Evangelion: Shattered Thresholds
25 Epílogo
O sol estava se pondo.
Horas haviam se passado desde que o céu parou de sangrar, desde que os últimos ecos da batalha se dissiparam no silêncio. Agora, apenas o sussurro do vento percorria os ossos partidos do Geofront, aço torcido, concreto quebrado e os restos dos deuses.
Kai estava de pé sobre uma colina, olhando fixamente para a imensa e silenciosa forma da Unidade Evangelion-04. Sua armadura prateada, agora marcada e manchada pelas batalhas finais e desesperadas, parecia absorver o pôr do sol, refletindo-o em tons suaves e sombrios. Os olhos de Kai permaneciam fixos ali. No entardecer. No mundo.
Ao seu lado, Asuka estava de pé, braços cruzados, o cabelo esvoaçando ao vento, silenciosa, mas próxima. Seu plugsuit vermelho estava arranhado, seu cabelo, normalmente tão bem arrumado, estava um pouco bagunçado, mas seus olhos, ao observá-lo, eram claros e firmes.
A mente de Kai vagou, involuntariamente, para outro céu, outro lugar. Um lugar de verde vibrante, de natureza deslumbrante, de montanhas majestosas apontando para o céu. Um lugar onde, ele agora se lembrava, uma pequena mão havia segurado a sua.
"Esse tempo todo..." começou Kai, a voz baixa, os dedos cerrando-se levemente ao lado do corpo, os olhos ainda na Unidade-04, mas vendo algo muito mais distante. "Eu achava... que estava com tanta raiva. Do meu irmão. Pelo que achei que ele tinha feito. Por ter me deixado." Ele fez uma pausa, um tremor percorrendo seu corpo. "Mas não era isso. Nunca foi."
Finalmente, virou-se para Asuka, seus olhos verdes encontrando os dela, carregados com uma dor antiga e ao mesmo tempo recentemente compreendida. "Eu não estava com raiva porque ele me deixou, Asuka. Estava com raiva porque eu deixei ele. Porque eu falhei com ele. Meu irmãozinho..." As palavras eram uma confissão, uma libertação de uma culpa que ele nem sabia estar carregando até que as memórias voltaram como uma avalanche.
A expressão de Asuka se suavizou, um entendimento profundo e empático surgindo em seu olhar. Ela estendeu a mão, segurando a dele com delicadeza. Seu aperto era firme, uma promessa silenciosa de que as dores agora seriam compartilhadas. "Kai..."
Antes que ela pudesse dizer mais, uma nova voz, surpreendentemente leve e melodiosa, cortou o ar pesado.
"Ora, ora, olha só que visão bonita! Não é que a princesa achou um tipo completamente diferente de cachorrinho dessa vez!"
Kai e Asuka se viraram, assustados. A poucos passos atrás deles, recortada contra o pôr do sol flamejante, estava uma garota. Com mãos na cintura, sorrindo como se conhecesse todos os segredos do universo. Os óculos refletiam a última luz do sol. O cabelo castanho preso em duas maria-chiquinhas balançava com a brisa, e seu plugsuit rosa, empoeirado e arranhado, fazia com que ela parecesse ao mesmo tempo deslocada e perfeitamente à vontade.
Asuka piscou, franzindo a testa. "Quem diabos é você?" ela exigiu, com sua costumeira arrogância voltando, embora misturada com cautela.
A recém-chegada riu, um som leve, quase musical. Ela inclinou a cabeça, analisando Kai de cima a baixo com um olhar avaliativo surpreendentemente intenso. "Hmm. Alto... olhos verdes... porte forte... um pouco bruto, mas... É," ela assentiu, como se confirmasse algo para si mesma. "Caramba, princesa. Você finalmente achou alguém que realmente combina com você."
Asuka piscou. Sua guarda vacilou. Os lábios se entreabriram, mas nenhum som saiu.
A garota sorriu de lado e fez uma pequena reverência exagerada. "Meu nome é Mari. Mari Illustrious Makinami, ao seu dispor. Mas fica tranquila, só mordo quando é necessário."
Kai franziu a testa, trocando um olhar confuso com Asuka. "A gente... conhece você?"
O sorriso da garota se alargou. "Não nessa iteração específica, gatinho. Mas já conheci algumas versões da `princesa' aqui," ela gesticulou com o pulso em direção a Asuka, que se irritou visivelmente com o apelido. "Embora eu deva dizer, ela parece ter amansado um pouco com você por perto. Boa influência, talvez?"
"Do que você está falando? Como assim `nessa iteração'?" Kai insistiu, um sentimento estranho, um eco distante de sua própria existência deslocada, despertando dentro dele.
"Não foi fácil te encontrar, sabia?" continuou Mari, com um tom casual, mas com uma corrente subjacente de algo mais — propósito. "As chances da sua assinatura aparecer em qualquer ciclo são... extraordinariamente pequenas. Tipo encontrar um gatinho perdido em um furacão de possibilidades."
"Possibilidades?" Asuka repetiu, sua descrença lutando com uma crescente sensação de inquietação.
Mari tocou a lateral dos óculos, pensativa. "Digamos que alguns de nós são melhores em navegar pelas correntes entre o que `é' e o que `poderia ser'. Nem sempre é um passeio tranquilo," acrescentou com uma careta irônica que sugeria complexidades não ditas. "Muita... turbulência." Ela olhou diretamente para Kai, o olhar penetrante. "Você também é um saltador de ciclos, gatinho. Só não aprendeu a controlar ainda, não é?"
Kai sentiu um estalo, um lampejo da queda desorientadora por diferentes mundos que vivera em suas memórias. "Você... você pode viajar entre realidades?"
Mari deu de ombros com naturalidade, contrastando com o peso de suas palavras. "Tenho procurado por você, Kai Iguazu. Ou seja lá qual for o nome que você está usando agora."
Um instante de silêncio se seguiu, carregado de perguntas não ditas.
"Por quê?" Kai finalmente perguntou, a voz firme apesar da mudança vertiginosa em sua compreensão da realidade. "Por que você estava me procurando?"
O ar brincalhão de Mari se suavizou, um traço de algo mais sério, mais urgente, surgindo em seus olhos. "Porque eu preciso da sua ajuda, gatinho. Com algo bem importante."
A mente de Kai disparava. Se o que ela dizia fosse verdade, se ele realmente possuísse essa habilidade, latente e descontrolada até então... então aquilo que parecia um sonho impossível, um fantasma torturante de esperança, talvez não fosse tão inalcançável assim.
Ele olhou para Asuka, vendo seu próprio choque refletido nos olhos dela, mas também um lampejo de força resoluta. Em seguida, voltou-se para Mari, um novo e feroz senso de determinação endurecendo seu olhar.
"Se eu posso fazer o que você diz... se eu realmente posso viajar entre realidades," disse Kai, a voz carregada de uma repentina e desesperada convicção, "então só tem uma coisa que eu vou fazer. Eu vou encontrar meu irmão."
Mari Illustrious Makinami o observou, e seu sorriso voltou, mais amplo agora, mais afiado, cheio de um propósito inesperado e compartilhado.
"Engraçado você dizer isso, gatinho," ela disse, os olhos brilhando com uma centelha de aventura e algo próximo de compreensão. "Porque é exatamente pra isso que eu preciso da sua ajuda."
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