Eu te esperarei
1 Capítulo 1
Notas iniciais
E basicamente já é um amorzinho pra mim, porque é a primeira coisa que consigo escrever em meses.
Confesso que tudo sobre aquele dia para mim é muito vago. Me lembro de estar no bar e também me recordo de chegar em casa, mas o restante é apenas confuso demais. Quando me esforço consigo enxergar o rosto irritado de Alex e a face perdida de DeLuca. Não que essas lembranças de alguma maneira me ajudem.
Meredith foi a primeira a jogar essa “verdade” na minha cara. Me tratando com ainda mais grosseria e desprezo do que nunca. O pior de tudo é que nesse momento ela tem razão. A única coisa que posso fazer é abaixar minha cabeça e me conformar. Por mais que não tenha de fato o traído me coloquei em uma situação complicada e difícil de acreditar. Alex nunca vai me perdoar não importa o quanto eu peça desculpas. E talvez no fim das contas isso seja bom.
Pelo menos dessa maneira Alex está seguro das mãos de John. Essa certeza me consola quase todas as tardes, mas é inevitável não chorar quando o vejo cabisbaixo e triste pelos cantos. Juro que por muitas vezes quase o parei e contei tudo, toda a verdade, porém o medo sempre acaba sendo mais forte. Se Alex encontrasse John só Deus sabe o que poderia acontecer.
Faz apenas uma semana e há três dias não vou para o hospital. Decidi depois dos quatro primeiros dias infernais que precisava dar tempo a Alex. Solicitei essa “folga” a Bailey que ciente dos últimos acontecimentos acabou aceitando. Não que ela realmente se importe ou que eu realmente faça falta. Ninguém realmente fala mais comigo, todos até mesmo Edwards, a quem eu considerava minha amiga, tomaram o lado de Alex e agora me evitam. Ou me tratam com um desprezo que me enoja. Estar nesse hospital tem se tornado um verdadeiro martírio, nada comparado a época das ruas ou da convivência com John, mas ainda assim nada agradável.
Confesso que nesses dias venho pensando em uma transferência. Seattle é afastada o suficiente, porém em Washington eu poderia me estabelecer e começar do zero outra vez. Poderia me livrar dessa culpa cada vez que vejo Alex mesmo não tendo feito nada do que ele pensa que eu fiz.
DeLuca é o único que parece entender e simpatizar com a minha dor. Talvez por estar enfrentando uma exclusão semelhante à minha ou só porquê senti pena por tudo que já passei. De qualquer maneira, ele também não ousa se aproximar. Sabe que isso seria ainda pior para nós dois. Não falo com ele desde o dia que lhe contei tudo. Só nos restando olhares cúmplices e amigos. Ás vezes o pego me observando, a pena em seus olhos me irrita, me faz me afastar imediatamente. Prefiro o ódio a pena. Já fui digna dela, mas não mais. Hoje em dia mereço mais que isso.
Estou no bar mais uma vez. Sei que deveria ter aprendido minha lição naquele dia, porém estou magoada demais para assimilar tudo isso sóbria. Distraída demais para notá-lo ele se aproxima. Não quero conversar com ninguém, mas quando ele para na minha frente. Se torna impossível ignorá-lo.
— Você deveria estar trabalhando. – Diz DeLuca.
— Na verdade não. Estou de licença, mas você não está. O que faz aqui?
— Estou sendo transferido. Ou seja, tenho um dia livre para resolver a documentação
— Estão te transferindo? É sério? Pelo o que aconteceu? Por favor, diz que você não está saindo por minha culpa?
— Não. Eu pedi essa transferência há meses. O resultado já estava previsto para essa semana, mas eu não vim aqui falar sobre isso. Você deveria contar a verdade a Alex e quando eu digo a verdade eu quero dizer tudo. Se ele é metade do homem que demonstra cuidando de todas aquelas crianças vai te perdoar. – DeLuca vai embora antes que eu tenha a chance de responde-lo. E de alguma maneira todas as velhas lágrimas retornam. No fundo sei que não estou chorando somente porquê Alex foi embora, mas sim por tudo que fui obrigada a vivenciar:
O abandono dos meus pais, a carência, a solidão do tempo de sem teto, a fome, o frio, o medo que senti com John por mais de dois anos e o medo que ele me causa até hoje, a culpa pelo o que causei a Alex e a minha filha que eu sequer sei o nome. Uma lista enorme de coisas que me assusta e sabendo que vou me arrepender disso daqui há algumas horas tenho uma ideia. Em um caderno velho que levo para todos os lados começo a escrever. As palavras brotam com uma naturalidade que me surpreendo e a cada trecho escrito mais aliviada me sinto.
Querido Alex,
Não sei se você vai ler essa carta, sei que por tudo o que você sabe, eu não mereço essa simples atitude, porém essa é a última coisa que te peço. Se um dia você me amou lê essa carta, vê tudo o que eu tenho para te dizer e decide no que acreditar.
Essa é a última coisa que te peço.
Eu sei que vai ser difícil te convencer afinal você viu algo horrível e inexplicável. Algo que eu mesma provavelmente não perdoaria, mas o que quero deixar claro é que eu NÃO te traí. Nem com o DeLuca, nem com nenhum outro.
Eu nunca faria isso. Nunca seria capaz de fazer isso. Não com você, Alex. Eu te amo como nunca amei ninguém na minha da vida. Nunca te trocaria por sexo sem compromisso mesmo se estivesse com raiva de você.
Você deve estar se perguntando como posso explicar o que você viu e eu entendo completamente. O que você viu foi um mal-entendido. Eu estava bêbada e seminua porquê eu mesma me despi para dormir. Não cogitei em nenhum momento ter algo com DeLuca. Ele só estava tentando me colocar para dormir, tentando evitar que eu ficasse completamente nua antes que você chegasse, porém foi nesse momento que você chegou.
Eu sei que parece impossível de acreditar, mas é a verdade.
Eu te amo, Alex. Essa é a minha única verdade, a única coisa que nunca vou me desapegar. Eu menti para você sobre muitas coisas, eu menti para todo mundo na verdade.
Meu nome não é Jo, não sou de Portland como dizem meus registros, quase tudo sobre meu passado como nomes, cidades e endereços são mentiras que eu contei para me proteger e são também parte do motivo de eu não poder me casar com você.
Tenho uma história de vida mais complexa e complicada do que você pode imaginar. Sei que vai ter ainda mais raiva de mim por eu não ter contado e por isso eu te peço desculpas também. Eu tinha e ainda tenho medo e vergonha de lhe dizer tudo. Sempre tive medo do que você poderia fazer e do que poderia te acontecer se você tentasse fazer algo.
A verdade é que não posso me casar com você, porquê já sou casada. Nunca te contei sobre John, o monstro que me levou para casa, que me enganou, que se aproveitou de mim e transformou minha vida que já não era boa em um inferno. Ele me conquistou aos poucos, na época em que eu vivia no meu carro, me trazendo comida e cobertores.
Eu tinha só dezesseis anos e quando John me chamou para morar e mais tarde para casar com ele eu pensei que eu fosse a pessoa mais sortuda do mundo. Que finalmente eu tinha encontrado alguém que me amava e se importava comigo. Quando eu me dei conta estava na casa dele casada e aterrorizada demais para fugir.
John sempre foi um homem simpático e gentil comigo. Até um dia não ser mais. Apesar de terem acontecido muitas vezes nunca me esqueci da primeira vez, acho que nunca vou me esquecer. Era outono e fui ao mercado, mesmo ele tendo me dito várias vezes que não queria que eu fosse, quando voltei ele me agrediu, numa quantidade suficiente para me deixar dolorida e marcada por dias. Ele pediu desculpas e eu acreditei ou quis acreditar porquê não queria voltar pra rua. John era a única pessoa que eu tinha e não queria ficar sozinha de novo.
A cada semana as surras e ameaças ficaram mais frequentes. Até diárias, o único lugar que ele não gostava de atingir era meu rosto. Sabe as cicatrizes no meu corpo, aquelas que eu te disse que eram frutos da época das ruas e de quedas de bicicleta?
Elas são na verdade as cicatrizes mais nítidas do que ele me fez. As mais profundas estão aqui dentro e dessas eu acho que nunca vou realmente me curar. Demorei mais de um ano para tomar coragem e fugir. Isso só quando percebi que não sobreviveria se continuasse. Foram necessárias algumas tentativas, porém no fim tudo deu certo.
Inventei um novo nome e venho fugindo há anos. Mary, uma mulher amedrontada e medrosa morreu, dando lugar a Jo uma mulher forte e inteligente que encontrou um jeito de mudar seu futuro.
Apesar disso ainda tem noites que eu acordo apavorada com medo dele, temendo que meu escape tenha sido apenas um sonho e que na realidade eu ainda esteja presa lá. Todos os pesadelos que eu nunca quis te contar, eram basicamente os mesmos, John estava em todos. Alguns com uma faca, outros com uma arma, sonhos tão vívidos que me fizeram manter aquela arma de baixo da nossa cama. Ela era somente mais uma forma de eu lidar com meu passado. Algo que deixava meu sono mais tranquilo.
A verdade é que eu sinto tanto medo dele. Medo que ele me encontre e me arraste de volta para aquele inferno. Me perdoa por não poder me casar com você, por não ter te contado e por estar te fazendo sofrer tanto. Essa era a última coisa que eu queria.
Se eu pudesse me casar com você, se os documentos que eu hoje uso fossem suficientes eu o faria. Se me casar ele vai acabar descobrindo onde estou e virá terminar o que começou. Não posso correr esse risco.
Eu te amo, Alex, mas trazer isso à tona traria tanto risco a mim quanto a você. E se fosse só minha vida em risco talvez eu fosse capaz de arriscar, mas com a sua não posso. Não com a única pessoa que realmente se importa comigo e uma das únicas com qual me importo.
A única coisa que posso pedir é que compreenda e me perdoe. Não posso viver sem você. Não sei mais como, mas se quiser que eu vá embora, se não quiser me ver nunca mais, eu vou entender e vou me afastar. Só me avise.
Beijos
Te amo e te amarei para sempre
Eu te esperarei
Jo
Notas finais
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