Eu te odeio, Midorima Shintarou

15 Dia 3: jogos finais e karaokê


Notas iniciais
Hello, meus queridos! ♥ Tudo bom com vocês? Vem chegando mais um capítulo, na reta final do acampamento. Espero que gostem!

"What's the problem?

I don't know

Well, maybe I'm in love (love)

Think about it every time I think about it

I can't stop thinking about it

How much longer will it take to cure this?

Just to cure it 'cause I can't ignore it if it's love (love)

Makes me wanna turn around and face me

But I don't know nothing 'bout love"

Accidentaly in Love — Counting Crows



Midorima estava tendo um sonho estranho.

Em seu sonho, ele tinha 6 anos de novo. Estava sozinho, no meio da mata, e ninguém podia ouvi-lo.

Então, um menino aparecia ao seu lado. Era Takao, pequeno e serelepe. Ele sorria para ele e o pegava pela mão, levando-o por um caminho estreito e escuro, mas Midorima não se importava, porque Takao estava com ele. Eles então apareciam em um campo enorme que se estendia ao horizonte, repleto de girassois, e Takao brilhava ao sol, rindo.

— Kazu? — ele ouviu sua voz chamar. Era sua voz atual, mais grave e madura.

Então, o Takao de 16 anos se virava para ele, olhos azuis brilhando, com um sorriso que fazia as pernas de Midorima bambearem. Ele se pegou sorrindo de volta. Então, puxava Takao e o beijava. Seu amigo o olhava nos olhos e dizia:

— Eu amo você, Shin-chan.

E o peito de Midorima se inchava de felicidade.

Então, o rosto de Takao se deformava e se transformava no de Kenzo.

Midorima imediatamente o largava, se afastando.

Os girassois se derretiam e tomavam a forma do rosto da mãe de Takao, rindo dele.

— Então agora você quer pegar o meu filho? — dizia Kanako, seus vários rostos falando em uníssono.

Logo, sua mãe se materializou em meio ao campo, o rosto borrado de rímel, lágrimas escorrendo incessantemente. Uma garrafa de vinho quebrada estava em sua mão.

— Você é o homem da casa agora, Shintarou. — disse ela.

— Você me enoja. — dizia a voz de seu pai.

Midorima acordou suado e arfante, com seu despertador soando pelo quarto.

Ele se levantou e vestiu camiseta e bermuda, ainda semi-atordoado. Sua cabeça estava bombardeando-o de pensamentos. Ele estava fazendo a coisa certa estando com Takao? Seu pai ainda o aceitaria como parte da família? Se Kanako e Kenzo acabassem juntos, isso faria dele o meio-irmão de Takao?

Este último pensamento trouxe náusea.

Enquanto saía para o corredor, Midorima se lembrou da promessa que havia feito a Takao de encontrá-lo antes do café no armário do zelador. Ele pensou na noite anterior, quando Takao havia pedido para dormir com ele, com medo de que fosse acordar pela manhã e descobrir que nada do que eles tiveram havia sido real. O rosto vulnerável de Takao ao dizer aquilo havia criado um nó na garganta de Midorima, e ele havia relutado para não ceder e dar a ele o que ele queria. Talvez isso fosse o tipo de coisa que Midorima temia quando via pessoas apaixonadas: elas se arriscavam apenas para deixar o outro feliz, faziam coisas estúpidas por amor.

Sua mente entrou em curto-circuito.

Amor?

Seu coração pulou uma batida.

Não havia parado para avaliar seus próprios sentimentos, apenas deixando-se levar e atribuindo o clima ao fato de que estavam sozinhos no acampamento.

Quando se deu conta, estava parado em frente à porta do armarinho de limpeza, engolindo em seco. Antes que pudesse criar coragem para abrir, porém, a maçaneta girou sozinha, e uma mão apareceu pelo vão e o puxou para dentro, fechando a porta em seguida.

— Ei, Shin-chan.

Takao sorria como se Midorima tivesse pendurado o sol no céu para ele, como se ele fosse a melhor coisa que Takao já vira. Midorima se sentiu quase ofuscado pelo brilho. Takao estava tão bonito que seu coração doeu um pouco.

— Oi. — disse ele, a voz minguando por causa da leve falta de ar.

Takao sorriu ainda mais, não que Midorima achasse que fosse possível. Ele se pegou sorrindo de volta também, quase involuntariamente. Takao soltou uma pequena risada. Midorima ergueu uma sobrancelha.

— Do que está rindo, tem alguma coisa no meu rosto?

Takao riu um pouco mais e balançou a cabeça, colocando uma mão sobre o peito de Midorima. O lugar em que a mão fazia contato lançava uma onda de eletricidade pelo seu corpo.

— Desculpa, é só que parte de mim ainda tinha certeza de que era tudo um sonho. É bom ver que não era.

Midorima sentiu uma agitação em seu âmago.

“Eu amo você, Shin-chan”, dizia o Takao do sonho.

“Então agora você quer pegar o meu filho?”

“Você me enoja.”

Ele sentiu uma súbita falta de ar.

Takao pareceu notar sua estranheza.

— Shin-chan?

Midorima inspirou tremulamente.

— Eu estou bem.

Takao não parecia nem um pouco convencido. Mas é claro que não estava. Ele nunca havia sido bom em mentir para Takao. Era como se ele pudesse ver por dentro de Midorima como se fosse feito de vidro.

— Nós devíamos ir. Temos um amistoso às 9h.

Takao pareceu ansioso, mudando o peso de um pé para o outro.

— Ahn… claro.

Midorima se virou para sair, mas o outro puxou-o pelo pulso e o beijou.

— Boa sorte no jogo hoje. — disse ele, um sorriso tímido no rosto.

Seu coração se derreteu um pouquinho.

— Obrigado.

A manhã passou voando. O café da manhã havia sido tomado às pressas, com Otsubo reclamando do atraso dos dois. Ninguém fez perguntas, porém. Era como se houvesse um combinado coletivo de que o que quer que estivesse acontecendo entre Midorima e Takao, era apenas da conta deles. Midorima estava grato por isso.

Quando estavam todos em quadra e os primeiros aquecimentos começaram, Midorima sentia como se estivesse fora do próprio corpo, flutuando, apenas assistindo enquanto seu outro eu fazia alongamentos e flexões. Sua mente estava presa no sonho, e no que aconteceria quando voltassem para casa.

Ele não sabia o que fazer. Nem o que sentir.

Estar com Takao significava arriscar tudo. O prestígio de sua família, o respeito de seu pai, o orgulho de sua mãe.

Ele nem ao menos percebeu quando o jogo começara, despertado de seus próprios devaneios pelo apito do juiz. Sentiu o olhar preocupado de Takao cavando buracos em sua nuca, mas não olhou para trás.

À sua frente, seu oponente, Aomine, o encarava, o cenho franzido.

A bola foi atirada para cima, e Midorima pulou meio segundo atrasado, perdendo na disputa área. Passaram-se alguns segundos até que Aomine marcasse o primeiro ponto. Otsubo pegou o rebote, roubando a bola para Shutoku.

Contra-ataque, respondeu sua mente, no automático.

Olhando para o lado, ele procurou pela bola.

— Midorima! — Miyaji gritou.

A bola zuniu em sua direção, mas ele avistou tarde demais. O passe voou direto por ele. O sonho voltou à sua memória.

“Eu amo você, Shin-chan.”

O time adversário roubou a bola, marcando mais dois pontos. Sua mente continuava criando flashbacks.

“Você é o homem da casa agora, Shintarou.”

Ele sentiu a mão de Takao, que parecia ter se materializado repentinamente ao seu lado, repousando confortavelmente em seu ombro.

— Não esquenta. Respira fundo e concentra. Pegamos a próxima, está bem?

Midorima tentou se sacudir do estupor em que se encontrava, mas sua visão parecia embaçada.

“Você me enoja”

Ele ouviu sua própria respiração ficando mais alta e mais acelerada.

— Shin-chan! A bola! — gritou Takao.

Desta vez, ele reagiu a tempo. As mãos de Midorima se fecharam na hora certa, e seus pés entraram em posição por conta própria. Ele saltou, recuou os braços e arremessou, assistindo enquanto a bola fazia sua trajetória longa e alta pela quadra.

Enquanto Midorima caía de volta ao chão, ele sentiu seu coração apertar. Algo estava errado.

O silêncio no ginásio era suficiente para ouvir um alfinete bater no chão.

Então, um barulho.

Plac!

A bola bateu no aro.

Ele sentiu suas mãos tremerem. Seus arremessos não faziam aquele som.

Paf!

Sem entrar na cesta, a bola caiu no chão, para espanto de todos os presentes.

Midorima não errava uma cesta há 3 anos consecutivos.

Um peso enorme foi se formando em seu peito, tornando difícil respirar. Um apito agudo começou a soar em seu ouvido. Os sons à sua volta ficaram abafados, e tudo o que ele podia ouvir era o som da própria respiração, cada vez mais acelerada.

Midorima não registrou a tentativa de seus colegas de se comunicarem com ele. Ele avistou apenas uma coisa: a porta.

Andou, primeiro. Depois, correu. Ele sentia como se o mundo estivesse se encolhendo e o esmagando. Sua garganta doía pelo esforço de respirar, e um genuíno pânico foi crescendo cada vez mais em sua mente.

Encontrando uma parede que ele julgou suficientemente longe do ginásio (mas não poderia ter certeza, pois sua noção de espaço e tempo estavam totalmente deturpadas) ele se recostou e deslizou até sentar-se no chão, tentando controlar sua respiração.

Nada adiantava. Sua mente continuou conjurando a imagem de Kenzo, cuja voz ficava progressivamente mais alta, dizendo-o coisas horríveis, chamando-o de nomes. E Takao, em meio a tudo aquilo, perguntando se Midorima o abandonaria.

— Achei ele, pessoal!

Midorima teve a impressão de ouvir a voz de Takao ao longe, mas não poderia ter certeza.

— Shin-chan!

Uma mão apareceu em seu ombro de novo, como no jogo, puxando-o um pouco mais para a realidade. Midorima ainda sentia o ar se esvaindo de seus pulmões, e suas mãos tremiam.

— Que cor é aquela porta ali? — disse a voz de Takao.

Ele balançou a cabeça, tentando indicar que não sabia do que ele estava falando. Não conseguia falar.

— Shin-chan.

Takao colocou uma mão em seu queixo, girando sua cabeça gentilmente em direção a uma porta retangular.

— Que cor é aquela porta ali?

Os olhos de Midorima lentamente se focaram no objeto, clareando seus contornos. Seu primeiro pensamento era de que Takao devia realmente achar que ele tinha ficado louco se estava perguntando aquilo. Mas obedeceu mesmo assim.

— Preta. — respondeu, arfando.

A voz de Takao era suave.

— Uhum. E qual o formato daquela lixeira ali? — disse ele, apontando para outra direção.

Midorima seguiu a direção do dedo e registrou a imagem em sua mente.

— É um cilindro. Com uma tampa esférica.

Takao confirmou. Midorima sentia o ar voltando aos seus pulmões aos poucos, e a névoa em sua mente começou a se dissipar.

— Ok, e que tal a cor daquela parede ali?

— Amarela.

Aos poucos, Midorima sentiu o peso em seu peito se aliviar.

A crise havia passado.

Ele olhou para Takao, espantado. Seu amigo estava agachado ao seu lado, olhando atentamente para ele.

— Como você fez isso? — indagou.

Takao abriu um meio sorriso.

— Eu li em algum lugar que, quando alguém tem uma crise de ansiedade ou ataque de pânico, você tem que tentar ativar o lado mais racional do cérebro dela, e uma das táticas pra isso é identificar cores e formas. — ele deu de ombros. — Me pareceu meio bobo e eu não sabia se ia dar certo, mas funcionou, né?

Midorima estava sem palavras.

— Quando foi que você ficou tão inteligente?

Takao franziu o cenho.

— Isso é um elogio ou um insulto?

Midorima riu.

Ele observou o perfil de seu amigo, percebendo que, mais uma vez, Takao estava lá. Como ele sempre estava. Como sempre esteve, durante a maior parte de sua vida, apoiando-o, fazendo-o rir, estando presente.

Midorima colocou uma mão sobre a de Takao.

— Obrigado.

O amigo olhou-o nos olhos.

— Sempre aqui. — respondeu. E Midorima sabia que havia verdade em cada palavra.

— Não só por isso. Por… tudo.

Takao olhou-o confuso.

— Shin-chan, você bateu a cabeça antes de eu chegar?

Midorima abriu um meio sorriso.

— Não, eu só… — ele apertou levemente a mão de Takao na sua, tentando comunicar o que sentia. — estou muito feliz por sempre ter você.

Takao ruborizou, o que era um ocorrido muito raro, na experiência de Midorima. Poucas coisas no mundo conseguiam constranger Takao Kazunari, um menino de poucas vergonhas e muita coragem. Era algo que ele sempre admirara no outro. No entanto, Midorima pensou que ele ficava muito bonito assim, bochechas, testa e nariz vermelhos.

— Você sempre vai me ter… bestão. — balbuciou ele, ficando ainda mais vermelho.

Midorima sentiu algo que ele supôs serem as famosas borboletas no estômago de que todos estavam sempre falando. Seu rosto começou a esquentar também.

Ele engoliu em seco.

Decidiu mudar de assunto.

— Então… todos acham que eu surtei de vez?

Takao riu.

— Pra ser sincero eu também não duvidaria…

Midorima deu um peteleco na lateral da cabeça de seu amigo.

— Sua resposta pra tudo é violência? — choramingou Takao. Midorima sorriu de lado.

Um breve silêncio. Takao o quebrou primeiro:

— Otsubo está preocupado. Na verdade, todos estão. Suspenderam o jogo até que eu encontrasse você. Agora que te achei todo mundo assumiu que ia ficar tudo bem, e eles colocaram reservas pra nos substituir. Provavelmente nosso time está apanhando agora.

Midorima sorriu com a ideia de que todos assumiram que ele estava em boas mãos por estar com Takao.

— Shin-chan…

— Hmm?

— Eu quase tive um infarto quando você saiu correndo daquele jeito. Você está bem?

Midorima olhou-o.

Ele subitamente sentiu uma enorme afeição por aquele garoto de novo, um sentimento que entupia-lhe a garganta. Sorriu.

— Obrigado por se preocupar.

Takao parecia atônito, em completa perda do que dizer ou fazer.

— Como eu poderia não me preocupar?

Isso aqui é real, Pensou Midorima. Não a aprovação de um homem que nunca está lá. Que nem se importa em dividir a própria família.

— O que houve, afinal? — perguntou Takao.

Midorima olhou-o de soslaio.

— Eu estava com medo. Não estou mais.

— Medo… de que?

Ele olhou para o nada, relembrando o rosto de Kenzo em seu sonho.

— De perder algo que eu nunca tive.

O olhar confuso de Takao o acordou de seu devaneio.

— Mas estou bem agora. Não se preocupe. — continuou ele, abrindo um sorriso na tentativa de tranquilizar seu amigo.

O outro pareceu tentado a perguntar mais, mas se conteve. Sorriu de volta.

— Que bom, então.

Ele fez menção de levantar, mas Takao colocou uma mão em seu joelho, impedindo-o.

— Se quiser conversar sobre… eu vou estar aqui.

Midorima pousou sua mão sobre a dele.

— Eu sei.

Ocorreu-lhe que talvez ele realmente amasse Takao.

Depois da conversa, Takao e Midorima haviam voltado para o jogo, tentando salvar a enorme vantagem de pontos que Aomine havia aberto contra o time deles. Conseguiram diminuir a disparidade, mas no fim, a derrota permaneceu.

Os times haviam seguido para os vestiários, onde os adolescentes suados e cansados se renovaram e se recolheram para os dormitórios para se preparar para a última noite.

Midorima agora se recostava contra uma pilastra, observando enquanto seus colegas de classe conversavam animadamente, felizes pelo treino árduo ter acabado. Agora era a hora para o merecido e sonhado karaokê, em comemoração dos dias puxados. Todos sorriam e falavam alto, mas os olhos de Midorima estavam em apenas uma pessoa.

Takao parecia radiante. Mais do que o normal, isto é. Ele estava com os cabelos semi lavados e roupas novas, e ria de algo que Kise havia dito. A questão é, Midorima nem mesmo sentia ciúmes mais. Depois de todos os momentos que haviam tido juntos, depois de tudo o que Takao lhe dissera, ele se sentia triunfante. Como se tivesse vencido. Engole essa, Kise, pensou. Mas agora, não pensava mais em Kise. Tudo o que conseguia pensar era:

Takao sempre fora tão… vibrante?

Bom, sim. Midorima sempre o achara vibrante, desde criança. Ele sempre sabia o que dizer, sempre conquistava a todos, ajudava as crianças mais tímidas a se enturmarem, tinha coragem de falar quando algo estava errado enquanto outros se calavam. Ele era o amigo certo mas horas certas, e aquele sorriso de 100 quilowatts sempre cegara Midorima.

Mas agora era… diferente.

Saber a sensação dos lábios de Takao nos seus e saber que Takao sentia algo por ele tornava tudo um pouco mais vibrante. Viciante. Eufórico.

Ele observou atentamente enquanto Takao fazia Otsubo rir.

Como se sentisse seu olhar, Takao virou-se para ele, flagrando-o. Midorima sentiu seu rosto esquentar por ter sido pego encarando. Então, Takao abriu um sorriso mais contido que o anterior, um que parecia íntimo, carinhoso.

Um que parecia especialmente direcionado a Midorima.

Ele sentiu seu peito disparar. Takao estava se aproximando.

Como as pessoas faziam isso? Como lidavam com reações intensas corporais assim, o tempo todo?

Ele não sabia o que fazer com as próprias mãos. Mudou o peso de um pé para o outro. Era como se Takao estivesse caminhando em câmera lenta, e não chegava nunca.

Midorima queria voltar no tempo para quando a mera presença de Takao não fazia seu coração disparar assim. Era mais fácil quando eram só os dois contra o mundo. Mas agora era como se seus joelhos estivessem virando gelatina só porque os olhos de Takao pareciam estar ressaltados quando ele usava aquela camisa pólo branca, só porque a luz colorida da decoração de festa estava refletindo nos cabelos pretos do jeito mais certo possível. Só porque Takao estava sorrindo aquele sorriso.

— Shin-chan. — chamou ele.

Ótimo, agora só de ouvir o apelido Midorima sentia palpitações. O que tinha de tão legal em ter sentimentos intensos assim? Por quê as pessoas gostavam tanto de estarem apaixonadas?

Ele engoliu em seco.

— O quê?

— Você está me encarando.

Midorima enrubeceu até às pontas das orelhas.

— Impressão sua.

Takao riu. A risada era melodiosa, e lhe trouxe uma sensação engraçada no estômago.

Então, Takao pegou uma de suas mãos e guiou-o até a mesa de bebidas, e Midorima sentiu um formigamento subindo da região em que suas mãos estavam em contato.

— Você precisa de uma bebida. Urgente.

Chegando à mesa, uma vasilha redonda de vidro continha uma concha e um líquido vermelho, e copos de plástico estavam empilhados ao lado. Midorima franziu o cenho.

— O que tem de tão interessante no ponche de morango do Miyaji?

Takao se virou para ele e abriu um sorriso malicioso.

— Digamos que ele tem um toque… especial.

Midorima engoliu em seco.

Ele não estava muito acostumado a festas. Ou grandes eventos sociais no geral. O que também significava que ele não tinha lá sua grande cota de experiência com álcool, e talvez isso fosse uma ideia perigosa.

Ele estava pronto para dizer a Takao exatamente isso, quando Kise, aparecendo como se tivesse brotado do chão, interviu.

— Hahaha, Takaocchi, você quer matar o Midorimacchi? Ele não bebe, vai desmaiar.

Midorima semicerrou os olhos para o loiro.

— Me dá isso aqui.

Pegando a concha das mãos de Takao, ele encheu-a e despejou em um dos copos. Em seguida, deu um longo gole e encarou Kise, erguendo as sobrancelhas em desafio. O gosto era doce, mas ele sentiu uma leve queimação descendo por sua garganta. Fez esforço para manter sua expressão inalterada.

Takao estava boquiaberto. Kise riu alto.

— Desculpe, Midorimacchi… eu retiro o que disse.

Midorima ergueu o queixo, triunfante. Kise se retirou, com a desculpa de cumprimentar um outro amigo. Takao puxou a ponta de sua manga, chamando sua atenção.

— Shin-chan, vai devagar com esse negócio aí, ok?

Midorima revirou os olhos.

— Eu estou bem, Takao. Não fez nem cócegas.

Midorima estava leve como uma pluma.

Ele estava em uma roda de conversa em que seus colegas de time olhavam para ele e riam. Do quê, Midorima não sabia dizer. Ele tinha a leve impressão de que estavam cochichando e rindo, e se ele era a única pessoa a não ser incluída nos cochichos, isso não era muito bom sinal. Mas Takao não parecia incomodado. Ele parecia se divertir, até. E Midorima confiava em Takao.

— Ei, Midorima.

Chamou um deles.

— Hmmm?

— O que você acha do nosso capitão?

Midorima olhou para Otsubo ao longe e semicerrou os olhos.

— Ele é quadrado e pesado. Definitivamente parece feito de pedra.

Todos riram. Midorima estava falando muito sério, então não entendeu bem a graça. Mas Takao estava rindo também. E ele não se importava nem um pouco em ver Takao rir. Então, alguém cochichou “vai, tenta você”.

— Midorima-kun.

— Hmmm?

— E qual a sua opinião sobre o Kagami?

— As sobrancelhas são feitas de vassoura. Com certeza.

Mais risadas. Midorima sentiu um certo orgulho. Socializar era fácil! Ele só precisava falar o que ele pensava. E pensar que ele tinha tido dificuldade todos esses anos.

— E o Kise, Midorima-kun?

Ele fez uma careta.

— Com certeza feito de óleo. E cascas de bananas velhas. Sem dúvidas.

Um de seus colegas estava tendo problemas em respirar, agachado ao chão, lágrimas de riso saindo de seus olhos. Midorima se preocupou momentaneamente com sua saúde.

— Tá, agora eu, eu! Minha vez. Midorima-san… — começou Myiaji.

— Hmm?

— O que você acha do Takao?

Midorima olhou bem para seu amigo em questão. Takao parecia pego de surpresa, a boca semi aberta e o cenho franzido. Ele olhava apreensivamente de Midorima para Myiaji, e parecia querer protestar. Os outros colegas de Midorima sorriam maliciosamente.

— Ok, acho que podemos parar a brincadeira… — tentou Takao.

Mas Midorima estava se divertindo. Ele não ia parar agora. Se as pessoas gostavam de sua honestidade, é o que ele lhes daria.

— Os olhos dele são brilhantes. Acho que feitos de água. Como uma nascente de rio.

Dessa vez, seus colegas não riram na mesma proporção. Houve um silêncio entrecortado por risadinhas e alguns deles se acotovelaram e trocaram olhares e sorrisos. Takao estava ativamente evitando contato visual com ele, e um rubor ainda mais intenso coloria seu nariz e bochechas.

Midorima ficou confuso. Ele errou as regras da brincadeira…?

— Ok, agora já chega né, deixem o Shin-chan em paz. — pediu Takao.

Midorima fez um bico. Seus colegas também protestaram.

— Mas estávamos nos divertindo. Você está atrapalhando a diversão, Takao.

Myiaji sorriu.

— É isso aí, Takao! Deixa de ser estraga-prazeres. Deixa o Midorima continuar falando, a gente quer saber do que mais você é feito…

— Bom, eu certamente posso continuar. A pele do Takao…

— Ok, ok, chega! Hahahaha! — riu nervosamente o moreno em questão, puxando Midorima pelo pulso. — Karaokê! Vamos cantar karaokê.

Midorima se deixou ser puxado, mas olhou para trás, tentando dizer a seus colegas que ele estava sendo obrigado. Eles riram e deram acenos, alguns deles dando piscadelas e assobiando. Midorima franziu o cenho. Ele não estava mais entendendo. Talvez socializar não fosse tão fácil assim, afinal.

— Você tá bebinho mesmo, ein, Shin-chan. Talvez a gente deva dar uma freada no ponche. — disse Takao à sua frente.

Ele franziu o cenho.

— E o que te faz pensar tal bobagem? Eu estou perfeitamente normal.

Takao riu.

— Você acha que eu não te conheço?

Midorima ergueu uma sobrancelha.

— Não se você pensa que estou alterado. Não estou.

Ele sabia que estava. Talvez um pouco. Mas não admitiria isso para Takao.

O outro continuou puxando-o até alcançarem o monitor de seleção de músicas.

— Ok, Shin-chan, eu proponho um desafio. — disse ele, virando-se para Midorima e encarando-o com aquele sorriso incrivelmente brilhante. — Eu escolho pra você a música que eu acho que é a sua favorita e você escolhe pra mim a que você acha que é minha favorita. E vemos quem conhece o outro melhor. O vencedor pode fazer pedidos. O perdedor é humilhado e tem que atendê-los.

Midorima não via por quê não. Ele também não conseguia se lembrar por quê essa ideia de karaokê lhe parecia tão horrível mais cedo. Além disso, ele conhecia Takao como a palma de sua mão e estava confiante de que podia levar essa para casa facilmente.

— Está bem. Afaste-se, Takao.

Ele deslocou seu amigo com uma mão em seu ombro, o que fez Takao rir, e configurou no monitor sua música escolhida. Em seguida, Takao colocou a dele, tampando os olhos de Midorima com a mão para que ele não espiasse — como se Midorima fosse fazer tais frivolidades.

A música atual estava acabando — algum pop melancólico que Midorima não saberia nomear — e logo começaria a que ele escolhera para Takao. Ele olhou para seu amigo, abrindo um pequeno sorriso de triunfo. Ele sabia que a banda favorita de Takao era Scandal. Desde que ele tinha 8 anos e foi no show pela primeira vez. Midorima tinha que ouvir ele tagarelar sobre como cada uma das meninas era incrível e como as músicas eram boas.

Quando a guitarra soou, Takao olhou para ele e abriu um imenso sorriso genuíno. Midorima retribuiu o sorriso. Ele havia ganhado.

Subindo ao pequeno palco, Takao pegou o microfone e cantou sem olhar para a tela, palavra por palavra.

Mas então, a música acabou e a expressão de Takao mudou enquanto ele descia as escadas e olhava para Midorima, seu sorriso lentamente diminuindo e assumindo um ar malicioso e arrogante. Midorima não gostava daquilo. Seria possível ele ter errado?

— Sim, eu amo Sakura. Foi minha música favorita por 9 anos. E você quase acertou.

Midorima suspirou.

— Mas…?

— Mas elas lançaram um álbum novo esse ano e agora Watashi tachi é minha nova favorita.

Midorima franziu o cenho.

— Isso não é justo.

Takao sorriu.

— Parece que você precisa me conhecer mais, Shin-chan… — cantarolou ele.

Midorima bufou. Não importava. Porque ele sabia que não tinha como Takao vencer.

Afinal, ele apenas ouvia músicas clássicas. Logo, sua música favorita não estava disponível no karaokê. É claro, havia uma única exceção que ele apreciava mais que qualquer outra coisa no mundo, mas Takao não tinha como saber.

Exceto que, assim que as últimas notas da música de Takao cessaram, um instrumental começou a tocar. Um instrumental muito, muito familiar.

Ele olhou boquiaberto para Takao.

— Como você sabia?! — perguntou, perplexo.

Takao sorriu e deu de ombros.

— Eu sou seu stalker nº1, Shin-chan. Além disso, você me disse que essa era sua preferida no verão do ano retrasado, quando fomos comprar fones de ouvido novos pra você. E você sempre escuta as mesmas 20 músicas.

Midorima, ainda boquiaberto, subiu os degraus da escada, com a letra de Il Mondo, do Jimmy Fontana, já aparecendo no telão. Seu coração estava batendo um pouco mais rápido. Ele sentiu um calor agradável percorrendo seu corpo. Takao lembrou disso por todo esse tempo?

Takao colocou uma mão sobre a boca, assistindo a cena absolutamente inacreditável que se desdobrava diante de seus olhos. Midorima estava completamente entregue à música. E era tão lindo de ver quanto era engraçado, visto que ele com certeza já tinha atingido um certo nível de embriaguez — isto com apenas um copo de ponche — e estava cantando em italiano, pelo amor de Deus. Apesar disso, Midorima tinha uma voz surpreendentemente bonita. E ele ali, parado e concentrado, brilhando ao centro do palco… Takao achava que havia uma certa energia hipnotizante. A julgar pelo silêncio do salão e súbita atenção de todos voltando-se para o palco, Takao não era o único que achava isso.

As pessoas abriam sorrisos divertidos por ver Midorima, de todas as pessoas, se soltando em um palco. Parte da surpresa era também a mudança brusca e gritante das músicas pop japonesas que antes tocavam para uma balada romântica italiana em pleno Japão, mas esses eram os gostos excêntricos de seu amigo, e Takao não sentia nem um pouco de culpa por interromper o ritmo da festa se isso significaria que Midorima estaria ali, cantando feliz em um palco.

Ele não se lembrava da última vez que vira seu amigo se divertir tão despreocupadamente. Além do mais, Midorima estava atraindo admiradores. Ele podia ver como as pessoas estavam interagindo mais com ele, admirando-o cantar… Takao não conseguia segurar o sorriso ao vê-lo assim.

Além do mais, ele havia ganhado o desafio.

O sorriso puro e genuíno no rosto de Midorima enquanto ele descia do palco ao som dos aplausos de vários colegas — incluindo alunos de outras escolas — era a prova de sua vitória.

Essa noite só ficava cada vez melhor.

Quando Midorima caminhava em sua direção, ele assistiu enquanto um par de garotas o abordava, uma delas timidamente sorrindo e puxando conversa com seu amigo. Takao ergueu as sobrancelhas e abriu um sorriso surpreso. Midorima estava mesmo atraindo atenção. Mas ele não estava preocupado. Ter ciúmes de Akashi, um adolescente que era semelhante a Midorima em todos os aspectos e superior a Takao em tudo o que ele fazia? Com certeza. Ter ciúmes de garotas que Midorima mal conhecia? Não mesmo.

— Desculpem-me senhoritas, mas parece que meus gostos deveras se inclinam para características mais… rústicas. Isto é, eu não me vejo nutrindo interesse por seus singelos avanços. Se me dão licença.

Takao ouviu-o dizer. Ele segurou o riso por trás de uma das mãos. A expressão no rosto das garotas era impagável. Midorima embriagado era simplesmente bom demais.

Seu amigo aproximou-se dele, o sorriso bobo de volta ao rosto.

— Você acertou.

— Shin-chan, que rejeição formal foi aquela ali? — Takao mudou de assunto, sentindo sua barriga doer pelo esforço de segurar o riso.

Midorima encarou-o confuso.

— Eu não quis ser rude. Fui exagerado demais?

Takao riu. Meu Deus, como ele amava aquele nerd.

— Não… eu só estou me perguntando sobre seus gostos deveras rústicos.

E com isso, riu ainda mais, não conseguindo mais se conter. Midorima não parecia muito contente a princípio, mas logo começou a rir também. E a risada dele era música para seus ouvidos.

Takao subitamente quis roubá-lo para si. Estava dividindo Midorima há tempo demais. Cansara de ser tão generoso. Além do mais, talvez fosse hora de trazer aquele gigante verde à sobriedade. Ele não queria que a primeira experiência de Midorima com álcool fosse traumática.

— Vem, Shin-chan, vamos colocar um pouco de água no seu organismo.

Notas finais
Hello, pessoas! Eu decidi dividir esse capítulo pois estava ficando muito grande, então paramos por agora, mas em breve teremos mais dessa noite de karaokê. Quanto à crise do Midorima, eu gostaria de dizer que tentei ao máximo representar uma crise de ansiedade de forma realista. Eu também já pesquisei sobre formas de lidar, e esse truque de reconhecer formas e cores funcionou comigo, uma vez, então veio da experiência própria (testem em casa, crianças). Quanto ao karaokê, eu decidi realmente pesquisar bandas de pop/rock japonesas que eu achei que o Takao pudesse gostar e achei essa Scandal, e até que gostei mesmo delas viu! Hahaha Fica a dica Eu queria muito colocar Accidentaly in Love no início do capítulo também porque sinto que casa muito com a maneira que os sentimentos do Midorima vão surgindo. Temos um Midorima mais consciente dos próprios sentimentos agora, o que facilita pra gente, né galera ♥ E nossa cara como eu amei embriagar o Midorima HAHAHA O Takao teve sua vez, agora é com o Shin-chan. Por favor deixem comentários sobre seus pensamentos e opiniões! ~Kissus, até a próxima!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.