Notas iniciais
Só quero dizer que espero que tenha alguém lendo isso...

Estou aqui há dois dias completos e já devo ter conhecido todos os integrantes da equipe de psicólogos do hospital. A ponto de me fazerem perder a paciência. Quantas vezes vou precisar repetir que não preciso conversar sobre o que aconteceu? Que não quero me abrir para estranhos que vem meu caso como mais uma folha em um arquivo?

Cansei de ouvir o quão sério eles acreditam ser o meu problema e o quão urgente eu deveria estar procurando ajuda. O engraçado é que mesmo quando eles vem sozinhos acabam falando a mesma coisa. A estrutura da frase ás vezes muda, mas seu conteúdo é sempre o mesmo:

“Você é um perigo para você e todos a seu redor.”

Frase que eu concordo absolutamente, porém não da maneira que eles gostariam. Ela me prende e me lembra porquê não posso revelar nada. Segundo eles, eu poderia ter sido liberada hoje de manhã se não fosse tão teimosa com a questão do tratamento. Desde que eu aceite ter uma consulta inicial eu estou livre. O que não quero, não sei o que posso acabar dizendo e as consequências que posso enfrentar.

Já é noite e nada da alta médica. Não pensei que a equipe fosse permitir que eu chegasse tão longe. Afinal o leito que ocupo deveria estar ocupado por alguém com mais necessidade. Culpa que os tais pretendem deixar nos meus ombros.

Cheguei a comentar isso com um enfermeiro que me respondeu mais diretamente que todos os médicos: me coloquei em uma situação de perigo e tive sorte de não ter me machucado ou ferido alguma outra pessoa gravemente no processo.

O soco em Hunt é uma prova disso, as possibilidades eram infinitamente piores e nessa noite por mais que eu não queira admitir eu sou o paciente que precisa de ajuda. A última frase de Adam ressoa em meus ouvidos:

“Você precisa ajudar a si mesma para não acabar machucando os outros.”

Em certa parte a frase me convenceu. Preciso de ajuda, mas não posso usar dela sem destruir a vida que possuo. Expor minha real identidade mesmo dentro de um consultório é perigoso demais. Um risco que eu não estou disposta a correr.

— Como está? Pensei que já estava em casa, mas aparentemente não.- Diz Amelia já entrando no quarto.

— Os médicos estão um pouco relutantes em me deixar ir embora sem uma consulta especializada. Pediram pra você vir falar comigo?

— Pediram, mas eu teria vindo de qualquer jeito. Sei como é ter tanto medo e sei como é importante tratá-lo. Eu sou o exemplo do que um trauma mal resolvido pode gerar. Não sei se sabe, mas meu pai foi assassinado bem na minha frente. Nunca tive ajuda e anos depois acabei me viciando em drogas. Me apegando numa coisa que não fosse tão frágil como a vida. Não estou dizendo que você vai se tornar uma viciada, o que quero dizer é que um trauma causa mudanças que precisam ser acompanhadas por um profissional para não se tornarem problemas no futuro. Talvez você não veja a seriedade agora, eu por muito tempo também não enxerguei. Repetia que eles estavam exagerando, que eu estava no controle, mas a verdade é que eu não estava. Nunca estive. E o tempo que eu gastei negando foi apenas isso: tempo jogado fora. Há dois dias você não estava no controle e não adianta repetir pra si mesma que não vai mais acontecer, porquê você sabe que vai como eu sabia que ia beber de novo depois do primeiro copo. Não jogue mais do seu tempo fora. Converse com um deles, posso te indicar alguns grupos de apoio se quiser.

— Não posso contar para eles.

— Então, conte pra mim. Já é um começo, se abra pra mim e eu converso com a equipe sobre a sua alta.

— Eu tenho medo que falar sobre ele o traga de volta, entende ?- Apesar de não fazer sentido eu falo. Talvez Amelia entenda.

— Não precisa me contar tudo. A parte que estiver preparada. Qualquer coisa já te ajudará a se sentir um pouco melhor — Digo tudo a ela. Falo sobre Alex e tudo o que passamos, John e meu falso nome. Não pretendia contar, porém quando a primeira verdade saiu foi como derrubar um jogo de dominó. Uma informação me levou a outra, que me levou a outra e quando me dei conta estava chorando como uma criança em seu colo.

Pouco tempo depois tenho a minha alta assinada e sou obrigada mais uma vez a escutar sobre o tratamento indicado. Proposta que mesmo com as últimas mudanças eu nego. Já contei a verdade para pessoas demais...

Interrompendo minha resposta entra Bailey. Seu rosto não me traz boas sensações. Será que Alex ou Amelia contaram algo a ela?

— Senhora Gilbert, posso conversar com a senhora por um instante?- Estremeço ao escutar meu sobrenome de casada. De alguma maneira Bailey já sabe.

— Pode nos dar licença, doutor Peter?- O médico se retira, me deixando sozinha com ela. Minha vida está acabada, vou perder minha bolsa, se não perder minha licença médica. O silêncio reina por alguns segundos até que eu pergunte:

— Como sabe?

— Aparentemente nossa análise de documentos para bolsas não é tão boa quanto a da ala psquiátrica. Entenda bem, Jo, não sei pelo o que você passou, imagino que por muitas coisas horríveis para te fazerem tomar essa decisão, mas eu como diretora da cirurgia não posso fechar os olhos para uma violação da lei como essa. Preciso reportar e por isso você está suspensa até segunda ordem. Até que sejam verificados todos os históricos curriculares apresentados e que você se apresente a justiça para regular sua situação. Sua volta será analisada pelo Conselho.

— Mas Bailey...

— Jo ou Mary, o que for. Já estou sendo muito mais bondosa do que deveria, em qualquer lugar sua expulsão já teria sido divulgada oficialmente.

Da mesma maneira que Bailey entrou, ela saiu. Me deixando sozinha com uma alta na mão e sem saber como será minha vida daqui em diante. Não posso regular minha situação tenho medo demais do John para fazer isso. Terei que reconstruir minha vida novamente em outro lugar sem ter o apoio de uma carta de recomendação ou de Alex.

Vou para casa em dúvida sobre o que é mais perigoso ir para uma cidade onde mais ninguém me conhece ou ficar vendo toda a verdade ser revelada. Alguém me liga repetidamente, mas eu nem presto atenção. Não de verdade, não quero conversar com ninguém. Não quero ter que confirmar que tudo o que Bailey disse a eles é verdade...

Acabo adormecendo e ao pegar meu celular o número de chamadas perdidas me assusta são dez só de Alex. Depois de hesitar um pouco escuto a mensagem de voz que ele deixou:

“ Eu li sua carta, Jo. Acredito em você, Amelia me contou sobre o que houve. Me perdoe por não entrar em contato antes. Logo nos veremos. Eu te juro.”

Após ouvi-la tento entrar em contato, contudo é inútil ele não me atende. O que me causa arrepios e se ele tiver ido atrás de John?

Conheço Alex e isso é algo que ele seria capaz de fazer. Nervosa disco o número da Meredith que me atende no terceiro toque.

— Ia ligar pra você, Jo. Alex foi atrás dele... – Meredith não precisa dizer nomes sei de quem ela está falando:John.

— Por que não o impediu? John é perigoso, ai meu Deus... Precisamos encontrá-lo, Meredith. É perigoso demais, ainda mais ele sozinho. Não vou me perdoar se John fizer algo com ele. Tem alguma ideia de pra onde ele foi?

— Alex disse algo sobre Rogers, no Arizona...

— Precisamos alcançá-lo antes que seja tarde demais.

— Jo, ele partiu há dois dias me mandou mensagem ontem dizendo que já estava voltando. Me fez jurar que não diria nada a você até ele estar bem.

— Sério? Ele não me atende...

— Alex só deve estar dirigindo espere um pouco. Assim que tiver notícias te informo.

Passo o resto do dia olhando o celular apreensiva demais para fazer outra coisa. Será que Alex está bem? É a única coisa que consigo pensar. Ando para todos os lados com o celular na mão e ligo para Meredith dez vezes mais. Já se passaram seis horas e nada...

Duas mãos seguram minha cintura e eu estremeço a princípio por medo e depois alívio seria capaz de reconhece-las em qualquer lugar.

— Alex! Graças a Deus!Eu estava tão preocupada... – Digo e me viro em sua direção feliz demais de poder vê-lo de novo.

— John está morto.

— O que você fez? Você não...- Pergunto temerosa, ele não pode ter feito isso. Não é justo que Alex pague pelas consequências dos meus estúpidos enganos.

— Não. Ele morreu de overdose há três anos, Jo. Ou devo te chamar de Mary? Você está segura- Não consigo responder sua pergunta. O choro acumulado em anos se liberta: estou livre, estou livre. É a única coisa que consigo pensar que consigo sentir.

— Obrigada, Alex!

Notas finais
Espero que vocês tenham gostado veio do fundo do meu coração!! Aguardo por reviews!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!