Evangelho do Tolo
1 Calor e Dor
Calor e dor, é isso o que sinto enquanto caminho, o cheiro podre de gás sulfídrico ataca meu nariz, meus olhos estavam cobertos por uma nuvem escura de fumaça densa, meus pulmões doendo a cada sopro e a cada passo que dou à frente, meus pés queimando, a pele se misturando à borracha de meu calçado e ao tecido da meia devido à temperatura de onde caminho, transformando o que deveria proteger meus pés em mais um meio de me ferir, apoiado em mim estava um corpo pequeno, um garoto inconsciente que era dois anos mais novo do que eu, meu amado irmão, Seth.
“Isso dói, dói muito, mas eu sou a irmã mais velha, devo aguentar”, pensei. Não tentava falar, não podia cobrir a boca pois minhas mãos seguravam meu irmão, também não tentava acordar o garoto, qualquer movimento causava dor devido à fumaça em meus pulmões, tudo que eu podia fazer era seguir em frente, já estávamos perto da saída, a saída de nossa casa em chamas, nossa querida morada, transformada em um inferno pelos atos de uma única pessoa, só podia torcer por ajuda quando alcançasse a porta da frente.
O som das brasas ao redor enlouquecia meus ouvidos, a madeira queimando e sendo combustível ao fogo do inferno. “Mais um passo, e aí mais um, quase lá”, pensei. Eu já estava perto da saída, mas a dor, a dor era demais, perdi a força em minhas pernas e caí ao chão, meu querido irmão caído ao meu lado, a fumaça preenchia meus pulmões, eu estava apagando, tentei alcançar meu irmão com a mão direita enquanto meus olhos se fechavam, minha última visão sendo a carne da ponta de meus dedos envoltos em cinzas, e assim, colapsei.
O som do vento batia no vidro da janela de meu quarto e o piar dos pássaros invadia meus ouvidos, o interior escuro do céu do quarto agora era visível a meu olhar, junto a isso, meu braço direito estendido ao alto, marcas de queimaduras espalhadas por meu braço, a pele de meus dedos levemente escura, mas, intacta.
Parei para respirar por três segundos, acalmando meus pensamentos e me sentei em minha cama enquanto afastava o leve lençol, meus cabelos carmim caiam para trás enquanto eu erguia a mão esquerda a meu pescoço, agarrando de dentro de minhas vestes um pedaço gélido de metal, uma cruz dourada a qual aproximei de minha testa usando minha mão esquerda.
“Um dia a mais, eu oro a ti por proteção e orientação” — deixei então a cruz cair de minha mão e me virei à direita, meus pés sendo descobertos do lençol e tocando o chão, manchas escuras marcavam a sola de meus pés, o resultado da noite a qual me recordei.
Movi a mão direita até uma pequena cômoda ao lado da cama e agarrei um frasco alaranjado localizado ao lado de um livro de capa branca, encarei o pote e li em voz alta seu rótulo.
“Extrato de Baku, outra falha” — joguei o frasco em uma lata de lixo próxima à cama e me levantei, movi a mão direita à minha face, retirando a franja da frente de meu olho e então me movi ao banheiro do quarto, agarrando uma jaqueta preta caída no chão no meio do caminho.
Após adentrar o banheiro, joguei a jaqueta em cima da privada e me virei ao espelho, movi a mão direita até ele e o abri, revelando alguns de remédios guardados, levei alguns instantes para encontrar o que eu buscava, um colírio, o peguei e fechei o espelho.
Encarando o espelho eu movi a mão esquerda à minha face e retirei o cabelo da frente, me permitindo enxergar meu próprio rosto, meu olho direito estava normal como sempre, minha pupila estava em seu marrom natural, já meu olho esquerdo, estava cinza por completo, um suspiro escapou de meus lábios.
Usando o espelho de guia, ergui minha cabeça e posicionei o frasco de colírio acima de meu olho esquerdo, apertando o frasco liberei uma gota que caiu a meu olho, pisquei por alguns segundos e liberei uma segunda, fechei o olho esquerdo e abaixei a cabeça, abri o espelho e guardei o frasco, após isso retirei vários frascos de dentro do espelho, remédios para dormir que falharam, joguei todos no lixo, fechando o espelho em seguida.
“Desperdício de dinheiro” — murmurei enquanto agarrava a jaqueta e a vestia sobre minha camisa, a manga curta permitindo enxergar minha pele, olhei para baixo e agarrei a borda da roupa, uma mancha amarela na camisa, me xinguei mentalmente por não me trocar antes de ir dormir, fechei a jaqueta para cobrir a camisa e sai do banheiro.
Caminhei até uma poltrona ao lado da janela do quarto com uma mala em cima da mesma, a coloquei no chão e me sentei. Movi a mão direita à janela e a abri. Junto a isso, abri meu olho esquerdo, o efeito do colírio já estava em efeito, a luz do sol atingiu meu rosto enquanto eu olhei o lado de fora do quarto, à frente de onde me hospedava, uma pequena calçada existia e, logo à frente, um rio percorria um canal entre dois lados, uma canoa atravessando a água, duas pessoas sentadas na canoa enquanto uma terceira guiava.
Veneza, a cidade das águas, uma bela cidade, infelizmente não poderia aproveitar, estávamos ali a trabalho, abri a mala e peguei uma calça jeans azul, vesti-a rapidamente e me levantei, indo de imediato à saída do quarto.
Assim que abri a porta, enxerguei dois pequenos seres humanoides de argila em frente à porta, segurando juntos uma bandeja.
“Seth já fez o café da manhã pelo visto?” — perguntei aos dois pequenos golens, que confirmaram com as cabeças, peguei a bandeja e me direcionei a sala de estar, o local em que nos hospedamos era uma pequena casa de dois andares, isso por fora, por dentro era bem maior, todos os cômodos de moradia ficavam no segundo andar, o primeiro era apenas para ir e vir, ao chegar na sala um homem mais alto doque eu estava sentado em uma cadeira em frente a mesa, seu cabelo era marrom e sua pele era clara, a sua frente havia um prato marrom com dois pedaços de pão, um omelete e um pedaço de linguiça, temi por um instante o que havia em minha bandeja tampada, ainda sim, forcei um sorriso e me sentei na cadeira a frente, colocando a bandeja na mesa.
“Não precisava fazer seus golens me levarem comida, eu já estava saindo do quarto, Seth” — foi o que eu disse a ele, mas estava grata por dentro.
“Às vezes você demora muito tempo no quarto, apenas quis ser atencioso com minha irmã, por sinal, você se trocou antes de dormir?” — Ele me encarou quando fez a perguntar, tirando o foco do prato.
“Por que a pergunta?” — Falhei em tentar disfarçar, tirei a tampa cobrindo o prato, meus medos se provaram reais, dois omeletes e uma linguiça inteira, ele sempre bota mais comida no meu prato, idiota.
“Por que você está fedendo, nem sequer tomou banho ontem, não é? “O extrato deve ter funcionado” — ele sorriu enquanto falava, sempre atencioso esse meu irmão.
“Um fracasso completo, o mesmo sonho” — ignorei o comentário sobre meu cheiro, não é como se fossemos receber alguém hoje, calmamente cortei a comida com a faca e levei um pedaço à boca.
“Permita-me adivinhar” — Seth disse enquanto levava um pão à boca. “Você esqueceu que dia é hoje” — Eu o encarei, pensando por alguns instantes, não era o aniversário dele, meu ou de qualquer parente, estávamos em fevereiro.
“Espera, fevereiro...” — Pensei enquanto movi a cabeça a uma parede próxima onde tinha um calendário. Era dia treze, nada vinha à mente, voltei a mastigar a comida, um pequeno golem finalmente trouxe um pote de manteiga e botou à mesa.
“Irmã, o sétimo chega hoje, Saulo é o nome” — Seth disse isso enquanto passava manteiga em um dos pães, que eu, gentilmente, tirei da mão dele.
“Ah, sim, o nosso próximo aluno, ainda não aprenderam a não botar um jovem sob a tutela de um Batizador e de um Exorcista?” — mordi o pão ao terminar de falar — “Como você sempre faz um pão tão macio?”
“Só porque os quatro últimos morreram, não muda que os outros dois estão se saindo bem, um deles até passou a gente e virou um Cavaleiro, e o pão é segredo” — Seth era realmente um poço de calma. Ao invés de dar uma bronca por eu pegar o pão, ele apenas passou manteiga no outro.
“Aquele jovem só nos passou porque ainda não aprovaram minha promoção, e você deveria gastar menos tempo na cozinha e mais tempo estudando, já perdeu o exame de promoção uma vez” — Ao terminar de falar, movi mais um pedaço de comida à boca.
“Falando neles” — movi minha atenção a Seth novamente, mastigando com calma a comida até que o vi colocando uma pilha de cartas na mesa, jogando a do topo até o lado de meu prato, um selo vermelho com a marca de uma cruz mantendo o envelope fechado.
Larguei os talheres, peguei a carta e a abri lentamente. Um selo vermelho representava um trabalho urgente, que timing maravilhoso, a primeira aula do sétimo será uma tarefa urgente. Li a carta com calma enquanto Seth comia.
“Muito bem” — quebrei o silêncio após alguns minutos — “Dois corpos encontrados boiando no pequeno porto do antigo Forte de Malamocco, dois homens, um encontrado sem os olhos e o outro sem parte do músculo da coxa.”
“Sol, Lua e Saturno são os astros correspondentes às partes do corpo” — Seth falou e então bateu uma palma. Dois golens vieram até a mesa, um deles veio até ao meu lado e me entregou minhas botas e um distintivo, o mesmo ocorreu com Seth.
“Eu irei direto, você vai buscar o garoto e nos encontraremos no local para investigar, informarei o...” — o nome do chefe da polícia me fugiu à mente, me levantei da cadeira para ir procurar meu bloco de notas no escritório.
“Alessandro Bonanno, deveria prestar mais atenção nos nomes das pessoas, não poderá usar suas anotações em uma conversa na rua” — Seth me encarou enquanto se levantava da cadeira e tirou um celular do bolso.
“Nem todo mundo se lembra tão bem de nomes, Seth, inclusive acho estranho você lembrar” — uma péssima resposta, me sentei novamente na cadeira e vesti as botas.
“Eu devo me lembrar, afinal, você só lembra das coisas do trabalho e esquece por completo do resto, lembra quando deixou aquele macarrão queimar?” — Seth se dirigiu ao próprio quarto para se arrumar, eu não respondi, a embalagem dizia cinco minutos, mas esqueci de prestar atenção no relógio, e no macarrão.
Retornei ao meu quarto, deixando a comida na mesa para os pequenos golens limparem. No quarto, a primeira coisa que fiz foi fechar a janela do quarto e a trancar, após isso, comecei a procurar minhas luvas.
Olhei no banheiro, no armário, embaixo da cama, não encontrei nada, peguei a mala e joguei todas as roupas para fora, também não estava ali, olhei para a cama, guardei as roupas na mala para que Seth não me dê uma bronca e caminhei até a pequena cômoda ao lado da cama, olhei para o livro de capa branca.
“Seth reclama, mas se eu não ler as leis de onde vamos, eu sou um peso morto” — disse a mim mesma em pensamento, peguei o livro branco, uma cópia das leis da Itália, embaixo do livro estavam minhas luvas, peguei as luvas e guardei novamente o livro, vesti então as luvas sem dedos, encarei então minhas mãos, as marcas de queimadura nas pontas dos dedos, uma sensação de inveja direcionada a Seth invadiu minha mente por alguns momentos.
Diferente de mim, Seth não sofreu muitas queimaduras naquela noite, as poucas que sofreu foram reparáveis, dei dois tapas em meu rosto para afastar esses pensamentos e me direcionei novamente a porta aberta do quarto para sair.
Após sair do quarto, me direcionei de imediato ao escritório, havia duas pequenas mesas no centro do local, uma para mim e uma para Seth, uma virada para a outra, usamos isso para delimitar o lado de cada um dá sala, Seth ficou com a mesa mais próxima da porta e consequentemente o lado da entrada.
“Bagunceiro” — pensei, foi uma péssima ideia eu aceitar isso, o pequeno escritório estava uma bagunça no lado dele e isso atrapalhava ao entrar, grandes pedaços de argila e ferramentas caídos no chão para que ele possa fazer golens, ele também desenhou no chão um grande desenho, dez esferas interligadas em uma grande árvore, um Sefirot, uma cabeça de golem estava na esfera do topo, acho que o nome era Kether.
Em comparação, meu lado do escritório era bem organizado, havia algumas estantes na parede com poucos livros, todos sendo livros contendo as leis de diversos países, Itália, França, Inglaterra, Egito, Rússia, entre vários outros, ergui o rosto com um pouco de orgulho por não ser uma bagunça.
Me movi até minha mesa e me sentei na cadeira. A mesa tinha apenas alguns objetos em cima dela, um oposto à de Seth que estava cheia de ferramentas. A minha possuía apenas um pequeno livro preto que se tratava de uma cópia da Bíblia, um lápis, uma caneta e um telefone. Movi a mão até uma das gavetas da mesa e a abri, pegando um objeto pequeno e prateado de dentro, e o apoiei na mesa enquanto o segurava, um isqueiro.
“Encarai seus demônios para vosso espírito se fortalecer” — essas palavras retornaram a minha mente, apertei uma, duas, três vezes o gatilho do isqueiro até que o fogo se ascendeu, ergui o objeto à altura de meus olhos e fiquei encarando o fogo.
Meus olhos se focaram na chama do isqueiro, uma pequena labareda menor que meu dedo saía do objeto, ainda sim, era algo perigoso, uma pequena chama é capaz de gerar o maior dos incêndios, o calor do isqueiro se espalhava por meus dedos marcados, minha mente retornava ao sonho.
Estava uma vez mais em pé em meio ao fogo no segundo andar da casa, mas, dessa vez, era o eu de agora, e não o eu de antes. As chamas na casa queimavam e se espalhavam, movi minha mão esquerda até a garganta, era como se conseguisse sentir a fumaça daquele dia, como se eu ainda estivesse lá, comecei a andar.
Eu andei pela casa em chamas, revendo em minha memória onde morávamos, passei pelo meu quarto, a porta já estava destruída, olhei para dentro e vi minha cama reduzida a cinzas, livros infantis queimando e virando pó, voltei a andar até alcançar as escadas.
As escadas já tinham caído, olhei do alto duas crianças fugindo do fogo, era eu, o eu de antes, com doze anos de idade, carregando meu irmão Seth, ele tinha feito dez anos semana passada, nossa mãe e meu padrasto comemoramos em uma lanchonete que ele adorava.
Eu vi o eu de doze anos cair no chão junto a Seth, sua mão se estendendo até ele, fiz o mesmo sem notar e então ouvi — “Cassiel! Seth!” — um homem entrou correndo em meio às chamas, meu padrasto, seu cabelo era loiro e tinha uma pequena barba, vestia uma veste de proteção, similar à de bombeiros. Ele pegou nós dois e nos levou para fora.
“Cassiel! Cassiel!” — Por que eu ainda ouvia meu nome sendo chamado? Espera, onde eu estava mesmo?
Minha mente retornou de seu vagar, o isqueiro já não estava em minha mão, Seth o pegou e o botou apagado na mesa, estava balançando meu ombro direito enquanto repetia meu nome.
Meu primeiro impulso foi abraçar meu irmão, minhas mãos envolveram suas grandes costas, quase não conseguindo dar a volta em seu grande corpo, fechei os olhos e sorri.
“Me desculpa, eu falhei de novo” — o que se seguiu foi um tapa em meu rosto.
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