Evangelion: Shattered Thresholds
1 Episódio 1: A Chegada da Quarta Criança
Prefácio
O que aconteceria se você inserisse um personagem original no mundo de Neon Genesis Evangelion, não com um roteiro, mas dentro de uma simulação viva? E se cada interação, cada consequência, cada mudança na linha do tempo acontecesse de forma dinâmica, em tempo real, guiada por um modelo de IA treinado com toda a profundidade da mitologia, psicologia e carga emocional de Evangelion?
É exatamente isso o que esta história é.
Este romance é fruto de uma experiência de roleplay (RPG) conduzida por IA dentro do universo de Evangelion. Eu criei Kai, um personagem totalmente original, com sua própria história, mistérios, emoções e voz, e entrei na história como ele. A IA controlou todo o resto: o mundo, a linha do tempo, os Anjos, a NERV e, o mais importante, as vozes autênticas dos personagens originais.
Cada conversa nasceu de interações reais. Kai (interpretado por mim) falando e reagindo como ele mesmo, e todos os outros personagens reagindo como eles mesmos. Shinji. Asuka. Misato. Rei. Gendo. Todos se comportaram conforme suas personalidades canônicas, moldadas pelo conhecimento profundo de Evangelion fornecido pela IA. E, ainda assim, no momento em que Kai entrou em suas vidas, a trajetória familiar começou a se fragmentar de maneiras imprevisíveis.
Embora a IA tenha sido orientada a tentar preservar a linha central da história original, a presença de Kai a desestabilizou de formas inesperadas. A IA também teve liberdade para ajustar pequenos elementos, como a ordem de aparecimento dos Anjos, para tornar a experiência mais imprevisível e, ainda assim, fiel à estrutura da obra.
Nunca permiti que Kai soubesse mais do que sua própria experiência permitia. Ele agiu como ele mesmo: confuso, curioso, desafiador, esperançoso. Tudo o que ele vai descobrindo, o leitor descobre junto com ele. Cada decisão teve peso. Cada conversa deixou marcas.
Como a história é narrada inteiramente pela perspectiva de Kai, até mesmo eventos familiares de Neon Genesis Evangelion ganham frescor, surpresas e profundidade emocional. Seu olhar transforma momentos conhecidos em algo novo, revelando sentimentos ocultos, consequências não vistas e caminhos ainda não trilhados, com momentos-chave capturados visualmente pela própria IA que constrói sua realidade. Pelos olhos de Kai, você experimentará o universo familiar de uma forma inédita, cheia de emoção.
Isto não foi escrito como uma fanfic tradicional.
É uma narrativa forjada por imersão genuína.
Começou leve. Depois ficou sombrio. Depois perturbador—como o próprio anime. Espero de verdade que você curta ler esta história tanto quanto eu curti vivê-la.
— Kai
Capítulo 1: Um Estranho Desembarca / Bem-vindo a Tokyo-3
O trem diminuiu a velocidade ao se aproximar da plataforma, seu zumbido metálico desaparecendo no silêncio. Pela janela, o cenário urbano de Tokyo-3 se estendia, um labirinto futurista de arranha-céus imponentes e um silêncio inquietante. O sol da tarde projetava longas sombras pelas ruas, fazendo a cidade parecer abandonada, apesar de sua escala monumental. As portas do trem se abriram com um chiado agudo.
Uma mulher estava alguns metros adiante, esperando. Seus cabelos violeta balançavam levemente com a brisa, e o contraste marcante de sua jaqueta vermelha contra a paisagem estéril deixava claro que ela não era alguém que passava despercebida. Ela se encostava casualmente em uma pilastra, uma lata de cerveja Yebisu pendendo de seus dedos, a condensação formando pequenas gotas no alumínio.
Ela avistou Kai imediatamente e sorriu, erguendo a lata num cumprimento preguiçoso. “Ei! Você deve ser o Kai, né?” Sua voz carregava uma confiança descontraída, uma leveza que não combinava com o peso do seu cargo. Deu um gole antes de acrescentar: “Bem-vindo a Tokyo-3! Espero que não se importe, mas estamos meio que com pressa. Pronto pra ir?”
Ela apontou para um carro esportivo azul estacionado ali perto, com a porta do passageiro já aberta. Kai ajustou a alça da mochila, levantando sua bagagem antes de dar alguns passos em direção a ela. “Oi! Claro, mas... você é a Misato, certo? Só confirmando!”
Misato riu, jogando a lata vazia em direção a uma lixeira sem nem olhar. Acertou em cheio. “Sou eu mesma! Capitã Misato Katsuragi, Diretora de Operações da NERV, apreciadora de cerveja e, a partir de agora, sua babá oficial.” Ela se aproximou, analisando-o com um sorrisinho divertido. “Então, só `Kai', é? O arquivo não dizia um sobrenome.”
O sorriso de Kai se contraiu por um instante, uma sombra quase imperceptível cruzando seu rosto. Ele sustentou o olhar dela e assentiu com firmeza. “É... Kai.”
Misato ergueu uma sobrancelha, ainda com o mesmo sorriso divertido. Parecia ponderar a resposta, mas então deu de ombros, como se decidisse deixar passar. “Beleza, direto ao ponto. Gosto disso.” Ela piscou. “Você parece normal o suficiente. Já é um bom começo.”
Kai não sabia bem o que “normal” queria dizer num lugar como aquele. Talvez fossem seus cabelos negros bagunçados que nunca obedeciam, por mais que ele tentasse. Ou a camiseta verde-escura grudada no corpo pelo calor úmido da tarde. Era alto para sua idade, magro mas claramente atlético, com a pele um pouco mais pálida que o normal, provavelmente por causa da longa viagem. Seus olhos verdes se voltaram para o carro esportivo azul que os aguardava, refletindo o brilho estranho e estéril da cidade.
Com um suspiro dramático, Misato se virou para o carro. “Certo, entra aí! Temos muito o que conversar, e eu não tô a fim de ficar fritando nesse calor.” Ela deslizou para o banco do motorista, ligando o motor, que ronronou como uma fera ansiosa para correr. Kai jogou a bagagem no banco de trás, notando imediatamente a bagunça de embalagens de fast-food, latas vazias de cerveja e documentos da NERV espalhados, antes de se acomodar no banco do passageiro.
Capítulo 2: Sob a Superfície / Descida ao Geofront
Misato deu um tapinha no painel com um sorriso. “Não liga pra bagunça. Pensa como... um estilo de vida.”
O carro saiu disparado da estação, acelerando na via principal. Kai mal teve tempo de apreciar a paisagem antes que Misato fizesse uma curva brusca, costurando o trânsito com uma confiança imprudente que deixaria qualquer passageiro comum nervoso. A cidade passava num borrão de aço e vidro.
“Brasil, hein?” Misato lançou um olhar rápido enquanto trocava de marcha. “Parece que a NERV anda lançando rede bem longe ultimamente. Bem-vindo ao Japão! Espero que goste de terremotos, robôs gigantes e crises existenciais de vez em quando.”
Ela lançou outro olhar de canto, uma das mãos trocando de marcha com indiferença. “E então, Kai... quanto te contaram de verdade? Sobre a NERV, o Eva e... você sabe, todas as outras `maravilhas'?” Ela arqueou uma sobrancelha, meio sorrindo. “Ou ainda estão naquele esquema de ‘você entende quando chegar’?”
Kai soltou o ar com força, se afundando no banco. “Bom, eu sei que sou um piloto de Eva, e que tem pelo menos mais três por aqui. É... basicamente isso. Nem sei por que fui escolhido.”
Misato riu curto. “É, parece certo. A NERV adora esconder o jogo.” Ela tamborilou os dedos no volante, o tom ainda leve, mas com uma ponta de seriedade. “Seguinte: você foi escolhido pra pilotar a Unidade Evangelion 04. Isso faz de você a Quarta Criança. Os outros pilotos... bem, você vai conhecê-los logo.”
Ela hesitou por um segundo, depois suspirou. “Agora, por que você foi escolhido... sinceramente? Nem a gente sabe tudo. O Instituto Marduk — uma fachada do governo — foi quem apontou seu nome, e a NERV só acata. Mas de uma coisa você pode ter certeza: não é qualquer um que pode pilotar um Eva. Tem que ser você.”
Kai olhava pela janela enquanto os prédios da cidade davam lugar a um enorme eixo subterrâneo. Luzes piscavam enquanto portões de segurança escaneavam o carro. A entrada do Quartel-General da NERV se aproximava — uma fortaleza piramidal cravada no enorme Geofront, cuja penumbra artificial se estendia infinitamente abaixo da Tokyo-3 verdadeira, acima.
Misato sorriu de lado ao entrar na garagem subterrânea. “Tarde demais pra desistir. Pronto pra ver onde a mágica acontece?”
Kai respirou fundo e assentiu. “Acho que sim.”
Capítulo 3: Testes e Mentiras / Avaliação e Revelação
O carro parou. Misato saiu, se espreguiçando enquanto fazia sinal para que ele a seguisse. “Primeira parada — exame médico e testes de sincronização. Procedimento padrão pra todo piloto novo. Depois, quem sabe, se você tiver sorte, eu te apresento aos outros pilotos. E se tiver muita sorte... talvez não se arrependa disso.”
Kai pegou sua mochila e pisou no chão frio e estéril do QG da NERV. O ar ali era diferente — controlado, artificial. Cientistas de jaleco passavam apressados, guardas armados posicionados em pontos estratégicos. O zumbido de máquinas invisíveis preenchia os corredores.
Misato o guiou até uma sala médica envidraçada, onde um médico de óculos levantou os olhos de uma prancheta. “Ah, a Quarta Criança. Por favor, sente-se. Isso será rápido.”
Kai hesitou por um instante antes de avançar. Já tinha deixado tudo para trás. O Brasil, seu passado, tudo o que conhecia. Ele tinha sido escolhido para isso.
Para o bem ou para o mal, sua vida como piloto de Eva havia começado.
Sentou-se na cadeira de exames, os dedos apertando os apoios enquanto o cheiro estéril de desinfetante preenchia o ar. O médico ajustou os óculos e assentiu para uma enfermeira que preparava os equipamentos. Os bipes dos monitores médicos criavam um ritmo estranho e inquietante.
Misato se encostou casualmente na parede, braços cruzados. “Relaxa, Kai. Procedimento padrão — exame de sangue, reflexos, uns scans cerebrais. Só pra garantir que você é humano e tal.”
O médico, alheio à piada, trabalhava com eficiência. Uma amostra de sangue, sinais vitais, uma lanterna brilhando nos olhos de Kai. “Histórico médico? Dores de cabeça? Sonhos estranhos?” — perguntou num tom monótono.
Kai hesitou. Sonhos estranhos? Antes que decidisse o que responder, a porta se abriu com um chiado e outra figura entrou na sala.
Uma mulher — cabelo loiro e curto, jaleco branco impecável sobre uma blusa gola alta roxa. Um cigarro pendia entre os dedos — apagado, mas segurado como se estivesse prestes a acendê-lo. Seus olhos afiados pousaram em Kai, avaliando. O crachá lia: Dra. Ritsuko Akagi.
Ela lançou um olhar para Misato. “Então esse é o novo piloto?”
Misato assentiu. “Direto do Brasil. Até agora, parece normal o suficiente.”
Ritsuko o examinou com o olhar clínico. “Veremos.” Sem dizer mais nada, virou-se para o monitor, observando os resultados. “Também precisamos fazer um teste preliminar de sincronização hoje. Sem tempo a perder.”
Misato suspirou. “Poxa, Ritsuko, dá um respiro pro garoto.”
Ritsuko esboçou um leve sorriso. “Ele vai ter bastante tempo pra respirar depois.”
Virou-se para Kai. “Como está se sentindo? Algum desconforto?”
Kai forçou um meio sorriso. “Eu... acho que ainda não caiu a ficha. É meio surreal estar aqui. Mas sim, tudo certo.”
Ritsuko ergueu a sobrancelha, sem se impressionar. “Você se acostuma. Ou não.” Voltou a olhar os dados, os dedos deslizando na tela.
Misato riu. “É, parece certo. O primeiro dia na NERV costuma ser... intenso.” Ela deu um tapinha no ombro de Kai. “Mas olha, você tá lidando melhor do que muita gente por aqui.”
Ritsuko largou a prancheta. “Fisicamente, tudo normal. Nenhuma anomalia — pelo menos, nada que esses testes revelem.” Lançou outro olhar a Kai, algo indefinido nos olhos. “Vamos ver como se sai no plug de entrada.”
Misato se espreguiçou. “Ouviu a doutora. Hora de ver como você se conecta com seu Eva.” Ela sorriu. “Preparado pro seu primeiro teste de verdade, Quarta Criança?”
Kai assentiu. “Sim, senhora! E... eu vou conhecer os outros pilotos? Tô curioso. Eles também ficaram confusos no primeiro dia?”
Misato riu. “Com certeza. Você devia ter visto o Shinji quando chegou — o pobre parecia que ia desmaiar.” Ela sorriu com um ar nostálgico e deu de ombros. “Embora... pra ser justa, as circunstâncias foram um pouco... diferentes.” Seu tom suavizou por um instante — só o bastante pra sugerir que havia mais naquela história — mas logo mudou de assunto. “E a Asuka? Bom... digamos que ela não estava confusa, mas fez questão de deixar todo mundo ao redor completamente perdido.”
Ritsuko suspirou. “Você vai conhecê-los em breve,” disse, consultando a prancheta. “Mas antes, vamos ver se consegue mesmo pilotar um Eva.”
Misato sorriu. “É, melhor não passar vergonha na frente da equipe, né?”
Ela fez sinal para Kai acompanhar enquanto Ritsuko os conduzia por corredores mal iluminados. Quanto mais avançavam, mais fria e estéril ficava a atmosfera. Até que chegaram a um enorme hangar — as gaiolas dos Evangelions.
E lá estava. Evangelion Unidade-04.
Seu corpo prateado e elegante, diferente de tudo que ele já havia imaginado, reluzia sob a luz fluorescente, com detalhes em preto e vermelho. Mesmo imóvel nos suportes, sua presença era imensa, esmagadora, viva.
Misato cutucou Kai. “E aí? O que achou?”
Os olhos de Kai se arregalaram, a respiração parou por um instante. “Caramba... é enorme. Meio assustador... mas as cores são incríveis.”
Misato riu. “Vai ver o Eva te escolheu por causa do seu bom gosto.”
Ritsuko, sem se impressionar, balançou a cabeça. “A Unidade-04 é um protótipo baseado no projeto americano fracassado. Seu design é voltado para testes experimentais, não preferências estéticas.”
Misato deu de ombros. “Tá, tá. Deixa o garoto curtir o momento.” Ela se inclinou para Kai. “Mas entre nós? Se achou bonito agora, espera até ver em ação.”
Uma voz soou pelos alto-falantes. “Preparativos para teste de sincronização concluídos. Piloto, dirija-se ao plug de entrada.”
Do deck de observação acima das gaiolas, Kai olhava tudo. Técnicos trabalhavam concentrados, teclando rapidamente, murmurando relatórios nos comunicadores. A energia focada da equipe era reconfortante — e ao mesmo tempo, intimidante.
Misato apontou com desdém. “Essa é a equipe de apoio. Makoto Hyuga, Maya Ibuki e Shigeru Aoba — são eles que garantem que nada exploda enquanto a gente brinca de robô gigante.”
Maya olhou por cima do ombro e sorriu de leve. “Prazer em conhecê-lo.” Voltou ao console. “Pressão do LCL estável...”
Aoba mal virou, erguendo dois dedos num gesto de paz. “Boa sorte aí.”
Hyuga assentiu brevemente, os olhos no monitor. “Bem-vindo ao circo.”
Kai piscou, esboçando um sorriso. “Valeu... eu acho.”
Ritsuko assentiu. “Certo, Kai. Hora de ver se você é mesmo compatível.”
Uma plataforma se estendeu até as costas do Eva. O plug de entrada — um cilindro longo e blindado — começava a ser encaixado.
Misato juntou as mãos. “Vamos lá, Quarta Criança! Sua primeira imersão. Sobe, se acomoda, e não surta quando o LCL começar a encher o plug.”
Ela piscou. “A sensação de afogamento dura só os primeiros segundos.”
Capítulo 4: Batismo de Fôlego / Primeiro Mergulho
Kai respirou fundo e subiu na plataforma. A escala do Eva de perto era quase impossível de assimilar. Cada passo parecia mais pesado à medida que se aproximava do plug de entrada, sabendo que, em instantes, estaria lá dentro — dentro de algo além de tudo que já imaginou.
Assim que o plug foi selado, um zumbido preencheu o espaço fechado. Um leve cheiro metálico misturado a algo orgânico, estranho e ao mesmo tempo... familiar. O LCL começou a subir, espesso e morno, submergindo-o por completo. O instinto gritava para lutar — para entrar em pânico — mas, tão rápido quanto veio, a sensação passou. Os pulmões se expandiram, o corpo se adaptou, e o medo desapareceu.
Então veio outra coisa.
Uma presença. Uma conexão.
“Nossa... como... como é que eu vou saber pilotar isso?” Sua voz soava distante, abafada pelo LCL.
A voz de Ritsuko veio pelos comunicadores, fria e precisa. “Você não pilota como uma máquina. Pense como se estivesse movendo seu próprio corpo.”
O cockpit se iluminava com o brilho suave dos painéis de interface conforme a sincronização iniciava. Um zumbido estático invadiu sua mente — e logo o envolveu por completo. Já não era só um cockpit. Estava vivo.
Misato falou em seguida, mais descontraída. “Não complica, Kai. O Eva se move com base em você. Se a taxa de sincronização for boa, vai parecer... natural.”
No deck de observação, os dados piscavam nos monitores. “Nada mal,” murmurou Ritsuko, vendo os números estabilizarem.
Um zumbido baixo preenchia os ouvidos de Kai. Quanto mais tempo ficava ali dentro, mais natural tudo parecia. Como se o Eva o estivesse esperando.
“Certo, vamos fazer um teste simples.” A voz de Misato voltou, curiosa. “Tente mover o braço direito. Só... pense nisso.”
Kai fez exatamente isso.
Lá fora, o braço direito da Unidade-04 respondeu imediatamente. Sem hesitação, sem resistência. Movia-se como seu próprio braço.
Misato assobiou. “Olha só! O garoto é um talento natural!”
“Impressionante,” murmurou Ritsuko. “Acima do esperado para um primeiro piloto.”
Maya digitava rápido. “Taxa de sincronização estável em... 58,2%,” informou, surpresa. “Muito estável para um teste inicial.”
Hyuga ergueu os olhos. “Sem ruído de sinal. Caminhos neurais se alinhando mais rápido do que o previsto.”
Aoba se recostou, franzindo a testa. “Pressão do LCL e retorno harmônico dentro dos parâmetros. Sem resistência na conexão.”
Ritsuko teclou. “Kai, tente mover o braço esquerdo agora. Como antes — sem forçar. Deixe acontecer.”
De novo, o Eva respondeu perfeitamente. Era mais fácil que respirar.
Maya arregalou os olhos. “Sinais motores... perfeitos. Sem atraso.” A surpresa começava a ceder lugar à preocupação.
Misato sorriu. “Viu? Moleza! Agora tenta ficar de pé. Devagar — sem movimentos bruscos, ou você derruba a instalação inteira.”
Um chiado de pressão soou enquanto os suportes eram liberados.
A Unidade-04 estava livre.
Kai concentrou-se nas pernas, levantando uma de cada vez. É mais fácil do que mover meu próprio corpo. A sensação era surreal. Deu um passo, depois outro, sentindo o peso e a força do Eva se moverem com ele. Um pequeno salto, um deslocamento. Era empolgante.
“É forte!” disse Kai, com um sorriso.
Misato caiu na risada. “Olha só você! A maioria mal consegue ficar em pé na primeira vez, e você já tá pulando como se fosse um parquinho!”
Mas Ritsuko não ria. Ela observava os monitores, a testa franzida. “Esse nível de sincronização... está suave demais. Instintivo demais.” Suspirou, apertando as têmporas. “Kai, tome cuidado. O Eva é uma extensão de você, mas se exagerar —”
Um alarme a interrompeu.
SOBRECARGA DE FEEDBACK DETECTADA. VÍNCULO NEURAL INTENSIFICADO.
A voz de Maya se elevou. “Alerta! Sobrecarga de feedback — intensidade do vínculo neural ultrapassando os níveis seguros!”
Hyuga teclava freneticamente. “Ciclo de entrada detectado. O Eva está alimentando os padrões neurais do piloto — está agindo antes dos comandos!”
Aoba soou tenso. “Harmônicos neurais instáveis. Se continuar assim — ele pode perder a separação do ego!”
Dentro do plug de entrada, Kai sentiu antes mesmo do sistema registrar.
O puxão.
Como se o Eva não estivesse apenas respondendo a ele — mas o antecipando. Movia-se mais rápido, mais fluido, quase sozinho. O zumbido da Unidade-04 aumentava, suas mãos cerrando os punhos.
Misato mudou o tom. “Ei, Kai — desacelera. Você tá sincronizando demais.”
A voz de Ritsuko veio firme. “Desconectar agora pode causar danos. Kai, respire fundo. Acalme a mente. Separe-se do Eva.”
Kai fechou os olhos, sentindo o calor da conexão pulsar. Aquilo não era uma máquina. Não era só uma ferramenta.
Estava consciente.
Estava observando.
Mas... não era hostil.
Aos poucos, deixou a empolgação escoar. Controlou a respiração, recuou só o suficiente — sem se afastar, mas sem se perder também. Amigável.
Não somos inimigos.
O puxão diminuiu.
A sincronização estabilizou.
Os alarmes cessaram.
Maya soltou o ar. “Níveis de feedback voltando ao normal. Carga neural caindo.”
Hyuga confirmou. “Harmônicos estabilizados... conexão de volta aos parâmetros operacionais.”
Aoba balançou a cabeça. “Isso foi... por pouco.”
Ritsuko ajeitou os óculos. “Bom. Isso esteve perigosamente perto de um estado de sobreposição.” Digitou algo, pensativa. “Os instintos dele são fortes. Esse tipo de ajuste geralmente leva semanas.”
Misato soltou um suspiro que nem tinha percebido que estava prendendo. Depois sorriu. “Olha, tô impressionada. Nada mal pra um garoto que acabou de sair do avião.”
Dentro do plug de entrada, o zumbido da Unidade-04 permanecia — mas mais suave. Menos urgente. Kai ainda podia senti-l. Ainda estava lá. Uma presença logo abaixo da superfície, observando. Esperando.
A voz de Ritsuko voltou. “Por hoje é o suficiente. Kai, vamos encerrar a sincronização. Apenas relaxe e o plug será ejetado.”
Capítulo 5: Fome e Esperança / O Apetite de um Piloto
As telas piscaram, e o LCL começou a drenar. O calor recuou e, conforme o plug era lentamente desacoplado, Kai sentiu.
Exaustão.
Não física, mas mental. Como se tivesse acabado de acordar de um sonho vívido — que nem parecia completamente seu.
O plug enfim se abriu, revelando as luzes tênues das gaiolas de Eva. Misato esperava, mãos na cintura, um sorriso satisfeito no rosto. “Parabéns, Quarta Criança. Você sobreviveu oficialmente ao seu primeiro teste de sincronização.”
Kai respirou fundo, puxando-se para fora do plug de entrada. Os membros agora pareciam mais pesados, como se estivessem se reajustando ao próprio corpo.
Misato sorriu de lado. “E aí? Ainda acha que esse trabalho vai ser fácil?”
O estômago de Kai roncou, quebrando o silêncio. “Na verdade... eu tô com... muita fome.”
Misato piscou, depois caiu na gargalhada. “Pfft—HAHA! Essa é, de longe, a reação mais realista de um piloto que eu já ouvi!”
Ritsuko suspirou, esfregando a têmpora. “Os testes de sincronização consomem bastante energia mental. É normal sentir fadiga... ou, aparentemente, só fome mesmo.”
Misato deu um tapa amigável nas costas de Kai. “Beleza então! Hora de comer! Considere isso seu jantar de boas-vindas oficial da NERV.”
Ela foi conduzindo em direção à saída. “Vamos lá pra minha casa — a gente pede comida em excesso, eu te apresento meu bichinho de estimação e, se a sorte estiver do seu lado, talvez você conheça um dos outros pilotos.”
Ritsuko balançou a cabeça. “Eu devia ter previsto isso.”
Misato piscou. “Vai ser divertido. Você tá parecendo alguém que precisa de um pouco de normalidade depois de tudo isso.”
Kai não hesitou. “Pera, quer dizer que tem outro piloto na sua casa? Agora eu tenho que ir.” Ele abriu um sorriso. “E sim, comida em excesso é perfeito.”
Misato sorriu. “Você vai conhecer um. Mas não vai se empolgando — ele é meio... Digamos que `socializar' não é o hobby favorito dele.”
Enquanto saíam das gaiolas, Ritsuko soltou outro suspiro. “Você vai mesmo levar outro piloto pro seu desastre de apartamento?”
Misato deu de ombros, sorrindo por cima do ombro. “Forma caráter.”
Capítulo 6: Novos Laços / Casa de Katsuragi
A volta de carro por Tokyo-3 parecia diferente agora—menos intimidadora, mais familiar. A cidade, banhada em neon sob a noite que se aproximava, pulsava com uma energia silenciosa. Os prédios imponentes e os postes de luz ao longe passavam rápido enquanto Misato manobrava pelo trânsito com uma precisão imprudente.
Ela lançou um olhar para Kai. “Alguma preferência de comida? Ou a gente simplesmente pede um de cada e vê no que dá?”
Kai balançou a cabeça, sorrindo. “Pra ser sincero, a única comida japonesa que eu conheço é sushi.”
Misato deu uma risada. “Ah, sim, e sushi japonês é bem diferente do que você provavelmente comia lá fora. Menos cream cheese, mais peixe cru.” Ela piscou. “Mas não se preocupa, eu vou te apresentar às verdadeiras maravilhas da culinária japonesa... tipo miojo de konbini e cerveja em promoção.”
Ela estava brincando. (Provavelmente.)
“Certo, vamos manter simples. Vou pedir um monte de coisa—gyoza, karaage, yakisoba, talvez um okonomiyaki. Você experimenta tudo e vê o que curte.”
O carro estacionou em frente a um conjunto de apartamentos modesto. Quando Kai desceu, Misato se espreguiçou e o chamou para dentro. “Bem-vindo à Casa de Katsuragi! Espero que não se incomode com um pouco de caos.”
Assim que a porta se abriu, Kai entendeu o que ela quis dizer. Latas de cerveja vazias, embalagens de lanches e roupas jogadas pelo chão dominavam o espaço. Um leve cheiro de cerveja e macarrão instantâneo pairava no ar.
Uma criatura pequena e redonda veio da cozinha—um pinguim com uma pequena coleira metálica. Ele encarou Kai com uma mistura de curiosidade e julgamento.
Misato sorriu. “Ah, é—esse é o Pen-Pen. É meu colega de quarto. Tenta não levar pro lado pessoal se ele não gostar de você de cara.”
Pen-Pen soltou um grunhido baixo e passou por Kai, claramente pouco impressionado.
Misato se jogou no sofá e pegou o telefone. “Beleza, vou pedir a comida.” Ela deu um sorriso de canto. “E enquanto isso... vamos ver se nosso outro hóspede aparece.”
Ela apontou com a cabeça para uma porta fechada no fim do corredor. “Shinji tá ficando aqui por enquanto. Sem ideia se ele vai sair do quarto, mas vai que.”
Ela se recostou, observando Kai. “E aí, já tá se sentindo em casa?”
Kai arqueou a sobrancelha. “Você tá dizendo... que eu vou ficar aqui também?”
Misato piscou, depois riu. “O quê? Ah não, relaxa, eu não sou tão irresponsável assim!”
Ela apontou um dedo brincalhão para ele. “Você, minha cara Quarta Criança, vai ter seu próprio lugar. A NERV já providenciou um apê aqui perto. Tem tudo que precisa—cama, geladeira, vigilância do governo... o básico.”
Ela vasculhou a mesa de centro bagunçada—entre copos de miojo, papéis e relatórios amassados—até encontrar uma pasta simples da NERV com uma chave presa a uma etiqueta plástica vermelha. Com um movimento rápido, lançou o pacote para Kai, que pegou no ar.
“Aí está,” disse ela, como se fosse algo trivial. “Tudo o que você precisa. Chave do apê, identidade, instruções básicas, contatos de emergência... e provavelmente uns papéis que ninguém nunca lê.” Seu sorriso se alargou. “Parabéns—você agora oficialmente existe em Tokyo-3.”
Ela se esticou no sofá. “Mas sinceramente? Minha casa meio que virou o ponto de encontro dos pilotos, então é bem capaz de você vir parar aqui com frequência.”
Ela voltou a olhar para o corredor. “Falando nisso... Shinji! Temos piloto novo! Seja sociável por uma vez!”
Por um instante, silêncio. Então, a porta se abriu devagar, revelando um garoto de cabelos escuros e olhos cansados. Ele hesitou antes de sair, as mãos nos bolsos.
Shinji Ikari, a Terceira Criança, olhou para Kai com uma curiosidade contida. “...Oi.”
Kai deu um passo à frente e estendeu a mão. “E aí, Shinji! Sou o Kai. Parece que vamos trabalhar juntos... pilotar e tal. Prazer.”
Depois, percebendo que não tinha certeza se apertos de mão eram comuns no Japão, ele acrescentou uma leve reverência.
Shinji olhou para a mão, depois para o gesto, visivelmente pego de surpresa. Após uma breve hesitação, apertou a mão de Kai de forma meio desajeitada—um aperto leve, incerto, como se não estivesse acostumado com esse tipo de contato.
“É... prazer,” disse ele baixinho. Sua voz era educada, mas distante, como se ainda estivesse tentando entender quem era Kai.
Misato comentou do sofá com um sorriso: “Olha só, Shinji, você já tá fazendo amigos!”
Shinji suspirou, visivelmente constrangido. “Misato…”
Ela apenas sorriu e jogou os pés na mesa. “Relaxa. Vocês dois agora são colegas de equipe! Melhor começarem a se entender antes de enfrentarem um Anjo juntos.”
Shinji voltou a olhar para Kai, pensativo. “...Então, é... foi estranho pra você? Pilotar um Eva pela primeira vez?”
O tom era hesitante, como se buscasse algum tipo de confirmação.
Kai riu. “Ah, com certeza! Ainda bem que não fui o único a achar isso. Mas... acho que no fim das contas eu consegui me adaptar.”
Shinji pareceu aliviado com a resposta, os ombros relaxando. “É… comigo foi parecido. No começo, foi assustador. Eu nem queria fazer isso, mas...” Ele desviou o olhar. “Acho que a gente só... se acostuma.”
Misato se espreguiçou. “Tá vendo? Já estão se conectando pelas experiências traumáticas em comum. Isso aquece meu coração!”
Shinji suspirou de novo. “Isso... não é exatamente algo bom.”
Ela fez um gesto indiferente. “Detalhes, detalhes.” Depois se animou. “Ah, é! A comida já tá chegando, então bora relaxar.”
Ela deu tapinhas no sofá. “Kai, Shinji—sentem, fiquem à vontade. Vocês estão de folga agora.”
Shinji hesitou, mas acabou se sentando discretamente na outra ponta do sofá. Ainda parecia um pouco retraído, sem saber bem o que dizer.
Misato sorriu para Kai. “Então, novato—alguma dúvida sobre a vida em Tokyo-3? Ou sobre a NERV? Ou talvez sobre qual konbini tem os melhores lanches?”
Kai suspirou. “Sinceramente... eu não faço ideia de como vai ser minha vida aqui. Deixei tudo pra trás pra isso, e... sim, tô animado, mas também meio perdido. Vou precisar de ajuda pra entender como as coisas funcionam.”
O sorriso de Misato suavizou um pouco. “É... eu entendo. É muita coisa pra assimilar.”
Ela recostou os braços atrás da cabeça. “Tokyo-3 é um lugar estranho. Tem dias que parece uma cidade comum, e tem dias que um monstro gigante cai do céu e você precisa salvar a humanidade. Equilíbrio, sabe?” Ela sorriu. “Mas pode deixar, eu vou te ajudar. Pode me considerar sua tutora irresponsável e descolada.”
Shinji olhou para Kai, pensativo. “Então... você deixou toda a sua vida pra trás, assim, de repente?”
A voz era baixa. “Eu sei como é essa sensação.”
Misato se espreguiçou de novo. “Bem, a boa notícia é que você não tá sozinho. A NERV é esquisita, mas você vai entender. E olha, já conheceu o Shinji aqui, então já é um começo.”
Ela sorriu. “Agora só falta te apresentar aos outros dois.”
Shinji ficou um pouco tenso. “A Rei provavelmente não vai ligar,” murmurou. “E a Asuka...” Ele suspirou. “Ela é... complicada.”
Misato deu uma risada. “É, essa é uma forma de dizer.” Olhou para Kai. “Mas logo você vai conhecer os dois. A Rei vive na NERV, e a Asuka... bem, você vai ouvir ela antes de ver.”
Ela se inclinou para a frente. “Mas chega de papo sério! Você tá se adaptando agora, e isso inclui comida e descanso. Então, Kai—o que você curte fazer? Tem algum hobby? Ou pilotar biomecas gigantes virou seu único traço de personalidade?”
Kai riu, balançando a cabeça. “Caramba, você é demais, Misato.” O sorriso se alargou. “Bom... quando não tô enfrentando monstros gigantes, eu costumo jogar videogame, assistir filmes, ouvir música... essas coisas simples. Coisas normais da vida.” Ele deu de ombros. “E vocês dois?”
Misato deu uma gargalhada. “Pode apostar, eu sou demais! Tento manter a vida interessante.”
Ela pegou uma lata de cerveja, abriu com um estalo e deu um gole. “Eu? Ah, sei lá, passo o dia enrolando, bebendo irresponsavelmente e, de vez em quando, salvo o mundo. Uma rotina bem exigente.”
Shinji suspirou, mas um leve sorriso escapou. “Ela não tá brincando.”
Misato sorriu. “Você me adora e sabe disso.”
Ela se virou para Shinji. “Sua vez, Terceira Criança. O que você faz pra se divertir? Tirando as crises existenciais.”
Shinji pareceu desconfortável com a pergunta. “Ah... eu ouço música. Eu tenho um—” Ele hesitou, então murmurou: “Um toca-fitas.”
Kai se interessou na hora. “Sério? Um toca-fitas, tipo um Walkman? Isso é bem legal, na real.”
Misato cutucou Shinji de leve. “Legal ou não, você precisa expandir os horizontes, garoto. Ficar ouvindo a mesma coisa sempre...”
Shinji deu de ombros, olhando pra baixo. “Eu gosto.”
Kai se inclinou um pouco, curioso. “E o que você costuma ouvir?”
Shinji se remexeu, evitando contato visual. “Ah... as mesmas faixas, basicamente.”
Misato bateu palmas, mudando de assunto antes que Shinji se retraísse mais. “Chega de tecnologia pré-histórica! Kai, você falou de videogames antes, né?”
Kai sorriu, voltando a olhar para Shinji, empolgado. “Falei! Você tem algum aqui? Mario Kart é o melhor jeito de construir amizades... ou destruir.”
Shinji piscou. “...Mario Kart?”
Kai riu. “Sério? É um jogo de corrida. Você joga casco de tartaruga, desvia de casca de banana... caos total se jogar com amigos. Nunca jogou?”
Shinji olhou pra baixo, inquieto. “Eu... nunca tive.”
Por um instante, Kai parou—o sorriso diminuindo um pouco. Ele não tinha certeza se Shinji estava falando de videogames... ou de amigos. De qualquer forma, a resposta doeu mais do que ele esperava.
A voz dele suavizou. “...Então a gente precisa mudar isso.”
Misato fingiu um choque dramático. “Shinji. Shinji. Como você vive desse jeito?”
Ela se virou para Kai com um sorriso travesso. “Missão nova—você tá oficialmente encarregado de apresentar esse garoto aos videogames. É para o bem dele. Salve-o.”
Nesse momento, a campainha tocou.
Misato sorriu. “E isso deve ser a comida! Aguardem, meninos, já volto.”
Ela se levantou e foi até a porta, deixando Kai e Shinji sozinhos por um momento. Shinji o olhou, um pouco tímido, mas curioso. “...Então, videogames, é?”
Os olhos de Kai brilharam de novo. “Exatamente! Você vai adorar.”
Shinji esboçou um pequeno sorriso, meio incerto. “Acho que... eu posso tentar algum dia.”
Antes que dissesse mais, Misato voltou com uma sacola grande de comida. “Beleza, chegou! Bora comer!”
Ela despejou a sacola na mesa, tirando caixas de gyoza, karaage, yakisoba e okonomiyaki. O cheiro era maravilhoso.
“Mandem ver, meninos,” disse ela, pegando um par de hashis. “Kai, essa é sua introdução oficial à comida japonesa de verdade. Nada de sushi com cream cheese!”
Kai deu uma mordida—e seus olhos se arregalaram. “Nossa... isso tá incrível!”
Misato riu. “Viu? Essa é a reação certa!” Deu uma bela garfada no yakisoba, com ar vitorioso. “Bem-vindo à vida boa, Kai. Agora não tem mais volta.”
Shinji observou Kai, surpreso com a empolgação dele. Mas um pequeno sorriso apareceu em seu rosto. Ele comeu em silêncio, visivelmente mais relaxado.
Misato sorriu. “Agora que você tá devidamente alimentado, tá oficialmente um passo mais perto de virar um morador de verdade de Tokyo-3. Próximo passo—conseguir um videogame pra você e corromper o Shinji.”
Ela cutucou Shinji. “E aí, Shinji? Acha que aguenta uma Rainbow Road?”
Shinji suspirou, mas balançou a cabeça com um leve sorriso. “Eu nem sei o que é isso…”
Misato fingiu desespero, levando a mão ao peito. “Kai. Kai. Você tem muito trabalho com esse garoto.”
Kai riu, se recostando. “Pode deixar. Vou gamificar ele até a alma.”
Misato caiu na gargalhada. “Ah, adorei essa. Preciso lembrar dessa!” Ela ergueu a lata de cerveja no ar. “A missões cumpridas... e futuras vitórias nos games!”
Shinji apenas balançou a cabeça, mas com um sorriso sincero no rosto enquanto continuava comendo em silêncio.
Naquela noite, o clima ficou leve, descontraído. Por um momento, era só uma noite comum—comida boa, companhia agradável e nenhuma crise existencial iminente.
Misato se espreguiçou. “Certo, agora que você é parte oficial da equipe, Kai, vale avisar—amanhã começam os treinamentos de combate em Eva. Simuladores, testes de sincronização, toda essa diversão.”
Ela sorriu. “Espero que esteja pronto pra outro dia estranho.” Pausou, girando a cerveja na mão. “Pelo lado bom, você tem uns dias pra se ajeitar antes das aulas começarem. A escola ainda tá em reforma desde que nosso último parceiro de dança, o Israfel, resolveu redecorar a cidade.”
Parceiro de dança? Kai pescou a expressão, percebendo como o tom leve de Misato destoava do que devia ter sido um episódio catastrófico. Ele sentiu que havia muito escondido por trás daquela fachada despreocupada—mas decidiu não perguntar agora.
Depois da última mordida, Kai se levantou e pegou suas coisas. “Certo, vou dar uma olhada no meu apê novo. Valeu pela recepção, Misato. E Shinji, tô ansioso pra gente se conhecer melhor... e talvez não morrer juntos dentro de um robô gigante.” Ele sorriu. “Até amanhã.”
Misato devolveu o sorriso e fez uma saudação brincalhona. “O prazer foi todo meu, novato. Bem-vindo à loucura!”
Shinji deu um leve aceno. “É... até amanhã, Kai.” A voz ainda era baixa, mas havia algo menos distante nela agora—como se ele estivesse começando a aceitar a presença de Kai.
Misato acenou enquanto Kai saía pela porta. “Dorme bem, e cuidado com os Anjos!” Ela piscou. “E lembra—se precisar de qualquer coisa, é só passar aqui. A porta tá sempre aberta... a menos que eu esteja dormindo. Aí, boa sorte.”
Capítulo 7: Luzes Distantes / Ecos do Dia
Quando Kai saiu para a noite fresca de Tokyo-3, a cidade ao seu redor zumbia em silêncio. Os prédios imponentes, as luzes distantes... tudo parecia novo, estranho, mas empolgante.
Amanhã, ele começaria oficialmente seu treinamento como piloto de Eva. Mas por enquanto, era só ele, as ruas tranquilas e o começo de uma nova vida.
O apartamento fornecido pela NERV era funcional, mas impessoal. Móveis mínimos, paredes brancas e lisas, o leve cheiro de desinfetante—como se tivesse sido preparado às pressas. Ele largou a mochila perto da porta, tomou um banho rápido e se jogou na cama.
Dormir não foi fácil.
A adrenalina do dia ainda corria por suas veias, vibrando sob a pele. A mente dele revivia cada momento—conhecer Misato, Shinji, entrar na Unidade-04. A sensação de se conectar com o Eva, aquele instante em que parecia que a máquina o conhecia.
Mas havia outra parte. Aquela que ele não tinha contado a ninguém. A que fazia o peito pesar enquanto encarava o teto.
A NERV o trouxe até ali, deu um propósito. Agora ele tinha um papel a cumprir. Talvez essa fosse sua forma de compensar por ter sido deixado para trás.
A cidade seguia viva lá fora, mesmo àquela hora. Em algum lugar, Shinji provavelmente ouvia seu Walkman no repeat. Misato com certeza já estava apagada com uma lata de cerveja na mão. E os outros pilotos—Rei e Asuka—ainda eram apenas nomes para ele.
Amanhã seria mais um passo rumo ao desconhecido.
Suas pálpebras ficaram pesadas com esse pensamento.
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