Eu te amo.

1 Capítulo 1


Eu sei que deveria começar esta carta com a saudação correta, mas estaria indo completamente contra os meus princípios e contra o padrão desta nossa história. Então, decidi começar de um jeito diferente. Do começo. Há muito tempo, quando alguém mudou tudo. Quando esbarrei com o meu destino e percebi que o resto da minha vida não seria nada do planejado, e aprendi que os meus planos sempre foram os piores, porque quando ainda me dedicava a fazê-los, fazia só. Sem a minha mente pensante, o meu coração preenchido, que — hoje — sei que vive fora do meu corpo e que por sorte fui agraciado com a dádiva de conhecê-lo. Ou melhor, conhecê-la.

Decidi não contar o meu nome. Manterei a minha identidade secreta, pois sei que no decorrer das palavras você saberá quem escreveu (e, modéstia parte, espero que já imagine e que não existam muitas opções. Do contrário você não estaria lendo esta carta, que jamais teria sido entregue). Bom, comecemos.

Discorro aqui sobre minha história. Recentemente, cheguei a conclusão de que para tudo há um propósito e, ao contrário do que possa pensar, esta descoberta me causou mais frustração do que a separação do Oasis em 2009. Frustração essa que não durou muito mais do que dois ou três milésimos de segundo. Engraçado como nossa mente funciona rápido, não?! Enfim.

Hoje fazem exatos vinte e dois anos que me livrei das garras mortíferas — ou do ventre — de uma mulher maluca. Por muito tempo, a única que amei. Nossa jornada unida durou pouco mais de oito anos e segui com outro alucinado, seu irmão, o qual muito me ensinou sobre a vida e suas feridas. O meu maior exemplo e ídolo nasceu como uma figura solitária e alegre com o rumo que tinha. Drogas, bebidas, dinheiro, festas e uma bela casa esporadicamente habitada por inúmeras mulheres em busca da companhia que, ali, jamais encontrariam. O cenário perfeito (até então).

Aos dezessete, já experiente quanto a rotina descompromissada de malícias e aparente "diversão", não esperava ser descoberto pelo furacão ao qual fui apresentado. Ou que eu mesmo procurei. Assim como todos os outros, este tinha um nome que o contradizia. Diferentemente de todos os outros, curvas perigosas e cuidadosamente treinadas e calculadas para derrubar qualquer um que chegasse ao seu encontro. Longos cabelos dourados, que à luz do sol brilhavam sem perceber. E, não posso deixar de dizer, um linguajar afiado, como um soldado pronto para espantar qualquer inimigo de guerra — que era como de identificava.

Sempre gostei de desafios, mas neste caso tudo foi diferente. Minha sede por conquista durou pouco mais de um dia, até se transformar em uma curiosidade reflexiva. Seguida por um apego imensurável e a necessidade de ser e estar contigo. Serena. Um nome que nada diz a respeito de ti, essa figura chamativa e despretensiosa, que me fisgou sem a ter a menor intenção e sem nem ao menos me querer de volta! Sutilmente, me fez conhecer algo jamais antes visto e que já nem mesmo acreditava existir. Me fez sentir. Doer o peito. Esfriar o estômago. Chorar sem medo, em desabafo. Vi e ouvi. Desejei estar, mas não mais só por vencer, por te ganhar. Desejei por precisar. Por te apreciar, te admirar.

Era amor. Não pense que eu soube logo! Sabemos que demorou. Mas hoje vejo que era amor. E que amor! Um grande amor. Me tirou o medo de pronunciar essa palavra que tanto temia e que a partir dali implorava para viver.

Não sei te dizer qual foi o momento exato que percebi que já não poderia mais existir sem você, mas posso afirmar que cada gesto e movimento me afetavam — e afetam — de uma maneira que o homem é incapaz de descrever.

Gratidão.

Quanta gratidão por tudo o que você foi e é pra mim. Por tudo o que fez na minha vida, por tudo o que reconheceu em mim. Você foi um desses furacões que derrubam uma cidade inteira, velha e fria, mas que depois de passar é reconstruída mil vezes melhor.

Eu nem sei se isso existe, mas existiu em mim.

Existe uma vida antes e outra depois de você.

Obrigado por me fazer enxergar em mim algo que jamais imaginei que pudesse existir.

Obrigado por modificar algo que seria feito de ruínas.

Obrigado por me apresentar uma vida que eu perderia se tivesse escolhido só.

Obrigado por me mostrar que não posso ser feliz sozinho, e obrigado por estar comigo em todo tempo. Sempre. Mesmo quando nem eu mesmo consigo.

Obrigado por cada briga que me acrescentou em tempo de vida e me amadureceu, me fazendo pronto a estar com uma mulher tão incrível quanto você.

Obrigado por cada noite incrível que eu jamais conheceria, em nenhum lugar do mundo, disponível só colado ao calor do seu corpo perfeito.

Obrigado por me fazer sentir feliz todos os dias e por estar comigo todo esse tempo.

Obrigado por me ensinar o que é ser verdadeiramente feliz.

Olho para trás e, no mais profundo que procuro, não encontro sequer um resquício de esperança ou animação. Eu tinha planos para viver até os vinte e seis e encerrar um legado ridículo construído por uma vida sem propósito e arruinada. Desperdiçada. Despedaçada.

Você reconstruiu cada parte de alguém que já não tinha mais salvação, e foi aí que eu entendi que ninguém nasceu para ser sozinho. Foi aí que todos os ditos sobre "a metade de uma laranja" ou "a tampa da panela" começaram a fazer real sentido e hoje, aqui, te olhando da janela da nossa kombi colorida, conhecendo paisagens que só se tornam tão bonitas porque posso vê-las sendo desbravadas por você, entendo que sou feito em dois e não poderia viver sem a minha metade.

Como naquele livro que você tanto gosta, do garoto que sobreviveu e ficou com uma cicatriz... Sobre a parte do grande vilão: você é a minha horcrux sem a intenção de ser construída. O meu pedaço fora do peito, que me completa e me ensina. Me preenche. Me auxilia. Abre meus olhos todos os dias para a vida que deve ser vivida.

Hoje completo vinte e dois anos e sei que só nos últimos cinco pude desfrutar desse grande privilégio que é viver.

Não faz sentido se for sem amor.

Não faz sentido se for sem você.

Escrevendo esta carta, completo vinte e dois anos e você me fez um bolo que era mais pra você. Do seu prato preferido, que virou o meu também só por amar te ver comer. Nutella e morangos são a segunda melhor combinação do mundo, meu amor. Perdendo só pra eu e você.

Você colocou velas e me pediu para fazer um pedido. Decidi pensar melhor sobre o que pedir, pois sei que já tenho tudo o que quero e preciso.

Eu disse no início que hoje era um dia de reflexão, e que meus planos sempre foram péssimos planos. Entendo que você mudou o meu destino, a minha história, e cooperando com o seu feito, decidi trocar o pedido por uma fé escrita neste papel e se hoje você está lendo e conhecendo a minha reflexão, hoje completamos vinte e dois anos. Escrevi essa carta aos vinte e dois, com esperança de que os próximos seriam ao seu lado e, graças a Deus, cá estamos.

São vinte e dois anos de união. Vinte e dois anos que encontrei a mulher da minha vida e dei a sorte de tê-la por perto durante tanto tempo.

Quero te dizer que sou feliz com você.

Quero te dizer que não gostaria de viver uma vida que não fosse essa.

Quero te dizer que sou grato por nossos filhos e por me fazer ver que tanto amor não bastou guardado, e neles vejo que transbordamos.

Hoje, depois de vinte e dois anos, sentado na garagem do lar que construímos juntos, onde tenho o melhor trabalho que poderia escolher, sendo o melhor marceneiro que poderia ser, tendo a melhor esposa que qualquer um desejaria ter (mas nem por cima do meu cadáver), acrescento nesta carta esses últimos parágrafos e te digo que hoje, depois de vinte e dois anos, já fazem vinte e três anos que não duvido do quanto eu te amo.

Obrigado por ser você, Loirão.

Com amor,

Do seu eterno Richard Mayer.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!