Eu te odeio, Midorima Shintarou
4 Canário de porcelana
Notas iniciais
No domingo, Takao acordou às 5 da manhã. O moreno não desejava nada mais que voltar pra cama e dormir até meio dia (era domingo, pelo amor de Deus), mas seu cérebro tinha outros planos. Takao se revirou diversas vezes, mudou de lado, afofou o travesseiro, virou as cobertas do avesso, mas seu sono tinha misteriosamente evaporado. "Misteriosamente não," pensou Takao, "é tudo culpa dele." Depois de se livrar das perguntas insistentes de sua mãe na noite anterior, Takao correra para seu quarto e abrira as mensagens de Midorima, uma por uma. As primeiras perguntavam o porquê dele ter saído correndo como um doido, com palavras formais e bem organizadas. Até aí tudo bem, significava que Midorima estava em seu estado mental normal. Mas então, uma das mensagens veio fora do padrão: "TAKAO, EXIJO QUE VOCÊ APAREÇA NESTE EXATO MOMENTO." Takao supôs que Momoi havia ligado para Shin-chan, preocupada, contando todo o ocorrido, e uma pedra de gelo imaginária percorreu sua espinha. Depois dessa, as mensagens que se seguiram eram pura indignação por ser ignorado e ordens para que ele se explicasse imediatamente. Quando Takao abriu a sétima mensagem, já estava pálido e tremendo só de imaginar a ira de Shin-chan desabando sobre ele por ter se embriagado. As últimas três ele não abriu. Desligou o celular, se enfiou debaixo das cobertas e forçou-se a dormir (o que não foi lá muito difícil, considerando tudo pelo que havia passado nas últimas 24 horas).
E daí que ele estava fugindo de seus problemas? A culpa não fora dele, Kise começara toda aquela confusão. Sim, ele se deixou levar e saíra com intenções de se embebedar, mas isso não era importante. A culpa era só e tão somente só de Kise e ponto.
Uma vozinha em sua cabeça dizia que, se isso fosse verdade, ele estaria respondendo às mensagens de Shin-chan e não se enrolando nas cobertas, mas ele não deu atenção. Não precisava se sentir ainda pior. Então, sim, ele havia dormido e ignorado completamente seu amigo. Mas talvez cair no sono não tivesse sido a melhor das ideias; assim que seus olhos se fecharam, Takao fora bombardeado com pesadelos de tempestades verdes e Midorimas furiosos, além de flashbacks indesejados e confusos de suas experiências na boate. E foi então que ele se encontrou totalmente acordado e alerta às 5h da manhã, incapaz de voltar a dormir.
Takao decidiu fazer café da manhã para ter algo com que ocupar sua mente e esquecer os problemas. Talvez sua situação não fosse assim tão mal: pelo menos sua garganta não estava nem de longe tão ruim quanto antes. Se falasse baixo e devagar, sua voz saía razoavelmente normal e ele não sentia mais uma dor excruciante. Além disso, ele poderia tirar uma lição valiosa daquilo tudo, certo? Como, por exemplo, sempre diga não às drogas. Ou jamais confie em Kise Ryouta. Ou fique sempre atento ao seu celular. As três eram tão boas quanto qualquer outra, ele supôs.
Enquanto esperava suas torradas ficarem prontas, Takao não tirava os olhos do celular nem por um segundo, com medo de que, assim que virasse as costas, Shin-chan sairia de dentro da tela e faria uma cesta de três pontos com sua cabeça. Takao teve um calafrio.
Não é que Shin-chan fosse uma pessoa violenta; por mais que tivesse tamanho, Midorima era tão inofensivo quanto uma bolha de sabão. Mas, nas raríssimas vezes que o tiravam do sério... bom, digamos que Takao teve o imenso azar e desprazer de provocar um desses ataques de fúria. Resumindo, a história era a seguinte: Midorima estava se preparando para uma prova muito importante e estava um tanto nervoso, pois seu signo estava em nono lugar no ranking, e ele achava que não havia estudado o suficente. Portanto, Midorima atravessou a cidade em busca de seu item da sorte, um canário dos alpes artesanal de porcelana. Digamos que Takao não estava em seu auge de zelo naquele dia, então, por motivos perfeitamente razoáveis, ele acidentalmente esbarrou em Shin-chan (ele não estava tentando assustá-lo nem nada, fora tudo plenamente acidental). O que aconteceu foi que Midorima se apavorou, arremessando o precioso objeto a três metros do chão. Talvez seja importante ressaltar que o canário não voava. A questão é que, em poucos segundos, o chão da escola estava repleto de cacos de cerâmica, e junto com eles se foi a vida de Takao. O moreno entrava em choque só de lembrar da expressão assassina de Midorima ao persegui-lo por nove quarteirões, tesoura afiada em mãos.
Faça o que for com Midorima, mas não brinque com seus itens da sorte. Principalmente com os importados da Europa.
O som da torradeira avisando que seu lanche estava pronto o trouxe de volta ao presente, e Takao pôs-se a comer, seus olhos sempre na tela do telefone.
Sem nada lhe chamando a atenção, a mente de Takao começou a divagar para os acontecimentos na casa de Shin-chan, na sexta feira à noite. O moreno franziu o cenho, sem entender como um homem tão sério, rígido e comprometido com a família poderia cometer algo tão desonroso quanto adultério. Mais do que magoar sua esposa, ele destruiria todo o respeito que batalhara para conseguir.
Desde pequeno, Shin-chan olhava para seu pai com o olhar repleto de admiração. "Sabe, Kazu, quando eu crescer", dizia ele, "quero ser grande e super incrível como o papai". Shin-chan o admirava por ser fiel à ética e manter-se sempre elegante, jamais perdendo a compostura ou usando palavras de baixo calão. Venerava-o por sua inteligência e sua forma racional de tomar decisões. Takao nunca ligou muito pra isso, sempre achou o pai de Midorima meio frio e engomadinho demais, mas Shin-chan era outra história. Tudo o que seu pai fazia, ele imitava. Perder seu modelo de vida e inspiração por tantos anos de um dia pro outro realmente devia estar sendo duro pra ele.
Takao logo se arrependeu do modo como havia agido. Shin-chan precisava dele, precisava do seu apoio, e ele o havia abandonado por causa de uma paixão adolescente idiota. Takao rangeu os dentes. Precisava consertar as coisas. Já ia se levantando, pronto para tomar algumas decisões que um verdadeiro homem tomaria, quando lembrou que eram cinco e meia da madrugada. Suspirou, sua determinação murchando. A única coisa que poderia fazer era voltar a dormir.
Takao se deitou, pronto pra mais uma volta no trem do horror, estrelando Midorima Shintarou. Mas, dessa vez, não houve pesadelos.
...
Naquela tarde, Takao saíra para almoçar. Kanako nunca foi uma das melhores cozinheiras; seu emprego de advogada a mantia muito ocupada e não lhe sobrava muito tempo para praticar culinária, o que a deixava frustrada. Kazunari, por outro lado, não se importava nem um pouco com a falta de habilidade de sua mãe. Na verdade, ele apreciava o fato, já que significava que ele poderia comer em seus restaurantes preferidos sempre que quisesse. Portanto, Takao estava de muito bom humor quando passou pelas portas do Maji Burguer no horário de almoço.
O cheiro de fritura sempre fazia sua barriga roncar. Ele se dirigiu ao caixa, fazendo o pedido para uma atendente um tanto corada e risonha. Pelo jeito, nem todo mundo resistia ao bom e velho Takao Kazunari. Ele estava definitivamente de bom humor.
Com o lanche em mãos, Takao sentou-se à mesa perto da janela, onde Midorima e ele gostavam de observar a rua. O moreno estava a meio caminho de uma mordida de meio quilo de pura caloria quando algo em sua visão periférica chamou-lhe a atenção. Um tufo de cabelo verde um tanto familiar. Suando frio, Takao abaixou-se e escondeu o rosto da melhor maneira possível, ignorando os olhares confusos das pessoas na lanchonete. Devagar, ele ousou dar uma espiada para certificar-se de que era mesmo Shin-chan. Ele ainda não havia respondido nenhuma mensagem, o que provavelmente significava que ia ser assassinado se seu amigo o encontrasse. Mas a pessoa que Takao viu não era o excêntrico jogador de basquete que ele conhecia tão bem: o cabelo era de um tom mais escuro de verde, com algumas mechas grisalhas; e o corpo, apesar de ser muito similar ao de Shin-chan, era mais robusto e ligeiramente mais baixo. Takao não podia crer em seus olhos: era Midorima Kenzo, em pessoa.
A julgar pelo terno que vestia, o pai de Shin-chan provavelmente estava saindo do trabalho — Takao achava um absurdo ele trabalhar no fim de semana — mas ele tinha certeza absoluta de que o turno de Kenzo na empresa acabava às 20h, e não havia intervalos para o almoço. Curioso, resolveu segui-lo.
Os passos de Kenzo eram tranquilos, quase calculados, e Takao se espantou com a semelhança daquele modo de andar com o de Shin-chan. Midorima era a cópia de seu pai. Não, isso não é bem verdade. Shin-chan não é um traidor descarado.
Kenzo dobrou várias e várias esquinas, e Takao estava quase desistindo quando o homem finalmente parou em frente à uma loja de roupas femininas.
Ele assistiu-o entrar, demorar-se por uns 15 minutos e sair com uma sacola de presente em mãos. Takao duvidava muito que a mãe de Shin-chan fosse ganhar alguma coisa naquela sacola. Kazunari quis sair de seu esconderijo e socá-lo bem no meio da cara, mas conteve-se. Respirou fundo e decidiu que já tinha ido longe demais, tomando o rumo de casa.
Se Takao não estivesse tão absorto em sua raiva, talvez tivesse evitado bater a cabeça com toda a força no peito de alguém. Estava pronto para se desculpar quando olhou pra cima e seu sangue congelou.
— S-Shin-chan...
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