasse viva. Fui piedoso demais, dando a ela a escolha de se unir a mim. Mas ela escolheu me combater, junto com aqueles rebeldes, os Varden... bem, se prefere assim... então terei que eliminá-la, a ela e àquele seu dragão. Murtagh! – trovejou – Você falhou! Sua sorte é que falhei com ela, assim como você, de modo que não serás punido. Mas amanhã irá até o acampamento deles, e a trará para mim, viva ou morta!

-E se eu não quiser? – desdenhou o Cavaleiro.

O Rei então pronunciou o nome verdadeiro de Murtagh – ou o que ele pensava ser, pois seu servo não sentiu o que sentia ao ouvir aquelas palavras. Seu nome não mudara por completo, mas a maior parte dele sim, o suficiente para que pudessem desobedecê-lo.

O garoto fingiu agonizar ao ouvir aquilo, e se retirou. Ele nunca vira a face de Galbatorix, pois esse se ocultava por magia, mas sua voz era grave, profunda, e absurdamente persuasiva.

Não dormiu, planejando o dia seguinte, no qual finalmente sentiria o sabor do vento sem ser obrigado a nada. Não queria apenas ir embora, queria levar consigo algo que prejudicasse o Rei, algo que ele estimasse...

A resposta era óbvia: o ovo verde.

Pé-ante-pé, desceu até as masmorras, se escondendo de sonolentos guardas, e entrou na última sala. O ovo estava em cima de um pedestal, preso por garras de metal, as quais ele facilmente abriu. Guardou-o sob s roupas, e correu de volta ao quarto.

Ao amanhecer, partiu montado em Thorn, feliz pela primeira vez em muito tempo. Mas foi breve essa felicidade, pois assim que percebeu o roubo, o Rei mandou Shuruikan em seu encalço. Sempre que algo acontecia, envolvendo o jovem cavaleiro, Galbatorix mandava o dragão cuidar do assunto, sozinho. Esse foi o seu erro.

Thorn era rápido, mas o dragão negro tinha poderosas asas, de modo que a perseguição foi notável, a ponto de por muitos anos ter sido cantada pelos menestréis. Próximos a Surda, Shuruikan os alcançou, e fez menção de atacar. Mas inesperadamente, o focinho do dragão vermelho começou a brilhar, e uma espada veio em direção a Murtagh. Os três perceberam que, como às vezes acontece com os dragões, Thorn realizou um encanto, que não só trouxe a espada, como também desfez as barreiras mentais de seu inimigo, dando ao cavaleiro a chance de se jogar em pleno ar, e atingir as macias escamas do tórax negro, com a lâmina élfica, e atingir o coração do primeiro escravo de Galbatorix.

Tão logo foi atingido, o encanto que o prendia ao rei se desfez, e ele falou com Thorn:

Obrigada, pequeno dragão, por me salvar. Como agradecimento, dou-lhes meu coração, para que possam vencer meu carcereiro.

Uma agitação percorreu o poderoso pescoço, que embora condenado à morte ainda resistia, pelo tempo de cuspir uma esfera negra e brilhante, antes de seu corpo tombar.

Murtagh ergueu-se, montou em Thorn, e juntos voaram em direção à salvação, sem perceber que, junto com o corpo sem vida, jazia também o futuro daquela espécie.

Ele esquecera o ovo.

Notas finais
Mereço reviews?