Eu sou a Lenda
15 I-XIV Perdida
Isabella saiu ainda nua do banheiro andando a passos lentos, a expressão de quem não estava conformada com seu destino e que jamais estaria. Duas doggens* estavam ali, paradas em silêncio a aguardando.
A vampira virou-se para o espelho permitindo que as fêmeas a cobrisse de azeite ornamentado com ervas, apenas erguendo os braços ou afastando as pernas quando necessário. Quando terminaram de purifica-la a embrulharam em uma túnica cerimonial branca bordada com fios de ouro, soltaram-lhe os cabelos que estavam presos no alto da cabeça escovando os fios até que os cachos se transformassem em ondas bem assentadas e por fim, a maldita cora no alto da cabeça indicando a casta nobre a qual pertencia
Assim que finalizaram seu trabalho, as servas fizeram uma profunda reverência e saíram do quarto deixando a vampira sozinha. A vampira olhou a princesa refletida no espelho, princesa essa em quem não conseguia se reconhecer e então lágrimas silenciosas começaram a descer por seus olhos
...
— A fronteira permanece enfraquecida – lamentava Jessica enquanto alimentava Anne no colo de Edward aquele começo de noite, como sempre, o humano estava sentado a mesa dos recrutas para a refeição quando a guardiã do outono o encarregars da missão de cuidar da pequena vampira alegando que a criança o adorava
— Enquanto não formos quatro novamente não podemos voltar lá – completou Irina com preocupação
— Ainda falta tanto para o próximo solstício – continuou Jessica em tom quase de aflição – Isso considerando a melhor hipótese que é ela resistindo a transição
— Ela vai dizer não! – colocou Emmett que até o momento estava apenas escutando a conversa das guardiãs. As duas vampiras o olharam com compaixão
— Ninguém nunca disse não – falou Irina com delicadeza – E acredite, nenhuma de nós sonhou ser guardiã
— Vocês não conhecem a Bella – falou decidido e as vampiras se entreolharam como se conversassem por telepatia e por fim desviaram o olhar como alguém que prefere não discutir com um leigo
— O que acontece se ela não passar na transição? – perguntou Edward em tom despreocupado olhando a pequena em seus braços
— A Virgem escolherá outra para assumir o lugar dela e teremos que esperar um outro solstício para que aconteça o ritual da transição – respondeu prontamente Jessica – E até lá, nada de fortalecermos a fronteira
— Entendi, mas eu quis dizer com ela, o que acontece com uma vampira quando ela não consegue passar pela transição?
— Ela morre – respondeu Irina. Edward não queria transparecer sua aflição com a frase da outra, mas algo em sua expressão o denunciou já que Jessica repreendeu a irmã de voto com o olhar
— A transição não é fácil, tem muito poder envolvido e é um processo longo e doloroso. Algumas vampiras acabam não resistindo, e é necessário que seja assim, o fardo que carregamos é muito pesado. Somos responsáveis por proteger um objeto que não somente possui a grandeza dos deuses como também é o motivo da briga entre eles desde os primórdios –
— Mas ela pode dizer que não aceita, pelo o que entendi – falou olhando a vampira
— Sim pode – respondeu Jessica fingindo esperança – A Virgem é justa, sempre! O processo ocorre da seguinte forma, ela foi escolhida essa manhã, então teve o dia para se preparar. Quando a lua estiver alta no céu, ela vai para o santuário e passa a noite lá sendo atendida pela auxhiliar*. Amanhã pela manhã, a própria Virgem conversará com ela e caso ela não deseje atender a mãe da raça, pode dizer não
— E se ela dizer não? Sofrerá alguma represaria?
— De forma alguma. A Virgem escolherá uma nova fêmea e ela seguirá a vida dela. Mas acho que você não compreendeu – falou ainda delicada – Acho que nenhum de vocês entendeu – olhou para Emmett — A própria Virgem falará com ela. Quem consegue dizer não a deusa? — Edward engoliu em seco e então olhou diretamente para o vampiro que ainda prestava atenção a conversa
— Você a conhece bem? – perguntou de cenho franzido
— Como a palma da minha mão – garantiu o vampiro
— Ela conseguirá dizer não a deusa?
— Não tenho duvidas disso! – O humano assentiu para o outro e voltou a olhar a vampirinha ainda em seu colo
— Hei Bella! – falou Jasper com empolgação e todos a mesa se agitaram fazendo gestos para que ele se calasse
— Ela está se purificando, não pode falar. – explicou Irina ao humano que se encolhia no lugar – precisa manter a mente limpa e em comunhão com a Virgem
A vampira não falou, mas Edward viu o exato momento em que ela revirou os olhos ao sentar-se ao lado de Emmett. Apenas verduras, legumes e frutas foram servidos a vampira que o tempo inteiro permanecia concentrada em sua refeição enquanto os demais faziam silêncio em respeito ao seu ritual
Edward ficou ali, mesmo quando um a um, todos os outros saíram e curiosamente, a vampira também ficou, mesmo após terminar sua refeição. Os dois olhavam-se discretamente por diversas vezes.. O humano não sabia o porquê de continuar sentado à mesa olhando a vampira, ela não merecia seu apoio, não merecia sua preocupação. Mas ainda assim, ele permanecia ali, querendo lhe dar tudo o que não merecia
— Vamos? – perguntou Jasper ao terminar sua refeição. Edward olhou para Isabella encontrando o olhar da vampira que brincava com os próprios dedos em cima da mesa
— Eu acho que vou comer mais alguma coisa – respondeu e pode escutar Emmett bufar contrariado. Jasper por sua vez deu de ombros saindo dali
— Leelan*, eu a acompanho até seu quarto – falou gentil se colocando de pé. Bella olhou do braço estendido do amigo para o humano que a olhou em expectativa e então voltou a olhar os próprios dedos sobre a mesa. Emmett respirou fundo – Bella, ele não é um de nós, não conhece nossos costumes e rituais então posso tentar aceitar o comportamento dele. Agora você, você é uma fêmea bem instruída, sabe que se não estiver pura quando o momento chegar, não será recebida no santuário e não poderá dizer não a Virgem – tentou chamar a amiga de volta a razão de maneira calma para não estressa-la. A vampira permaneceu imóvel sentada a mesa. Emmett aparentou não gostar da atitude, olhou em fúria para o humano claramente se esforçando para não arrumar uma briga ali – Ela está em processo de purificação. Não pode ficar nervosa, ter pensamentos impuros ou se ligar mais aos assuntos desse plano do que os do espiritual. Se a minha melhor amiga for submetida a um ritual torturoso e trancafiada dentro de uma pedra por não ter tido a oportunidade de se apresentar a Virgem e dizer que não deseja ser guardiã. Eu irei garantir que sofra tanto quanto ela! – finalmente o vampiro os deixou sozinhos
Por um momento, o silêncio reinou entre eles. A vampira sustentava a expressão inexpressiva no rosto, mas o humano podia ver nos olhos dela toda a preocupação e o medo que estava sentindo, sabia, que por dentro, a fêmea estava aterrorizada
— Eu tenho um irmão mais novo – contou com um sorriso nos lábios ao lembrar-se do pentelho que era seu irmão. A vampira prestou atenção na fala dele, tal como alguém prestes a se afogar segurando-se em uma corda – ele é realmente uma peste com um grande talento para se meter em confusão – existiam muitas coisas profundas que desejava dizer ela, queria lhe falar sobre como sentiu-se quando foi rejeitado por ela antes mesmo de conhece-la. Queria entender os motivos que a levaram a tomar tal atitude. Mas não naquela noite. Não quando claramente a vampira já tinha muitos assuntos confundindo sua mente
Queria distrai-la, fazer com que esquecesse seus problemas ao menos por hora. E foi o que fez, durante o que pareceu-lhe muito tempo, contou das trapalhadas do irmão caçula, da devoção que o mais novo tinha por ele, mesmo quando não se achava digno disso. E sobre tudo, contou a vampira com exatidão o tamanho do sentimento que nutria pelo mais novo
Isabella embora não pudesse interagir no monólogo do humano, sorria sempre que a história partia para um tom cômico e prestava muita atenção a cada palavra saída da boca do homem. Em dado momento, olhou a lua alta no céu, indicando que precisava ir. Edward acompanhou o olhar da outra e voltou a olha-la com pesar
— Eu posso te acompanhar até o seu quarto, se você quiser – não foi necessário nenhuma confirmação, a vampira se colocou de pé e prontamente o humano se colocou ao lado dela. Ele não sabia se tinha permissão ou o direito de fazer, mas ainda assim, passou um braço na cintura dela a trazendo para mais perto em conforto. A vampira repousou a cabeça sobre o ombro dele e ambos caminharam em silêncio para o quarto
...
Na porta do quarto, o casal parou um na frente do outro se olhando nos olhos enquanto mantinham as mãos entrelaçadas. Edward pela primeira vez curvou-se a frente da princesa, levando as delicadas mãos a boca em um beijo casto e demorado. Enquanto levantava-se, virou o pulso da fêmea para cima analisando a marca gravada ali. Com o polegar, alisou a imagem enquanto o trágico destino que os aguardava caso ela se tornasse guardiã brincava em sua mente o enchendo de temor
— Quando eu era criança, um garoto inseguro e desprezado por ser o mais fraco de todos. Eu gostava de fantasiar com o dia em que conheceria a minha shellan*, na minha imaginação, ela seria uma fêmea delicada, meiga, gentil, frágil, e eu a defenderia de tudo e todos – voltou a olhar a vampira nos olhos – E então ela tentou me matar – sorriu em deboche – você é completamente o oposto do que eu fantasiei, não é nem de longe meiga ou delicada e por... – pigarreou – pelos deuses, você é qualquer coisa, menos frágil. Você é forte Bella, muito forte, e eu tenho certeza que se alguém aguenta o tranco de ser guardiã e passar pela tal transição, esse alguém é você. Mas por favor, eu estou implorando, se você tem alguma consideração ainda que mínima por mim, diga não! Se não tiver, faça pelo vampiro de ego grande a quem você parece amar, não me importa o por que, desde que diga não – suplicou e a vampira pareceu o analisar, tal como se soubesse exatamente os motivos que o levavam a fazer aquele pedido e então assentiu
Edward não pensou se estava quebrando algum ritual, se a estava poluindo com sua atitude, ou comprometendo sua ida ao santuário, apenas a puxou para um beijo ansioso de alguém que teme a partida do outro. A vampira enlaçou os braços no pescoço dele o puxando pelos cabelos para ainda mais perto com o mesmo nível de ansiedade e então o afastou.
Com um último olhar, abriu a porta e entrou no quarto o deixando ali sozinho. Edward apoiou a cabeça sobre o objeto de madeira de olhos fechados e respirou fundo suplicando que somente daquela vez, suas decisões não ficassem ainda mais complicadas do que já eram
...
Isabella caminhou lentamente até o espaço que suas doggens* haviam preparado para suas orações. No canto do quarto, os lençóis de seda brancos estavam ao chão, cobertos por pétalas de rosas brancas. Os incensos acesos inebriavam o ambiente com perfume amadeirado e almofadas também brancas dariam um pouco de conforto a princesa.
A vampira suspirou audivelmente e então ajoelhou-se sobre as almofadas e sentou-se sobre os calcanhares em uma postura perfeitamente ereta. Depositou as mãos sobre as coxas e fechou os olhos tentando controlar a respiração e esvaziar a mente em busca do equilíbrio entre o corpo e o espirito
— Eu não vou entoar cântico de louvor algum – avisou ainda de olhos fechados – Já fiz muito por esse ritual e louva-la não é algo que esteja disposta a fazer – escutou uma risada contida atrás dela e imediatamente abriu os olhos deparando-se com a parede branca, olhou em volta o quarto completamente branco, das paredes e piso á mobília e cortinas
— A menina permanece a mesma rabugenta de sempre— uma voz feminina falou no antigo idioma atrás dela e imediatamente Bella virou-se olhando a fêmea em pé ali vestida em vestes religiosas a olhando emocionada, tal como alguém que vê um ente querido depois de muito tempo longe
— Eu não compreendo— respondeu também no antigo idioma supondo que a fêmea não conhecia o idioma dos mortais. A fêmea não explicou-se, caminhou até ela com os olhos ainda emocionados e alisou seu rosto com ternura enquanto lhe sorria
— Sente-se criança, vou prepara-la para estar a presença da Virgem— claramente, aquelas não eram as palavras que a auxhiliar* queria dizer, mas ainda assim, Bella sentou-se a poltrona que a fêmea indicara a olhando começar a lavar-lhe os pé com uma bacia branca enquanto entoava cânticos baixinhos. Quando terminou a auxhiliar* puxou uma outra poltrona a posicionando de frente para Isabella e sentou-se nela a olhando de maneira divertida – Eu preciso te instruir a maneira correta de estar na presença da Virgem, embora tenha certeza que não levará em conta nada do que eu diga
As horas se passaram com a fêmea presa a um longo monólogo sobre o quanto poderia ser gratificante servir a mãe da raça, as honras, os privilégios. Sobre como uma guardiã era escolhida entre as mais puras de sua linhagem. Deu-lhe instruções de como deveria se portar na presença da deusa, o tom de voz adequado, o que poderia ou não ser conversado diretamente com a Virgem. O tempo inteiro, Isabella escutou em silêncio, apenas revirando os olhos ou bufando quando queria demonstrar sua insatisfação. A auxhiliar* sorria da menina em cada um desses momentos, como se estivesse habituada ao jeito carrancudo da outra
— A mãe da raça logo estará aqui— avisou colocando-se de pé, pronta para deixar a vampira sozinha – se manteve muito calada criança. Tens alguma duvida?
— Por que ela me odeia? – perguntou em revolta. A auxhiliar* sorriu de maneira amável para ela enquanto tomava as mãos da outra nas suas
— Eu sempre soube que você não mudaria. Eu avisei, mas não me deram ouvidos – falou parecendo estar orgulhosa
— Eu não compreendo— falou pela segunda vez desde que chegara ali e mais uma vez a fêmea acariciou-lhe o rosto a olhando nos olhos
— Você precisa encontrar.
— Encontrar o que?
— Precisa encontrar a história que você esqueceu, a história que foi tirada de você— Bella a olhou confusa, mas antes que tivesse oportunidade de fazer qualquer pergunta, a porta se abriu e as duas olharam o manto negro flutuar para dentro do quarto. Imediatamente a auxhiliar* colocou-se de pé fazendo uma profunda reverência a Virgem
— Fez um excelente trabalho com nossa escolhida Pany, deixe que eu assuma agora— falou a voz de sinos, como sempre soando de maneira afetiva. A fêmea fez uma nova reverência, olhou uma ultima vez a princesa e então as deixou sozinhas – Como estás escolhida? – perguntou ainda no idioma dos deuses
— Vamos pular a ladainha toda e economizar tempo para nós duas. – iniciou no idioma habitual dos mortais somente na infantil intenção de afrontar a deusa – Eu só vim dizer que não aceito ser guardiã, protetora, o que seja, de pedra alguma
— Eu sei – respondeu também no idioma dos mortais
— Não vai me obrigar? – perguntou embasbacada – Ou tentar me persuadir a dizer sim?
— Eu jamais faria isso – garantiu de maneira gentil
— Então por que me trouxe até aqui?
— Porque quero que seja a primeira a conhecer a minha segunda opção. – Bella revirou os olhos com descaso
— Eu dispenso
— E eu insisto. Tenho certeza de que vai adorar conhece-la, ela é ótima. Claro que a favorita permanece sendo você – completou em tom de sorriso – Quero a sua aprovação, você a conhece agora e em seguida poderá voltar para casa sem problema algum – Isabella bufou contrariada
— Vamos acabar logo com isso então
O manto negro indicou o caminho e Isabella a seguiu por um longo corredor branco. A Virgem parou em uma porta a abrindo e logo deu passagem para que Isabella entrasse
Bella passou pela porta e estacou no lugar olhando a fêmea parada ali a olhando com olhos lacrimosos. Mesmo sem desviar os olhos da fêmea viu pelo canto do olho o momento em que a Virgem passou por ela com o manto mudando de forma e logo a imagem de Emmett estava parado ao lado da vampira loira, claramente debochando de Isabella
— Ela não é linda? – perguntou enquanto alisava o rosto da loira – eu não sei o que seria de mim, se algo acontecesse a ela – a loira derramou as lagrimas que acumulara em silêncio e Isabella fechou os olhos respirando fundo
— Eu aceito ser a guardiã – falou ainda de olhos fechados, o coração sendo esmagado dentro do peito ao lembrar de todo o futuro a que suas palavras a levaria enquanto visualizava os olhos de outono a encarando em reprovação.
Abriu novamente e viu Emmett lhe sorrindo de maneira vitoriosa, logo o vampiro se transformou voltando a figura da Virgem Escriba
— Tem certeza disso? Não quero que faça nada contra sua vontade— falou a deusa em seu próprio idioma
— Estou certa de minha decisão— respondeu também no idioma dos deuses, dando-se conta de que era a deusa quem ditava as regras daquele jogo e ela precisava segui-las se quisesse preservar seu nallum* — Eu serei a sua guardiã, mas quero a palavra de minha deusa de que, Rosalie não será nunca mais uma opção, assim como nenhuma de suas descendentes— a sacerdotisa a olhou surpresa
— Você tem a minha palavra
...
— Vocês terão alguns dias para estarem com suas famílias. Aproveitem bem – falava Rhage ao pouco que restara do grupo de recrutas reunidos no pátio da torre de verão aquela manhã – Quando voltarem, serão consagrados guerreiros e sua família será essa guarda – a atenção de todos foi tomada por Isabella caminhando de maneira enfurecida em direção ao bosque. A vampira já estava de volta a suas vestes habituais. Imediatamente Emmett correu na direção da amiga a parando no lugar
— Agora não Emmett! – rosnou
— O que foi que aconteceu lá? – perguntou aflito o vampiro. Alguns curiosos se aproximando do casal
— Eu disse agora não Emmett! – esbravejou a vampira e perdendo a paciência, o vampiro puxou o braço da amiga levantando a manga cumprida da camisa negra que usava até a altura do cotovelo. As linhas negras e finas que saiam de dentro do circulo na palma da mão subiam se entrelaçando formando novos símbolos pelas costas da mão indo até próximo ao pulso
— Você disse que ia dizer não! – gritou exaltado olhando a fêmea em cobrança. Isabella puxou o braço da mão do amigo com violência o olhando de maneira irritada – Por que você nunca cumpre as suas promessas? Ou melhor, por que eu ainda acredito em você?
— Eu já te disse que agora não! – gritou – Depois eu falo com você! Depois! Agora eu não suporto sequer olhar para você – virou de costas pronta para ir embora
— Depois por que precisa de um tempo para pensar em qual mentira vai me contar dessa vez? – a vampira respirou fundo tentando conter o nó na garganta e então voltou-se novamente para o amigo
— Rosalie era a segunda opção, caso eu dissesse não – o vampiro paralisou no lugar a olhando boquiaberto – Vamos lá nallum* — disse irônica – responda-me, eu deveria ter dito não? – o vampiro engoliu em seco sem saber o que responder – foi o que pensei! – correu em direção ao bosque
...
Bella estava sentada em baixo de uma arvore ainda blasfemando contra a Virgem, quando Edward chegou ali andando em passos lentos. Sem dizer nada, o humano sentou-se ao lado dela olhando as demais arvores ao longe.
— Eu tenho uma coisa para você – falou a vampira quebrando o silêncio e o humano finalmente a olhou – Como está a sua fluência em antigo idioma?
— Humanos não possuem o conhecimento do antigo idioma – respondeu confuso
A vampira revirou os olhos enquanto puxava o papel que escrevera antes de sair do quarto de dentro da bota de soldado que usava e estendia para ele. Edward pegou o papel ainda em confusão, desdobrou a folha se concentrando nas palavras escritas ali sem dar-se ao trabalho de fingir que não as entendia
— Foi isso o que fez naquela noite? – perguntou engolindo em seco
— Pensei que gostaria de ter as mesmo escolhas que eu, se pudesse – respondeu com os olhos fixos a frente, evitando contato visual com o outro
Edward também desviou o olhar enquanto redobrava o papel o guardando em sua própria bota. Mais alguns minutos de silêncio se passaram, mas não era incômodo ou constrangedor. Os dois apenas desfrutavam da companhia um do outro enquanto ainda o podiam. A maldita marca na mão de Isabella ardeu e a vampira levantou a manga olhando as finas linhas se arrastarem para pouco acima do pulso
— O que significam essas linhas? – olhou para o humano que tinha os olhos fixos na imagem
— Correntes. Elas vão continuar se arrastando até que estejam sobre todo o meu corpo. – virou a mão para que ele tivesse uma melhor visão da palma – Quando chegar o momento, a joia vai ser colocada aqui – mostrou o símbolo arredondado com escritos no antigo idioma – e então, ela vai usar as correntes para arrastar minha alma para dentro de si e me aprisionar – Edward trincou os lábios com a informação e mais uma vez desviou o olhar da vampira, pegou uma pedra no chão e começou a roda-la por entre os dedos. Bella bateu com a cabeça contra a árvore e ficou olhando o céu – Você sabe que a única forma de alguém que não é guardiã usufruir do poder da joia é a quebrando. Não sabe?
— Enviando automaticamente as quatro almas presas dentro dela ao fade* — falou jogando com revolta a pedra para longe – Sim eu sei – também encostou a cabeça na árvore se mantendo de olhos fechados por alguns minutos – Eu pensei que não gostasse da sacerdotisa – falou olhando para o céu e Isabella respirou fundo
— E não gosto mesmo
— Por que se sacrificar por ela então?
— Ela é a shellan* de Emmett. Não me importo com a sacerdotisa é verdade, mas Emmett é a única pessoa no mundo com a qual eu me importo, se algo acontecer a ela ele vai sofrer. Eu jamais permitiria isso
— Mas e eu? – os dois se olharam ainda com as cabeças encostadas à árvore – Quero dizer, essa marca que temos significa que somos emparelhados não é mesmo? O que quer dizer que eu também vou sofrer se algo acontecer a você. Não se preocupa com isso? – jogou em tom de brincadeira enquanto sorria descontraído para a vampira que imitou a postura relaxada dele
— Dizem que a sua espécie foi criada para não ter sentimentos, tenho certeza de que vai sobreviver se algo me acontecer – debochou
— Hei, nós humanos somos muito sentimentais tá? – respondeu em falsa indignação
— Não estou me referindo ao seu lado humano – imediatamente o humano sentou-se a olhando de maneira tensa
— O que quer dizer?
— Você me entendeu – respondeu com descaso voltando a olhar o céu, enquanto pensava no quanto os dias que viriam seriam difíceis. Suspirou pesadamente – Eu só queria entender o que fiz a essa maldita deusa para ela me punir tanto. Primeiro me vincula a alguém incapaz de ter sentimentos, com o qual não posso me relacionar, ao menos não sem trazer de volta a vida a maior força maligna já existente no mundo. Depois, me torna responsável pela maldita pedra que o povo dele deseja desde o inicio da criação para que eu viva todos os meus dias tendo que fugir e me esconder de meu próprio hellren* — Edward soltou a respiração que havia prendido, deixando-se cair novamente recostado ao tronco encarando o céu, enquanto absorvia as informações que acabara de escutar
— A quanto tempo sabe? – perguntou sem olha-la
— Naquela noite, quando fiz o ritual, a própria Virgem Escriba me impediu de completa-lo. Quando perguntei o por que de sua intromissão ela me disse que a criança da profecia havia nascido, o sangue mais forte unido ao mais fraco. Um híbrido, metade humano, metade elemental e que eu estava vinculada a ele – Edward a olhou boquiaberto, depois olhou os próprios dedos tentando se recompor
— Por que não me entregou?
— Uma vez, eu perguntei a Virgem por que ela tinha me emparelhado a você, ela me respondeu que quis dar uma chance aos vampiros. Você nasceu e cresceu em meio a elementais, não sei o que aprendeu com eles, mas tenho certeza de que tem a verdade deles como absoluta. Talvez, eu também tenha querido dar uma chance aos vampiros, para que os conhecesse, pudesse ver a nossa versão da história – deu de ombros – ou talvez, eu só não acredite nessa história de lendas e crianças proféticas – riu tentando quebrar a tensão do momento
Edward também sorriu a olhando, Isabella viu a pupila se dilatar invadindo a íris extremamente verde a consumindo, em seguida a córnea branca, até que tudo estivesse preto, tal como um buraco negro
— Pode acreditar – falou levantando a mão – Eu sou a lenda – uma chama de fogo surgiu na mão do híbrido brilhante e feroz enquanto ele sorria orgulhoso de si
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