Eu te odeio, Midorima Shintarou

9 Plumas azuis e balas de limão


Notas iniciais
Mais umm~ Esse é uma pausa no sofrimento. Chega, né. Hahaha Um pouquinho de respiro pros nosso herois! Espero que gostem. Boa leitura! ♥

Os primeiros horários se passaram sem que Midorima percebesse. Ele sabia que os professores estavam falando coisas importantes, então abriu seu caderno e escreveu palavra por palavra, sem que nada realmente se registrasse em seu cérebro. Ele poderia estudar depois.

No intervalo entre a troca de professores, o som do rádio ecoando do telefone de Takao preencheu o silêncio que Midorima nem percebera reinar entre eles. Ah, sim, pensou. Eu não disse nada nas últimas duas horas. Ele focou nas palavras sendo ditas pelo locutor.

“…o ranking de hoje. Em décimo lugar, Câncer! Grandes turbulências no caminho, então não saia da zona de conforto…”

Midorima se endireitou e olhou para Takao. Ocorreu-lhe que talvez seu amigo estivesse colocando Oha-asa para tentar animá-lo. No entanto, infelizmente para Takao, o signo de Midorima estava péssimo hoje. Não que devesse ser surpresa, pensou ele.

Ao ver que ligar o Oha-asa não tinha sido uma ideia tão boa assim, Takao começou a murmurar palavrões e mexer no celular furiosamente, tentando desligar o rádio, o que só fez com que Midorima sentisse uma súbita e ligeira vontade de sorrir. Enquanto Takao tentava, sem sucesso, silenciar o aparelho, o radiologista continuava:

… O item da sorte de hoje para Câncer é: uma pena azul. Trate de consegui-la, canceriano, você vai precisar!

Takao apertou o botão de bloqueio, efetivamente silenciando a voz do rádio. Ele então olhou para cima, encontrando o olhar de Midorima, e abriu um sorriso sem graça.

Midorima o encarou. A luz da janela da sala de aula passava pelo vidro e iluminava o rosto de Takao. Sua pele pálida contrastava com os cabelos pretos, e a luz acendia a cor azul das íris de Takao. Midorima sempre achara que ele tinha olhos bonitos. Combinavam com sua energia animada, e isso ficava ainda mais claro quando Takao fazia uma de suas piadas e seu sorriso se refletia naqueles olhos azuis e acesos. Ele parecia quase brilhar. Midorima jamais possuíra o magnetismo social que seu amigo parecia esbanjar. Era como se fazer amizades fosse uma segunda natureza para ele. Takao conseguia conquistar um completo estranho apenas por estar no mesmo ponto de ônibus que ele por 10 minutos.

Midorima era o completo oposto.

Desde sua infância, Takao havia sido seu mais próximo amigo, e as únicas outras pessoas que o toleravam e pareciam se importar com ele eram os ex-membros da Geração dos Milagres. Claro, Midorima se importava com eles também (talvez com exceção de Kise Ryouta, pensou amargamente). Ele supunha que, desde seus tempos em Teiko, ele era mais do tipo temido e respeitado. As pessoas pareciam vê-lo fazer arremessos de 3 pontos e interpretá-lo como uma figura calculada e comedida.

Como um homem deve ser, dizia a voz de Kenzo em sua cabeça.

Midorima franziu o cenho em desgosto.

Olhando para o semblante inseguro e nervoso de Takao, sua raiva suavizou.

— Desculpe, Shin-chan. Não sabia que o ranking ia ser tão ruim.

Neste exato momento, olhar para Takao tentando animá-lo e pedindo desculpas pelo fracasso fez algo quentinho se desenrolar no peito de Midorima. Ele se viu falando pela primeira vez naquela manhã:

— Não é sua culpa.

Midorima sustentou o olhar de Takao. Um segundo se passou sem que nenhum quebrasse o contato visual e Takao abriu a boca, parecendo à beira de dizer algo. Ele vai me perguntar se está tudo bem, pensou Midorima. Honestamente, Midorima gostaria de fingir que nada aconteceu. Ignorar a existência das últimas horas de sua vida.

O café da manhã na casa Midorima não havia sido em conjunto. Sua mãe havia ficado na cama, Midorima nem mesmo a vira antes de sair de casa. Seu pai não estivera lá quando ele acordou. Sem fome, Midorima forçou uma banana e uma torrada em seu estômago e tomou um copo d’água.

Como poderia dizer isso a Takao?

Estou bem. Meu pai não é quem eu pensei que fosse, minha família está se desfazendo e eu posso apenas assistir. E você, como vai?

Felizmente, o que quer que se eu amigo fosse dizer foi interrompido pelo som de passos na sala de aula e uma pasta pesada sendo colocada na mesa da frente.

— Muito bem, abram seus livros na página 43.

Midorima suspirou aliviado e virou-se para frente.

Ok, onde diabos Takao encontraria uma pena azul?

Ele gostaria de marchar até a estação de rádio e dizer em alto e bom som para aquele locutor onde ele poderia enfiar a droga da pena azul…

Midorima estava péssimo. Takao nunca o vira assim.

Mesmo na derrota contra Rakuzan, o time de Akashi, Midorima não havia ficado assim, tão mal. Ele havia chorado, claro. O time inteiro estava em lágrimas. O vestiário ficara em silêncio enquanto todos se trocavam, repassando o jogo em suas mentes e tentando pensar no que poderiam ter feito diferente. Midorima, no entanto, havia tomado a derrota como pessoal. Naquela noite, Takao o flagrara entrando no ginásio da escola e treinando até mais tarde, independente de suas constantes súplicas para que ele fosse pra casa descansar, pelo amor de Deus. Midorima apenas o ignorara. Mas Takao não saíra de seu lado, até que um zelador um tanto irritado os expulsou aos xingos.

Mesmo naquela época, Midorima ainda respondia quando Takao falava com ele.

O Midorima sentado à sua frente agora nem mesmo se movia.

O que o levava à pergunta inicial: onde diabos achar uma pena azul. Se Midorima tivesse seu item da sorte para o dia, talvez se sentisse um pouco menos mal. E Takao faria tudo o que estivesse em seu alcance para tentar aliviar nem que fosse 10% daquela expressão estoica inquietante.

Quando o professor de matemática começou um segundo tópico que Takao não conseguiria nomear para salvar sua vida, lhe veio em mente a loja de conveniências no quarteirão da escola. Um sorriso iluminou seu rosto.

O som do sinal do intervalo tocou, e Midorima suspirou. Ele se perguntou se sua mãe já teria saído da cama a essa hora. Perguntou-se também onde estaria Kenzo. Não sabia se seu pai voltaria para casa hoje. Não sabia nem mesmo se queria voltar. O que ele diria para sua mãe no jantar? E se ela chorasse de novo, Midorima deveria apenas ficar ali e esperar até que ela se acalmasse? Ele encarou a parede da sala de aula, tentando organizar seus pensamentos.

Uma mão em seu ombro o despertou de seus devaneios.

— Vamos, Shin-chan. O sinal já tocou. Você não vai almoçar a mochila, vai?

Midorima olhou-o, sem dizer palavra. Lentamente, levantou-se e se pôs ao lado de Takao, os dois andando até a cantina do pátio em calmo silêncio. Isto é, Midorima em silêncio e Takao nervosamente se mexendo ao seu lado. Ele parecia não saber o que fazer com suas mãos. Coçava a nuca, tirava poeira das calças. Midorima sabia que seu silêncio o estava tirando do sério. Mas não sabia o que dizer. Takao pareceu pensar o mesmo. Midorima viu pelo canto do olho quando o rosto do moreno se iluminou antes dele quebrar o silêncio.

— Shin-chan, preciso que você vá comigo até um lugar.

Midorima ajeitou seus óculos.

— Temos 30 minutos para comer e voltar à sala de aula, Takao. Eu dificilmente acredito que teremos tempo para ir a tal lugar e retornar.

Takao abriu um sorriso de lado.

— Com estas pernas malhadas aqui, Shin-chan? Nós imos e voltamos em 10. Ainda sobram 20 pra almoçar. — para ilustrar suas palavras, ele levantou um dos joelhos e deu um tapa sonoro em sua coxa. Midorima soltou um suspiro em escárnio. Ao menos ele estava fazendo piadas de novo.

— Bom, essas pernas malhadas, como você diz, não foram rápidas o suficiente para marcar Kagami no último amistoso contra Seirin, se me lembro bem.

Takao ergueu as sobrancelhas, surpreso com a réplica.

— Bom, isso é porque eu confiei no mestre das cestas. Afinal, como você disse... — Num movimento rápido, ele estendeu a mão e puxou os óculos do rosto de Midorima, antes que ele pudesse reagir.

— Ei…

Colocando os óculos, Takao imitou a expressão séria de Midorima, ajeitando-os com os dedos da mesma forma que ele costumava fazer.

— “Seja 10 mil ou 100 milhões de vezes… eu sempre acerto minhas cestas” — imitou ele, numa inflexão perfeita da voz de seu amigo.

Midorima enrubesceu.

— Takao! — disse ele, incapaz de formular uma resposta melhor, enquanto Takao ria descontroladamente. Alguns alunos no corredor os observaram, segurando risadas.

— Ah, cara, você é demais. Nem acredito que você disse isso. 100 milhões é muita coisa! — Takao arfou, segurando o que restou da risada e colocando os óculos de volta no rosto vermelho de Midorima.

— Bom, boa sorte na sua jornada solitária ao misterioso lugar que você mencionou. — emburrou Midorima.

— Shin-chaaan! Não seja assim! — reclamou o moreno, parando de rir imediatamente e puxando a manga da blusa de Midorima, que reprimiu um sorriso triunfante. Quem está rindo agora? — Vou fazer valer o seu tempo, prometo.

Midorima suspirou. Parte de si queria almoçar sozinho e remoer seus pensamentos, mas ele tinha que admitir, era bom ter Takao para distraí-lo. Ele não tinha certeza se queria se desvencilhar da mão de seu amigo em sua manga.

— É bom que valha mesmo. — bufou.

Takao sorriu.

O sino da porta da loja soou quando Takao empurrou-a, murmurando um pedido de licença ao entrar. Midorima, com seus gloriosos 1,95m, lançava sombras sobre ele em suas costas. Takao olhou ao seu redor, passando por entre as estantes. Ele usou seu olho de águia para procurar um relance de cor nas prateleiras.

— Cereais… Decoração… Higiene! — murmurou para si mesmo, enquanto um confuso Midorima o seguia.

Takao entrou na sessão designada e olhou em volta. Ahá!

Seus olhos pousaram em um espanador arco-íris, e ele imediatamente pegou o item, levando-o para o caixa apressadamente. Midorima o acompanhava distraído, olhando os preços à sua volta. Takao ficou grato por isso. Talvez ele ainda conseguiria manter parte da surpresa.

— O total fica em 323 ienes, querido. — a senhorinha do caixa anunciou, colocando a mercadoria numa sacola de plástico.

— Obrigado. — Takao pegou-a das mãos dela, e olhou por cima dos ombros da mulher. — Você pode pegar uma daquelas ali também? — disse ele, apontando para um pacote de balas de limão.

A senhora obedeceu e acrescentou o item à sacola. Takao deixou o dinheiro sobre a mesa, agradecendo. Ele virou-se para trás e olhou para seu amigo, a cabeça verde de Midorima se sobressaindo à altura das estantes como uma boia sinalizadora em meio ao mar aberto. Takao sorriu com o pensamento.

— Shin-chan, vamos indo!

Midorima olhou-o, aparentemente despertando de seu mundo de pensamentos. Acenou com a cabeça e seguiu Takao para fora da loja.

A pedido de Takao, os dois se sentaram sobre a baixa mureta do jardim lateral da loja, Midorima observando-o curioso. Takao pegou primeiro a bala de limão e abriu-a, despejando algumas em sua mão e oferecendo o pacote para Midorima em seguida. O amigo estendeu a mão, como era de costume, e ele despejou mais algumas.

Takao sentiu uma sensação gostosa no peito pela familiaridade do momento. Ao longo dos anos, ele sempre dividia suas balas com Midorima, limão sendo o sabor favorito dos dois.

Enquanto Midorima mascava distraído, Takao abriu sua mochila e tirou de lá uma tesoura. Abrindo a sacola de compras, ele pegou o espanador e, com cuidado, cortou uma das plumas da região azul, guardando o espanador e a tesoura em seguida. Ele viu quando Midorima virou-se para ele e absorveu o significado da pluma segurada nos dedos de Takao, suas sobrancelhas esverdeadas erguendo-se em surpresa. Takao sorriu.

— Você parecia precisar disto. Sei que não é ideal, mas deve servir. — disse ele.

Midorima encarou a pluma, depois Takao. Ele permaneceu alguns segundos em silêncio, e Takao sentiu um nó nervoso na garganta. Será que ele não gostou porque tecnicamente é uma pluma e não uma pena? Talvez tenha sido uma ideia estúpida.

Como se lesse seus pensamentos, Midorima o encarou:

— Isso não é uma pena, Bakao.

Takao engoliu em seco e olhou para o chão, tentando não se abalar. Começou a baixar a mão, pretendendo guardá-la na mochila e fingir que aquilo nunca tinha acontecido, quando Midorima interrompeu-o colocando sua mão em cima da de Takao. Quando ele olhou para cima, os olhos de Midorima o encaravam, e Takao sentiu o calor das íris esverdeadas penetrando sua alma e fazendo-o sentir borboletas no estômago. E então, Midorima sorriu. Era menos um sorriso e mais um sutil levantar dos cantos dos lábios, mas para Takao, valia ouro. E meu deus, como Midorima ficava bonito sorrindo.

— Obrigado. — disse ele, sem nunca desviar os olhos dos de Takao. Sua mão ainda estava segurando a dele, e Takao sentiu sua temperatura corporal lentamente subindo. Midorima provavelmente sentiria o suor de suas mãos em pouco tempo. Ele engoliu em seco de novo e seu coração começou a acelerar. Midorima ainda não soltara sua mão.

— Uh… de nada. — retrucou, a voz distante. A intensidade do olhar de Midorima estava fazendo seus joelhos trêmulos. Mais um segundo se passou sem que eles se movessem. E então, algo pareceu passar por trás dos olhos verdes de seu amigo.

Subitamente, Midorima soltou-o, pegando a pluma e puxando-a da mão de Takao.

O moreno sentiu como se um balde d’água tivesse sido derramado em sua cabeça. Ele olhou para Midorima, que já havia virado o corpo na direção da mochila para guardar seu item da sorte. Bom, é agora ou nunca, pensou.

— Shin-chan, está tudo bem? Você estava estranho desde hoje de manhã.

As costas de Midorima ficaram tensas.

— Eu… fiz alguma coisa? — continuou Takao.

Midorima virou-se imediatamente para ele.

— Não! — sua voz soou, urgente. Takao se surpreendeu. Midorima suspirou, relaxando. — Não… você é um ótimo amigo, Takao. Obrigado. É só…

Takao esperou, pacientemente. Midorima respirou fundo, olhando fixamente para frente.

— Eu contei à minha mãe.

Takao ficou em choque.

— Você contou…

— É. Disse a ela com todas as letras.

Ah. Pensou Takao. Isso explica tudo.

Takao olhou para seu amigo, sentindo uma pontada de dor e compaixão. A casa Midorima devia estar num clima horrível.

— Isso foi hoje de manhã?

Midorima negou com a cabeça, seu olhar fixo num ponto distante. Ele estava de lado, e portanto não dava para ler bem a expressão de seu amigo.

— Foi ontem à noite, depois que você saiu.

Takao engoliu em seco.

— Bom… seu pai confessou?

— Eu não vi o resto da conversa. Quando contei a ela, deixei eles a sós. Mas eu deduziria que sim. Ele não está em casa. Minha mãe não está nada bem.

Takao sentiu sua garganta apertar. O que ele deveria dizer?

— Sinto muito, Shin-chan.

Midorima nem piscou. Takao queria colocá-lo em um potinho, protegido de qualquer dor ou sofrimento. Queria dizer que ia ficar tudo bem. Não podia.

— Seu pai é um babaca, sabe. — Takao se pegou admitindo.

Midorima pareceu surpreso. Ele virou a cabeça na direção de Takao. As sobrancelhas estavam erguidas e seus olhos, largos. Takao sabia que Midorima admirara seu pai por muito tempo — provavelmente por toda a vida. Mas via também, no rosto de Midorima, o quanto aquilo o estava afetando e o quanto ele ressentia seu pai por isso.

Midorima virou-se para frente de novo, perdido em pensamentos.

— É… talvez ele seja. — concordou o menino, ajeitando os óculos com as pontas dos dedos.

Takao observou o perfil do rosto impassível de Midorima. Podia apenas imaginar o misto de emoções que ele devia estar sentindo agora. Takao respirou fundo.

— Se você precisar de mim… sabe que eu estou aqui, né. A qualquer hora.

Midorima olhou para ele. Takao sentiu de novo a afeição daqueles olhos verdes. Ele continuou falando para se distrair.

— Você sabe… pra conversar, encher seu saco. Qualquer coisa.

O sorriso lateral que Midorima abriu fez o coração de Takao dar um mortal carpado. Para completar, Midorima inclinou o corpo lentamente na direção de Takao.

— Você é muito bom nisso… encher meu saco. — disse ele, em uma voz grave que com certeza não estava fazendo bem para a saúde de Takao.

Midorima estava… flertando?!

Não. Midorima não era gay. Takao já se convencera disso há anos atrás. Criar esperanças seria um tiro no pé.

Eu te amo.

— Eu te odeio. — disse Takao.

Cruzes, pensou. Ele soava apaixonado.

Em resposta, Midorima apenas sorriu aquele sorriso sutil-quase-não-existente de novo.

— Bom, então vamos indo. Temos treino mais tarde. — disse o outro. — E eu quero provar pra você. 100 milhões de cestas.

Com isso, ele saiu andando na frente. Ao se levantar, Takao tentou acalmar suas pernas trêmulas e se perguntou como aguentaria 2 horas de treino daquele jeito.

Notas finais
Eu não sei o porquê, mas amo a ideia de Midorima e Takao compartilhando balinhas em intervalos escolares aleatórios. E eu também amo a ideia do Midorima gostando de comer coisinhas verdes. hsauhsua Takao é um querido ou não é? Deixem seus reviews! ~Kissus