Shaka POV

Era interessante observar o microcosmo do Santuário. Pessoas que já passaram por coisas inimagináveis juntas porém tão diferentes. Diversas culturas, tantas influências diferentes, entretanto reunidas sob uma mesma bandeira. Muitos, como eu e ele acabaram tornando esta amizade mais profunda, transformando-a em amor. Apesar de não ser um amor convencional – mas o que era convencional entre nós? – era abençoado por nossa deusa e por nossos amigos. Não que isso me importasse muito, sempre fui um tanto anti-social e auto-suficiente, somente ele e sua calma constante, seus modos contidos conseguiram quebrar minha barreira natural. Hoje sei que ele não é tão calmo assim. Por baixo de toda aquela aparência de calma, sabedoria, justiça esconde-se um fogo avassalador.

Sei que para todos somos um casal perfeito. Em parte isso é verdade. Temos os mesmos gostos, nos adequamos, conseguimos ficar horas apenas conversando sob a bela luz da lua, mas o que poucos sabem é o gênio terrível daquele ariano, que não fica muito atrás do meu não. Mas a doçura dele compensa seus momentos de "fúria". A nossa última grande briga foi no mínimo interessante. Melhor ainda foi a reconciliação – só de me lembrar dela me dá uma certa vontade de brigar com ele novamente.

— Mu, você vai consertar armaduras hoje?

— Não. Estou completamente sem paciência para trabalhar. Estava pensando em dar uma volta, passear um pouco, quem sabe um piquenique. Você quer ir comigo?

— Não estou me sentido muito bem. Vá. Divirta-se.

— Ta bom. Estou indo. Você nunca está bem mesmo para fazer as coisas comigo.

— Não vai começar agora, vai? EU NÃO ESTOU me sentindo bem. Será que pode respeitar isso? Somos humanos também, você sabia? Além do mais você me conhece bem, sabe que não sou um grande apreciador desses passeios que acabam virando reuniões sociais. Pode ir. Eu nunca te impediria de fazer algo que queira.

— Mas nunca quer estar comigo. Eu estou sempre sozinho, sempre inventando desculpas para justificar a sua ausência. Você é um grande egoísta Shaka.

— Sou mesmo um grande egoísta? E você? Olhe para si mesmo! Não passa de uma criança mimada! Vá Mu! Deixe-me em paz! Essas discussões nunca levam a nada. Não está satisfeito com nosso relacionamento? Vá!

— É isso mesmo que quer? Quer mesmo que eu vá? Não te entendo, Shaka! Estou sempre disposto a fazer suas vontades, a ceder em prol dos seus desejos e, quando por um momento eu me expresso e cobro algo você simplesmente me manda embora!

— Eu não estou te mandando embora. Apenas não quero alongar este tipo de discussão tola.

— Quer dizer que meus desejos e necessidades são tolos? Estou indo, não sei quando e se volto, Shaka. Quando você quiser descer do pedestal e conversar, quem sabe? Só não demore muito, pode ser tarde demais.

— Quer deixar de ser mimado, seu carneiro genioso. Você quer conversar sobre suas necessidades sou todo ouvidos.

— Chega. Você vai escutar mas não vai ouvir mesmo. Não pretendo gastar meu latim com palavras que não farão diferença. E carneiro genioso é o cassete. Adeus Shaka.

Mu virou as costas e me deixou sem entender o porquê daquela cena e daquela discussão toda. Será que eu estava mesmo sendo tão egoísta? Passei a me entregar a meus próprios pensamentos. Comecei a repensar, sozinho, o nosso relacionamento todo e não pude deixar de dar a ele um pouco de razão. Não sei quanto tempo passei nesta reflexão. Está certo que admitir para mim mesmo que ele estava certo já estava sendo torturante, admitir pra ele, estava, pelo menos naquele momento fora de cogitação. Ele também precisava deixar de ser tão mimado e de levar tudo a ferro e fogo. Eu, desta vez, realmente não estava me sentindo bem. Resolvi fazer um chá para mim, de alguma maneira precisava me livrar daquele mal estar. Quando meu estômago parasse de parecer um laço de fitas eu pensaria numa maneira de conversar com aquele cabeça dura.

Quando estava me dirigindo a cozinha, senti uma tontura muito forte, tudo ficou escuro e o chão fugiu dos meus pés. Eu havia desmaiado. Pela primeira vez em minha vida eu havia desmaiado. Não tive tempo de pensar em nada, de fazer nada a não ser cair e chamar baixinho pelo nome dele.

— X — X — X -

Mu POV

Eu estava cansado. Andava trabalhando como um louco. Esses novos cavaleiros de prata estavam triturando as pobres armaduras e o otário aqui que se virasse para consertar. Esses consertos me esgotavam. Eu precisava de qualquer maneira esfriar a cabeça, queria a companhia dele, que me fazia tão bem, mas ele nunca estava atento as minhas necessidades. Que saco! Eu já havia perdido a minha paciência. Ta certo que não tenho mesmo muita paciência, por mais que possa parecer o contrário. Sei que meu gênio forte muitas vezes explodia por besteiras, mas pra mim não eram besteiras. Sai da casa dele, depois de uma discussão dura, chutando pedras pelas escadas. Sempre disseram que virginianos e arianos juntos não davam muito certo, será que eles estavam com alguma razão?

Encontrei Afrodite sentado sob a sombra de uma árvore com um livro nas mãos. Fiquei meio curioso – outra faceta da minha personalidade que tento controlar a todo custo – e fui me sentar a seu lado.

— Cruzes Mu, que cara de enterro!

— Hoje não está sendo um dos meus melhores dias.

— Brigou com a Barbie Loura?

— Está tão óbvio assim?

— Você está transpirando agressividade para todos os lados. Parece uma bomba pronta para explodir a qualquer momento. Normalmente só uma briga com o amor causa esse tipo de coisa. Principalmente em pessoas como você.

— Dessa vez não sei se terá volta.

— Deixe de tolice. Eu sempre digo que não volto para o Carlo e sempre acabamos fazendo as pazes, mais dia menos dia. Um amor não acaba em uma briga.

— Mas não é apenas uma briga. Estamos nos desgastando.

— Então, será que não é hora de conversar?

— Eu bem que gostaria, mas Shaka é tão... tão...

— Seco?

— Não. Egoísta, soberbo, sedutor, inteligente...

Afrodite começou a rir escandalosamente como só mesmo um viado sabe fazer.

— Pode tratar de voltar lá e fazer as pazes com a Barbie Loura! Será que você é tão tolo que não percebe que é completamente louco por esse homem?

— Eu sei. Só não estou pronto para voltar lá agora. Ele também tem que me dar um pouco de valor. Assim já está demais.

— Carneiro genioso!

— Até você! Droga, isso é um complô contra mim?

— Como assim?

— Shaka disse exatamente o que você acabou de dizer.

— É apenas a mais pura expressão da verdade.

Nesse momento sinto algo estranho, como se uma faca atravessasse meu peito. Sinto uma dor física. Coloco as mãos sobre o peito e me curvo.

— Mu, Mu, o que está acontecendo?

— Não sei... – sinto dificuldades em respirar e falar. A dor era muito forte – u-u-ma dor...

Afrodite me pega no colo.

— Preciso te levar ao médico. Você está muito estranho.

— Não. Creio que já vai passar. Por favor me ajude a chegar em casa.

— Você tem certeza?

— Sim.

— Vou te levar até Shaka, ele saberá como cuidar de você.

— Não! Não!

— Shaka ou o médico. Pode escolher!

Eu não estava com muita condição de discutir. Ele me mandou escolher entre a cruz e a espada. Eu odeio médicos. Não estou acostumado a ser tratado com remédios. Realmente, naquele momento, se alguém poderia me ajudar, esse alguém seria Shaka.

— Ta bom seu peixe tratante. Com as escolhas que me deu, eu prefiro Shaka.

— Garoto de bom senso. Vamos.

— X — X — X -

Afrodite POV

Eu estava calmamente lendo meu livrinho – um romance tolo qualquer – debaixo de uma frondosa árvore. Aguardava meu querido Carlo voltar da cidade. Ele havia saído para fazer algumas compras, mas eu não quis ir. O sol estava forte e apesar de sempre andar com protetor solar, a minha pele reclamava demais com a exposição demasiada ao sol. Se eu puder evitar, eu evito.

Senti o cosmo furioso de Mu se aproximando. Ele só podia ter brigado com a Barbie Loura. Casal estranho esse. Eles são perfeitos juntos, foram feitos um para o outro, mas ao mesmo tempo são tão diferentes. Coisas do Santuário. Nunca os vi discutir, brigar, ou qualquer coisa do gênero. Ou são muito discretos – o que eu acredito – ou realmente nunca brigavam. De qualquer forma nunca havia sentido o cosmo de Mu furioso daquele jeito. A coisa devia ter sido feia mesmo. Não pude deixar gostar de saber disto. Os "anjos" do Santuário são pessoas normais como qualquer um de nós. Ele sentou-se a meu lado e começou a conversar.

Em pouco tempo fiquei sabendo mais sobre os dois do que soubera desde que eles estavam juntos. Mu estava realmente furioso, sua faceta ariana estava mais aparente que nunca. Era muito interessante vê-lo assim. Mas por baixo da revolta e da raiva pude perceber o quanto ele amava a Barbie Loura. Loucura! Tentava convencê-lo a voltar lá e fazer as pazes quando ele começou a passar mal de repente. Me desesperei. O peguei no colo e estava pronto para levá-lo ao médico do Santuário quando ele me pediu que não o fizesse. Resolvi então levá-lo para Shaka, ele saberia o que fazer com o ariano teimoso.

Comecei a subir as escadas correndo com ele no colo. Quando entrei em Virgem, encontrei Shaka caído no chão desmaiado. Agora a bicha aqui realmente ficou desesperada. Coloquei Mu sobre o sofá e fui socorrer Shaka. Vi que havia um pouco de sangue perto de sua cabeça. Ele deveria ter se machucado ao cair. Mu quando viu Shaka caído se levantou do sofá e foi ao nosso encontro. Como por um milagre ele parecia completamente bom. Será que a dor que sentira tinha relação com o desmaio de Shaka? Eles realmente eram um.

— X — X — X -

Mu POV

Quando vi Shaka caído no chão a dor que eu sentia passou como por encanto. Acho que eu estava sentindo o sofrimento dele. Então Shaka estava realmente passando mal, não havia sido desculpa. Como eu fora tolo! Brigara com meu amor sem razão nenhuma. Deveria tê-lo ouvido, mas aquele orgulhoso fora incapaz de dizer o que realmente estava sentindo. Eu não tinha como saber. Quer dizer, creio que até tivesse caso parasse de olhar para meu próprio umbigo. Eu o havia acusado de egoísmo, mas quem fora realmente egoísta fora eu.

— Shaka!

O peguei no colo e minhas mãos se sujaram com seu sangue. Fiquei desesperado. Sabia que ele não estava morto. Podia sentir sua respiração, irregular e fraca, mas mesmo assim era um sinal de vida.

— Afrodite, pelo amor dos deuses, vá buscar um médico, Athena, qualquer um que possa me ajudar.

— Calma biba, ficar assim não vai resolver o problema. Você está bem?

— Sim! Vá Afrodite! Vou levá-lo para cama e tentar parar este sangramento.

— Já vou, já fui!

Afrodite saiu correndo em busca de ajuda. Peguei Shaka em meu colo com todo carinho e o coloquei sobre nossa cama, localizei o corte em sua cabeça e vi que não fora grande nem sério. Respirei mais aliviado. Peguei um pano úmido e comecei a limpar o sangue seco para ver melhor o ferimento. O sangramento já havia estancado. Tudo bem. O que realmente me preocupava era o fato dele não acordar. Já estava desmaiado por um longo tempo. Sua pele estava quente, provavelmente ele deveria estar com febre.

Peguei uma outra toalha úmida e comecei a tentar esfriar sua fronte. Orava mentalmente para todos os deuses que eu conhecia pedindo que nada de ruim acontecesse com ele. Ele não acordava. Meu desespero aumentava progressivamente com o passar do tempo. Cadê a merda da ajuda que Afrodite fora buscar? Mal acabei de me questionar acerca da ajuda, Afrodite entrou com Aiória, Athena e um vidro de perfume nas mãos.

— Ele ainda não acordou?

— Não.

— Tente isso.

Ele me estendeu o vidro. Abri e comecei a passar o vidro sob o nariz de Shaka. Era uma fragrância forte e adocicada, completamente diferente dos perfumes que costumávamos usar. Quase que imediatamente Shaka começou a tossir e balbuciar algumas palavras desconexas. Fechei o vidro e devolvi a Afrodite.

— Shaka! Pode me ouvir? Me entender?

— Mu... O que aconteceu?

— Você esteve desmaiado por um longo tempo.

— Estou me sentido tão estranho...

Saori sentou-se ao lado de Shaka e elevou seu cosmo. Aos poucos ele foi relaxando e adormeceu.

— Mu ele adormeceu. Não sei o que pode ter acontecido, mas é melhor que ele descanse. Vele por seu sono para que a febre não aumente. Quando ele acordar caso não esteja melhor leve-o ao médico. Fui clara?

— Sim. Obrigado Saori. Cuidarei dele.

— Alimente-o, Shaka parece estar muito fraco.

— Farei isso.

Enquanto Shaka ainda dormia fui à cozinha preparei um chá e uma forte sopa de legumes. Ele havia ficado meditando por dias seguidos, talvez sua fraqueza adviesse disso. Algumas horas depois ele acordou.

— Mu...

— Shhhh. Está se sentindo melhor?

— Sim. Eu queria te pedir desculpas...

— Shhh. Fique quieto. Já esqueci tudo seu tolo. Espero que possa esquecer também. Quando você estiver totalmente recuperado nós conversamos. Creio que você precisa comer. Vou buscar algo.

— Eu não estou com fome.

— Shaka, pensa que não vi que já faz algum tempo que está de jejum?

— Não tenho fome... Estou tão enjoado... Acho que vou...

Shaka não teve nem tempo de acabar de falar, virou para o lado e quase vomitou, quase porque não tinha nada em seu estômago, saiu apenas um pouco de bílis. O que estaria acontecendo com ele? O levei até o banheiro, lavei seu rosto, o ajudei a colocar uma túnica limpa e o levei de volta para cama. Estava ficando realmente preocupado com ele. Preparei um chá de boldo e um pouco de soro caseiro, tinha medo que ele desidratasse. Ele bebeu o chá com cara de poucos amigos e depois o soro. Conseguiu segurar a bebida em seu estômago por alguns poucos minutos, mas logo voltou a vomitar. O levaria ao médico do Santuário tão logo amanhecesse, não sabia mais o que fazer com ele. A noite estava sendo um inferno. Já havia esquecido meu cansaço, meu aborrecimento e qualquer outra coisa, tudo substituído pela preocupação, pelo medo de perdê-lo novamente. O dia seguinte seria muito longo...