Evangelion: Shattered Thresholds
3 Episódio 3: Intrusão Iminente
Capítulo 18: Silêncio e Faíscas / Ambiguidade num Dia de Folga
A luz da manhã filtrava suavemente pelas cortinas do apartamento de Kai, acompanhada pelo zumbido rítmico, quase hipnótico, das cigarras lá fora. O cômodo estava quieto, calmo de um jeito que parecia até suspeito. Sem alarmes. Sem alertas da NERV. Sem vozes em sua cabeça ou vislumbres de batalha. Apenas o zumbido persistente dos insetos, o som baixo da cidade além da janela e o cheiro de ovos ligeiramente passados do ponto. Ele preparou o café da manhã como de costume, deixando que a rotina o mantivesse ancorado.
Seu celular vibrou.
“Bom dia, Kai!”
A mensagem da Misato piscava na tela com o entusiasmo habitual.
“Não precisa vir hoje de manhã. Vamos fazer um teste de troca de sincronização com o Shinji e a Rei—apenas as Unidades 00 e 01. Só fica tranquilo por enquanto. Aproveita a paz enquanto dura! 😊”
Kai ficou encarando a mensagem por um momento, piscando. Então os Evas podem ser usados por outros pilotos? Ele não sabia bem o que fazer com aquela informação. Shinji e Rei estavam ocupados. Ele tinha tempo. Tempo demais.
Hesitou, depois abriu os contatos e digitou:
“Bom dia, Asuka! Tudo bem? É o Kai.”
Sem resposta. Lavou o prato, andou em círculos pelo apartamento. Depois o celular vibrou de novo.
“Hah? O que você quer, novato?”
É, definitivamente era ela.
“Nada demais,” ele respondeu. “Só tô entediado. A Misato me dispensou de manhã. Isso é normal? O que eu deveria fazer? Era pra eu me apresentar mesmo assim? Ainda não entendi como as coisas funcionam.”
Houve uma pausa. Então—
“Nossa. Você é tipo um cachorrinho perdido.” Asuka respondeu. “Sério que você quer ir pra NERV num dia de folga? Você gosta mesmo de ser enfiado naqueles testes de sincronização?”
Kai sorriu de leve.
“Não,” escreveu. “Não quis dizer que tô louco pra trabalhar nem nada. Só queria sair um pouco. Tá livre?”
Uma pausa.
“Hah? Quer sair comigo de novo? O quê, ontem te deixou obcecado por mim ou algo assim?”
Ele quase podia ouvir a voz dela pela tela.
“...Tá bom,”, ela respondeu depois de um momento. “Não tô fazendo nada importante. E aí, qual é o plano, gênio?”
“Sei lá… sou turista, lembra? Quer almoçar em algum lugar? Eu pago.”
Aquilo chamou a atenção dela.
“Comida grátis? Bom, acho que posso arranjar tempo pra isso. Mas se você tá pagando, então vamos num lugar decente. Nada de lanchinho de loja de conveniência, ouviu?”
E por fim:
“Me encontra na frente da estação meio-dia. Não se atrasa, entendeu?”
Tokyo-3 – Estação de Trem
Kai chegou na estação adiantado. A cidade seguia seu ritmo ao redor, cheia de vida de um jeito que parecia mais real do que o normal. Poucos minutos depois, Asuka apareceu, andando com a confiança habitual, braços cruzados. Usava uma blusa vermelha sem mangas e uma saia azul, seu passo cheio de energia natural.
“Hah. Pelo menos você não se atrasou. Já é um começo.”
Ela inclinou a cabeça, os olhos com um brilho provocador. “Então? Onde é esse lugar incrível pra onde você vai me levar?”
Kai tentou não encará-la. Talvez sem muito sucesso. Algo nela ainda o desconcertava.
Ela sorriu de canto, escondendo o leve rubor no rosto. “Enfim! Espero que você não tenha só escolhido um lugar aleatório. Você tem um plano, né?”
“Na verdade… tenho, sim,” disse Kai, sorrindo. “Pesquisei um bom restaurante de sushi aqui perto... Sempre quis ir num daqueles com esteira, sabe? Acho que deve ser legal.”
Asuka abriu um sorriso. “Hah! Sushi em esteira? Nada mal! Pelo menos não sugeriu um buraco esquisito na parede. Certo, vamos logo!”
Ela girou nos calcanhares e foi na frente—como se a ideia tivesse sido dela o tempo todo.
Capítulo 19: Sabores Não Ditos / Um Gosto Inesperado
O restaurante vibrava com energia. Luzes fortes, pratos de sushi coloridos e o zumbido suave da esteira preenchiam o ambiente. Asuka não perdeu tempo e agarrou um prato de sushi de salmão.
“Certo, vamos ver se você consegue acompanhar. Fique sabendo que eu não pego leve quando se trata de comida!”
“Mesma coisa aqui,” disse Kai, pegando o primeiro prato que passou diante dele—tentando parecer confiante, mesmo sem fazer ideia do que estava fazendo. Colocou o pedaço inteiro na boca sem hesitar. Mastigando devagar, os olhos se arregalaram diante da textura rica e amanteigada.
Asuka parou a meio da mordida, percebendo a expressão dele. Depois deu uma risadinha. “Nossa. Ok, já que claramente sou eu quem vai te ensinar como isso funciona, é melhor valorizar.” Ela se inclinou, de olho no prato dele. “E aí? O que pegou? Sabe ao menos o que está comendo?”
Kai sorriu, sem graça. “Ahn... algo vermelho?”
Asuka riu alto. “Pfft—`algo vermelho', ele diz. Isso é maguro, gênio. Atum. Básico, mas pelo menos você não começou com algo esquisito tipo rolinho de natto.”
Kai riu enquanto engolia. “Mas é bom! Tô curtindo de verdade.”
“Você é um caso perdido, turista.” Asuka balançou a cabeça, ainda sorrindo.
Ela apoiou o queixo numa das mãos, os olhos fixos nele com uma mistura de diversão e uma leve curiosidade. “Certo, já que você tá tão empolgado com o Japão agora, me diz—qual foi a coisa mais estranha que notou até agora?”
Kai pensou por um momento, pegando outro prato conforme ele deslizava. “O silêncio. É muito esquisito. Às vezes, tudo que dá pra ouvir é aquele som das cigarras. Aquele zumbido... interminável... das cigarras.”
“Nem me fale.” Asuka riu. “Aquela cigarra maldita ainda vai me enlouquecer.”
Ela pegou um pedaço de tamago e olhou pela janela, acrescentando: “Mas... acho que Tokyo-3 é sempre silenciosa demais. Não é normal, sabe? É como se a cidade inteira estivesse só... esperando algo acontecer.”
Kai assentiu. A quietude da cidade também o impressionara—um tipo de calma estranha, sempre a um batimento do caos.
Asuka voltou a encarar ele com um sorriso maroto. “Mas você? Você tá completamente fora de lugar. Aposto que todo mundo te vê e pensa: `Eita—quem deixou esse turista gigante entrar?'”
Kai caiu na gargalhada. “Sim! No trem, juro, uma senhora ficou me encarando como se eu fosse um ET. Quase perguntei se queria tirar uma foto.”
“Pfft—HA! Devia ter perguntado! Aposto que ela ia entrar em pânico!”
Eles comiam entre risadas, a estranheza inicial já tinha desaparecido. Kai se pegou observando-a com atenção—o jeito como ela jogava o cabelo depois de uma tirada inteligente, o brilho nos olhos quando ganhava nas provocações.
“Sabe,” disse ele, sorrindo, “você não é tão horrível quanto diziam antes de eu te conhecer. Um pouco, sim, mas nem tããããããão ruim assim.”
Asuka arqueou uma sobrancelha, os lábios se curvando num sorriso desafiador. “Hah! Aposto que você queria que eu fosse horrível. Ia ser mais fácil lidar com o fato de que eu sou linda e maravilhosa, né?”
Ela pegou outro pedaço de sushi, mas parou antes de comer, a voz mudando sutilmente. “Mas sério... as pessoas falaram mal de mim?”
O tom não era defensivo—só curioso. Mas havia algo por baixo. Algo mais calado.
Kai hesitou, depois deu de ombros. “Não, foi só a Misato tentando me assustar... mas não conta pra ela que eu te disse isso.”
Asuka revirou os olhos. “Pfft, claro que foi a Misato. Típico.”
Ela sacudiu a cabeça, como se não ligasse. “Ela simplesmente não me entende. Ninguém entende.”
A frase veio com naturalidade, mas Kai percebeu o brilho diferente no olhar dela antes que fosse substituído por outro sorriso. Ele se inclinou um pouco, a voz mais suave.
“É... conheço esse sentimento.”
Asuka congelou por um instante, os hashis parados no ar. Os olhos se voltaram pra ele—agudos, indecifravéis—depois desviaram de volta para a esteira.
“Hah. Sei.”
Mas a voz dela estava mais baixa. Ela comeu o sushi rapidamente.
“Enfim, nada de ficar sentimental agora. A gente devia estar se divertindo, lembra?”
Kai riu, deixando o momento passar. “Tudo bem, tudo bem. Ei, me fala mais de você! Seu sobrenome é Langley, né? Não parece nada japonês.”
Ela se recostou na cadeira, visivelmente mais à vontade. “É porque eu não sou japonesa, dã. Meu nome completo é Asuka Langley Soryu. Minha mãe era parte alemã, e meu pai americano. Mas eu cresci na Alemanha. Por isso sou obviamente muito mais refinada que o resto de vocês.”
Ela jogou o cabelo para trás com um ar teatral, a confiança de volta em plena forma. “E antes que você pergunte—sim, eu falo três idiomas fluentemente. Japonês, alemão e inglês. Impressionante, né?”
Kai sorriu. “Muito impressionante mesmo. Mas... e português? É isso que ia me impressionar de verdade.”
Asuka revirou os olhos, depois limpou a garganta. Com um sotaque exagerado, disse: “Ooooi, tudo beim? Eu sou o Asuka, e eu sou o melhorrr pilota de ÉFA!”
Kai quase engasgou com o sushi e caiu na gargalhada. “Nossa! Então você é cheia de segredos!”
Ela cruzou os braços com orgulho. “Mas é claro! Eu sou um gênio, lembra? Tive uma babá brasileira quando era pequena. Ela falava português direto, então acabei pegando umas coisas. Mas nem vem querer conversar comigo mais do que isso, ouviu?”
Ela apontou os hashis para ele com um brilho nos olhos. “Mas aposto que meu sotaque foi melhor do que esse japonês horrível seu, né?”
Kai riu, balançando a cabeça. “Ok, ok, essa eu deixo passar. Mas eu me esforço, viu?”
Asuka comeu mais um pedaço de sushi, obviamente satisfeita consigo mesma.
A conversa seguiu com mais provocações e risadas. Mas por baixo de tudo, algo não dito começava a tomar forma. Algo que nenhum dos dois nomeava ainda.
Do lado de fora, Tokyo-3 permanecia em silêncio, esperando. Mas naquele pequeno restaurante, sob a luz dourada da tarde, Kai sentia como se a cidade estivesse finalmente viva.
Os raios do fim de tarde atravessavam as janelas do restaurante de sushi, banhando de dourado os balcões de madeira polida e a esteira que girava lentamente ao centro do salão. O murmurinho baixo de conversas e o som suave dos hashis enchiam o ar, misturados ao aroma limpo de arroz temperado e peixe fresco.
Capítulo 20: Fissuras na Confiança / O Peso Por Trás das Palavras
O zumbido acolhedor de Tokyo-3 os cercava enquanto estavam sentados no pequeno restaurante de sushi. O murmúrio baixo dos outros clientes criava uma atmosfera curiosamente pacífica—do tipo que fazia parecer que aquele era apenas mais um dia comum. Nada de Evangelions. Nada de Anjos. Apenas duas pessoas compartilhando uma refeição.
Asuka comeu mais um pedaço de sushi, com uma expressão satisfeita. A tarde seguia com risos e provocações, mas por baixo de tudo, havia algo real—algo não dito, mas compreendido.
“Então... você precisa mesmo ser a melhor, é?” Kai perguntou, observando-a com atenção.
O sorriso de Asuka vacilou, por apenas um segundo. E então, com a mesma rapidez, ela disfarçou com um resmungo.
“Claro! Se você não está no topo, qual é o sentido?”
Ela pegou outro pedaço de sushi, seus movimentos precisos e rígidos, evitando o olhar dele por um momento. Então, com um tom mais sério, acrescentou: “E além disso... se você não for a melhor, as pessoas passam por cima de você.”
Ela colocou o sushi na boca e mastigou com mais força do que o necessário.
Kai não respondeu de imediato. Apenas pegou outro pedaço, mantendo o clima leve para que ela não se sentisse pressionada. Já havia aprendido que Asuka reagia mal quando era encurralada, quando se sentia acuada. Mas havia algo nas palavras dela que ficava zunindo em sua cabeça.
Finalmente, ele engoliu e disse: “Isso soa como... bom... posso fazer uma pergunta pessoal?”
Asuka lançou-lhe um olhar desconfiado. “Depende. É idiota?”
Ele sorriu, erguendo as mãos como se se rendesse. “Hah! Acho que não... mas talvez seja!”
Ela bufou, balançando a cabeça. “Tsc. Vai, manda. Mas se for idiota, vou te jogar wasabi.”
Kai sorriu, mas depois hesitou, os dedos tamborilando na borda do prato.
“Aconteceu alguma coisa, não foi?” perguntou, com a voz mais suave agora. “Parece que... não sei... que algo ruim aconteceu.”
Por um segundo, Asuka não reagiu. Ela apenas o encarou, os hashis suspensos no ar, os olhos afiados e indecifravéis. Então, com um movimento lento e deliberado, pousou o sushi de volta no prato.
“Tsc. Que tipo de pergunta é essa?”
A voz dela não era cortante—não do jeito que costumava ser quando queria encerrar um assunto. Estava sem o veneno habitual, e isso dizia mais do que se ela tivesse gritado.
Ela se recostou, cruzando os braços, o olhar se desviando para a janela, como se o mundo lá fora tivesse ficado repentinamente mais interessante.
“Escuta, Kai, todo mundo tem sua bagagem. Você não precisa ficar cavando a minha.”
Kai a observou por um momento. As defesas estavam erguidas—talvez não completamente, mas o suficiente para que ele percebesse que forçar não adiantaria. Ainda assim, aquele lampejo na expressão dela, aquela breve hesitação... Não era indiferença. Era defesa.
Ela pegou outro pedaço de sushi, os movimentos deliberadamente despreocupados.
“Eu já falei—eu sou a melhor porque preciso ser. Só isso.”
A voz era firme, mas havia algo nela que parecia... inacabado. Como uma frase cortada no meio. Um pensamento que ficou preso na garganta.
Kai não insistiu. Apenas sorriu e pegou outro sushi.
“Tudo bem,” disse ele, com naturalidade, colocando o pedaço na boca. “Vou aceitar essa.”
Por um instante, só se ouviu o som dos hashis nos pratos, o murmúrio baixo de conversas vindo de outras mesas. Então, quase imperceptivelmente, Asuka soltou o ar devagar, os ombros relaxando só um pouquinho.
Ela sorriu de lado. “Bom. Isso mesmo.”
Mas ao olhar para ele de canto de olho, havia algo a mais ali—algo sem armaduras, algo que Kai sabia que não era pra ele ter visto.
E por ora, isso bastava.
Capítulo 21: Marés de Tensão / Interrupção do Equilíbrio
A esteira de sushi continuava seu movimento hipnótico e lento ao lado da mesa deles, pratos coloridos carregando pequenas peças delicadas de artesanato culinário japonês. O murmúrio baixo das conversas se misturava ao ocasional tilintar de hashis contra cerâmica, criando uma atmosfera surpreendentemente acolhedora.
Kai pegou mais um pedaço de sushi, saboreando a riqueza do peixe fresco, mas sua atenção não estava realmente na comida. Ele permanecia focado em Asuka—no jeito como seus olhos azuis o analisavam entre uma mordida e outra, na forma como ela se movia com confiança sem esforço, e mesmo assim sempre com algo escondido por baixo. Ele já tinha se envergonhado o suficiente desde que chegou a Tokyo-3, mas, de algum jeito, conversar com ela agora parecia mais natural.
Entre mordidas, ele a olhava—talvez mais do que deveria. Asuka parou no meio de uma mordida, os hashis suspensos no ar. Por um instante, algo brilhou em sua expressão—desprotegido, incerto. Mas desapareceu tão rápido quanto veio, mascarado por um resmungo e um revirar exagerado de olhos.
“Pfft. Você é um esquisitão, sabia?” ela provocou, colocando o sushi na boca. Mastigou pensativa, observando-o com um sorriso.
Apesar do insulto brincalhão, havia uma ternura na voz dela que não estava lá antes. Ela empurrou um prato na direção dele com os hashis.
“Aqui. Prova esse. Dizem que é muito bom.”
Kai olhou pro prato, depois pra ela, tentando decifrar se aquilo era uma recomendação genuína ou uma armadilha elaborada. “Dizem que é bom, né?”
Asuka apenas sorriu de lado, esperando.
Ele pegou, colocando o pedaço na boca lentamente, deixando os sabores se espalharem pela língua. O gosto era rico e levemente ácido, complexo de um jeito que não esperava.
“Uau! Delicioso!” exclamou. Depois, semicerrando os olhos, acrescentou: “Ufa, admito que achei que você ia me passar a perna.”
Asuka recostou-se no assento, claramente satisfeita. “O quê, você acha que eu te sabotaria logo na sua primeira experiência de sushi de verdade? Por favor. Eu tenho padrões.”
Ela pegou outro rolinho e o colocou na boca, observando-o de canto de olho. “Além disso, se fosse para te zoar, você nem ia desconfiar. Eu não faço nada pela metade.”
Kai riu. “Hmm. Será que finalmente estou começando a me redimir daquela primeira impressão vergonhosa?”
Asuka ergueu uma sobrancelha, batucando com os hashis no prato. “Hmph. Digamos que você tá escalando pra fora do buraco que cavou.”
Ela sorriu de lado. “Mas não se ache demais. Você ainda tá em período de teste, garoto do Brasil.”
Ele sorriu de volta.
Ela girou um pedaço de gengibre entre os hashis, depois olhou pra ele. “E aí? Vai correr de volta pro Brasil na primeira chance?”
Kai balançou a cabeça, a expressão suavizando. “Nah... não tem... nada lá pra mim. Vão ter que me aguentar.”
Asuka levantou uma sobrancelha, hesitando. Pegou mais um rolinho e comeu, depois se recostou levemente. “Então quer dizer que você tá aqui pra valer, hein?”
Kai assentiu. “É. Lutando pra salvar o mundo, não é isso?”
Asuka deu de ombros, olhando pra ele com uma mistura de diversão e algo mais—talvez curiosidade. “É, é, salvar o mundo e tudo mais. Mas sejamos sinceros—no fim, as pessoas lutam por elas mesmas. Você vai ver.”
Ela inclinou a cabeça. “Mas olha, se você ficar por perto tempo suficiente, talvez me prove o contrário.”
Kai apoiou os braços sobre a mesa, observando-a atentamente. “Espero que sim.”
Por um segundo, Asuka pareceu procurar algo no rosto dele—sinceridade, talvez. Depois, soltou o ar pelo nariz e balançou a cabeça. “Vamos ver, herói.”
Ela pegou outro prato da esteira, o sorriso voltando. “Certo, chega de conversa profunda. Vamos ver se você aguenta wasabi sem chorar que nem um bebê.”
Kai sorriu, arregaçando levemente as mangas. “Ah, é assim? Então vamos lá.”
Asuka o observava, o sorriso ficando um pouco mais longo do que antes.
Ele pegou uma quantidade absurda de wasabi e passou no próximo pedaço de sushi. Asuka se inclinou, esperando pelo desastre.
Ele colocou na boca, mastigando com confiança.
“Ah, não é tão... ruim...”
Então bateu.
A garganta queimou, os olhos arderam, e os seios da face pegaram fogo.
“Uuh... talvez... agh... não foi uma boa ideia...”
Ele agarrou o chá e engoliu com os olhos arregalados.
Asuka caiu na risada, quase deixando os hashis caírem. “Meu Deus, idiota! Eu disse pra provar, não devorar desse jeito!”
Ela empurrou outro copo na direção dele, ainda sorrindo. “Respira, respira! Aqui, antes que desmaie.”
Kai tomou tudo, finalmente se recuperando. Enxugou os olhos, balançando a cabeça. “Bom... acho que ainda não terminei de me envergonhar na sua frente.”
“Ah não,” disse Asuka, apoiando o queixo na mão. `Você definitivamente ainda não terminou. Mas ei, pelo menos você é divertido.”
Ela se recostou, braços cruzados. “Tá bom. Já que sobreviveu a isso, acho que tá um pouquinho menos patético. Talvez eu até te deixe sair comigo de novo.”
Ela estava provocando, mas havia um brilho genuíno de diversão nos olhos dela.
Kai sorriu de lado. “Oh, você vai me dar essa honra, é?”
“Tsc. Talvez.”
Eles saíram para o ar da tarde. O sol ainda alto projetava sombras compridas pelas ruas movimentadas de Tokyo-3.
Então o celular de Asuka vibrou.
Ela tirou do bolso, leu a mensagem. A expressão se fechou na hora.
“Misato. Diz que precisamos ir pra NERV. Agora.”
O celular de Kai vibrou um segundo depois. A mesma mensagem.
“Venha imediatamente para o QG. Briefing em 20 minutos. Sem atrasos.”
Ele olhou pra ela. “Bom... acho que voltamos ao trabalho.”
Ela se endireitou, alongando os braços. “Então vamos.”
O calor do almoço desapareceu num piscar de olhos, substituído por algo mais pesado. Eles se moveram rápido pelas ruas, o clima em volta mudando. A cidade parecia mais silenciosa agora, como se sentisse a tensão no ar.
Ao se aproximarem da estação, Asuka quebrou o silêncio.
“Você tá tenso.”
Kai piscou. “Você não tá?”
Ela deu de ombros. “Tsc. Eu tô sempre pronta pra tudo.”
Enfiou as mãos nos bolsos, o olhar afiado enquanto chegavam à plataforma.
“Só espero que não seja nada irritante.”
Kai assentiu, mas o aperto no estômago não passava. O que quer que estivesse esperando por eles na NERV...
Eles estavam prestes a descobrir.
Capítulo 22: Última Linha de Defesa / O Peso de um Milagre
Enquanto Kai e Asuka caminhavam em direção à NERV, o zumbido habitual de Tokyo-3 havia mudado—drones de segurança sobrevoavam os céus, emitindo alertas estridentes.
“Uma Declaração Especial D-17 foi emitida pelo governo. Todos os residentes devem evacuar para seus locais designados.”
As ruas antes calmas irromperam em um caos organizado. Pessoas saíam de prédios, seguindo rapidamente para os abrigos. Seus movimentos eram treinados e precisos, apesar da tensão que crepitava no ar. Carros congestionavam cruzamentos, buzinas ecoando com urgência entre os arranha-céus enquanto a ansiedade apertava seu cerco.
O pulso de Kai acelerou ao observar a urgência cuidadosamente controlada ao redor. Ele lançou um olhar para Asuka, que mantinha a expressão composta, embora seus olhos traíssem um lampejo de inquietação.
“É melhor a gente se apressar,” disse Kai baixinho. “Isso parece sério.”
Asuka bufou, mas o tom habitual de desdém estava suavizado. “Relaxa, novato. É só protocolo. Acontece o tempo todo.”
Ainda assim, seu passo acelerou. Juntos, correram em direção à NERV, a tensão entre eles engrossando a cada quarteirão.
Ao se aproximarem da sede da NERV, a voz mecânica do sistema de emergência ecoou pelo ar.
“Todos os funcionários: evacuação de emergência iniciada. Repetindo, evacuação de emergência iniciada.”
Kai olhou de lado para Asuka, inquieto. “Só eu acho estranho que a gente tá indo na direção oposta de todo mundo?”
Asuka soltou o ar com força, os punhos se cerrando levemente. “Bom. Vamos descobrir o motivo.”
Kai lançou outro olhar a ela, sentindo um aperto no peito—não de medo, mas de instinto. Algo havia mudado nela. Sua expressão endurecera num foco quase bélico que ele ainda não tinha visto antes.
Ela pegou o olhar dele e ergueu uma sobrancelha. “O quê? Já tá ficando com medinho?”
O sorriso era afiado, mas havia algo mais suave por baixo—reconhecimento.
Dentro da NERV, os corredores fervilhavam com uma urgência contida. Técnicos se moviam com eficiência, suas vozes curtas ecoando no caos controlado. Não havia gritos, apenas prontidão determinada.
Ao chegarem à sala de briefing de emergência, Shinji e Rei já os esperavam. Shinji estava sentado, tenso, o olhar distante. Rei permanecia de pé ao lado, imóvel como uma estátua.
Kai acenou com a cabeça. “Oi, Shinji. Rei.”
Shinji respondeu baixo, “Oi,” com o rosto coberto de preocupação. Rei apenas piscou, silenciosa.
Misato estava à frente da sala, braços cruzados, a energia brincalhona habitual substituída por uma seriedade rara. Ela lançou um olhar breve a Kai e Asuka ao entrarem—os olhos percorreram os dois só o suficiente para notar que chegaram juntos, mas não comentou.
“Ótimo. Todos aqui,” disse ela.
Ela tocou o painel de controle, e uma tela holográfica se acendeu na frente da sala. A imagem era granulada no início, mostrando uma forma escura, ondulante, pairando na alta atmosfera.
“Um objeto não identificado foi detectado ao entrar na atmosfera há cerca de uma hora. Estamos rastreando desde então.”
A imagem ficou nítida—e a respiração de Kai travou. Suspenso na estratosfera estava uma criatura grotesca, impossivelmente vasta, pairando como um parasita sobre a curvatura da Terra. Seu corpo se estendia em simetria distorcida, uma massa laranja pulsante em forma de mandala fractal feita de cartilagem queimada e carne viva. Três olhos enormes e injetados de sangue olhavam com precisão demoníaca—um central, com pupila fendida e contorno vermelho, e dois nos extremos, pulsando lentamente. De sua massa principal se estendiam prolongamentos como ramos cancerígenos ou ligamentos esticado. E ainda assim, pairava sem propulsão, suspenso apenas por sua própria vontade. Não parecia algo feito para lutar, mas para cair. Um executor divino aguardando o momento de descer.
“Agora temos certeza. É um Anjo.”
O estômago de Kai se revirou.
Misato deu um passo ao lado, deixando a imagem falar por si.
“E não é como nenhum que já vimos.”
Ela gesticulou novamente, e o holograma se expandiu para mostrar dados orbitais em tempo real. O Anjo estava em queda.
“Sahaquiel. É enorme,” continuou Misato. “Maior que qualquer coisa que já enfrentamos. E não está tentando pousar—ele quer cair. Diretamente. Do espaço. Se atingir Tokyo-3... não haverá mais Tokyo-3.”
A respiração de Shinji falhou.
O coração de Kai disparou. É agora.
“Está descendo rápido,” disse Misato. “Impacto estimado em trinta minutos. Estamos lançando a missão de interceptação imediatamente. Isso significa, vocês quatro—troquem de roupa. Vocês serão enviados à linha externa de defesa. A missão é impedir que ele toque o chão.”
“QUÊÊÊÊÊ?” Asuka exclamou. “Pegar o Anjo com as nossas mãos?!”
Misato não pestanejou. “Exato. Vamos posicionar os Evas na zona estimada de queda. Vocês vão segurá-lo mantendo seus Campos A.T. ativados em força total.”
Shinji engoliu seco. “Mas... e se o Anjo estiver fora do curso que calculamos?”
Misato o encarou. “Aí será azar nosso.”
Asuka arregalou os olhos. “E se os Evas não aguentarem o impacto?”
“Vai ser um azar maior ainda,” repetiu Misato com firmeza.
Kai se inclinou. “Mas vocês sabem onde ele vai cair, certo?”
Misato hesitou um instante. “Não conseguimos determinar o local exato. O ponto estimado de impacto calculado pelo Magi é esse aqui.” Ela indicou uma enorme zona na tela.
Asuka arregalou os olhos. “Essa área enorme aí?!”
Shinji murmurou. “A distância de um ponto pro outro é muito grande!”
Ritsuko, até então calada, adiantou-se com voz firme. “Devido ao enorme tamanho do Campo A.T. do alvo, ele poderia destruir totalmente o QG ao entrar em contato com qualquer ponto dessa área.”
Kai respirou fundo. “Então é por isso que todo mundo está evacuando.”
Ele balançou a cabeça, tentando se convencer. “Mas quatro Evas juntos conseguem segurar, né? O Magi calculou isso?”
Ritsuko estreitou os olhos para Misato. “A chance de sucesso é de 0,00001%. E só se todos os Evas agirem simultaneamente—o que não acontecerá de início.”
Os olhos de Asuka se arregalaram. Shinji ficou horrorizado.
Kai sentiu o peito apertar. “Não acontecerá?”
Misato respondeu com calma. “Cado Eva será posicionado nesses quatro pontos.”
Rei perguntou suavemente. “Qual o fundamento para isso?”
Misato suspirou. “Intuição.”
Os quatro pilotos olharam incrédulos. “Intuição?”
Misato cruzou os braços com firmeza. “É, intuição feminina.”
Asuka bufou. “Mas que irresponsável... Se a gente conseguir, vai ser mesmo um milagre.”
Misato retribuiu o olhar. “Os únicos milagres com algum valor são os que você mesmo é capaz de realizar.”
Asuka desafiou. “Ou seja, a gente tem que se virar e ver o que dá.”
Ela suspirou, suavizando o tom. “Me desculpem, mas eu... não tenho outras opções. Pelo menos nessa operação.”
Asuka protestou. “Como pode chamar isso de operação?!”
Misato não vacilou. “É verdade, eu não posso. Então se não quiser ir, é só recusar.”
Silêncio.
Ela virou-se para Kai. “Kai, essa é sua primeira batalha. Sem simulações. Sem recomeços. É real. Tem certeza que está pronto?”
Kai olhou ao redor—Shinji aflito, Asuka desafiadora, Rei resoluta. Engoliu seco, se firmando. “Pode contar comigo.” Respirou fundo. “Vamos fazer esse milagre acontecer.”
Os olhos de Misato se aqueceram por um instante. “Era o que eu esperava ouvir.”
Shinji assentiu. “Eu topo.”
Rei murmurou. “Entendido.”
Asuka cruzou os braços com um meio sorriso. “Nem morta que eu vou recuar.”
Misato suspirou, um traço de preocupação passando por seu rosto. “O regulamento diz que vocês deveriam fazer um testamento. Vocês querem fazer agora?”
Asuka bufou. “Pra quê? Eu não vou morrer agora.”
Rei respondeu calma. “Eu também não. Não preciso fazer um.”
Shinji balançou a cabeça. “Eu também não quero fazer.”
Kai olhou para Misato. “Também não. Não vejo sentido.”
Misato sorriu brevemente. E então, surpreendendo-os, amoleceu ainda mais.
“Então me façam um favor—lembrem que hoje tem jantar na minha casa. Vocês prometeram. Não se atrasem.”
Shinji piscou. “Aí sim! Verdade. Vai ser bom!”
Asuka se animou instantaneamente. “Não vai esquecer, hein? É claro que vamos estar lá. Eu não perderia isso.”
Kai olhou surpreso. Ontem tinham reclamado da ideia—agora pareciam... ansiosos?
O sorriso de Misato se alargou. “Ótimo. Algo pra esperar, então.”
Ela se voltou ao monitor. “A estratégia exige coordenação total dos quatro Evas. É o único jeito de cobrir toda a área de impacto.”
O mapa tático surgiu com um arco vermelho traçando a descida do Anjo como um cometa flamejante. A tela exibia sobreposições de dados, formações defensivas e tempo de resposta.
“Vocês serão posicionados na grade externa, formando um padrão em cruz com quatro zonas de cobertura—norte, sul, leste e oeste. Rei, Shinji, Asuka, Kai—cada um cuida de um quadrante. Se o Anjo cair na sua zona, você deve interceptar, enquanto espera pelos outros.”
Misato estreitou os olhos.
“Ativem seus Campos A.T. para frear e parar a queda. Usem os braços, segurem o Anjo. Amorteçam, desacelerem, impeçam o impacto no solo. Vai exigir força máxima de todos vocês. Se cair entre zonas, todos correm. Quem estiver mais perto age primeiro. Os outros devem chegar rápido. Quando o Anjo iniciar reentrada, teremos rastreamento em tempo real. Ajustem as posições conforme necessário.”
Asuka bufou. “Então somos airbags de luxo? Ótimo.”
Kai confirmou. “Quando soubermos onde ele vai cair, corremos pra lá?”
Misato assentiu. “Exatamente. Agora, troquem de roupa. Rápido!”
Asuka estalou os dedos. “Finalmente. Ação de verdade.”
Ela disse com um sorriso, mas a tensão estava de volta—como uma mola prestes a estourar.
Eles se viraram para a saída.
Kai seguiu, tentando parecer confiante. Ombros erguidos. Passos firmes. Mas as palavras de Misato ecoavam—sem recomeços. Ele tocou levemente a parede ao passar, buscando algo sólido sob os dedos. Algo para se firmar.
Nem percebeu que estava ficando pra trás—até Asuka se virar, jogar o cabelo e lançar um olhar por cima do ombro. “Só não me atrasa, novato.”
Ela disse como provocação. Mas o sorriso não era sarcástico, parecia um convite para trazê-lo de volta.
Isso o despertou. Ela fazia aquilo de propósito—acendendo o fogo de novo. Não o deixaria congelar. Não deixaria ele cair.
Kai se endireitou, um sorriso surgindo. “Te atrasar? Eu vou pegar esse Anjo antes de você piscar.”
Ela bufou, mas não respondeu. E isso dizia tudo.
Shinji lhe deu um pequeno sorriso. “Então vamos lá.”
Correram.
No vestiário, Kai vestiu seu plugsuit. O tecido apertava, os sensores sincronizando ao longo da espinha e braços. Já devia estar acostumado—mas não estava.
Aquilo não era treino. Não era teoria.
Era guerra.
A plataforma de lançamento os aguardava, imensa e estéril. Os Evas se erguiam como titãs sob luzes intensas. Cabos e técnicos os rodeavam, armando sistemas e carregando armamentos. Unidade-00. Unidade-01. Unidade-02. E por fim… Unidade-04.
Kai o encarou—seu Evangelion. Cromo reluzente, armadura angular, placas segmentadas refletindo luz, acentos vermelhos ardendo nas juntas e colar.
A voz de Misato ecoou no intercomunicador.
“Atenção, pilotos. Sigam o plano, cubram uns aos outros, e lembrem-se—só há uma chance.”
Os plugs começaram a descer.
Kai entrou no plug da Unidade-04, o coração disparado. A escotilha se fechou, e o LCL inundou, morno e pesado. A visão ficou turva enquanto a interface sincronizava.
Taxa de Sincronização: 47%... 53%... 61%...
Ele cerrou os dentes, dominando as ondas da conexão, deixando o Eva preencher seus sentidos.
Então—clareza.
Evangelion Unidade-04, online.
Dentro do plug, Kai respirou fundo, sentindo o abraço familiar da Unidade-04 envolvê-lo. A conexão foi instantânea—como reencontrar um velho amigo. A pressão nos membros, a resposta dos controles, o zumbido no fundo da mente. Aquilo não era só metal e fios.
Aquilo estava vivo.
Os restritores se soltaram.
As catapultas sob cado Eva ganharam vida em sequência.
E o campo de batalha os aguardava.
Capítulo 23: Batismo Gravitacional / Apenas Mãos Humanas
Um estalo profundo reverberou pela espinha de Kai quando a plataforma o lançou em direção ao céu. O Geofront passou borrado. E então, a luz do dia.
Tokyo-3 se abriu diante deles como um alvo à espera.
Seus monitores piscaram com os feeds do Eva-00, Eva-01 e Eva-02. A expressão nervosa de Shinji. O sorriso confiante de Asuka. A quietude calma de Rei. A equipe completa, pronta.
A voz de Misato soou pelo comunicador—firme, focada, mas com uma urgência perceptível. “O Anjo está descendo da órbita. Com essa velocidade, se atingir Tokyo-3, a cidade inteira será apagada.”
Um arco vermelho riscou o HUD de Kai—um meteoro flamejante em queda em direção à Terra.
“Estamos rastreando o ângulo, mas não conseguimos precisar exatamente onde vai atingir. A interferência atmosférica está distorcendo os cálculos de trajetória.”
Os olhos de Kai varreram a simulação—pontos de impacto, análise de estresse, distribuição de carga pelas estruturas dos Evas.
E então algo novo apareceu. Um cronômetro.
“Espera, o que é esse tempo de cinco minutos?” ele perguntou, confuso.
Misato não hesitou. “Quando vocês são lançados sem o cabo umbilical, os Evas funcionam apenas com a bateria interna.”
“O quê? Os Evas têm que ficar LIGADOS NA TOMADA?!” A voz de Kai subiu incrédula. “E o que acontece quando esse tempo acaba?”
“Seu Eva desliga,” disse Misato sem rodeios. “Você perde o controle. E acabou.”
Kai expirou, tentando processar. “Isso... parece uma daquelas coisas que vocês deviam ter mencionado antes.”
Shinji soltou um suspiro inquieto. “Também fiquei assustado da primeira vez...”
Asuka bufou. “O que, achou que ia ser fácil? Bem-vindo ao trabalho.”
Misato virou-se a ele com um meio sorriso, impassível com a preocupação dele. “Você não vai precisar se preocupar com isso agora. Essa operação vai terminar antes do contador zerar.”
Kai olhou novamente para os números. Cinco minutos. Parecia pouco—e definitivo.
Ela prosseguiu, com o tom mais sério. “Mas guarde bem isso. Da próxima vez, pode não ter esse luxo.”
A voz de Rei veio calma e precisa. “Cinco minutos são suficientes... se você não hesitar.”
Kai assentiu devagar, sentindo o peso das palavras. “Entendido,” murmurou. “Então... não vacilar e não ficar sem energia. Fácil.”
Asuka revirou os olhos. “Tá aprendendo.”
O céu acima virou uma tempestade de fogo. Sahaquiel rasgava a atmosfera—vasto, alienígena. Seu corpo imenso se abria como um olho caindo do céu, com membros disformes e círculos concêntricos de energia. O ar ao redor se distorcia.
Kai aterrissou em sua posição designada, as pernas blindadas da Unidade-04 se dobrando sob o impacto.
Nos monitores, as outros Evas tomaram posição pela cidade: Rei, ao leste—silenciosa e imóvel. Shinji, ao norte—olhos arregalados de tensão. Asuka, ao oeste—ombros erguidos, firme.
Kai apertou os controles. Era agora.
A voz de Hyuga entrou no comunicador. “Distância aproximada de 25.000!”
Misato seguiu de imediato. “Todos os Evas, em posição!”
Kai posicionou a Unidade-04—pernas dobradas, braços ao lado. Todas os Evas repetiram o movimento. Asuka, Rei, Shinji—em posição, como corredores prestes a partir.
A voz de Misato voltou. “Só temos uma trajetória projetada por observação visual. Então o Magi vai dar as coordenadas até vocês chegarem na distância de 10.000 metros. Depois disso, fica por conta de vocês.”
Aoba relatou em seguida, a voz carregada. “Anjo se aproximando—distância aproximada 20.000!”
Asuka interrompeu. “Kai, para de moscar e fica alerta!”
Shinji falou logo depois. “Temos que acertar isso...”
Misato manteve o tom firme. “Lembrem-se do treinamento. Campos A.T. ativados assim que ele cruzar baixa altitude. Não haverá segunda chance.”
Ela continuou. “Chegou a hora! Iniciar a opera—Não, esperem!” Um estouro de estática interrompeu.
Um novo alerta piscou no HUD de Kai.
Local de impacto atualizado.
Kai arregalou os olhos. A simulação atualizada mostrava sua zona em vermelho. Bem nas coordenadas dele.
Sahaquiel estava caindo direto sobre ele.
“...O quê?” ele disse em voz alta, um segundo atrás dos outros. “Bem em cima de mim?!”
As comunicações explodiram.
“NÃO ACREDITO!” Shinji ofegou.
“Vocês só podem estar brincando!” Asuka gritou. “Tá caindo bem em cima dele?!”
Rei apenas disse: “Reposicionando.”
A voz de Misato sobrepôs todas. “Todas as unidades, nova prioridade: dar apoio a Kai! Esse é o ponto confirmado de queda—Kai, você é a linha de frente. Ative seu Campo A.T. e prepare-se para o impacto!”
“Vamos!” Shinji gritou.
Nos monitores de Kai, todos os Evas romperam formação—correndo. A Unidade-01 de Shinji saltou pelos telhados. A Unidade-00 de Rei avançava com fluidez. A Unidade-02 de Asuka disparava pela rodovia como uma predadora.
Apenas a Unidade-04 permaneceu onde estava.
A respiração de Kai travou. Suas mãos apertaram os controles. O céu acima queimava mais a cada segundo.
“Entendido,” murmurou, o coração martelando no peito.
Um olho flamejante da destruição—caindo direto sobre ele.
Dentro do plug, Kai se alongou, girando os ombros para testar os movimentos. O LCL estava quente, os controles pulsavam sob suas mãos. Ele havia treinado para isso. Os reflexos estavam afiados. O corpo pronto.
Mas o Campo A.T...
Aquilo ainda era teórico. Ele nunca havia ativado um de verdade. Ouvira as descrições—`uma extensão da alma,' `uma barreira de vontade.' Mas como transformar isso em realidade?
Só havia uma maneira de descobrir.
“Kai!” A voz de Misato novamente. “Prepare-se agora!”
Kai fechou os olhos por um instante.
Concentre-se.
Tinha que ser como mover o Eva—sem separação entre pensamento e ação. O Campo A.T. não era só uma barreira. Era ele. Sua vontade.
Ele ergueu os braços da Unidade-04 para o céu—punhos firmes, pernas plantadas, postura travada.
“Ativar Campo A.T.!”
A pressão no plug aumentou. O LCL cintilou ao redor dele. O HUD piscou.
E então—o impacto.
O céu se abriu enquanto Sahaquiel descia, sua forma circular irradiando ondas de energia que distorciam as nuvens. Fogo marcava suas bordas. Ondas de choque varriam a atmosfera como redemoinhos em água.
Contato!
Uma grade hexagonal de luz brilhou acima dos braços da Unidade-04.
Bem a tempo.
Sahaquiel colidiu contra ela como um martelo celestial contra o vidro. O Anjo era um deus em chamas esmagando-o agora, imenso e impiedoso. O vento urrava em torno da Unidade-04 com força crescente. O calor aumentava. O solo tremia. Ele tinha que aguentar. Ganhar tempo. Os outros ainda estavam quilômetros de distância, correndo em sua direção.
O impacto reverberava pelo crânio de Kai—força crua e insuportável. Todo o seu corpo tremia no plug.
“Pico de energia detectado!” Hyuga gritou.
“Pressão externa: 137% acima do previsto!” Maya exclamou, incrédula.
“A estrutura do Eva-04 está em limite crítico!” Aoba alertou. “Limitadores de potência falhando—Campo A.T. estável, mas oscilando!”
Kai cerrava os dentes. “Ghh—vamos lá! AGUENTA!!”
Do lado de fora, o Campo A.T. vibrava sob o peso. O olho do Anjo ardia em luz furiosa, pressionando com força brutal.
E a Unidade-04 resistia.
Por pouco.
“O campo dele ainda aguenta—mas não por muito!” Misato gritou. “Cheguem logo até ele!”
A voz de Shinji soou, cheia de tensão. “Estou indo o mais rápido que posso!”
Asuka rosnou. “Droga! Anda, pernas malditas!”
A respiração de Rei era audível agora, sua voz calma porém tensa. “Ajustando rota. Chegada estimada em vinte segundos.”
A visão de Kai turvou. O plug sacudia como um navio em tempestade. O sangue retumbava nos ouvidos.
“Não vou... aguentar muito mais...”
Sahaquiel pesava. O campo tremia. Fendas de energia cortavam o céu.
Então—
Um segundo Campo A.T. brilhou ao lado do seu.
Um vulto azul.
Eva-00 chegou, travando posição ao lado da Unidade-04, braços erguidos.
Depois—vermelho.
Eva-02 surgiu do outro lado, se apoiando com firmeza. “Tch! Me deve essa, novato!”
Por fim, luz púrpura—Eva-01. A unidade de Shinji surgiu da lateral, derrapando, braços abertos.
As quatro Evas, lado a lado. Quatro Campos A.T. fundidos em um só.
A força combinada explodiu contra o Anjo como uma onda luminosa.
Sahaquiel desacelerou.
Então Shinji avançou.
“Agora!” Misato ordenou. “Shinji—rasgue o Campo A.T. dele!”
Unidade-01 investiu, mãos brilhando. Com um grito, rasgou o campo do Anjo como papel, expondo o olho gigante pulsante.
“Asuka!” Misato chamou. “Acabe com ele!”
Asuka não hesitou.
Eva-02 lançou-se com precisão, a Faca Progressiva já em mãos. Num arco poderoso, cravou direto no Anjo exposto.
Por um segundo, o mundo prendeu a respiração.
Então veio a explosão.
O núcleo se partiu em um clarão de branco e vermelho, a força varrendo o céu como um trovão. Ondas de choque se espalharam, sacudindo prédios, lançando detritos.
Todos os monitores de Kai piscaram. Alarmes gritaram. Seu Eva recuou, protegendo o rosto da explosão. Kai ofegava, tentando enxergar através da luz intensa. Por um momento, tudo era claridade. Depois... silêncio. Nenhum tremor. Nenhum fogo. Só cinzas flutuando. Os restos do Anjo, como neve.
Shinji exalou devagar, o alívio na voz. “A gente... conseguiu mesmo. Juntos.”
“Ótimo trabalho, equipe!” Misato celebrou. “Desliguem os sistemas e preparem-se para recuperação. Vocês merecem descanso.”
Dentro da Unidade-04, Kai sentiu a adrenalina se dissipar. A respiração entrecortada. Os braços tremendo. Mas o peito... cheio.
Ele não era só um piloto.
Era parte do time.
Asuka cruzou o olhar com ele no monitor. Depois desviou, braços cruzados.
“Tsc. Nada mal pra sua primeira batalha, novato.”
Kai sorriu, ainda sem fôlego. “Ei... só um airbag de luxo, né?”
Ele sorriu pra ela.
Asuka ergueu a sobrancelha. Depois sorriu. “Hah! Se consegue sorrir depois disso, talvez você não seja um completo desastre.”
Shinji assentiu, a voz baixa, mas sincera. “Sim... a gente realmente funcionou como equipe.”
Kai recostou-se no plug, olhos no alto, sentindo tudo se acomodar.
A voz de Misato voltou uma última vez. “Certo, pilotos—fora dos plugs e direto para o debriefing. Depois disso, acho que vocês merecem aquele jantar... se tiverem estômago minha comida!”
Asuka gemeu. “Ugh. Talvez a gente devesse ter deixado o Anjo ganhar.”
Kai riu, o som ecoando dentro do plug.
Agora, ele estava mesmo aqui.
Capítulo 24: Fantasmas do Impacto / Sinais Dissonantes
Sala de Briefing da NERV – Pós-Missão
Mesmo depois de tudo, algo ainda incomodava Kai.
A estranha sensação de que o Anjo havia vindo diretamente para ele – como se o tivesse escolhido de propósito. As probabilidades eram mínimas. Quatro quadrantes, quatro pilotos, e ainda assim ele não apenas caiu na sua zona – ele mirou ali. Caiu diretamente acima dele.
Isso não era normal.
Mas talvez fosse coincidência. Talvez fosse tudo coisa da sua cabeça.
As paredes da sala de briefing ainda estavam cobertas de telas de projeção e mapas táticos, mas a energia dentro era outra. O caos tinha passado. Agora vinha a explicação.
Misato estava na frente, de braços cruzados, cansada mas visivelmente orgulhosa. Ritsuko estava ao seu lado, segurando uma prancheta e passando os dados com uma mão.
“Vocês foram inacreditáveis hoje,” disse Misato, com voz firme. “A operação foi executada nas piores condições possíveis – e mesmo assim vocês impediram a destruição da cidade.”
Asuka se recostou na cadeira com um sorriso satisfeito. “Tsc. É claro que sim. Eu estava lá.”
Shinji se remexeu ao lado dela, mas assentiu levemente. “Foi... diferente. Como se a gente realmente tivesse trabalhado em conjunto.”
Kai olhou em volta. “Vou dizer... eu não estava esperando ter que segurar o bicho sozinho, mas olha... Deu certo! Batismo de fogo, né?”
Asuka revirou os olhos. “Não deixa subir pra cabeça, herói. Você teve ajuda.”
Ritsuko pigarreou, levantando a voz. “Vamos falar sobre isso. A descida de Sahaquiel foi errática – mas houve algo incomum no movimento final. Segundo o modelo preditivo do Magi, ele não apenas caiu na posição do Kai. Seu olho pulsou e mudou de orientação quando se aproximava do solo – como se tivesse ajustado em pleno mergulho.”
Shinji piscou. “Então... ele mirou nele?”
Ritsuko hesitou, o que por si só já era incomum. “Não podemos afirmar com certeza. O modelo mostra que ele estreitou sua rota de descida... de forma anormal. Precisa demais para um corpo em queda.”
Rei falou do seu assento, voz suave. “Ele respondeu a algo.”
Misato interveio. “Olha. Não sabemos o porquê, mas ele caiu direto sobre o Kai. Mas o que importa é: ele segurou. Tempo suficiente pros outros ajudarem a finalizar o trabalho.”
Ela se virou para ele. “Sua ativação do Campo A.T. não foi apenas estável. Foi excepcional. Pra uma primeira vez? Honestamente? Você deu um baita susto na sala de comando.”
Kai coçou a nuca. “Uh... valeu? Eu também fiquei meio apavorado.”
Asuka bufou. “Ele tem sorte uma vez e agora é chuva de confete?”
Misato riu. “Só um pouquinho. A parada de verdade vem depois, se se comportarem.”
Ritsuko se afastou do console. “De qualquer forma. Trabalho excelente de todos. Teremos revisões de sincronização depois, mas por enquanto... estão dispensados.”
Asuka foi a primeira a se levantar, espreguiçando como um gato. Virou-se para Kai com um brilho nos olhos. “Então, novato. Você ainda me deve aquela partida. Acha que consegue aguentar ser esmagado depois de hoje?”
Kai sorriu, sentindo o coração acelerar de novo. “Ooooh, você tá tão ansiosa pra perder? Fechou! Vamos resolver isso lá na casa da Misato!”
Asuka cruzou os braços, fingindo tédio. “Grandes palavras pra um novato. Tudo bem. Mas não vem chorar quando eu te humilhar.”
Misato ergueu a mão enquanto passava por eles. “Divirtam-se, crianças. Só não quebrem nada... nem uns aos outros.”
Ela parou na porta. “Tenho umas coisas pra resolver aqui, mas encontro vocês em casa em breve. Considerem o jantar da vitória.”
Shinji soltou um suspiro resignado, mas um leve sorriso escapou. Rei permaneceu em silêncio, mas não protestou.
Enquanto seguiam para o elevador, Asuka caminhava ao lado de Kai, esbarrando propositalmente no ombro dele só pra desestabilizá-lo.
“Espero que você não tenha gasto toda sua energia segurando aquele Anjo,” disse ela, com um sorriso. “Porque vai precisar dela.”
Kai riu, o som leve e cheio no peito.
A batalha tinha acabado, mas a noite estava apenas começando.
Ruas de Tokyo-3 – Entardecer
Enquanto caminhavam pelas ruas pouco iluminadas de Tokyo-3, Kai não conseguia afastar os pensamentos que pairavam em sua mente. A batalha havia terminado, mas algo ainda pesava.
Deveria contar a eles? As coisas que nem ele entendia direito? Ele olhou para Asuka, depois para Shinji. Talvez... mas não agora. A hora certa viria.
Em vez disso, olhou para Rei.
“Então... Rei. Acho que você é quem eu menos conheço. O que você faz pra se divertir?”
Rei andava ao lado dele, a expressão como sempre ilegível. Não respondeu de imediato, como se precisasse processar se aquela pergunta sequer se aplicava a ela. Então, em um tom calmo e medido, respondeu:
“Eu leio.”
E só. Sem detalhes. Sem elaboração.
Asuka deu uma risadinha. “Boa sorte arrancando mais de três palavras da senhorita enigmática.”
Kai sorriu para Asuka. “Asuka, Asuka... você ainda não aprendeu? Eu vou insistir até arrancar uma resposta de verdade.”
Shinji olhou para Rei, depois para Kai. “Ela lê muitos livros de ciência. E... acho que ela gosta de música também?”
Rei nem confirmou, nem negou. Apenas seguiu andando, olhos vermelhos fixos adiante.
Kai voltou-se para Rei. “Livros de ciência, hein? Então você deve ser inteligente. Eu gosto mais de ficção científica, sabe? Viagens no tempo, viagens interestelares, viagens no multiverso... todo tipo de viagem, na verdade.”
Rei não reagiu imediatamente, mas após alguns segundos, inclinou levemente a cabeça, como se refletisse sobre as palavras.
“Ficção científica é... especulativa. Baseada em teoria, mas sem limites impostos pela realidade.”
Ela o encarou por um breve segundo antes de voltar o olhar para frente. “Não há evidências de que viagem no tempo seja possível.”
Asuka revirou os olhos. “Nossa, que conversa divertida. A gente vai mesmo debater se sci-fi é `realista'?”
Shinji riu de leve, desconfortável. “Acho que o Kai só quis dizer que gosta das ideias dessas histórias, não que acredita que sejam reais...”
Rei, ainda impassível, apenas assentiu. “Entendo.”
Kai sorriu de lado. “Impossível, é? Mas você lida de boa com monstros gigantes caindo do céu pra destruir o mundo e com robôs gigantes lutando com eles? Ah, eu acho que tudo é possível.”
Rei piscou lentamente. “Os Anjos existem. Viagem no tempo, não.”
Asuka caiu na gargalhada. “Hah! Essa com certeza é a resposta mais Rei de todas.”
Shinji deu de ombros. “Acho que... ninguém nunca provou que viagem no tempo seja possível.”
Rei manteve o olhar adiante. “Hipóteses são irrelevantes.”
Asuka cutucou Kai com o cotovelo, sorrindo. “Parece que essa você não vai ganhar, Kai. Espero que tenha mais sorte nos videogames.”
Kai sorriu, mas mudou de assunto. “Certo, certo... e você, Asuka? Em que acredita?”
Asuka inclinou a cabeça, pensando por um momento. “Tsc. Eu acredito no que posso ver. No que posso provar. Ciência, lógica, habilidade. Sem magia, sem destino, sem viagem no tempo idiota.” Ela cruzou os braços, olhando pra ele. “A única coisa que faz você chegar a algum lugar na vida é ser o melhor. Ponto.”
Shinji abaixou o olhar, sem dizer nada, enquanto Rei continuava como sempre: impenetrável.
“Por quê? Você é algum tipo de sonhador, Kai?” Asuka perguntou, levantando a sobrancelha.
Kai suspirou, olhando para o céu enquanto caminhavam. “Acho que sou. E sabe de uma coisa? Tô vivendo meu sonho agora. Poder fazer... alguma coisa. Esse é o sonho.”
Asuka o encarou de lado, a expressão suavizando por um instante antes de bufar. “Você é tão cafona. Mas tudo bem. Se lutar contra Anjos é seu sonho, é melhor não estragar tudo.”
Shinji, caminhando ao lado dele, deu um pequeno sorriso. “Acho que... entendo o que você quis dizer.”
Rei apenas seguiu em silêncio, olhar fixo adiante.
A cidade ao redor era banhada pelo brilho quente do pôr do sol, projetando sombras longas pelas ruas vazias. O estranho silêncio de Tokyo-3 permanecia presente, um contraste agudo com o caos que podia surgir a qualquer instante.
Asuka esticou os braços por trás da cabeça. “Ugh, ainda não acredito que vou ter que comer a comida da Misato de novo. Espero que ela não tenha comprado mais daquelas coisas congeladas vencidas.”
Shinji suspirou. “Acho que comprou...”
Os quatro seguiram rumo ao apartamento, o ar tranquilo. Um raro momento de paz numa cidade que nunca ficava em paz por muito tempo.
Capítulo 25: Rivalidade Acesa / Que Comece o Jogo
Ao chegarem ao apartamento da Misato, Kai se virou para Asuka com um sorriso provocador.
“Preparada pra ser amassada? Ou vai chorar quando perceber que não é a melhor nisso?”
Asuka deu um sorriso de lado, estalando os dedos. “Tsc. Sonha. Eu não perco, Kai. E você vai aprender isso do jeito mais difícil.”
Shinji suspirou enquanto destrancava a porta. “Só... tentem não quebrar nada, ok?”
Rei entrou sem dizer uma palavra, indo direto para o sofá como se já tivesse aceitado que o caos era inevitável.
Pen-Pen já estava lá, esparramado ao lado da geladeira com um empanado de peixe meio comido num prato. Ao ouvir a porta, ele lançou um olhar entediado para o grupo e voltou a beber da sua latinha de cerveja pessoal.
Assim que Kai e Asuka terminaram de ligar o console, a porta da frente se abriu e Misato entrou, ainda com a jaqueta da NERV, uma sacola de comida em uma mão e uma cerveja na outra.
“Resolvi poupar vocês e pedi comida pronta,” anunciou. “Deviam me agradecer.”
Minutos depois, já acomodada na sala com sua cerveja, Misato ergueu uma sobrancelha.
“Oh? Vão fazer um duelo? Isso eu quero ver. Espero que esteja preparado, novato — a Asuka não lida bem com derrotas.”
Asuka caiu de joelhos na frente do armário de jogos, fuçando em meio a uma bagunça de cartuchos de N64 como uma predadora caçando sua presa.
“Sem joguinho casual. Nada de fazendinha idiota. Quero algo com combate de verdade.”
Kai se ajoelhou ao lado dela, divertido com a intensidade.
“Você quer tanto assim me dar uma surra?”
Ela nem olhou. “Óbvio.”
Shinji se agachou por perto, pegando um cartucho com cuidado antes de balançar a cabeça e devolvê-lo.
“Ah... esse não. É só um jogo de quebra-cabeça.”
“Ugh, chato,” resmungou Asuka. Então seus olhos brilharam. “Espera — sim! Achei.”
Ela ergueu um cartucho um pouco gasto, com o rótulo descolando no canto.
Kai se inclinou. “Smash Bros?”
Asuka sorriu. “Perfeito. Jogo de luta. Sem desculpas. Sem sorte. Só habilidade.” Ela assoprou o cartucho com exagero e o encaixou no console como se estivesse carregando uma arma.
Ela pegou os controles e jogou um para Kai. “Beleza, novato. Um contra um. Sem itens. Duas vidas. Escolhe teu lutador. E quando perder, quero um pedido de desculpas completo pela arrogância.”
Shinji ficou em pé atrás do sofá, balançando a cabeça com um pequeno sorriso. “Isso vai ser um desastre, não vai?”
Rei observava tudo em silêncio.
Kai sorriu enquanto rolava a lista de personagens. “Você já era!”
Ele escolheu o Luigi.
Asuka arqueou a sobrancelha antes de selecionar Samus. “Hã. Luigi? Vai com esse encanador desajeitado? Alto e patético. Deveria saber.”
Misato tomou um gole de cerveja, sorrindo. “Isso vai ser divertido.”
Shinji se inclinou levemente, olhando a tela. “Só... não joguem o controle se perderem, por favor.”
Rei continuava sentada, olhando com leve curiosidade.
A contagem começou: 3... 2... 1... VAI!
Asuka partiu para cima com tudo, Samus atravessando o cenário como um raio. “Tenta acompanhar, novato!” zombou, a voz afiada de energia.
Ela bombardeava Kai com ações aéreas e pulos curtos, tentando desestabilizá-lo. Enquanto isso, o tiro de Samus começava a carregar no B neutro.
Kai manteve os olhos nos padrões dela. No momento exato, lançou um Fireball do Luigi, ganhando um segundo para se reposicionar.
“Tch!” Asuka chiou, girando com o Screw Attack da Samus. “Nada mal, mas vai ter que fazer melhor que isso!”
Ela correu, fingiu soltar uma bomba e o acertou com um ataque aéreo para baixo perfeitamente cronometrado. “Boom! Humilhado!”
Misato riu. “Nossa, vocês tão mesmo levando isso a sério.”
Shinji olhou entre os dois, descontraído e nervoso. “Acho que estão mais empolgados do que estavam na batalha de verdade hoje...”
Era uma partida de duas vidas. Ele perdeu uma. Precisava tomar cuidado agora.
“Boa, boa... mas não o bastante.”
Kai se posicionou atrás da Samus, prevendo o próximo ataque dela. Um smash frontal do Luigi a lançou para fora da tela.
“Issso!!!” comemorou. Uma vida pra cada um.
Asuka rosnou, apertando o controle. “Ah, tá se achando agora? Aquilo foi só sorte!”
Ela voltou com tudo, bombardeando com tiros e bombas curtas. “Quero ver como lida com isso!”
A tensão na sala era palpável — Misato sorria, tomando cerveja, enquanto Shinji assistia com uma preocupação contida.
Rei apenas piscava diante da tela, impassível. “Isso é um jogo.”
Kai tentou desviar, mas a porcentagem de dano já era alta. Um tiro carregado quase encerrou a partida, mas ele conseguiu desviar. Por pouco.
“Ah, então temos uma spammer aqui, é isso?” resmungou Kai.
Asuka sorriu com malícia. “Jogo tático, novato. Se fosse mais rápido, não levava tanto dano!”
Ela mantinha a pressão, lançando bombas de cima e carregando outro tiro. “Vamos lá, `main de Luigi' — mostra o que tem!”
Misato riu. “Vocês dois estão intensos mesmo. Devia começar a apostar.”
Shinji suspirou. “Sinto que isso já não é só sobre Smash...”
Kai voltou a focar na tela. Mas por um instante, se distraiu — não com o jogo, mas com Asuka. Sua concentração e determinação, mesmo por algo tão simples quanto vencer num videogame. Essa hesitação o deixou vulnerável a uma sequência quase fatal.
“Droga!” sussurrou.
Asuka sorriu. “Qual o problema, Kai? Tão ocupado me encarando que esqueceu de jogar?”
Ela lançou outra rajada, mas Kai notou um padrão — a agressividade dela a tornava previsível. Ele só precisava explorar isso.
Shinji se inclinou. “Não deixa ela entrar na sua cabeça, Kai. Ela faz isso.”
Misato riu. “Ele já perdeu, olha pra ele. O coitado nunca teve chance.”
Asuka arqueou a sobrancelha. “Ah, por favor. Se ele fosse realmente bom, não teria perdido a primeira vida assim.”
Kai sorriu e respirou fundo. Ela estava melhorando — lendo seus movimentos, se adaptando. O próximo a perder uma vida perderia o jogo. Ele precisava bagunçar o ritmo dela. Entrar na cabeça dela.
Mas como?
Uma ideia ousada surgiu, e por um momento ele hesitou. Será que é uma jogada idiota? Provavelmente. Mas era a única que talvez funcionasse.
“Beleza, vamos deixar isso mais interessante?” disse, desviando de uma bomba. “Que tal uma aposta?”
Asuka semicerrrou os olhos. “Aposta? Hah! Tá tentando me distrair. Não vai colar.”
Misato sorriu. “Ooooh, agora ficou bom. Qual é a aposta, Kai?”
Shinji olhou de um para o outro, preocupado. “Ér... vocês deviam mesmo fazer isso durante a partida?”
Asuka sorriu de lado. “Tudo bem. Vou deixar você tentar. Mas se for algo idiota, te dou uma surra em dobro — uma no jogo e outra na vida real.”
Kai fingiu confiança, mesmo com o coração acelerado. “Se eu ganhar... você vai num encontro comigo.”
Silêncio.
Pen-Pen virou lentamente a cabeça para a TV, encarando Kai, como se até ele quisesse ver onde aquilo ia dar.
Os dedos de Asuka congelaram por um segundo — tempo suficiente pra mostrar que ela não esperava por isso. Depois, ela deu um risinho e jogou o cabelo para trás.
“Pfft, até parece. Acha mesmo que pode me vencer? Tudo bem. Mas se eu ganhar, você faz tudo o que eu mandar por um dia inteiro. Sem reclamar, sem desistir.”
Misato deu um suspiro dramático. “Ooooh, isso é perigoso. Tem certeza, Kai?”
Shinji suspirou. “Isso tá saindo do controle...”
Asuka apontou para Kai com um sorriso. “E então? Aceita ou vai arregar?”
Kai sorriu, sentindo a adrenalina subir. “Fechado.”
Agora ele estava realmente motivado.
Asuka avançou sem piedade, mas ele já tinha entendido seu jogo. Ela era agressiva demais, confiante demais. Quando ela correu de novo, ele agiu. Desviou de uma bomba, pulou sobre um tiro parcialmente carregado e lançou um ataque aéreo do Luigi no tempo certo para atordoá-la. Em seguida, encaixou o Up-B — o famoso “Fire Punch” — quando angulado perfeitamente.
GAME!
A tela congelou com Luigi fazendo sua pateta pose de vitória, o som ecoando pela sala.
“O quê?!” ela gritou, apertando o controle com força.
Kai sorriu. “Te peguei.”
Asuka ficou encarando a tela, incrédula. “O quê?!”
Misato caiu na gargalhada. “Caramba, isso foi brutal! Kai, você realmente venceu ela!”
Shinji parecia surpreso, mas impressionado. Rei, como sempre, mal reagiu.
Asuka respirou fundo e apontou para Kai. “Hmph. Tudo bem. Uma aposta é uma aposta.”
Cruzando os braços, resmungou: “Mas não fica se achando! É só um encontro. Um. Entendeu?”
O rosto dela era uma mistura de frustração e... algo mais.
Pen-Pen saiu de trás do sofá, olhou para a tela e soltou um único huff antes de roubar outro empanado de peixe do prato da Misato.
Capítulo 26: Além de uma Aposta / Um Encontro é um Encontro
Kai levantou os braços no ar, sorrindo. “Siiimmm! Misato, me passa uma cerveja! Quero comemorar!”
Misato caiu na risada. “Hah! Gosto do seu espírito, Kai—boa tentativa. Mas você ainda é menor de idade, garoto!”
Ela bagunçou o cabelo dele de forma brincalhona antes de lhe entregar uma latinha de refrigerante. “Aqui. Um brinde à sua vitória e ao seu grande encontro!”
Kai congelou por um segundo ao pegar a lata, deixando as palavras penetrarem.
Um encontro de verdade. Com a Asuka.
Ele nem esperava ganhar—e agora era real. Sorriu, levantando a lata para esconder o brilho nervoso de empolgação que surgia no canto da boca.
Asuka, ainda emburrada, ficou vermelha na hora. “C-cala a boca, Misato!”
Shinji riu sem jeito, enquanto Rei, como sempre, apenas observava, tomando seu chá.
Kai deu um sorriso de canto enquanto brindava sua lata com a de Misato, lançando à Asuka um olhar desconfiado, mais brincalhão que confiante. “Então… um encontro de verdade, hein?” E, com um sorriso provocador: “Espera aí—você não deixou eu ganhar de propósito, deixou?”
Asuka bufou, cruzando os braços. “Tsc. Até parece! Você só teve sorte, só isso.” Mas havia algo no olhar dela—um lampejo de diversão, talvez algo mais.
Misato se inclinou, sorrindo de orelha a orelha. “Ooooh, será que ela queria perder?”
“Não queria, não!” Asuka rebateu, com o rosto ainda mais vermelho. Levantou-se de repente, pegando sua lata de refrigerante. “Tanto faz. Uma aposta é uma aposta. Só não vá ter ideias estranhas, entendeu?”
Shinji lançou um olhar para Kai, meio sorrindo, visivelmente aliviado por não estar no meio daquela confusão. Rei, por outro lado, seguia observando em silêncio, assistindo às reações de Asuka como quem analisava algo invisível.
Misato se espreguiçou com um suspiro satisfeito. “Bem, essa noite acabou ficando interessante. Uma vitória, um encontro e um monte de constrangimento adolescente. Missão cumprida!”
A noite continuou em meio a uma bagunça animada—um caloroso e caótico desfile de risadas, latas de refrigerante e telas piscando. Eles alternavam entre mordidas na comida gordurosa e rodadas de videogame, o console zumbindo como se tentasse acompanhar a energia do grupo. Kai jogou algumas partidas com Shinji, guiando-o pacientemente nos controles e explicando técnicas sem soar condescendente. No início, Shinji era desajeitado, seus movimentos hesitantes—mas a cada partida, ia se soltando, sorrindo com mais liberdade, até conseguir algumas vitórias surpreendentes que o fizeram rir de verdade.
Depois foi a vez da Rei. Mesmo dizendo pouco, ela pegava cada jogo com uma precisão desconcertante—seus dedos aprendiam mais rápido do que qualquer um esperava. Ela nunca se gabava, nunca comemorava—apenas se ajustava e melhorava, partida após partida. Kai estava ao mesmo tempo impressionado e inquieto. Quando ela se juntou ao Shinji em um dos jogos cooperativos, sua coordenação elevou os dois, e a sinergia silenciosa entre eles criou uma dupla surpreendentemente eficaz.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Durante um desses momentos—quando Rei e Shinji estavam focados em um jogo cooperativo, trabalhando em silêncio, mas em perfeita harmonia—Kai se viu ao lado de Asuka, ligeiramente afastado dos outros. Por um instante, apenas observou Rei e Shinji, e não pôde evitar pensar: até que eles formavam um casal bonitinho.
Hesitou. A empolgação da vitória começava a desaparecer, dando lugar a uma sensação mais complicada. Aquilo não era mais só uma brincadeira. O encontro ia realmente acontecer.
“Ei, Asuka. Tudo bem? Sabe, a gente não precisa ir num encontro se você não quiser. Era só uma brincadeira…”
Asuka tomou um gole do refrigerante, lançando um olhar de canto para ele. “O quê, acha que vou desistir só porque perdi? Eu não sou má perdedora, Kai.”
Ela se mexeu um pouco, parecendo incerta por um segundo antes de disfarçar com um sorriso de lado.
“Além disso, não tenho medo de um encontro idiota. Só não acha que vou me apaixonar por você ou algo assim, entendeu?”
O tom era de provocação, mas havia algo por baixo—algo um pouco hesitante.
Ela tamborilou os dedos na lata. “Então… onde exatamente você vai me levar, hein?”
Kai riu, nervoso. “Ih… é verdade! Agora tenho que pensar nisso!”
Coçou a nuca, percebendo como estava despreparado de verdade. “Putz, não pensei que ia mesmo chegar nessa parte… Me diz, como seria o encontro perfeito pra você?”
Asuka ergueu uma sobrancelha, claramente entretida com o nervosismo repentino dele. “Pfft, me desafia pra uma aposta sem nem saber onde ia me levar? Amador demais, Kai.”
Ela se recostou no sofá, fingindo estar refletindo profundamente.
“Bem… se eu tiver que escolher… não quero nada chato ou clichê. Nada de jantarzinho romântico com vela e essas baboseiras.”
Fez uma careta, depois bateu o dedo no queixo. “Tem que ser divertido. Algo que me mantenha alerta. Talvez algo competitivo—pra eu poder te dar uma surra de novo.”
Ela sorriu de canto. “E é bom que não seja uma ideia preguiçosa de última hora, entendeu?”
Lançou um olhar de canto. “Acha que aguenta, Quarta Criança?”
O sorriso de Kai se alargou, aliviado por ela não estar esperando algo excessivamente romântico e desconfortável. Se estivesse, ele nem saberia por onde começar. Ela queria se divertir. Emoção.
Perfeito.
“Com certeza! Estamos super na mesma sintonia. Olha só, desde que cheguei aqui, ouvi falar de um parque de diversões gigante, bem do lado da cidade. Tô louco pra ir. O que acha?”
Os olhos de Asuka se arregalaram um pouco, claramente intrigada. “Ohh, aquele enorme? Com as montanhas-russas insanas?”
Ela hesitou só por um instante antes de sorrir de lado. “Hmph. Nada mal. Talvez você tenha um pingo de bom gosto, afinal.”
Ela se inclinou um pouco, lançando um olhar desafiador.
“Mas só pra avisar, eu não vou pegar leve. Se a gente for, vou te arrastar nas atrações mais assustadoras, e se você amarelar, nunca mais vai ouvir o fim disso.”
Cruzou os braços, claramente se divertindo. “Então? Tem certeza que dá conta, Kai?”
Kai riu. “O quê, de montanha-russa? Depois de um monstro gigante cair do céu na minha cabeça, acho que aguento umas voltas sim.”
Asuka ergueu uma sobrancelha, o sorriso se alargando. “Ohhh, confiante, hein?”
Ela inclinou a cabeça, observando-o de perto. “Então tá. Sem desistir. Vamos em todas as atrações, na primeira fileira. E se você gritar uma vez que seja—” deu um leve toque no peito dele, “—vou zoar você pra sempre.”
Ela se recostou, satisfeita. “Fechado. Parque de diversões, então.” E, quase como um pensamento solto, acrescentou: “É bom que seja divertido. Senão, a culpa é sua.”
Deu mais um gole na bebida, com um ar surpreendentemente contente. “Então, quando é que vamos nisso?”
Kai não hesitou. “Amanhã tá bom pra você? A gente tem que aproveitar antes das aulas voltarem, né?”
Asuka parou o gole no meio, depois deu de ombros com desdém. “Ugh, aulas. Nem me lembra.”
Ela girou a lata preguiçosamente. “É, amanhã serve.”
Depois, deu um sorriso de canto. “É bom que tenha tudo planejado, viu. Não tô a fim de coisa chata.”
Ela se inclinou um pouco, provocando. “E nem ouse amarelar nas atrações assustadoras, Novato.”
Kai sorriu. “Vai ser divertido.”
Asuka sorriu de volta, os olhos brilhando de empolgação. “É bom que seja.”
Ela esticou os braços atrás da cabeça. “Beleza, já que você vai planejar tudo, espero nada menos que o melhor. Se estragar, nunca mais vou deixar você esquecer.”
Kai riu. Sem pressão.
Shinji, ouvindo de longe, balançou a cabeça com um sorrisinho. “Vocês dois são… uma figura.”
Misato piscou pra eles. “Ah, o amor jovem, né? Só não esqueçam de estar na NERV no horário no dia seguinte.”
Kai congelou por um instante, o cérebro travando.
Ele não estava nervoso—ok, talvez um pouco—mas o foco mesmo era observar Asuka de canto de olho, esperando a explosão. Se alguém ia surtar com aquele comentário, não seria ele.
Asuka enrijeceu, exatamente como ele esperava, depois cruzou os braços rapidamente e bufou, virando o rosto. “Tch! Até parece! É só uma aposta, nada mais!”
Mas o leve tom rosado nas bochechas a entregava. Ela agarrou sua lata e deu um longo gole, evitando contato visual.
Misato sorriu com malícia. “Aham. Só uma aposta.”
Shinji olhou de um para o outro, depois apenas suspirou e voltou a beber em silêncio—fingindo que não estava se divertindo.
Capítulo 27: Sombras sob o Riso / Consequências
Kai voltou sua atenção para Shinji e Rei, com um sorriso de canto. “E vocês dois aí—estão falando sobre o quê?”
Shinji piscou, pego de surpresa. “Ah, uh… nada demais.” Ele olhou para Rei, que, como sempre, não demonstrou nenhuma reação.
Rei tomou um pequeno gole de chá antes de responder com seu tom calmo e deliberado. “Ikari estava perguntando por que eu não participo de atividades competitivas como você e Soryu.”
Misato riu. “É, a Rei normalmente não é muito do tipo ‘diversão e joguinhos’, né?”
Rei piscou lentamente. “Não vejo propósito.”
Asuka sorriu de lado, virando-se para ela. “É, a Senhorita Perfeitinha provavelmente acha que videogame é perda de tempo. Acertei, garota-maravilha?”
Rei inclinou a cabeça. “Não penso isso. Simplesmente não sinto prazer com eles.”
Shinji suspirou. “Eu só estava tentando puxar conversa…”
Kai se inclinou levemente, curioso. “Mas, Rei… o que te dá prazer, então? Você disse que gosta de livros, né? O que mais?”
Rei hesitou por um momento antes de responder. “Sim. Eu leio.” Uma pausa, pensativa. “Também gosto de banhos quentes.”
Asuka bufou. “Uau. Empolgante.”
Rei continuou, impassível. “Gosto do silêncio. E… de estar dentro do plug de entrada.”
Shinji olhou para ela, surpreso. “Você gosta de pilotar?”
Rei assentiu levemente. “É… natural.”
Misato se recostou, tomando um gole da cerveja. “Bem, pelo menos um de vocês gosta disso.”
Asuka cruzou os braços. “Tsc. Não tem a ver com gostar. Tem a ver com ser a melhor.”
Shinji apenas abaixou o olhar para a própria bebida, em silêncio.
Misato se virou para Kai com um sorriso. “E você, Kai? Agora que teve sua primeira luta de verdade—tá curtindo também?”
Kai soltou o ar, pensativo. “Na real… é bizarro e difícil pra caramba… mas foi legal quando todo mundo apareceu. Trabalhar junto pra fazer a diferença… foi uma sensação boa.”
Misato sorriu. “Tá vendo? Esse é o espírito!”
Ela ergueu a lata. “Um brinde ao trabalho em equipe e a salvar o mundo!”
Asuka revirou os olhos, mas deu um sorriso. “Hmph. Pelo menos você não foi um peso morto lá fora.”
Shinji fez um leve aceno com a cabeça para Kai. “É… a gente trabalhou bem junto.”
Rei permaneceu neutra, mas havia algo em seu olhar que pairou sobre Kai por um momento antes de desviar.
Misato se espreguiçou. “Bom, é melhor vocês descansarem. Nunca se sabe quando vem o próximo.”
Asuka se levantou e sorriu para Kai. “Melhor dormir bem, Don Juan de araque. Vai precisar de toda sua energia pra me acompanhar amanhã.”
Ela deu um peteleco de leve na testa dele antes de ir em direção à porta e sair.
Misato a observou indo embora, depois se inclinou na direção de Kai com um sorriso maroto. “Você vai ter trabalho, Kai.”
Misato se recostou. “Mas olha, vou te dar um conselho—se quiser impressionar a Asuka, é melhor dar o seu máximo. Ela tem padrões altos, viu.”
Kai riu, tentando esconder o quanto aquilo tudo estava mexendo com ele. “Hah, como se eu fosse me preocupar com isso.” Então os olhos de Kai convenientemente se voltaram para o relógio. “Olha só a hora! Já tá tarde assim?”
Levantou-se, se espreguiçando com um bocejo discreto. “Beleza. Já vou nessa.”
Misato lançou um olhar meio orgulhoso, meio de alerta. “Lembrando—fazer pose aqui na sala é fácil. Só mantenha a cabeça no lugar amanhã, tá?”
Kai olhou ao redor—Rei tomando seu chá em silêncio, Shinji afundado no sofá, Misato ainda sorrindo.
“Tchau, pessoal!” disse com um sorriso.
Shinji acenou levemente. “Até amanhã.”
Misato ergueu a lata. “Boa sorte, garanhão.”
Rei piscou. “Boa noite.”
Ao sair para o corredor e fechar a porta atrás de si, o ar da cidade o atingiu como uma onda calma. O calor da noite se espalhou pelo peito, e por um momento, ele finalmente percebeu o quanto estava exausto.
A noite estava silenciosa. Tokyo-3 sempre prendia a respiração entre as batalhas, mas pela primeira vez, aquele silêncio parecia tranquilo em vez de ameaçador.
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