Eu sou Chara

1 Capítulo Único.


Há muito tempo atrás, os humanos e os monstros viviam em comunhão. Mas, depois de uma guerra que durou anos, os monstros por serem naturalmente pacíficos perderam e foram mandados para o subsolo. Muito sangue derramado, muita tristeza e famílias separadas...

Depois dessa guerra os humanos adquiriram algo que os monstros só conseguiram adquirir milénios depois: Ódio. Os humanos eram seres com ódio, eram frios e tinham a capacidade de matar por prazer. Por isso, tão temíveis aos olhos dos outros. Humanos tinham o coração com fortes fragmentos de ódio e a população mundial estava aumentando. E então eles pensaram: “Como poderemos controlar esse ódio em nossos corações? ”.

Logo, decidiram descontar o ódio deles em uma criança específica que nascia no vilarejo próximo à montanha Ebott. Há cada 7 anos, quando nascia uma criança, ela virava recipiente do ódio das almas humanas e assim se perpetuou. Sempre que alguém matava, roubava, enganava, etc essa criança “filtrava” o ódio nos corações deles para “purifica-los”. Uma dessas crianças era eu. Para eles, eu era o “mau” e creio que com os anos, acreditei nisso. Ódio. Era isso que eu era.

Por isso, eles me odiavam.

Durante meus sete anos de vida, me torturaram, humilharam e abandonaram. Todos. E não tinha ninguém do meu lado. Por causa da minha alma. Por causa do meu ódio. Não... Do ódio DELES. Quando cheguei a idade em que outra criança iria provavelmente nascer, e isso significava que eu era inútil agora e iriam me descartar. Pensei lógico em fugi. Acha que eu deixaria ser morta?

Na fuga eu acabei caindo no subsolo e estava só. Havia me machucado na queda, também, e estava com fome e frio. E eu chamei por ajuda, mas ninguém veio.

Ninguém, além dele.

Uma criatura estranha, porém, com tanta pureza e bondade no olhar e me vi curiosa com a situação. Entenda: eu não sabia sobre a existência dos monstros, assim como todos da minha geração. Aquela sensação nunca sentida, fez minha alma podre e sombria apertar e doer. Mas, ainda assim, eu não sentia gratidão pela criatura ter me achado ou qualquer coisa.

Eu não senti nada.

Depois de um tempo, descobri que o nome dele era “Asriel” e ele era filho do Rei e da Rainha daquele lugar. Asriel me levou até o castelo onde os monarcas cuidaram dos meus ferimentos e me adotaram. Foi uma boa época, mas algo me incomodava, algo estava errado e eu não conseguia lidar com isso.

E então...

Eu vi que aquele lugar era entediante. Patético, na verdade. Eu estava com saudade daquela sensação, estava com saudade da sensação de ódio na minha alma. Eu queria receber ódio para me sentir mais forte, ser capaz de fazer tudo e até mesmo, apagar toda a maldade do mundo e fazer o universo um nada. Assim, eu corrigiria o maior erro de todos: A humanidade.

Todavia, não seria um caminho fácil e eu não tinha tanto poder para isso. Eu tinha que articular algo que pudesse, digamos assim... “Me divertir”. Por isso, me forcei para me aproximar mais de Asriel, para que ele me amasse. Isso durou um bom tempo, talvez alguns anos, mas não me lembro mais.

Depois de ter adquirido a confiança dele e de todas as criaturas daquele mundo, eu me envenenei. Sim, para tudo dar certo era necessário que eu morresse. Por quê? Oras, você verá adiante...

Fiz um único pedido: “Quero ver as flores amarelas”. Para os desentendidos, as famosas flores amarelas ou flores de ouro só existiam fora das montanhas, ou seja, na terra dos humanos. Porém, não Asriel não queria deixar minha morte por uma “doença desconhecida” passar em vão e quando eu morri, no dia seguinte, ele combinou a alma dele com a minha e saiu do subsolo, deixando meu corpo gelado e morto perto de um campo de flores.

Depois que ele, por fim preparou meu leito de morte, os humanos o viram e o acusaram de ter me matado e o lincharam. Mas estranhamente, sua alma não foi completamente destruída e suas cinzas voltaram para o subsolo, num canteiro vazio que posteriormente brotou uma flor... Dourada.

Um tempo depois, a tola cientista Alphys injetou determinação na flor solitária, sem saber que aquela flor tinha fragmento de Asriel e sim, de certo modo, o “reviveu”. Porém, “Flowey” (Assim se auto denominava agora), não era como Asriel. Ele não sentia nada. Talvez por influência da minha alma que estava com a dele? Não saberei responder.

Flowey tentou sentir algo e mesmo depois de Asgore descobrir quem ele era, ainda não sentia amor. Ainda não sentia absolutamente nada. Sabe como machuca não sentir nada? É, eu também não sei. Indignado de tentar, Flowey tentou se matar e falhou, porque estava cheio de determinação. E por isso, ele tinha um “ponto salvo” (O que isso significa? Nem eu sei). Sempre que ele “morria”, renascia no canteiro e assim para sempre. Em diversas linhas temporais este fardo o perseguia. O fardo de viver.

Deveria ser assustador, não é?

Isso o desestabilizou tanto que quebrou o que restava de sanidade e ele passou a ter um único lema: “Nesse mundo, é matar ou morrer”. Você entendeu? A determinação dele era o ódio, assim como a minha.

Confesso para você que não era o que eu esperava, sabe? Quando manipulei tudo para que ele fosse para o mundo dos humanos, eu queria que ao descobrir a maldade humana, ele iria acumulasse ódio em sua alma e assim, iria levar esse ódio para o subsolo.

Mas ele não o fez.

Ele foi pacífico, e morreu. Contudo, no fim, tudo deu certo e o destino cumpriu o seu dever.

“...”

Oras.... Ainda teima em sempre recomeçar tudo para salvar os seus amigos? Vá em frente, mas você já perdeu. Veja ao seu redor. Estamos no NADA e assim estaremos. Você já errou em ter matado antes e agora acha que pode se redimir? Em umas cinco linhas temporais atrás, se eu não me engano, você matou todos... E ainda acha que pode fugir de mim? Tão ingênua. Tudo bem, deixarei você recomeçar tudo de novo, mas é para que eu possa me divertir. Quando notar que eu estava certa, eu que você irá voltar.

“...”

O que foi? Ainda não sabe quem sou eu? Eu pensei que já soubesse, depois de estarmos juntos desde quando você clicou no ícone do jogo no canto da tela do seu computador e passarmos por tantas coisas. Juntos. Eu e você.

O desejo de matar e a apatia de cometer este ato. Esse sou eu. Não... Isso somos nós.

Em cada linha temporal ou dimensão que você matava uma pessoa e aumentava o seu LOVE ao conseguir EXP, eu ficava mais forte. Sim. Você me deixou imbatível e no controle. Sua determinação para conquistar poder me acordou, e eu agradeço eternamente.

Antes de deixa-lo apertar o botão de “Recomeçar”, não vai deixar que meu discurso passe em vão, não é? Claro que não. Você leu tudo isso, provavelmente estava esperando por alguma surpresa. Alguma... Informação importante, confere? Bom, não o deixarei na expectativa. Quero que lembre dessas palavras a baixo:

“Eu sou Chara”.

Agora, criança, siga adiante. Mate mais monstros. Me alimente com o seu ódio e sua determinação para vermos quem “realmente” ganha. O assassino ou o misericordioso? O megalomaníaco ou o humilde? O desespero ou a esperança? Vamos, clique em “Recomeçar”!

Isso vai ser tão empolgante...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!