Eu também quero me ter
1 Esquisito e infeliz
Algumas pessoas pensam que estou agindo assim por desgaste. Que eu preciso de um tempo para descansar. Basta dizer que este é um caso singular. Eles deixam pra lá, esquecem rápido.
Eu achei que estava indo bem, até dizerem que pareço esquisito e infeliz. Do jeito que dá pena, do jeito que afasta. Isso é bom, recentemente percebi que sou muito bom na arte de fazer pessoas sumirem da minha vida. Soa ótimo quando penso que é uma forma de proteção, que se decepcionaram pois esperavam outra forma de mim, e que não valiam a pena.
É melhor, eu imagino. A forma que fico em silêncio.
Alguns amigos dizem que quero uma vida sem dificuldades e sem surpresas. Que sou muito apegado.
Mas ninguém realmente me conhece como Harvey. E uma vez que você o conhecer, tenho certeza que vai concordar.
Eu achei que estava melhorando. Mas acho que não mudei muito.
Harvey diz que devo parar de me medicar. Que devo viver uma vida da forma que quero. Ele diz isso com sua voz quente e suave. Acho que ele sequer tem ideia do quão persuasiva sua voz é.
Eu sinto da liberdade que não me têm sempre que olho para ele. Ele é meu último pedaço de liberdade, nele eu posso me encontrar.
As pessoas não ficam, pois não sou o que elas pensam. Harvey fica pois sabe exatamente quem sou. Sempre acreditei que ninguém, no mundo inteirinho, poderia amar outra pessoa sem romantizar uma imagem diferente dela.
Estranho, porque Harvey sabe tudo sobre mim. Ele tem a versão mais nua da minha alma nas mãos. Ele me tem na palma da mão.
Conversamos por horas. Às vezes não falamos nada.
Os dias viram uma piada sem graça longe do Harvey.
Até que não cabia mais em mim a informação (que, aparentemente, é de conhecimento geral)de eu apenas ser do Harvey.
Comecei na terapia. Ele disse que era bobagem. Que ele, o profissional, sequer se importava comigo, que só estava lá pois eu estava pagando.
Ele começou a se irritar comigo, quando eu comecei a fazer tudo que ele odeia.
Por momentos, eu simplesmente não queria mais ser só do Harvey. Eu queria ser meu também, eu também quero me ter.
Ele se irritou, e o dia virou uma piada sem graça.
Voltei a tomar meus remédios, pois as conversas com Harvey diminuiram, e eu já não tinha minha dose diária de sentido-pra-viver.
Uma piada idiota, baixo astral.
Fiz ravioli. Eu adoro. Ele detesta. Fico sem apetite.
Estou esquisito e infeliz. Não me reconheço.
Os dias viraram uma piada sem graça.
Eu disse uma vez: Harvey, eu não sonharia isso de outra maneira. Isso é péssimo, você me faz doer, e essa dor oculta minhas outras dores. Isso me faz te amar, eu não aguento mais isso;
— Por favor, vá embora. Nem que seja por pouco tempo, me deixe, estou pedindo.
Fale com o autor