Eu sinto tanto pela nossa história trágica de amor, que já se passaram cinco meses e eu ainda estou aqui me esforçando para me reerguer novamente. Você não faz ideia do quanto isso me dói. Do quanto eu tenho sofrido sem você. Ao contrário do que deduz, eu não estou nada bem. Eu não sou essa pessoa fria e que viu você apenas como uma passagem. Eu sinto sua falta pra caralho.

Nunca pensei que desde quando apareceu na minha vida, que um dia eu estaria aqui, sofrendo por você. Mas estou. Estou como eu nunca sofri por nenhuma outra pessoa. Isso é tão irônico. Eu fui a primeira garota por quem se apaixonou intensamente, eu fui a primeira garota que partiu seu coração em mil pedacinhos e você é a primeira garota por quem eu choro.

O que uma escritora amadora como eu deveria fazer com esses sentimentos que me corroem? Eu deveria escrevê-los e tentar exorcizá-los com cada tecla. Mas mal abri o word e minha cara já está inchada, porque falar de você, mesmo que seja para uma tela de nootbook toca em uma ferida tão grande que meu corpo busca subterfúgios: eu começo a ter sono, eu começo a ficar nervosa e tremendo e penso em abandonar milhões de vezes o que escrevo. Mas dessa vez eu vou tentar, de verdade.

Acontece que eu sinto falta dos nossos dias de luz. Daqueles dias coloridos em que eu só fazia rir. Daqueles dias que eu ia na sua casa e me sentia uma criança que só precisava do seu colo. Você sabia que fazia com que eu me sentisse segura? Você trazia paz. E eu posso ter renegado até a minha alma, mas toda vez que eu te via meu peito se explodia em felicidade. Eu lembro de uma vez que você foi ao Centro e eu estava tão feliz, mas tão feliz que nem consegui disfarçar, todo mundo notou. Mas você não sabia disso, na verdade não sabia de nada.

Não sabia o quando gostava do seu cheiro doce, e do seu abraço fraco, e do quanto eu gostava de colocar meus dedos nas mechas da sua nuca. Não sabia o quanto eu gostava de beijar seu rosto e de olhar em seus olhos. Para mim seus olhos sempre foram olhos de amor. Eu gostava até demais da textura da sua boca. Amava beijar você e por isso eu não beijava.

Por isso eu mal a abraçava quando chegava aqui.

Por isso eu tinha tanta vontade de gritar você e xingar você e expulsá-la da minha vida.

Porque eu também te amava.

Isso para mim é doloroso demais de ser admitido. Eu passei todo o tempo com você renegando o que eu sentia. Eu queria que você me odiasse a qualquer custo, porque eu mesma me odiava.

Lembra daquele dia que estava aqui, e que você foi grossa com minha mãe e meu irmão, e eu disse que você fazia essas grosserias porque tinha medo de ser amada? E que você merecia ser amada?

Eu apenas projetei eu mesma em você.

Eu não achava que merecia o seu amor. Eu não achava que merecia encontrar uma pessoa tão absurdamente maravilhosa e não poder oferecer a ela o melhor de mim. E sabe por que eu nunca me esforcei para ser a melhor parte de mim mesma para você? Porque eu não queria me entregar.

Eu não queria me entregar ao seu cheiro doce.

As nossas tardes na cafeteria.

Aos nossos risos bobos em uma conversa casual.

Eu não queria me entregar aos seus beijos em meu corpo. A sensação que sentia quando você me tocava. A forma como eu ficava ansiosa para vê-la e como eu explodia em êxtase em tê-la.

Você sabia disso? Não, você não sabia.

Eu destruí o que era de mais lindo, eu distorci a sua visão de mim mesma, porque eu queria me odiasse e sentisse como se eu apenas estivesse usando você. Lembra de todas as coisas horríveis que disse? Eram mentiras. Eu dizia aquilo porque eu também queria me odiar.

E porque tanto ódio, porque toda essa atitude minha?

Porque eu me sentia errada. Errada por gostar também de mulheres. Errada por achar que você não seria o tipo de pessoa que minha mãe aceitaria na porta de minha casa. Errada porque por mais que eu erga a porra da bandeira colorida, eu ainda assim nego o que sinto. É como se um monstro homofóbico habitasse dentro de mim.

A minha necessidade de querer agradar a todos me levou à ruínas. Eu não fiquei com você, porque eu não queria aceitar o que sentia. Eu não queria aceitar que era bissexual, por mais que eu saísse espalhando aqueles discursos. No fundo, bem lá no fundo, eu não aceitava.

E foi preciso que você fosse embora...

Foi preciso que você encontrasse outra garota.

Que minha mãe descobrisse minha bissexualidade e apoiasse.

Que eu fosse a terapia e ela me fizesse entrar em contato com o que eu sentia.

Que eu fizesse um seminário sobre homofobia internalizada.

Para eu virar caos.

Porque entendi, finalmente, o que acontecia dentro de mim quando estava com você. Eu entendi que fui eu quem criou os maiores obstáculos.

Para mim era tão confuso, sabe? Eu buscava entender e eu não compreendia de forma alguma. Como naquele filme que vi na sua casa chamado: Eu estava justamente pensando em você. Que a gente enrolou para assistir ao filme a tarde toda no seu sofá, e perdemos várias partes e eu só conseguia dizer o quão chato era o filme, mas no final, quando você foi a sua cozinha fazer beijú, voltou e me encontrou aos prantos. E eu não conseguia entender exatamente porque estava chorando tanto quando o casal conversou que naquele mundo paralelo, eles não iriam ficar juntos.

Hoje eu entendo, apenas hoje. Eu queria que ficássemos juntas e eu sabia que não aconteceria. Por mais lindo que fosse nós. Por mais incrível a capacidade que eu tinha de dançar na sua frente de uma forma louca, cozinhar horrivelmente e você ainda assim gostar de mim. Isso era tão incrível que eu queria casar com você. Mas eu sabia que não me casaria. Eu sabia que a gente ia ter um fim parecido com aquele diálogo do filme.

Se eu tivesse que me definir no passado, com uma palavra, seria: confusa. Eu estava o tempo todo confusa quanto ao que estava acontecendo. Eu buscava entender, e por isso usava todas aquelas justificativas que não eram reais, como o fato de preferir garotos. Hoje eu entendo que é por uma questão minha, interna, abominável, mas real. E que estou lidando aos poucos, porém é tarde demais.

Não é como se eu quisesse que largasse tudo e ficasse comigo, ou que eu faria diferente se a história se repetisse agora. Eu tenho certeza que houve um motivo por tudo isso ter acontecido. Eu posso citar o quanto essa dor me transformou em diversos pontos. Mas isso não vem ao caso. Na verdade, da mesma forma que eu tinha certeza que teríamos um fim trágico, hoje eu tenho certeza que nosso fim não poderia ser outro. Só se...quando eu voltasse ao tempo eu me fizesse entender as coisas internas. Como isso é impossível, eu sei que tudo levaria aonde estamos agora.

E hoje meus amigos me dizem que você sente raiva de mim, por eu ter sumido sem dizer nada. Acontece que não sumi simplesmente porque quis apagar você da minha vida. Muito pelo contrário. Eu sumi porque eu não suportaria ver você ainda. Não suportaria de forma alguma ver esses seus olhos de amor. Eu sinto tanta culpa por nós duas. Eu sinto tanto arrependimento por tudo. Que se eu visse você eu enlouqueceria, sério, eu não digo de forma poética, eu tenho medo de verdade de ter algum surto psicótico, porque minha mente está tão fragilizada que eu não sei o que seria de mim se visse você.

Eu juro que por mim você saberia de tudo agora, pessoalmente. Juro. Mas infelizmente eu ainda não tenho estrutura emocional, e você não saber, nem que seja o básico do que do que aconteceu, tem me matado aos pouquinhos. E peço, por favor, não me tire a oportunidade de esclarecer tudo pessoalmente um dia. Sei que vai estar bastante brava e terá seu direito de dizer: não! Mas me entenda desde agora e permita que um dia possamos nos encontrar para eu falar tudo da boca para fora. Se antes eu não entendia nada, hoje eu entendo a maior parte de tudo. Por isso dói tanto.

Eu não poderia deixar de dizer, Mari, dos momentos mais incríveis que tivemos e que sou completamente grata. Foram vários, claro, mas selecionei alguns. Portanto, obrigada por me ajudar naqueles dias escuros que eu não via graça na vida. Eu jamais esquecerei da forma como apareceu na minha casa, pegou um saco e me ajudou a limpar todo o lixo do meu quarto, isso foi extremamente importante. Foi uma das coisas mais lindas que alguém já fez por mim. Obrigada, também pelas pequenas coisas que me proporcionou como lavar os pratos no meu aniversário, os bilhetinhos que até hoje guardo e principalmente: me aceitar como sou — aquelas danças, os risos exagerados...

Obviamente, eu não poderia esquecer de agradecer o nosso vampiro, Artthur. Jamais me esquecerei dele. Sinto falta dele também, que bom que houve uma escrita de despedida, senão eu acho que nunca superaria (risos). Obrigada pelos dias de sol na casa de Beth, também, sentirei falta daquela piscina e de Beth, e de seu pai e de Jô. Sentirei muitas saudades de todos, porque eu já considerava uma família.

Mas acima de tudo, obrigada por me ensinar a amar. Você me ensinou a beleza do amor, a expressão dele nas pequenas coisas. Eu sempre fui muito admirada por sua capacidade de doação. Eu a tenho hoje como parâmetro, sério. Acho que é por isso que sempre adjetivei seus olhos como olhos de amor, fico feliz de depois de dois anos você saber disso.

Eu amo você demasiadamente. E sempre amarei.

Você é insubstituível, lembra?

Existem várias Marinas, e eu sou grata por ter conhecido a melhor desse mundo.

Sei, também, que está infinitamente feliz sem mim e com essa nova garota. Eu te amo e por isso espero que ela ofereça aquilo que nunca fui capaz de oferecer: aceitação. Seja muito feliz com ela, você merece essa felicidade. Você merece todas as coisas lindas e boas dessa galáxia!

Porém, confesso, eu sou humana, e não suportaria presenciar essa sua alegria com alguém que ocupou um lugar que antes era meu, me dói até mesmo ouvir por alto. Então, quando eu voltar e termos a nossa conversa – espero mesmo que me dê essa chance –, eu esclarecerei outras coisas que não tive como expor aqui, e explicarei os motivos pelos quais não poderei ficar.

Espero que assim como perdoei o meu primeiro amor e olho para trás lembrando dos bons momentos com ele. Você um dia possa lembrar da nossa história, mesmo que trágica, com um sorriso. Lembra que falamos sobre isso quando tudo estava chegando ao fim?

Saiba que eu era apenas uma garotinha ignorante quanto ao que acontecia dentro dela, sobre homofobia internalizada e essas coisas. Espero um dia realmente entender isso e me perdoar. Espero que entenda e me perdoe também.

Talvez você nem queira mais que em outra vida a gente se reencontre. Mas eu ainda torço secretamente. Só que dessa vez para fazer tudo certo.

Eu sinto muito por mim, por você. Por nós.

Notas finais
Para quem tem interesse em saber a cena do filme, a partir 1h20min até o final:https://www.youtube.com/watch?v=0CgmPCjO7m4 P.S: Passou por situação parecida com a da protagonista, por favor, me procure.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!