Europa
1 O Torneio e o Anel - parte 1
Notas iniciais
Era para ser mais um belo horizonte nos alpes franceses, mas as coisas andam estranhas por aqui. O céu está carmesim, as nuvens com formatos estranhos, os ventos sopram de todas as direções bagunçando o cabelo ruivo do jovem Beirut: o rapaz observa ao redor como as árvores balançam forte e fazem um barulho alto parecido com um presságio de tempestade, suas roupas estavam inquietas em seu corpo, seu cabelo não tinha mais forma, quando retornou o olhar para o céu. Não havia ninguém ou nenhuma cidade próxima, em maltrapilhos, sujo e arranhado, estava sozinho no meio do nada com tal vislumbre. Eis que um brilho, um pequeno clarão, chama sua atenção num ponto específico do céu, uma estrela? Não, não é. Apertando os olhos, não conseguia identificar aquilo, mas parecia mais intenso, mais... próximo?
[...]
30 anos depois.
[Há algumas décadas, um fragmento rochoso de formato anelar atravessou a atmosfera e caiu sem sofrer nenhum dano.
O anel que rapidamente se tornou mundialmente famoso teve sua origem comprovada da lua de Júpiter, Europa.
Logo, boatos surgiram a respeito dele:
“Ele realiza desejos”, disseram.
Coisas do tipo foram espalhadas, o anel se tornou uma lenda e então com o tempo desapareceu.
Mas não por muito tempo...
Em tempos de crise, o anel ressurge como item principal de um leilão. O preço absurdo, a promessa de poder, toda a lenda por trás desse anel criou uma corrida: Para comprá-lo, ou roubá-lo. ]
Droga, droga, droga...
O som de seus próprios passos apressados pisoteando a neve preenchia os ouvidos de Amy. Uma fina nuvem de névoa escapava por seus lábios à medida que ela arfava enquanto corria, e pequeninos flocos de neve depositavam-se no topo de seus cabelos e orelhas, aumentando ainda mais o frio que a menina sentia.
Havia sido uma idiota, e agora se xingava por isso. Ao chegar na grande capital italiana, Roma, deparou-se com fenômeno que não havia previsto: estava nevando. O frio congelava-lhe os ossos e fazia seu nariz ficar vermelho e dolorido. O que ela não daria por um chocolate quentinho? Só não esperara que o chocolate fosse demorar tanto para ficar pronto, naquela pequena cafeteria em que entrara. Enquanto esperava o chocolate, empanturrara-se de bolo como se não houvesse amanhã. E, quando sua bebida finalmente fora entregue, percebeu que estava atrasada. Como sempre. Justo no dia do torneio!
Aproximando-se do grande Coliseu, avistou uma fila de pequeno tamanho, com no máximo 20 pessoas. Era perceptível, pela quantidade de neve amassada, que a fila já havia sido maior e havia diminuído consideravelmente. Uma expressão desapontada e ansiosa preencheu sua face. Será que ela ainda tinha chance? Limitou-se a remover a fina camada de neve que havia se acumulado nos ombros de seu terno. Se não conseguisse participar por ter se atrasado, iria ser culpa de sua maldita gula. Ninguém ligaria que ela realmente precisava do dinheiro do prêmio ou quais eram seus motivos. “É assim que as coisas funcionam”, dizia vagamente uma voz em sua memória.
Quando finalmente a chamaram para adentrar o recinto, Amy pagou a taxa de inscrição com uma infinidade de pequenas moedinhas que apanhara de seu bolso. O funcionário que recebera a quantia ficou satisfeito com a grande quantidade de troco que conseguira, e, ao ver a expressão aflita no rosto de Amy, aproximou-se e sussurrou de maneira que só ela pôde ouvir: — Não se preocupe. Ainda não acabaram as vagas.
E apontou para dentro do coliseu com o polegar.
Um sorriso esperançoso preencheu o rosto da menina, e ela agradeceu antes de entrar. Então ainda havia chance! Percebeu que o lugar começava a se metamorfosear conforme ela ia andando, os paralelepípedos da rua e da entrada dando lugar a grandes pedregulhos brancos. O lugar tinha um aspecto sinistro.
Ao adentrar uma sala, deparou-se com dois indivíduos que lhe entregaram um pedaço de papel. Amy reparou que os dois a olhavam com expressões muito sérias e um tanto intimidadoras.
De repente, a menina sentiu várias partes de seu corpo serem pressionadas ao mesmo tempo, como se estivesse amarrada por cordas. Os olhares dos dois adultos mudaram para expressões satisfeitas quando viram a aura multicolorida fluir dos poros de Amy e envolver o pedaço de papel, amassando-o e deformando-o em uma bolinha.
— Parabéns, você foi qualificada. — disse um dos examinadores.
Amy sorria com alívio, embora precisasse admitir que não entendera bem o que havia acontecido ali. O papel de alguma forma havia ativado sua aura sem seu consentimento, e, no geral, o teste parecia ter sido muito fácil. Estranho.
“Muita gente deve ter passado...”, pensou Amy enquanto era guiada pela examinadora até um outro local.
Para sua surpresa, havia pouco mais de uma dúzia de participantes. Uma expressão intrigada tomou seu rosto enquanto analisava cada um. Não havia apenas concorrentes humanos; isso já era esperado. Mas por que tão poucos candidatos haviam sido qualificados? Até onde Amy sabia, todo ser vivo tem um pouquinho de aura em si; só é preciso treinar pra conseguir controlá-la. Era surpreendente que tão poucos se dedicassem a esse propósito.
Ao entrar no recinto, reparou que havia uma espécie de palco à frente da sala, seguido por fileiras de bancos, como uma espécie de auditório. Alguns participantes estavam sentados, e alguns esperavam de pé. Alguns perambulavam pelo local, explorando-o. Amy, por ter corrido até ali, decidiu se sentar um pouco para acalmar os nervos. Sentou-se no lugar mais próximo de onde havia entrado, ao lado de um garoto de olhos verdes de idade aparente próxima à sua, dezesseis anos. Amy abriu um sorriso amigável e tentou socializar.
— Oi! Meu nome é Amy. Qual o seu?
Percebeu olhares estranhos e desconfiados vindos de outros candidatos. Talvez fosse suspeito tentar ser amigável com seus concorrentes logo após chegar, mas Amy nem chegou a pensar nisso. Só imaginou que fazer amigos ali também seria divertido.
— Olá... — respondeu com uma voz baixa alongando a entonação da palavra, claramente tímido. — Me chamo Bern — apresentou-se sem saber muito que deveria dizer, não lhe vinha em mente nenhum assunto, não que não tivesse o que falar, era apenas muito acanhado ainda mais levando em conta a atual situação. — Teu sotaque é diferente, tu é francesa?
— Prazer em conhecê-lo! — disse Amy, após o jovem à sua frente se apresentar. Ao ouvir o comentário, uma expressão levemente surpresa tomou seu rosto. — Sim, sou sim... eu não sabia que meu sotaque era perceptível. — disse, rindo. — Você tem um leve sotaque alemão, não tem? Legal ver outro estrangeiro por aqui.
Ao perceber que havia deixado o garoto um tanto desconfortável, ela disse, com um sorriso meio aflito: — Desculpe se te incomodei. É que, como nunca vi ninguém por aqui, fico um pouco ansiosa, e conversar me acalma. Você parece ter a mesma idade que eu, então... bem, espero que não se importe.
— A...Ah...! Não, de forma alguma incomodou, eu só não sou muito bom em lidar com outras pessoas, desculpa se pareço muito estranho! — disse Bern enquanto estava vermelho como um tomate.
Amy abriu um sorriso um tanto aliviado.
— Ei, não se preocupe com isso! Todo mundo é um pouco estranho da sua própria maneira, não é? — disse, ainda sorrindo. — Imagina que horrível seria se fôssemos todos iguais. Não há nada de errado contigo.
De repente, um cheiro agradabilíssimo atingiu em cheio as narinas de Amy, fazendo a menina virar o pescoço em alta velocidade para olhar para trás.
Atrás dos dois, um menino de pele escura e olhos azuis trazia nas mãos um generoso prato de comida. Ao vislumbrar a cena, os olhos de Amy brilharam muito perceptivelmente.
— Erm... com licença... — disse ela, tomada pela visão da comida em sua frente e tentando conseguir a atenção do rapaz. — Essas batatas parecem deliciosas. Você poderia me dar uma? E ao meu amigo, também? Por favor! — implorou ela diante das batatas douradas.
— A... Amigo...? — repetiu surpreso a palavra, ainda mais corado, com a garota que acabara de conhecer. Bern não conseguia demonstrar o quão feliz estava, mesmo tão repentino.
— ... Hã? — o garoto de olhos azuis, que parecia estar perdido em seus pensamentos, retornou à realidade com o pedido da pequena Amy. Ele levanta a cabeça, uma batata mordida na ponta do seu garfo e um pouco de molho manchando os cantos de sua boca. — Batata? — ele olha para o próprio prato. Ela queria sua comida? Mas tinha uma cozinha logo atrás... Ah, que mal faz? — É, é... Tudo bem, pode ser. — ele levanta o prato do colo e oferece para a jovem.
Abruptamente, uma mulher de cabelos escuros e longos com um óculos escuros chamativos e um forte batom vermelho, que só não era mais belo que seu longo vestido negro colado no corpo, surgiu num palco em frente a todos os candidatos junto de um homem com boina e suspensório que aparentava os seus cinquenta anos em plena forma física, ele carregava em suas costas uma espécie de mochila improvisada com algo grande dentro. Eram os dois indivíduos de mais cedo que realizaram o estranho teste com o papelzinho.
— Parabéns pela aprovação, bem vindos gladiadores — disse a mulher. — Me chamo Giorgia Bolzonaro, este senhor ao meu lado se chama Geppetto, somos os jurados e organizadores do evento. Como vocês sabem, o mundo está passando por uma grave crise econômica, fomos escolhidos pelo governo italiano para este evento com o intuito de movimentar a economia com um prêmio bastante ousado de três milhões de euros. Este é o nosso propósito. Hoje à noite, às 20h ocorrerá a cerimônia de abertura, os ingressos já estão à venda, como participantes estarão lá gratuitamente, logo após, acontecerá o primeiro combate. Alguma pergunta?
A mulher foi breve nas explicações, eles não imaginavam o quão grande este torneio seria, e ainda não imaginam, pessoas intimidadoras de todos os cantos do mundo estavam ali, o mundo está de olho neste torneio e desafios gigantescos os esperam.
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