Evangelion: Shattered Thresholds

15 Episódio 15: No Vazio do Pertencimento


Capítulo 128: Sono Residual / Quando a Cidade Estremece

O relógio digital marcava 3h37 na penumbra do apartamento de Kai. Sombras se estendiam pelas paredes, quebradas apenas pelo brilho pulsante das luzes da cidade lá fora. Tons de vermelho e azul dançavam sobre a cama, lembrando que Tokyo-3 nunca dormia de verdade.

Mas Kai dormia.

Ou tentava.

Sua mente fervilhava—a tensão com Asuka, o aviso de Kaji, os segredos escondidos no livro da Instrumentalidade Humana, e a suspeita incômoda de que sua presença naquele mundo era um erro... ou uma peça no jogo de outra pessoa. Cada pergunta girava em círculos, impedindo-o de cair em um sono real.

Ele mal tivera tempo de processar a última batalha. Seu cérebro não parava desde que lera aquele livro. E agora Asuka estava brava com ele. Estava? Ele nem sabia dizer. Era muita coisa... muita coisa para lidar ao mesmo tempo.

Nas profundezas da NERV, uma luz vermelha começou a pulsar.

ASSINATURA DE ENERGIA ANÔMALA DETECTADA – TOKYO-3, SETOR A

Minutos se passaram.

E então—alarmes.

As sirenes explodiram, rasgando o silêncio frágil da cidade.

Os olhos de Kai se abriram no instante em que o apartamento tremeu. Luzes vermelhas de emergência piscavam pelas janelas. O intercomunicador na parede rugiu:

"ALARME! ANJO DETECTADO! TODOS OS PILOTOS DE EVANGELION DEVEM SE APRESENTAR À NERV IMEDIATAMENTE!"

Já? Outro Anjo?!

Ele estava de pé em segundos, meio vestido, o coração disparado. O frio da madrugada mal se comparava à fisgada gelada da adrenalina.

Enquanto vestia a camisa às pressas, pegou o celular e mandou uma mensagem para Asuka:

"Recebeu o alerta? Eu sei, provavelmente interrompeu seu sono de beleza. Mas te vejo lá?"

A resposta veio quase instantânea:

"É CLARO que recebi o alerta! E ao contrário de CERTOS idiotas, eu sei o que tenho que fazer. Não me faz esperar, turista."

‘Turista’. Fazia tempo que ela não o chamava assim. A mente dele mergulhou em dúvidas.

Ela tá me afastando? Ou é só a briguinha de sempre?

Temia que as coisas ficassem estranhas entre eles, especialmente depois do que aconteceu na biblioteca. Talvez fosse só coisa da cabeça dele. Talvez não.

Se concentra.

Determinação se firmou em seu rosto enquanto corria escada abaixo e se lançava no caos da cidade.

Tokyo-3 já estava desperta.

Luzes vermelhas cobriam o céu da madrugada, sirenes cortavam o ar e ordens de evacuação ecoavam como cantos fantasmagóricos. Transportes da NERV avançavam pelas ruas, motores rugindo. Um passou por ele, depois outro—e quando chegou à esquina, um carro familiar freou bruscamente diante dele.

A porta do passageiro se abriu.

Misato Katsuragi estava ao volante, o cabelo bagunçado, um casaco militar jogado por cima de uma curta camisola amassada. Parecia ter sido arrancada no susto direto de um sono relaxante. E ainda assim, os olhos tinham autoridade.

"Entra! Sem tempo a perder!"

Kai pulou dentro do carro e bateu a porta no momento em que o veículo arrancava, os pneus guinchando contra o asfalto.

Misato não perdeu tempo com gentilezas.

"Temos um problema. Esse Anjo... não é como os outros." Lançou-lhe um olhar breve, mas afiado. "Ele já está aqui."

As palavras foram como um balde de água fria.

Aqui?

Ele encostou no banco, tentando processar. As últimas batalhas tinham vindo do céu, do mar, da terra... Normalmente havia tempo para analisar antes de agir. Mas isso...

Enquanto atravessavam cruzamentos, Kai viu torres automáticas sendo posicionadas e drones subindo aos céus. Todos apontando para fora, e mesmo assim, o pânico parecia diferente. O inimigo já estava lá.

Misato fez uma curva brusca, o carro derrapando. Seus dedos correram pelo painel, silenciando um aviso enquanto a voz de Ritsuko surgia nos alto-falantes:

"Misato, onde você está? Precisamos de você no Comando agora."

"Quase lá," ela respondeu. "Qual a situação?"

"Está se movendo. Mas ainda não sabemos como apareceu."

Misato cerrou os dentes. "E os outros?"

"Asuka e Shinji estão a caminho. Rei já está se equipando."

A ligação caiu. Por um momento, só o som do motor e os gritos da cidade preenchiam o espaço.

"Ela tem razão," disse Misato. "Sem vetor de aproximação, sem brecha. Ele simplesmente... apareceu. Bem no centro da cidade. Leliel... Décimo Segundo Anjo."

Kai encarou o horizonte, o coração acelerado. Leliel. O nome não significava nada para ele—mas de algum modo, ecoava em seus ossos.

O carro mergulhou na entrada subterrânea da NERV. As portas de aço mal se abriram a tempo. Misato freou com força, parando dentro do túnel principal de acesso.

Kai abriu a porta e só então percebeu o quão pouco vestida Misato estava sob o casaco.

Engoliu em seco, desviando o olhar. "Valeu pela carona," disse rápido.

Ela arqueou uma sobrancelha, notando o constrangimento no rosto dele.

"Ei! Os olhos aqui em cima, novato."

Ele assentiu, envergonhado. Então correu.

Misato saiu rapidamente do carro e bagunçou o cabelo dele com a mão, um meio sorriso no rosto, antes de empurrar a porta de entrada.

"De nada. Agora anda logo antes que a Asuka te veja babando."

O tom era meio sério, meio brincalhão, mas serviu para firmar seus pés no chão. Ele respirou fundo e seguiu.

Lá na frente, outro transporte da NERV parecia ter chegado logo antes. Shinji descia com o olhar hesitante de sempre, o corpo tenso. Asuka saltou de um veículo que chegou em seguida.

Mesmo andando, ajeitando a gola da camisa, ela o avistou na hora.

"Olha só quem chegou primeiro," disse, braços cruzados, aproximando-se.

Os olhos dela o analisaram rapidamente. "A própria Misato teve que te trazer? Sabia que você precisava de uma babá."

Kai abriu a boca pra responder, mas foi interrompido por um novo alerta que caiu como um raio:

"EMERGÊNCIA! TODOS OS PILOTOS DIRIJAM-SE IMEDIATAMENTE ÀS GAIOLAS DOS EVAS!"

Misato estalou os dedos sem diminuir o passo, já a caminho da sala de comando. "Vocês ouviram. MOVAM-SE!"

O peso da situação caiu sobre ele. Os corredores da NERV já eram uma tempestade. Luzes vermelhas piscavam no teto. Vozes ecoavam nos corredores metálicos. Atrás das camadas de concreto e aço, lá fora, algo antigo despertava.

Kai olhou para Asuka uma última vez, pronto para dizer algo—qualquer coisa—mas o momento foi roubado de novo.

Então apenas a encarou, tentando deixar o olhar dizer o que não conseguiu.

Talvez ela tenha entendido. Talvez não.

Sem tempo para pensar nisso.


Vestiário da NERV

O ar frio e estéril não oferecia consolo algum. Enquanto Kai vestia o plugsuit, os ecos das sirenes pareciam distantes, como se estivessem selados por um vidro invisível.

Sua mente ainda estava em Asuka. No silêncio entre eles. Nas palavras não ditas.

Então—

"O que diabos você tá fazendo parado aí?"

Ele se virou no momento em que Asuka entrava, passos firmes, movimentos eficientes. Ela fechava o próprio plugsuit sem hesitar, os olhos encontrando os dele por um segundo.

"Tsc. Não me diga que tá sonhando acordado enquanto tem um Anjo flutuando sobre a nossa base."

Ela se virou, balançou a cabeça e resmungou: "Inacreditável."

O interfone chiou antes que ele respondesse:

"TODOS OS PILOTOS, DIRIJAM-SE AOS PLUGS DE ENTRADA IMEDIATAMENTE."

Ele praguejou baixinho, frustrado. Toda vez que tentava falar com ela, algo o interrompia.

Ela já tinha sumido antes do aviso terminar. Mas tinha ido ali falar com dele. Talvez para checar como ele estava. Talvez estivesse tudo bem no fim das contas. Ou não?

Ainda meio sonolento, ainda irritado, ele terminou de vestir o traje e correu para fora.


Gaiolas dos Evas

As passarelas de aço vibravam com o ritmo de passos apressados. Os passos de Kai ressoavam no chão no mesmo compasso de seu coração—rápido, descompassado, em alerta.

À frente, Asuka já se aproximava da plataforma de lançamento. Seus cabelos balançavam a cada passo, o vermelho do plugsuit capturando as luzes de emergência.

Antes de subir no elevador, ela lançou um olhar por cima do ombro.

"Tenta não dormir lá dentro, Selvinha!"

Lá estava. A fagulha. O tom ácido. Mesmo agora, ela não resistia a provocar. E isso mostrou que ela estava reparando nele. Percebeu que ele estava sonolento. Ela ainda o notava.

Kai deixou um leve sorriso escapar quando ela desapareceu da vista novamente.

Dentro da enorme gaiola, os Evangelions repousavam como deuses adormecidos sob cerco. Unidade-01. Unidade-02. Unidade-00. E o seu—Unidade-04.

Shinji subia ao plug com movimentos lentos, deliberados. Rei, calma como sempre, movia-se com precisão quase fantasmagórica.

Kai entrou em sua própria plataforma.

"Todos os pilotos, checagens finais em andamento. Leliel já está em Tokyo-3. Aguardem lançamento!" A voz de Misato ecoava nos comunicadores.

O plug se fechou atrás dele. Um chiado frio. Interfaces se acendiam. Ele afundou no assento, punhos cerrados.

O som do LCL pressurizado preenchendo o plug. O líquido dourado e espesso o envolveu com sua estranha frieza calorosa, enchendo seus pulmões com aquele gosto metálico e familiar.

Monitores se ativaram. Um a um, os rostos dos outros pilotos surgiram nas telas: Shinji nervoso, ajustando-se; Rei imóvel, inexpressiva. Asuka ainda não aparecia, mas ele podia sentir sua presença ali perto, ardendo como um segundo sol.

A frustração explodiu. Ele não conseguira dizer uma palavra desde que chegaram.

Apertou o botão do comunicador e gritou com a força da exaustão:

"AAHH!!! Alguém pode dizer ALGUMA COISA ÚTIL??? O que diabos a gente vai enfrentar? PELO AMOR DE DEUS, fala alguma coisa que preste em vez desse maldito alerta!!!"

Bateu a cabeça de leve no encosto do assento, soltando o ar com força.

Por um instante, silêncio.

Então a voz de Misato explodiu, cansada, mas aliviada:

"Caramba, até que enfim! Tava esperando a hora que você ia explodir!"

Depois, mais suave, mudando de canal, ele olhou para as telas.

Shinji, nervoso. Rei, inexpressiva.

Asuka apareceu, com um sorriso sarcástico na voz: "Aww, coitadinho do bebê reclamão."

Kai fingiu ignorá-la. "Ah, e oi, Shinji! Oi, Rei! Foi mal o mau humor."

Shinji piscou, surpreso com a mudança repentina de tom.

"A-Ah. Oi... É, sem problema. Quer dizer, você não tá errado."

Rei mal reagiu. A voz fria: "Não é necessário se desculpar."

Ele tentou sorrir. Tentou ser legal de novo. Tentou agir como se não estivesse se corroendo por dentro.

O grito ainda ecoava pelos comunicadores. Frustração crua. Medo cru.

Quase podia ouvir Misato ajustando o fone, mudando para o modo comandante.

"CERTO, ATENÇÃO!"

Capítulo 129: Colapso Dimensional / A Sombra que Observa

O visor central mudou. Uma transmissão ao vivo e granulada tomou conta da tela, e de repente, Kai entendeu por que ninguém lhes dera respostas diretas até então.

O Anjo não era uma criatura. Não era humanoide. Nem estava vivo no sentido tradicional.

Era uma esfera. Um enorme orbe preto e branco, flutuando silenciosamente no coração de Tokyo-3. A luz se distorcia em suas bordas, se curvando de forma antinatural como uma ondulação no próprio ar. Abaixo dele, um mar de trevas se espalhava não como sombra, mas como tinta derramada sobre a realidade—um buraco que dobrava a percepção.

Não se movia. Não falava. Simplesmente... existia. E isso o tornava mais aterrorizante que qualquer coisa que Kai já tinha visto.

A voz de Misato manteve-se firme, guiando-os:

"Essa coisa, Leliel, é um Anjo. O ‘corpo’ que vocês veem flutuando? É só uma projeção."

Ela fez uma pausa e então se virou levemente para os outros na sala de controle.

Ritsuko entrou em cena, voz clínica:

"Assim que foi detectado, enviamos um drone de reconhecimento classe 2 para disparar um projétil rastreador contra a esfera. Ao contato, a esfera oscilou e brevemente se desestabilizou, revelando que não era o corpo físico do Anjo—o projétil passou direto."

A câmera desceu. A sombra abaixo da esfera pulsava com um ritmo lento e constante. Ondulava como líquido, mas não refletia nada. Nenhum prédio. Nenhum céu.

Nada.

"Isto," continuou Ritsuko, "é o verdadeiro corpo."

Ela batia o prancheta contra o braço enquanto os dados visuais mudavam.

"Leliel existe em um estado dimensional superior. O que vocês percebem como `sombra' é, na verdade, uma distorção do espaço tridimensional. Não tem massa no nosso plano, mas exibe gravidade e coesão espacial. Pensem nisso como um portal ou interface entre dimensões."

Misato falou novamente, mais sombria:

"Se vocês pisarem nisso, não vão apenas afundar. Vão ser engolidos. Não fazemos ideia do que tem lá dentro."

Ritsuko continuou: "Exato. São 680 metros de diâmetro com espessura de 3 nanômetros. Esse espaço ultra-fino é mantido por um campo A.T. interno. Seu interior é um espaço imaginário chamado `Mar de Dirac'."

Kai encarava a tela. Aquele mar de trevas se estendia como a boca de um abismo, profundo e silencioso.

E então suspirou, forçando-se a mudar de foco.

Asuka finalmente entrou no canal, a voz cortante como uma lâmina:

"Então deixa eu ver se entendi. A gente vai lutar com um BURACO?"

"Sim, Asuka," suspirou Misato. "Estamos lutando contra um buraco."

Pausa.

"Mas um buraco BEM perigoso."

Teria sido engraçado. Se não fosse tão assustador.

A contagem regressiva de lançamento começou.

"Aqui está o plano. Nada de engajar diretamente. Vamos analisar primeiro. Provocar. Ver como reage. NÃO pisem na sombra. Entendido?"

Luzes vermelhas piscavam no plug de Kai conforme o bloqueio final de sincronização era concluído.

"LANÇAMENTO DOS EVAS EM 10… 9… 8..."

As mãos de Kai apertaram os controles. "Ótimo, finalmente uma informação útil. Ignorar a esfera voadora e não pisar na sombra. Só ‘provocar’. Entendido. Esse parece... mais complicado."

Um silêncio se seguiu.

"Tsc. Nem me fale," murmurou Asuka. Algo em sua voz estava cansado. Não sarcástico. Nem zombeteiro. Apenas... sério.

"É... esse é diferente," ecoou Shinji.

Rei acrescentou com seu tom suave: "Entendido. Procederemos com cautela."

Misato suspirou.

"Bom. É isso que quero ouvir."

"LANÇAMENTO DOS EVAS EM 3… 2… 1…"

"LANÇAR!"


Nível da Superfície

O lançamento sacudiu a terra. Concreto rachou e metal rugiu enquanto os Evangelions eram disparados para cima, rasgando a madrugada com uma explosão controlada de força. Kai sentiu a mudança de pressão, a aceleração crescente, e então a súbita calma ao romper a superfície.

A cidade estava irreconhecível.

Luzes vermelhas pintavam o horizonte. As ruas, vazias. E lá, no coração de Tokyo-3, Leliel flutuava.

A esfera pairava imóvel.

Um mar de trevas contorcidas se estendia sob ela, cobrindo quarteirões inteiros, engolindo tudo. Ruas, prédios, cruzamentos—sumiram. Substituídos por um vazio que parecia capaz de rasgar o mundo.

Kai engoliu em seco. Era como encarar o fim da realidade.

A voz de Misato retornou.

"Certo, vocês estão em posição. Primeiro passo: testem o alvo. Armas liberadas, mas não adianta atirar na esfera voadora. Testem a reação da sombra."

Kai estreitou os olhos.

"Tô confuso," disse nos comunicadores. "Como isso apareceu do nada sem vocês notarem?"

Misato clicou a língua, a voz tensa de frustração.

"É... sobre isso."

As telas do cockpit de Kai explodiram com dados: leituras de energia frenéticas, gráficos distorcidos, registros de localização caóticos. A confusão era palpável, os números erráticos.

A voz firme de Ritsuko interveio, calma, mas séria.

"Nossas leituras iniciais foram... ambíguas."

A voz urgente de Maya cortou o fundo, os dedos correndo pelo teclado. "Ela apareceu sem aviso. Um momento não havia nada, no seguinte—ela já estava lá."

Ritsuko resmungou alto, visivelmente irritada.

"Pode ter se deslocado de um estado dimensional não observável," admitiu a contragosto. "Por isso a detecção inicial foi tão vaga."

Ela entrelaçou os dedos, olhando os dados como se tentasse decifrar os segredos do Anjo. Sua voz baixou:

"E agora está aqui. Em sua forma plena."

Um silêncio sufocante tomou os comunicadores, pesado e espesso.

"O que isso quer dizer?" A voz ansiosa de Shinji quebrou o silêncio, hesitante, mas clara.

Misato não hesitou dessa vez.

"Quer dizer que não fazemos ideia do que estamos enfrentando."

Outra pausa tensa.

"E é por isso que vocês vão ter que fazer testes."

A voz de Kai vacilou levemente, a realização pesando:

"Então esse Anjo pode se mover... entre dimensões? Tipo... entre realidades?"

A pergunta pairou, pesada como gravidade.

Por um momento, até Ritsuko hesitou.

Misato ficou em silêncio enquanto o feed da NERV oscilava com estática, como se o próprio sistema sentisse a presença de Leliel. Após eternos segundos, Ritsuko respondeu:

"...Essa é a hipótese."

Sua voz carregava uma incerteza rara—e assustadora.

"Leliel não existe da mesma forma que nós. A esfera no céu é a verdadeira sombra. Desaparece quando o circuito imaginário do corpo físico se fecha. Sua verdadeira forma ocupa uma região onde a lógica espacial convencional entra em colapso. Onde `dentro' e `fora' deixam de fazer sentido."

Misato soltou o ar com força, a tensão evidente:

"Isso quer dizer que, se fizerem besteira, talvez não seja possível trazer vocês de volta."

Shinji empalideceu, os dedos cerrando. Asuka bufou, mas a bravata escondia inquietação.

"Maravilha. Um Anjo que salta entre dimensões. O que vem depois, um que ataca nossos sonhos?"

Kai riu.

A voz serena de Rei interrompeu gentilmente. "Devemos agir. Quanto mais esperamos, mais ele aprende."

Misato bateu as mãos.

"Certo. Mantenham distância. Testem as reações. Proibido encostar na sombra."

Kai focou, assentindo. Queria entrar em ação.

"Ok, pessoal. Mantenham distância. Eu vou dar uns tiros nela."

Levantou a arma, o coração disparado, e puxou o gatilho.

As balas cortaram o ar.

E desapareceram.

Sem ondulação. Sem reação. A sombra simplesmente as apagou como se nunca tivessem existido.

A voz de Misato estava tensa. "Que diabos..."

O tom analítico de Ritsuko interveio com firmeza. "Nenhuma reação energética detectada. A sombra absorve toda matéria sem nenhuma liberação mensurável."

Shinji sussurrou, ansioso. "Então... ela só... apaga tudo que toca?"

"Precisamente," confirmou Ritsuko, sombria.

Um zumbido sutil emergiu da esfera flutuante acima.

De repente, a sombra abaixo ondulou como líquido perturbado.

Kai olhou imediatamente para os monitores, os olhos parando no visor de Asuka, encontrando seu olhar igualmente alerta.

"Tem algo acontecendo, pessoal."

"Não me diga, gênio" murmurou Asuka, a voz tensa. "Fiquem atentos."

A sombra se distorceu, pulsando como uma entidade viva. A voz de Shinji tremia:

"Ela tá reagindo... mas a quê?"

A sombra se contraiu e expandiu subitamente, não de forma agressiva, mas com uma regularidade alienígena.

Misato gritou, urgente. "Mantenham posição! Não ataquem até entendermos o que está fazendo!"

Mas a escuridão não esperou. Moveu-se—deliberadamente, com propósito. Sua sombra se estendia.

Na direção de Kai.

Medo e adrenalina explodiram. Os olhos de Kai se arregalaram, o pânico instintivo se espalhando.

"Merda! Merda! Tá vindo pra mim! Por que essas coisas me adoram?!"

Empurrou os controles com força, a Unidade-04 disparando em uma corrida desesperada, o coração martelando. Tentava se afastar dos outros. Se não conseguisse se salvar, ao menos afastaria o perigo de Shinji, Rei e, claro, Asuka.

A sombra o perseguia como uma maré implacável. A esfera pairava logo acima.

Kai corria, forçando a Unidade-04 ao limite, tentando desesperadamente afastar aquele impossível abismo dos colegas.

Mesmo fugindo, uma terrível verdade se fixava em sua mente:

Aquele Anjo não era apenas perigoso.

Era algo além da compreensão.

E estava se aproximando rápido.

Capítulo 130: Horizonte de Eventos / Ponto Sem Retorno

"É claro que está atrás de você!" Asuka disparou pelo comunicador, a ansiedade afiada sob sua bravata.

A voz de Shinji tremia de urgência. "Kai, não pisa nisso! Continua correndo!"

Kai apertava os controles com força, seu Eva correndo desesperadamente enquanto cada passo esmagava o asfalto e trincava as fundações abaixo dele. Prédios passavam borrados, mas a sombra o perseguia, se estendendo de forma antinatural, mais rápida que ele.

"Está acelerando!" Maya gritou no canal, o pânico claro enquanto seus dedos digitavam freneticamente, enviando rajadas de dados através da rede. "A taxa de expansão está aumentando—Kai, se isso te alcançar—"

Misato cortou, o tom firme e afiado. "Encontra terreno alto! Não deixa ela te encurralar!"

Kai examinou a paisagem cada vez menor de rotas de fuga. Cada rua, cada viela se tornava uma armadilha. A massa negra surgia violentamente sob seus pés, engolindo o solo.

Num surto desesperado de adrenalina, lançou seu Eva para o alto, agarrando o prédio mais alto ao alcance. O arranha-céu gemeu, mas aguentou o peso.

"Preciso de apoio! Isso não está parando!" Kai gritou. "Por que vocês não jogam uma bomba gigante lá dentro? Talvez ela sugue e exploda! Tipo o Dodongo!"

"Dodongo?! Você tá mesmo falando de videogame agora?!" Asuka rebateu, frustração e medo misturados no tom.

Lá embaixo, a sombra de Leliel se fixou abaixo do edifício, absorvendo-o lentamente.

"Isso... isso realmente funcionaria?" Shinji gaguejou, incerto.

Misato suspirou fundo, entre desesperada e pensativa. "Uma bomba gigante? Jogar e torcer pra explodir lá dentro?"

"Teoricamente," Ritsuko interveio friamente, intrigada apesar de tudo, "se o núcleo de Leliel reside em uma dimensão superior, uma detonação interna poderia causar uma reação instável. Mas não temos evidências de que a física dentro do Mar de Dirac se comporte normalmente."

"Ótimo," rosnou Asuka. "Vamos focar em tirar o Kai daquele prédio primeiro?!"

Misato retomou o controle. "Concordo! Continua se movendo! Você tá ficando sem espaço!"

Kai observava a sombra pulsar abaixo dele, faminta e precisa.

Praguejou, a voz tingida de pânico, enquanto o arranha-céu afundava. Sem pensar, lançou o Eva para outro prédio próximo, aterrissando com força, estilhaçando vidro e metal.

A voz fria de Ritsuko atravessou o caos: "Uma bomba seria ineficaz sem conhecermos a estrutura interna do Anjo. Até agora, toda matéria física que entrou na sombra foi apagada sem qualquer saída mensurável."

"A menos," a voz firme e calma de Rei cortou, "que introduzamos algo além da nossa realidade física."

O canal caiu em silêncio.

Misato hesitou, cautelosa. "Rei... o que está sugerindo?"

O prédio sob Kai sumia. Ele sentia o pânico o sufocar.

"Rei! Diz logo! Aceito qualquer coisa agora!"

"Você está perdendo terreno rápido!" Misato gritou. "Precisamos de uma resposta!"

"Leliel," explicou Rei, imperturbável, "existe em um espaço além da nossa realidade."

Kai fez outro salto desesperado, escapando por pouco.

"Se ataques externos falham, o golpe deve vir de dentro," ela disse, inabalável.

"Espera—o quê?!" Shinji gritou em horror.

"Você sugere entrada forçada no espaço dimensional superior?" Ritsuko reagiu, incrédula.

Misato entendeu, a voz tensa. "Mandar um Eva pra dentro?"

Rei confirmou. "Sim."

Silêncio horrorizado.

"Ah, NEM PENSAR!" Asuka explodiu, o medo rasgando sua fúria. "É suicídio!"

Mas Leliel não parava. Estava caçando Kai.

Maya hesitou: "Não sabemos se conseguimos trazer alguém de volta!"

"Não sabemos," Rei confirmou.

Misato respirou fundo, amarga. "Droga... Temos opção melhor?"

A sombra se contorcia impaciente.

Kai engoliu em seco, a garganta apertada pelo medo. Olhou para a trilha de destruição atrás de si. Aquele Anjo não estava apenas caçando eles—estava caçando ele especificamente.

"Ok... Entendi... Atacar de dentro... Merda..."

"Não! De jeito nenhum!" Asuka gritou, o desespero na voz. "Você NÃO vai fazer isso!"

O arranha-céu estalava sob os pés do Eva. Kai sabia—hesitar era morrer.

Misato estava dividida. "Se formos fazer isso, precisamos de um jeito de te trazer de volta. Não vamos te mandar só pra sumir."

Ritsuko digitava sem parar. "Vou calcular, mas não tenho como garantir a extração."

Shinji tremia. "Kai... você vai mesmo—?"

"NÃO SEJA idiota!" Asuka gritou, a voz falhando. "Se você fizer essa idiotice pra bancar o herói, eu juro que vou—!"

Sua voz se quebrou. Algo ficou no ar.

Kai olhava para baixo. Sentiu a emoção transbordar. Respirou fundo e falou baixo:

"Merda... Eu preferia não fazer isso... mas vamos ser honestos... eu nem devia estar aqui."

Olhou para a imagem de Asuka no monitor, fixando-se em seus olhos aterrorizados.

"Não se preocupa. Só vou dar uma olhada lá dentro. Eu não queria isso... mas tem que ser eu."

Voltou-se para Misato e Ritsuko:

"Tô confiando que vocês vão me trazer de volta, ok?"

Misato respondeu, firme apesar do medo: "Vamos te trazer de volta, Kai. Pode confiar."

Kai olhou de novo para Asuka, olhos firmes nos dela.

Seus lábios se entreabriram, mas nada saiu—apenas uma promessa silenciosa em seu olhar.

Por fim, ele lançou um último olhar a Shinji, forçando um sorriso, em parte para tentar transmitir confiança, em parte para dizer: cuida delas, se eu não voltar.

O olhar ansioso de Shinji foi a última coisa que viu antes de lançar seu Eva do prédio, girando dramaticamente no ar.

"NÃO! ESPERA—!" O grito de Asuka ecoou dolorosamente quando o EVA de Kai mergulhou no vazio de Leliel.

O silêncio o envolveu instantaneamente.

Capítulo 131: Dentro do Vazio / Aquele Que Não Devia Existir

O mundo acima desapareceu. O barulho, o caos, sumiram.

Silêncio.

Kai flutuava.

Sem sensação de queda. Sem impacto. Apenas uma quietude suave e antinatural que pressionava cada parte de seu corpo.

A Unidade-04 derivava no que mal podia ser chamado de espaço—um vazio vasto que não era negro, mas... ausente. A cor do nada. O LCL dentro do plug de entrada vibrava suavemente, numa frequência quase imperceptível.

Ele não via nada fora do Eva. Nenhum chão. Nenhum céu. Nem mesmo a sombra que o havia engolido.

"Brilhante, gênio," Kai resmungou para si. "Fez sua cena. E agora?"

Largou os controles e expirou lentamente, tentando acalmar o coração acelerado. Cada centímetro de sua pele zumbia com adrenalina residual, mas não havia para onde ir. Nada para enfrentar. Nem gravidade.

Instintivamente, abriu o console interno. Um bip surdo. O HUD ainda funcionava, mas os indicadores de sinal com a NERV estavam mortos. Nenhuma comunicação. Nenhum monitoramento de sincronização. Nada. Ele nem percebeu quando o cabo umbilical foi arrancado. Provavelmente pela pressão ao cruzar o limiar.

Alternou o modo manualmente, diminuindo a iluminação interna e desligando os sistemas não essenciais. Apenas suporte vital e controle de movimento permaneciam. As placas de armadura do Eva se fecharam firmemente, selando-se em modo de economia de energia.

MODO DE EMERGÊNCIA: ENERGIA INTERNA / SUPORTE DE VIDA ATIVADO TEMPO RESTANTE EM SISTEMAS MÍNIMOS: 15 HORAS E 43 MINUTOS

Kai encarou o cronômetro por um longo momento.

A Unidade-04 encolheu-se ligeiramente, quase em posição fetal. Esperando.

Lá fora, o vazio permanecia inalterado.

Kai tentou engolir em seco, mas a garganta estava seca. "Acho que é agora. A parte em que enlouqueço sozinho no escuro."

O tempo passou. Ou talvez não.

Ele já não tinha certeza.

Tentou assobiar uma melodia. Nada veio. Mesmo sua voz soava abafada, como se tivesse medo de ecoar ali.

Então—o LCL mudou.

Não foi instantâneo. Começou sutil.

Um brilho estranho, como óleo na água. Uma leve distorção na cor. O cheiro também mudou—de metálico e familiar para algo cortante, ligeiramente doce, quase orgânico. Como sangue.

Kai piscou, tentando reiniciar o visor. Sem erros.

O LCL escurecia, levemente. Fios finos flutuavam agora, como veias ou nervos, se curvando e ondulando.

Então—uma voz.

Não vinda do comunicador. Nem do Eva. Nem de fora.

Veio de dentro dele.

"Kai..."

Kai congelou.

Sabia que não devia responder. Se estivesse enlouquecendo, o melhor seria ignorar até passar.

Mesmo assim, murmurou: "Quem... é você...?"

A voz que ouviu era a sua.

"Eu sou você. As pessoas tem outro eu dentro de si mesmas. O eu sempre é composto de duas pessoas."

Kai fechou os punhos. A expressão genuinamente confusa.

"Mas que porra...?"

A voz continuou.

"O eu que se pode ver, e o eu que o observa. Há muitas entidades chamadas Kai. O outro Kai que existe dentro de sua mente, o Kai dentro da mente de Misato Katsuragi. O Kai dentro de Asuka Soryu. O Kai dentro de Shinji Ikari. O Kai na mente de Rei Ayanami. O Kai na mente do seu irmão—"

Tudo piscou por um segundo. A voz hesitou antes de continuar.

"Todos são Kais distintos, mas cada um deles é o verdadeiro Kai."

Kai fechou os olhos, tentando entender aquilo. "Meu... irmão?"

Quando abriu os olhos novamente, não estava mais no plug.

O cockpit se dissolvera sem movimento ou aviso, como vidro derretendo.

Então o mundo se recompôs.

Um vagão de trem longo e vazio.

Kai estava sozinho num dos bancos alaranjados. O chão vibrava levemente, um ritmo sem origem. Do lado de fora, apenas branco—sem cidade, sem paisagem, apenas uma luz sem profundidade.

À sua frente, um garoto estava sentado. Calmo. Olhando para baixo.

A voz continuou, agora encarnada, ecoando pelo espaço como um pensamento nas paredes.

"Por que você finge? Por que cobre sua verdade com um sorriso? A quem está tentando proteger? Eles? Ou a si mesmo?"

Kai olhou para o garoto.

"Eu... só estou tentando fazer a coisa certa."

O garoto o encarou do canto escuro do trem. Sorria de lado.

"Não é a morte que te assombra. Você tem medo do Kai dentro da mente dos outros. O que te paralisa é o olhar que vê além da superfície. Porque se eles enxergarem o eu que você enterrou, aquele que treme por trás do sorriso... eles vão embora. E o que sobra depois?"

Kai tentou responder, mas as palavras não vinham.

Fora do trem, o nada passava pela janela.

"Por trás do barulho, por trás dos ecos cuidadosamente construídos... há um silêncio que você teme que eles ouçam. Você teme o momento em que o véu cai, e eles veem o que há por trás. Não porque é monstruoso... mas porque é você."

O mundo pulsou—não visualmente, mas mentalmente—como uma pressão contra seu crânio. Uma intrusão sem forma.

"Mas... tem algo mais, não tem? Algo que nem você ousa tocar. Algo que você sente."

Dessa vez, Kai podia sentir. Algo sondava seus pensamentos. Penetrava sua mente.

Então, de todos os lados e lugar nenhum, tudo piscou de novo. A voz ressoou dentro dele.

"O eu que é você... não pertence."

O coração de Kai disparou. Forçou-se a respirar. A voz saiu firme, mesmo assim:

"Não pertenço a onde?"

A resposta reverberou dentro dele, fundo.

"O eu existe pela relação com outros eus. Este eu, o seu eu, é o reflexo de uma ideia que escapa ao limite do ser e do saber."

Kai prendeu a respiração.

A voz falou de novo, mais fria:

"Você é uma sombra projetada por uma luz que nunca existiu. Um eco numa sala que nunca foi construída. Esta existência, a sua existência, é uma contradição que o mundo nunca pediu."

O vazio ao redor se contraiu, pressionando, sondando.

"Você existe... mas não. Um fragmento aguardando forma."

Kai sabia—ele precisava fazer alguma coisa. Qualquer coisa.

"Sim... incompleto. Essa parece ser a opinião geral...," Kai sussurrou.

O garoto no trem distorceu, os contornos tremendo como se estivesse entre realidades. A presença hesitou.

"O eu que te observa... não é seu próprio eu."

Kai sentia as palavras vibrando. A figura à sua frente mudava, familiar e indefinida.

O vazio pulsava como um coração imenso.

Seria isso Leliel? Ou estou realmente ficando louco?

Kai buscava entender algo que desafiava a própria existência.

"Você está... tentando entrar na minha mente," Kai murmurou, sentindo a pressão suave. "Tentando acessar minhas memórias... me compreender."

Esperava.

Kai respirou fundo, abrindo-se um pouco, cauteloso.

Imediatamente—um flash.

Não o nada. Nem Tokyo-3. Outro lugar.

Uma instalação clara, estéril. Máquinas frias e vozes urgentes. Uniformes da NERV passavam às pressas. Alarmes vermelhos gritavam. O chão tremia.

A Unidade-04 estava diante dele, enorme, inacabada, visivelmente instável.

Outro flash. Kai tremia. O nariz sangrava.

De novo no plug, coração disparado. Pânico.

"Abortem! ABORTEM! O núcleo está—"

Luz. Violenta, absoluta. Deslocamento, vertigem.

Nada.

Outro flash. Kai viu um ponto vermelho no horizonte branco.

Voltou ao plug. Nada do lado de fora. Respiração ofegante, coração disparado. A visão sumia, mas a memória permaneceu, vívida e aterrorizante.

A voz voltou, mais errática, não mais tão assertiva:

"O eu observado de outro lugar é o eu observador que está aqui. E, ainda assim, você não é o eu que seu próprio eu define."

Pela primeira vez, a voz parecia confusa. Algo nele havia mudado.

"Eu estava lá..." As palavras saíram dos lábios de Kai num sussurro ofegante, sua voz quase inaudível no vazio imponderável. Suas mãos tremiam nos controles da Unidade-04, embora não parecessem mais reais. Nada parecia.

Sua própria voz ecoou pelo silêncio vazio, oca e distante, como uma lembrança meio esquecida. Um clarão percorreu sua mente — intenso e ofuscante. As luzes estéreis da base de Nevada. O zumbido das máquinas. O som distante de vozes gritando, em pânico, sobre sistemas falhando.

Então—

O vazio ao redor pulsava, atento. A escuridão o envolvia.

Kai prendeu a respiração. "Mas... por quê?"

A dor percorreu sua cabeça como um raio. Suas mãos voaram para as têmporas enquanto um gemido baixo escapava. Seus pensamentos se desgastaram nas bordas, se desfazendo em lembranças fragmentadas. Rostos. Sons. Emoções. Flashes de um passado ao qual ele não conseguia se agarrar.

Tudo distorcia. Como se sua mente estivesse bloqueada.

Cada pensamento pesava.

Outro flash: uma criança chorando. Não como uma lembrança, mas como uma súplica. Triste. Sozinha. Um pedido desesperado por cuidado. Kai estendeu a mente, instintivamente.

Quem é?

Sou eu?

Dor bruta. O espaço ao redor tremia.

"O eu que observa teme aceitar o eu que é observado. E o eu que é observado despreza o eu que o observa," a voz falou, mais grave.

O vazio se dobrava sobre si. Kai viu:

Quanto mais eu me desestabilizo... mais tudo se desestabiliza.

A clareza queimava. Se isso fosse Leliel espelhando seu estado mental... Talvez ele pudesse forçar uma ruptura.

A ideia era assustadora. Mas aquilo lhe deu um propósito insano.

Preciso tentar deixar aquela voz dentro do Eva-04 me alcançar de novo. O bastante pra colapsar minha mente, como antes. Talvez isso crie uma chance pra eu escapar.

Fechou os olhos.

E se soltou.

Todos os muros. O medo. O controle—soltou tudo. Como quem solta o último apoio num penhasco.

A Unidade-04 respondeu imediatamente.

Uma onda de energia—violenta, íntima—invadiu o plug. Sua mente gritava. Algo despertava. Não era mais sincronização. Era o princípio de fusão.

Ele se desfazia.

Dor. Memórias. Identidade. Tudo estilhaçava.

Então—

Uma voz.

Outra voz.

Vinda do Eva-04.

"Eu te encontrei."

Tudo ao redor quebrou.

O vazio rompeu como vidro. A dimensão se contorcia. A forma colapsava. Não conseguia mais se manter. Tudo em sua volta se contorcia em confusão, incapaz de se adaptar ao caos que irrompia da mente de Kai.

Kai enlouquecia. Imagens invadiam. Céus rubros, cidades em ruínas, figuras colossais.

Ele se agarrou à única verdade: a confiança que tinha neles.

Misato. Que sempre o apoiava.

Shinji. Silencioso, mas constante.

Rei. Enigmática, mas presente.

E principalmente, Asuka.

Sua raiva, seu desprezo, suas provocações. Cada momento de confronto era uma forma de se importar, mesmo sem admitir.

Asuka não desistiria dele.

Ele não podia desistir dela.

E, à distância, lá estava de novo. O ponto vermelho. Agora fazia sentido.

Olhou o tempo da bateria. Ativou o modo de batalha.

2 minutos. Mais que o suficiente.

No meio da dor, da tempestade mental, Kai teve um último pensamento desesperado para sair.

Ativou os propulsores. Potência máxima. Um salto final.

Em direção ao ponto vermelho.

Ele sentia, o Anjo estava colapsando.

Então, escuridão.

O vazio se partia. A realidade torcia. A consciência se espalhava. Visões colidiam. Lembranças, dor, confusão—tudo convergia.

Uma explosão de luz.

Os olhos de Kai se abriram. Sua mão se ergueu. Do caos, emergia uma mão colossal, o braço do Eva-02 estendido para ele.

Ela o agarrou.

Uma voz furiosa rompeu o caos. Familiar. Inconfundivelmente dela.

"NEM PENSE EM ME DEIXAR, IDIOTA!"

Capítulo 132: Protocolo de Retorno / Aquele Que Pertence

Kai olhou para cima, fraco, um leve sorriso cruzando seus lábios.

"Tch! Seu completo IMBECIL!" A voz de Asuka tremia, raiva misturada com um alívio mal disfarçado enquanto a mão do Eva-02 agarrava o Eva-04 com força, puxando-o do vazio que retorcia de forma devastadora. "Se você fez essa burrada só pra me obrigar a salvar sua bunda..."

Sua voz foi cortada de repente, abafada pela estática enquanto a forma dimensional de Leliel convulsionava violentamente.

O comando de Misato rasgou o caos com precisão. "Pegamos ele! AGORA, FOGO!"

Um surto de energia irrompeu. Centenas de minas N2 foram disparadas rumo à sombra em colapso, penetrando o interior de Leliel e incendiando a dimensão colapsada numa luz branca ofuscante.

O mundo de Kai girou. Os sentidos sobrecarregados pelo impacto. A gravidade o puxou com violência quando o plug de entrada foi ejetado, despencando em direção à terra.

Impacto.

O cockpit sacudiu, chacoalhando Kai até os ossos. A escuridão o envolveu rapidamente, a consciência se esvaindo.

Enquanto caía no abraço suave da inconsciência, a voz de Asuka ecoou suavemente pela estática, feroz e terna:

"Você não tem permissão pra ir embora, seu tonto."

Os olhos de Kai se fecharam. A escuridão o envolveu. Mas ele ainda sorria. Porque apesar de tudo, ele não estava perdido.

Ela o trouxe de volta.


Kai flutuava na escuridão gentil, memórias girando como folhas ao vento. E em meio ao caos, uma certeza persistia: ele existia. E enquanto existisse, haveria chance de descobrir a verdade. Só precisava resistir.

Uma voz o alcançou, familiar, mas distante. Afiada, mas com preocupação escondida.

"É bom você acordar, Kai..."

Asuka.

Kai atravessou a névoa. A escuridão cedeu lentamente à sensação. O bip suave de monitores médicos. O cheiro estéril da ala médica da NERV. O calor voltando aos membros—um contraste reconfortante ao frio do vazio que enfrentara.

Os olhos se abriram. Ela estava ali, sentada ao lado da cama, braços cruzados de forma defensiva, olhos afiados escondendo alívio.

"Asuka..." Kai murmurou, o peito se enchendo de alívio. "Você... tá bem? Deu certo?"

Ela revirou os olhos, bufando. "Você que tá na cama de hospital e pergunta se EU tô bem? ...Sim, gênio. E deu certo. A gente detonou aquele Anjo depois que você o desestabilizou." Os olhos se estreitaram, a voz suavizando. "Mas que diabos foi aquilo? Você parecia um cachorro molhado se sacudindo todo no plug, seu idiota."

Kai forçou um sorriso cansado, tentando acalmá-la. "Aquela coisa... tava me imitando, fuçando na minha cabeça. Basicamente, eu resolvi dar uma de louco e ver no que dava."

Asuka piscou, incrédula. Um sorrisinho relutante apareceu. "Então seu plano brilhante foi `dar uma de louco'? Inacreditável." Ela balançou a cabeça, a voz agora mais suave, quase vulnerável. "Você me deu um susto do caramba, idiota."

"Eu sei," disse Kai, com sinceridade. "Desculpa. Mas... eu nunca deixaria de lutar pra voltar." Ele sorriu gentilmente. "Além disso, quem mais tem tanta experiência em desestabilizar criaturas complicadas e furiosas?"

Os olhos de Asuka se arregalaram. "Você acabou de me comparar com um Anjo?! Seu desgraçado!" Ela ergueu o punho, mas parou antes de bater no ombro dele, dando apenas um empurrão de leve. "Você é insuportável!"

Kai não conseguiu conter a risada que veio de dentro, genuína, libertadora. Preencheu o quarto estéril, afastando os traumas recentes.

"Tá rindo de quê?!" Asuka exigiu, corando de indignação, embora os lábios traíssem um leve sorriso.

Ele riu, os olhos brilhando de calor. "Acho que você tem razão. Devo ser um idiota."

A expressão dela suavizou ainda mais. Virou o rosto para disfarçar. A voz saiu baixa, vulnerável. "Só... não faz isso de novo, tá?"

A voz de Kai se tornou séria, sincera. "Não se preocupa. Mesmo que tudo diga o contrário... acho que é aqui mesmo que eu pertenço agora."

Ela hesitou. A vulnerabilidade brilhou em seu rosto antes de suspirar suavemente. "Você é um idiota gigante." O tom era gentil. Uma confiança silenciosa entre eles.

Olhando ao redor, Kai murmurou, direto para ela. "Ei... obrigado."

Os olhos dela relaxaram nos dele. Um leve tremor revelou a emoção contida. "Só... não faz isso de novo," repetiu ela, encarando-o.

Kai sorriu com ternura. "Tá bom. Pode voltar pro seu teatrinho de esquentadinha agora. Antes que alguém veja esse seu lado. Esse é só meu."

Ela revirou os olhos, levantando-se para sair. Mas não sem um último olhar. Mais suave. Com as armaduras ligeiramente rachadas.

"Não se acostuma."

A porta se fechou suavemente atrás dela, deixando Kai com um sorriso sereno.

Kai observou a porta se fechar. O sorriso permanecia. O calor do momento ainda presente, afastando as sombras que o seguiam desde seu confronto com Leliel.

Ele suspirou baixinho. Uma calma verdadeira se instalava no peito.

Capítulo 133: Padrão de Recuperação / Sob a Gravidade Dela

Um sono sem sonhos envolvia Kai, um vazio reconfortante, bem diferente do vazio cruel de Leliel. Era gentil, restaurador — um espaço para, enfim, descansar sem medo.

O tempo passou, fluindo despercebido.

Um sussurro distante o trouxe de volta das profundezas do sono, vago a princípio, mas logo mais claro.

"...já faz um tempo que ele tá apagado," alguém murmurou.

"É, bom, talvez ele finalmente tenha aprendido a ficar parado por cinco segundos," veio a resposta ríspida — inconfundivelmente Asuka.

Alguém riu baixinho. "Dá um tempo pra ele, Asuka. Ele caiu em outra dimensão, afinal."

"Tch," ela bufou. Depois de uma pausa, sua voz suavizou notavelmente. "Só... me avisa quando ele acordar, tá?"

O cansaço o puxou de volta. Sua mente flutuava — não alerta ou tensa, esperando perigo, mas afundada num sono de recuperação.

Passos suaves, uma cadeira raspando levemente no chão... silêncio.

Kai se mexeu. A consciência voltava, puxando-o gentilmente do abraço do sono. As paredes brancas e o cheiro de antisséptico reforçavam a realidade. Ele não sabia há quanto tempo estava ali.

Seu corpo pesava, mas era um peso reconfortante — a lembrança de que ainda estava vivo.

Virando levemente a cabeça, Kai viu quem estava ao seu lado: Asuka, sentada numa cadeira com os braços cruzados defensivamente sobre o peito, os olhos fechados no sono. Sua respiração era calma, serena — uma expressão de paz rara em seu rosto normalmente endurecido.

Kai permaneceu quieto, observando. Absorvia a intimidade silenciosa do momento. O rosto dela, tão fechado e afiado acordada, parecia suave ali, vulnerável no sono. O que sentia por ela ia além de carinho ou amizade — era algo profundo, que o ancorava.

Uma onda de preocupação suave o atingiu. Ela não devia estar ali, exausta, desconfortável. Devia descansar. Lentamente, estendeu a mão e tocou de leve o ombro dela.

"Ei... Asuka... acorda... você devia ir pra casa. Eu já acordei."

Ela se mexeu na hora, a testa franzindo com irritação familiar. Os olhos se abriram devagar, encontrando o olhar de Kai com um momento de confusão antes que sua típica postura defensiva assumisse o controle.

"Tch! Finalmente! Demorou, idiota!" ela resmungou, se endireitando. Esfregou os olhos às pressas, tentando esconder que tinha cochilado. "Claro. Primeira coisa que faz é me encher."

Kai sorriu, previsivelmente. "Vamos lá, me ajuda a sair dessa cama," disse, já puxando os fios e monitores presos a ele. "Te levo pra casa pra você descansar de verdade."

Asuka arregalou os olhos, incrédula. "Você tá maluco?! Acabou de acordar!"

Mas, apesar das reclamações, ela se aproximou, apoiando o braço dele enquanto ele se sentava. O tom ríspido escondia a preocupação real. "Tudo bem. Mas se desmaiar, a culpa é sua."

Ele riu, sentindo-se mais firme com ela ao lado. "Ah, como se dar uma voltinha em outra dimensão fosse me parar."

Ela bufou, mas um leve sorriso traiu sua expressão.

Enquanto deixavam para trás os corredores estéreis da ala médica da NERV, o ar parecia mais leve. Sem alarmes, sem soldados — só os dois, sob um céu noturno já em desvanecimento.

Kai mal conseguia conter o sorriso. Asuka ainda estava ao seu lado, acompanhando seu passo.

Depois de alguns passos em silêncio, Asuka quebrou o clima:

"Você vai ter que me pagar uma refeição depois dessa."

Kai sorriu com calor, olhando de lado pra ela. "Não se preocupa, vou até deixar você escolher. Afinal, você me salvou."

Asuka bufou de leve. Seus braços relaxaram um pouco enquanto caminhavam pelas ruas iluminadas suavemente. "Tsc. Nem vai pensando que significa alguma coisa." As palavras eram ásperas, mas seu passo diminuiu sutilmente, como se não quisesse que aquele momento acabasse. Seus olhos lançaram um olhar breve a Kai, semicerrados com falsa severidade. "Mas é claro que vou escolher a comida mais cara. Você me deve depois da burrice que fez."

Caminharam em silêncio, o céu clareando aos poucos. As primeiras cores do amanhecer tocavam o horizonte. Tokyo-3 estava, por um momento, em paz.

Depois de um tempo, Asuka falou de novo, num tom quase para si mesma. "É... o dia foi longo."

Kai diminuiu o passo, olhando direto nos olhos dela, com sinceridade. "Sabe... eu só consegui manter a sanidade porque sabia que você tava lutando pra me trazer de volta. Eu realmente te devo essa."

Asuka ficou em silêncio por um instante, o olhar fixo à frente. Kai notou a tensão nos ombros dela ceder. Quando ela respondeu, a voz era baixa, mas firme, uma admissão relutante escapando.

"Isso mesmo, você me deve." Ela o encarou por um segundo, os olhos cheios de emoção contida. "Mas... é claro que eu tava tentando, idiota."

Os primeiros raios de sol iluminaram o rosto dela, suavizando os traços. Seguiram caminhando, o silêncio agora confortável, quase íntimo.

Até que Asuka quebrou o clima de novo com um sorrisinho malicioso. "Tá. Amanhã, vou escolher o prato mais caro do cardápio. Só pra te ver sofrer."

Kai riu, sentindo o peito se aquecer. "Fechado! E depois, te levo no shopping. Pode escolher um presente. Só um, entendeu?"

Ela parou de repente, virando tão rápido que o cabelo girou com ela. Os olhos se estreitaram, desconfiados.

"Peraí — COMO é que é?!" ela estourou. "Primeiro me deixa escolher a comida, agora tá me oferecendo presente?!"

Cruzou os braços de novo, analisando-o como se ele fosse algum tipo de plano suspeito. "Qual é a sua, Selvinha?"

Apesar da reação, Kai notou o brilho nos olhos dela. Ele havia dado a ela liberdade pra provocar à vontade — e ela adorava cada segundo.

"Não dá pra dizer que é só um reconhecimento justo? Você salvou minha vida. Então, sim. Merece comida e presente. Mas... tem uma condição."

Asuka parou, levantando a sobrancelha com desconfiança. "Tsc. Sabia que tinha pegadinha. Vai, fala logo."

Kai sorriu, malicioso. "Se vamos fazer isso amanhã... então a gente vai ter que matar aula."

Asuka ficou em silêncio por um segundo, antes de cair na gargalhada. "Hah! Inacreditável. Você quase foi apagado da existência, e já tá planejando outra missão suicida?!"

Mesmo com as palavras sarcásticas, ela sorria, diversão brilhando nos olhos enquanto se inclinava levemente, provocando. "Tá bom, Selvinha. Tô dentro. Mas não pensa que vou fazer tudo sozinha. Se vamos matar aula, você que se vire com o plano."

Chegaram em frente ao prédio da Asuka justo quando os primeiros feixes de luz tingiam Tokyo-3, suavizando os contornos da cidade. Kai parou, olhando pra ela com um sorriso sincero.

Ela sorriu de canto e se virou pra porta. "Vai dormir antes que caia duro de novo, idiota. Amanhã você vai se arrepender de ter me deixado escolher o que quiser."

Ele hesitou, então disse com suavidade, quase incerto. "Então... te vejo amanhã?"

Kai olhou para o céu. "Pera... já é amanhã? Ou ainda é hoje?"

Asuka o encarou por um instante, depois sorriu de leve. Virou-se, abriu a porta. Antes de entrar, lançou um último olhar por sobre o ombro, os olhos brilhando com desafio e promessa. "Não se atrasa, Selvinha. Eu não vou ficar te esperando."

A porta se fechou suavemente atrás dela, deixando Kai sozinho no ar frio da alvorada. Ele ficou ali por um instante, o coração cheio de uma mistura frustrante e quente de emoções. Virando-se, seguiu em direção ao próprio apartamento. A cidade começava a despertar ao redor. O corpo exausto, mas a mente ativa, revendo tudo. O vazio, a luta pra voltar, e acima de tudo, a presença intensa de Asuka ao seu lado.

Sim, ela era difícil. Desafiadora. Irritante. E totalmente, completamente, absurdamente, fazia cada segundo valer a pena. Kai soltou um suspiro lento ao avistar seu apartamento. Por ora, o caos da NERV, dos Anjos e das ameaças existenciais estava em silêncio. O amanhã traria mais um dia de escapadas, provocações da Asuka e talvez, quem sabe, mais pistas sobre quem ele realmente era.

Mas agora? Dormir seria o bastante.