Notas iniciais
AVISO DE GATILHO: Abuso Infantil (nada sexual, não vou escrever sobre esse tipo de situação nessa fanfic) Puta que pariu, eu não sei nem como me desculpar. Estou morrendo de vergonha por ter demorado tanto para atualizar, principalmente porque recebi comentários maravilhosos e não queria decepcionar ninguém. Eu realmente sinto muito! Obrigada pelos comentários e favoritos, são gestos assim que me incentivam a continuar escrevendo. Vocês são incríveis! Esse capítulo será um pouco mais pesado que os outros, por isso do aviso no início! Espero não deixar ninguém desconfortável... Não sei se curti muito esse capítulo, principalmente porque eu quero explicar algumas coisas que foram introduzidas agora mais tarde, então ele ficou um pouco vago (?). Bem, me passem suas opiniões depois! Boa leitura!!

Shouto chegou à conclusão de que Izuku se atrasar era algo normal. Todos os dias ele chegava atrasado. Às vezes chegava em cima do horário, outras cinco minutos atrasado, e outras vezes chegava com quase meia hora de atraso. Pegou-se tentando adivinhar com quanto tempo de atraso Midoriya chegaria mais de uma vez e achou isso engraçado.

Sabia que não era o único que fazia isso, na verdade, descobrira que seus colegas de classe faziam apostas com dinheiro e doces todos os dias para ver quanto tempo o garoto demoraria para chegar. Finalmente entendera o propósito daquele grupinho que se formava todas as manhãs em frente à porta, gritando animadamente sempre que Izuku aparecia. Às vezes sentia vontade de se juntar a eles, e uma vez quase aceitou o convite de Ochako e Momo para ir esperar o colega, porém recusou, acanhado.

Não sabia explicar, mas realmente quisera pegar na mão de Momo naquele momento e aceitar o convite. Realmente quisera ir esperar por Midoriya em frente à sala. Realmente quisera ver a face ofegante e sorridente do colega, caminhando (pois Tenya o proibira de correr) em passos largos em direção à sala. Realmente quisera receber Izuku junto com os outros, como um amigo.

Porém, naquele momento, era como se duas mãos o segurassem com força, pressionando-o contra a cadeira. Como se duas mãos tapassem sua boca com força, impedindo-o de falar o que realmente queria ou sentia. Como se duas mãos o enforcassem, causando-lhe aquela constante sensação de sufoco.

“- Shouto! – Estremeceu, virando-se lentamente na direção da voz que berrara seu nome. Enji ergueu-se do tatame, sua silhueta alta e intimidadora, e avançou na direção de Shouto, que se encolheu- Onde diabos você estava?

Engoliu em seco, tentando cessar a tremedeira. Achava que já tinha superado o terror que sentia pelo pai, mas aquela uma semana que ele havia ficado longe fora o suficiente para que se livrasse um pouco do aperto em sua garganta e daquela sensação de ânsia de vômito que sempre sentia quando o homem levantava a voz. Ouvir assim de repente e inesperadamente a voz grave e tenebrosa do homem era horripilante.

— Escola- Murmurou, encarando os próprios pés com olhos arregalados e nervosos.

Não havia feito nada de errado. Por que caralhos estava nervoso?

— Não, você não estava- O homem esbravejou, e Shouto se encolheu ainda mais- A sua aula acaba às 17h30. 17h30, você está ouvindo? Sabe que horas são, Shouto? -Agarrou a cabeça do garoto com as duas mãos e apontou-a em direção ao relógio de parede. Um grunhido deixou os lábios trêmulos de Shouto, mas não apresentou resistência. Já sabia que resistir só resultava em mais tapas- Me diga que horas são, agora!

— D-dezenove horas.

— Isso, fico contente que você ainda saiba ver as horas- O homem debochou, chacoalhando-o pela cabeça com força- Então o senhorzinho poderia me fazer o fazer de explicar onde você estava até esse horário? -Soltou o garoto repentinamente, e Shouto teve dificuldade para se manter ereto, sentindo tontura se espalhar por seu corpo inteiro e sua visão escurecer- Shouto! Você está me ouvindo, porra?!

— P-papai- Fuyumi gaguejou, aproximando-se dos dois hesitantemente- O Shouto tem que p-pegar o trem até aqui, l-lembra? -Enji a olhou por cima do ombro, raiva ainda presente em sua expressão. Fuyumi engoliu em seco, mas continuou- O trem só passa às 18 horas, e é um percurso de uma hora até aqui, n-né, Shouto?

Shouto balançou a cabeça rapidamente, concordando. Nunca fora tão grato por uma intromissão de sua irmã. Enji voltou o olhar de Fuyumi para Shouto, de Shouto para Fuyumi, como se para decidir se os dois haviam se unido e estavam se revoltando contra ele. Decepcionado em não encontrar qualquer sinal de mentira, estalou a língua contra os dentes e se afastou de Shouto, que se segurou para não soltar um suspiro aliviado. O homem sentou-se em frente à ponta da mesa, agarrando o jornal que estava lendo até Shouto entrar na casa.

— Vá se trocar- Comandou, e Shouto assentiu rapidamente. No corredor, pode ouvir ainda os resmungos do homem- E você, ande logo com o jantar, não está vendo que eu estou faminto?!

— S-sim! -Sua irmã guinchou, seus passos desesperados em direção à cozinha ecoando pela casa.”

Fazia apenas três semanas desde que Todoroki Enji havia voltado para Musutafu, e Shouto não conseguia mais suportar sua presença. Aquela uma semana que o homem passara em Hokkaido fora como um paraíso para Shouto. Nunca se sentira tão livre como se sentira naquela uma semana. Ficara no colégio até mais tarde com Iida e Midoriya, ajudando um a organizar materiais do conselho estudantil e conversando sobre trivialidades com o outro, comera o seu primeiro hambúrguer com uma garota que sempre falava o que lhe vinha na mente e um garoto rígido demais para a sua idade, e quase quebrara o nariz de seu primeiro amigo.

Amigo?

Podia considerar Izuku seu amigo? Claro, esse tempo todo ele se grudara ao garoto como se ele fosse a cura para uma doença mortal, recusando-se a se afastar muito dele. Apenas quando conhecera Tenya e Ochako melhor que abaixara um pouco sua guarda, mas ainda ficava um pouco hesitante em se afastar de Midoriya. Considerava-o um amigo. Mas será que ele pensava o mesmo? Será que Shouto não era apenas um problema para ele? Um problema grudento e intimidante.

“- Não se preocupe, Todoroki-kun- Midoriya lhe apertou o ombro levemente, seu toque espalhando uma sensação quente no peito de Shouto- Eu tenho certeza que você vai conseguir fazer ótimos amigos aqui na UA, então não precisa ficar triste, ok?”

Izuku havia lhe dito que ele iria conseguir fazer ótimos amigos na UA. Mas será que eles eram ótimos amigos?

Seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho da porta de aula sendo fechada, Aizawa caminhando em direção à sua mesa com a carranca usual. Seus colegas se arrumavam em suas classes com grunhidos e risadinhas, claramente decepcionados. Huh, que estranho. Sequer notara que o sinal já havia tocado. Quase que inconscientemente, voltou o olhar para a mesa de Midoriya, desapontando-se ao ver que, no final das contas, o garoto se atrasaria.

— Eu vou ser breve- Aizawa começou, colocando cuidadosamente sua maleta sobre a mesa- O primeiro período de vocês hoje será educação física- Antes que a classe pudesse comemorar, Aizawa os fuzilou com o olhar, desafiando-os a soltar sequer um pio. Obviamente, ninguém abriu a boca.

— Por quê, Aizawa-sensei? -Momo perguntou, erguendo a mão. Os estudantes voltaram olhares curiosos para o professor, que deu de ombros.

— Aparentemente o Ishiyama teve algum problema pessoal, então nada de ficar metendo o nariz nos problemas dele, entenderam? -Questionou, e todos balançaram a cabeça positivamente, intimidados com o olhar do homem. De repente, seu olhar se focou na classe vaga no canto esquerdo da sala, sua sobrancelha tremendo- O Midoriya se atrasou de novo?

— Hehe, então... -Mina murmurou, achando graça da situação. Logo a classe inteira, menos Aizawa, que balançava a cabeça negativamente, decepcionada, estava rindo.

— Ele vai ficar decepcionado ao saber que se atrasou para a aula do Toshinori-sensei- Asui comentou, um dedo sobre seus lábios.

— Ele deveria ficar decepcionado consigo mesmo- Aizawa disse, seu tom de voz reprovador. Porém, Todoroki notou que as sobrancelhas do homem estavam franzidas, e reconheceu preocupação no olhar do homem. Ele sabia de algo?

— Hah, conhecendo aquele merda, ele deve ter se perdido no caminho para cá- Bakugou comentou, sua voz soando debochada- Muito idiota, puta que pariu.

— Bakugou-kun, como se atreve a usar esse linguajar em sala de aula?!- Iida exclamou, claramente indignado.

— Hã? Como é que é? -Bakugou indagou, encarando Tenya como se ele fosse um pedaço de bosta. Sinceramente, a cada dia que passa, Shouto simpatizava cada vez menos com Katsuki.

— Chega. Calados.

Ambos se calaram imediatamente ao comando de Aizawa, embora Bakugou tenha soltado uma última risada debochada, que fora retribuída com um olhar assassino do professor.

— A próxima vez que eu ouvir um palavrão em classe, eu irei chamar os seus pais, Bakugou- O garoto grunhiu, embora não aparentasse estar assustado com a ideia de seus pais no colégio. Shouto sentiu um pouco de inveja disso- E não fale assim do seu colega.

— Tch- Bakugou chiou, contrariado.

De repente, uma batida à porta interrompeu a discussão, e a classe inteira se entreolhou com olhares divertidos. Sabiam muito bem quem estava atrás da porta.

— Falando no diabo- Aizawa murmurou, cruzando os braços- Entre.

A porta se abriu lentamente, e Izuku entrou lentamente na sala. Estava ofegante, suor escorrendo por suas têmporas e nuca. Tinha manchas circulando seus olhos, e Shouto se perguntou se essa era a primeira vez que via Midoriya aparentar estar tão cansado. Porém, o que o incomodou não foi a respiração desnivelada, ou o suor, ou as olheiras. E pelo jeito que as risadinhas haviam parado, tinha certeza de que seus colegas também estavam perturbados com a visão à sua frente.

— M-Mon ami, seu nariz- Aoyama gaguejou, um olhar surpreso e assustado em seu rosto.

— Hein? -Izuku levou os dedos ao nariz, assustando-se ao ver a mancha vermelha que ficara em seus dedos.

Como se despertados de um transe, todos começaram a falar ao mesmo tempo, tentando ajudar ou saber o que havia acontecido com o garoto.

— Banheiro, agora! -Aizawa exclamou, pressionando um pedaço de papel contra o nariz do estudante, tentando cessar o sangramento nasal. Agarrou Izuku pelo braço e praticamente o arrastou em direção ao que Shouto presumia ser o banheiro mais próximo, abandonando uma turma confusa e perturbada com a visão que lhes recebera naquela manhã.

— O que diabos foi isso? -Kirishima questionou, visivelmente preocupado com o colega.

— Será que ele encontrou alguma gostosa no caminho? -Mineta murmurou, recebendo grunhidos de desgosto dos colegas.

— Cala a boca, Mineta- Asui resmungou, e Shouto pode sentir o ranço que ela exalava daquela distância.

Voltou o olhar para Tenya e Ochako, que trocaram olhares e concordaram em algo. Logo, ambos se levantaram e deixaram a sala, apesar dos protestos de alguns de seus colegas. Provavelmente estavam indo ver como o amigo estava.

Sentiu um aperto em sua garganta. Uma vontade de socar a parede mais próxima. Ou o colega mais próximo. Ou o filho da puta que havia feito aquilo com Izuku. Ou Ochako. Ou Tenya. Porra, sabia que não era tão próximo dos dois, mas, nos últimos dias, sentira que deixara bem claro que gostava deles. Que os via como amigos. Os dois, mais Izuku. Sentira que eles pensavam o mesmo de si, que gostavam dele, que o queriam por perto. Que confiavam nele. Sentia-se traído por sequer ter sido convidado com um olhar para ir ver o estado do amigo. Sentia-se traído por terem esquecido de sua existência.

Apertou os dentes com força, erguendo-se de sua carteira. Seus colegas lhe lançaram olhares nervosos, com exceção talvez de Bakugou, que lhe olhava quase que com raiva, e Kirishima, que parecia estar curioso com a reação de Shouto. Sem se explicar, e ignorando os protestos da vice-presidente da classe, deixou a sala, dirigindo-se ao banheiro onde conseguia ouvir as vozes de Aizawa, Iida e Uraraka.

.

— Eu ainda não acredito que você caiu de cara no chão, Deku-kun- Uraraka murmurou, um olhar preocupado em seu rosto. Midoriya riu baixinho, envergonhado- Sinceramente, você é distraído demais para o seu próprio bem.

Shouto estava sentado ao lado de Izuku, em um banco que ficava em frente ao banheiro masculino. Segurava um rolo de papel higiênico que havia surrupiado do banheiro, encarregado de providenciar novos lenços que pudessem conter o sangue que ainda insistia em sair do nariz de Izuku. Iida estava agachado próximo de Izuku, conferindo, segundo ele, se o sangramento estava piorando ou não, e Uraraka estava encostada contra a parede, a cara fechada e os braços cruzados.

Aizawa havia os deixado para trás há mais ou menos dez minutos, depois de insistir que Midoriya visitasse a enfermaria e recebendo um “não” todas as vezes que repetia o pedido. Abandonou o local bufando, prometendo voltar com a enfermeira e o diretor. Shouto sentira um aperto no peito ao ver um olhar nervoso se formar no rosto de Izuku ao ouvir a ameaça.

— A Uraraka-kun está certa, Midoriya-kun! – Iida exclamou, gesticulando nervosamente- Você precisa tomar mais cuidado! Deu sorte que machucou apenas o nariz dessa vez, mas lembra aquela semana que você apareceu com um olho roxo? – Todoroki arregalou os olhos, encarando Iida como se ele tivesse crescido uma segunda cabeça. O mais alto simplesmente balançou a cabeça, confirmando o que havia dito, e Uraraka lhe lançou um olhar compreensivo.

— Gente, está tudo bem- Midoriya afastou o lenço de papel de seu nariz, atirando-o rapidamente na lata de lixo. Shouto sentiu seu estômago se embrulhar ao ver linhas vermelhas escorrerem do nariz de Izuku. Alcançou-lhe outro lenço, e o garoto murmurou um rápido obrigada antes de pressionar o lenço contra suas narinas- Eu juro que eu só tropecei, não foi nada demais.

— Você tem tropeçado demais ultimamente- Uraraka disse, seu tom de voz tão baixo e sombrio que Shouto teve que se esforçar para decifrar o que ela dissera. Ouvir a garota falar nesse tom era um pouco perturbador.

— Isso acontece com frequência? -Shouto perguntou, sua voz saindo mais preocupada do que quisera.

Tentou encarar Midoriya nos olhos, mas o colega desviou o olhar, visivelmente desconfortável com toda a atenção em cima de si. Voltou o olhar para Iida e Uraraka, que pareciam calcular suas próximas palavras. Sentiu-se irritado com toda aquela demora e hesitação, apertando o rolo em suas mãos.

— Sim, ele tá sempre machucado- Uraraka grunhiu, uma expressão irritada em seu rosto.

— Ah! Eu não estou sempre machucado-

— No outro dia você apareceu com as suas mãos todas machucadas-

— Eu já disse que eu bati sem querer-

— Que nem com o seu nariz? O seu olho? A sua boca? O seu pesco-

— Chega! – Iida exclamou, quase gritando. Sua expressão zangada fora o suficiente para que os dois se calassem e abaixassem as cabeças, como duas crianças sendo repreendidas. Iida suspirou pesadamente, arrumando os óculos sobre o nariz- Vocês não vão ganhar nada discutindo. Midoriya-kun, seja mais cuidadoso futuramente. E Uraraka-kun, não fique forçando uma explicação quando a pessoa claramente não está pronta para falar sobre- Ambos abriram as bocas, prontos para retrucar, mas um olhar de Tenya fez com que eles voltassem a abaixar as cabeças, derrotados e cabisbaixos.

Encarou o trio, perdido. Parecia tão deslocado dos outros três, como se não pertencesse àquela cena. Não tinha a mesma autoridade que Iida, que conseguira impedir uma provável briga entre os dois. Não tinha o direito de se irritar como Uraraka, que conhecia Izuku desde o início do ano letivo. Não tinha o direito de apontar dedos para Izuku. Não tinha o direito de lhe repreender. Não tinha o direito de lhe acusar de irresponsável, de distraído, de descuidado. Era apenas um colega de classe. Não amigo. Não tinha direito de nada.

— Certo, precisamos ir para a aula de educação física, ou o Toshinori-sensei vai ficar preocupado- Tenya disse, olhando seu relógio de pulso. Voltou a atenção para Izuku, um olhar preocupado se formando em seu rosto- Tem certeza de que não quer que fiquemos com você? -Izuku balançou a cabeça positivamente, e Iida suspirou novamente, erguendo-se decepcionado. Porém, logo mudou sua face para a expressão séria e determinada de sempre- Muito bem, então eu vou indo na frente. Uraraka-kun, Todoroki-kun, vocês me acompanham?

Ochako resmungou algo, mas se desencostou da parede. Ainda aparentava estar irritada, mas até mesmo Shouto conseguia ver que usava a carranca para esconder a preocupação. Perguntou-se se esse tipo de comportamento era corriqueiro ou se ela agia daquela forma apenas quando Izuku estava envolvido. Mordeu levemente sua bochecha, tentando reprimir a pontada de ciúmes que sentira ao perceber que a garota realmente era muito mais próxima de Midoriya do que ele.

— Todoroki-kun? -Iida chamou-o, olhando-o com um olhar confuso- Tudo bem?

— Ah, sim- Respondeu, levando uma mão até a nuca. Coçou-a, sentindo falta da sensação das unhas compridas raspando na pele- Eu vou ficar aqui mais um pouco.

— Hein? -Midoriya exclamou, sua voz saindo meio nasalizada- Não precisa, Todoroki-kun! Pode ir indo para a aula! Eu vou ir daqui a pouco, então não precisa me esperar.

— Todoroki-kun, não deveria se atrasar para a classe! -Tenya o repreendeu, uma expressão chocada em seu rosto- E eu te achava um rapaz tão responsável...

— Iida-kun, nós também estamos atrasados para a aula, sabe...- Ochako saiu em sua defesa, uma sobrancelha arqueada.

— Eu sou o representante de classe, é meu papel ajudar meus colegas em seus momentos de crise!

— Mas eu já disse que não foi nada demais, meu Deus do céu- Midoriya retrucou, indignado. Ochako e Tenya se viraram para ele, prontos para mais uma sessão de sermão, mas Izuku ergueu a mão, mostrando que não estava disposto para as críticas dos amigos- Tá, tá, já deu. Não se preocupem comigo e vão logo para a aula- Voltou seu olhar para Shouto, seus lábios se abrindo em um sorriso gentil. Shouto sentiu seu estômago formigar, contente em ser o receptor de tal expressão- Todoroki-kun, você pode ir indo na frente também. Não quero que você perca a aula do Toshinori-sensei, que por sinal é incrível. Tenho certeza de que você vai adorar cada segundo, então não fique aqui perdendo tempo comigo.

Izuku inclinou a cabeça levemente para o lado, provavelmente confuso com a hesitação no olhar do amigo. Shouto piscou, mordendo o lábio inferior e balançando as pernas nervosamente.

— Mas eu quero- Disse, encarando o rapaz com olhos úmidos. Izuku arregalou os olhos, surpreso com a seriedade no tom de voz de Todoroki. Encararam-se por alguns segundos, até que Shouto abaixou o olhar, sentindo-se rejeitado- Não posso?

Sua voz saíra quebrada, e Shouto sentiu vergonha por se comportar como uma criança que implorava por um brinquedo para a mãe. Fizera isso apenas uma vez, quando tinha quatro anos, e um tapa no ouvido esquerdo lhe ensinara que não importava o quanto implorasse, seus desejos não seriam atendidos por mais que chorasse ou esperneasse. Mordeu o lábio com mais força, tentando acalmar o aperto que se formava em sua garganta.

Pelo canto do olho, viu Midoriya olhar para Uraraka e Iida, provavelmente rindo da forma ridícula do garoto à sua frente. Preferia as risadas às agressões. Quando era pequeno, costumava rezar para que seu pai risse do seu erro nas provas de matemática e o humilhasse ao invés de lhe punir com um soco na cabeça. Conseguia esconder melhor a ferida em seu psicológico do que a de seu corpo.

— Nós vamos indo na frente- Tenya disse, sua voz soando distante. Shouto continuou com a cabeça abaixada, não querendo olhar nas faces do trio, temendo seus olhos frios e debochados- Até depois!

— Até! -Ochako se despediu, afastando-se junto com o amigo.

Mesmo sabendo que os outros dois já haviam ido embora, pois não os ouvia ou sentia suas presenças, continuou com a cabeça baixa, escondendo os olhos úmidos e a expressão nervosa em seu rosto. Não sabia o que estava sentindo. Ciúmes? Raiva? Medo? Se fosse para ser sincero, sentia os três ao mesmo tempo.

Sentia ciúmes da relação de Izuku, Ochako e Tenya. Sentia ciúmes da forma que Uraraka e Iida conseguiam se comunicar com olhar, sem precisar se preocupar se seu olhar não seria confundido com raiva ou invés de “ei, vamos embora daqui?”. Sentia ciúmes da forma que o representante os repreendia, de uma forma que não colocasse um fim à amizade ou os deixasse zangados com ele. Sentia ciúmes dos abraços que a garota dava nos outros dois, não tendo medo de ser empurrada para longe, pois sabia que isso não iria acontecer. Sentia ciúmes da forma despreocupada e alegre com que Izuku conversava com os dois, sem ter que se preocupar se algo que dissesse fosse resultar em um soco ou em uma carranca. Sentia ciúmes porque não conseguia se comunicar por olhares. Porque não conseguia repreender ninguém sem ser confundido com um assassino em potencial. Porque não conseguia abraçar alguém. Porque não conseguia agir de forma despreocupada e alegre. Sentia ciúmes porque não pertencia àquele grupo.

Sentia raiva de Izuku. Raiva de Ochako. Raiva de Tenya. Raiva por Izuku ter se aproximado, apesar do soco e das palavras duras, raivas por ele insistir em levá-lo de lugar para lugar, apresentando-o para pessoas que o olhavam com olhares duvidosos e desconfiados, já cientes do tipo de pessoa que ele era. Raiva de Ochako, por sempre dizer algo fora do momento, sempre comentando sobre sua aparência ou sua personalidade, fazendo pergunta atrás de pergunta, como se o estivesse interrogando. Raiva de Tenya por não ter esquecido o que Shouto havia feito no seu primeiro dia de aula, por sempre o olhar com desconfiança, pronto para partir para cima do menor em sua menor manifestação de raiva. Sentia raiva porque não queria conversar com mais ninguém. Sentia raiva porque não queria falar sobre si mesmo. Sentia raiva porque queria esquecer o que fizera. Sentia raiva porque não pertencia àquele grupo.

Sentia medo de Izuku. Medo de Ochako. Medo de Tenya. Medo de Tenya, que quando falava com toda aquela autoridade, às vezes com uma voz alta demais, lembrava-lhe demais de uma certa pessoa, que só sabia se comunicar aos berros e tapas. Tinha medo sempre que o colega erguia as mãos. Sempre que lhe direcionava um olhar sério demais. Sempre que se erguia subitamente. Tinha medo de Ochako, que parecia saber demais, que parecia querer saber mais. Por quê? Para quê? Tinha medo sempre que ela se reunia em um grupinho com as amigas, cochichando e voltando o olhar para ele, soltando risadinhas. Sempre que ela lhe observava, como parecia saber demais das coisas. Sempre que ela sorria de canto, parecendo debochar dele. Mas, acima de tudo, tinha medo de Izuku. Medo de ele se vingar, de lhe devolver o soco. Medo de ele contar para todos o quê realmente havia acontecido naquele dia. Medo de ele rir de sua cara, rejeitando sua presença. Medo de ele ir embora. De não o querer mais por perto. De se cansar dele.

Pois.

Pois Izuku era.

Era.

— Todoroki-kun.

As mãos de Midoriya invadiram sua visão, seu toque quente sobre as suas mãos o despertando de seus pensamentos. Encarou as cicatrizes na mão direita do rapaz, tentando ignorar a curiosidade em saber como, quando e o que havia causado elas. Izuku apertou suas mãos levemente, mas não fez nada mais do que isso.

Hesitantemente, Shouto ergueu a cabeça, encontrando os grandes olhos de Midoriya Izuku. Sua face coberta por sardas tinha uma expressão séria, porém serena. Piscava os olhos verdes lenta e calmamente, mas não os desviava dos olhos heterocromáticos do rapaz. Sua respiração vinha em um ritmo lento, e só então que Shouto percebeu que estava próximo de hiper ventilar. Tentou acalmar a respiração, suas sobrancelhas tremendo ao ver os lábios de Izuku, que antes estavam pressionados em uma linha reta, se erguerem em um sorriso gentil e caloroso. Sentiu os olhos ficarem mais úmidos ainda, e os fechou, tentando conter o choro que com certeza viria com tudo.

— Todoroki-kun, respire- Midoriya pediu.

Tentou se acalmar desesperadamente, mas aquela vontade de chorar não passava. Sentia-se irritado, frustrado. Por que estava tão triste? Por que estava tão assustado? Não era assim normalmente. Não se importava se as pessoas não o queriam por perto. Não se importava se lhe olhavam com medo ou raiva. Não se importava se não tinha amigos. Então por que não conseguia cessar aquela vontade descontrolada de começar a soluçar?

Sentiu os dedos dele acariciarem seus pulsos gentilmente, uma sensação de medo e desgosto se formando no fundo de seu estômago. Nos seus pulsos estavam as marcas. As marcas de ontem, de quando Enji o havia agarrado. Marcas roxas e largas, que ele escondia com as mangas compridas do uniforme, para que não tivesse que lidar com olhares ou perguntas inconvenientes.

Quase teve esperança de que Izuku não notasse os hematomas, mas logo abandonou essa ideia boba. Podia sentir o olhar do garoto sobre seus braços, mesmo que se recusasse a olhar para confirmar.

— Eu te entendo, Todoroki-kun.

Sentiu um arrepio lhe subir a coluna. Nunca ouvira o garoto soar assim. Mas não demorou para a surpresa ser substituída por frustração.

— Não. Não, você não entende.

— Entendo sim- Ele insistiu, sua voz saindo meio falha.

Abriu os olhos rapidamente, assustado. Deparou-se com a face de Izuku circulada por lágrimas grossas, seus olhos tristes encarando os pulsos de Shouto.

— O quê-

— Nós somos o mesmo.

Ele ergueu a cabeça, encarando Shouto com um sorriso trêmulo e um olhar triste. Simplesmente o encarou, tentando fazer sentido das palavras do garoto. Olhou em seus olhos, tentando procurar algo, algo semelhante ao que via sempre que se olhava no espelho durante as manhãs. Nada. Com um gosto amargo em sua boca, focou os olhos no nariz de Izuku. Quis dar um soco em si mesmo.

Nós somos o mesmo.

Sentiu as lágrimas descerem por seu rosto, escondendo-o com o braço rapidamente.

— Hah, não tem problema chorar- O garoto disse, sua voz soando mais animada do que antes- Eu choro o tempo todo. Estou chorando agora, vê? Então não precisa ter vergonha.

Secou as lágrimas rapidamente, balançando a cabeça em negação. Não queria chorar. Odiava chorar. As lembranças que tinha de quando chorara eram terríveis. Os tapas que levara quando chorara foram terríveis.

Midoriya também secou sua face, uma expressão indecifrável em seu rosto.

Shouto queria saber se era ele quem era ruim em decifrar as emoções dos outros ou se isso era algo comum.

— Todoroki-kun, me deixa te ajudar.

O pedido pegou-o de surpresa. Arregalou os olhos, lançando um olhar incrédulo para Midoriya, que o encarava com uma mistura de gentileza, determinação e algo mais, algo que ele não conseguia identificar. Abaixou a cabeça, emburrado.

— Não.

— Mas-

— Não. Não tem como.

Anos na mesma situação o ensinaram que não tinha como sair dela. E aqueles que tentavam ajudá-lo sempre saíam prejudicados.

— Mesmo que você diga não, eu quero ajudar.

Encarou-o através da franja que caía sobre seus olhos, desconfiado. Não queria repetir o incidente da sétima série. Não queria repetir o incidente da Shiketsu.

— Por que você se importa? – Resmungou, ignorando a expressão surpresa no rosto de Izuku- Nós nem somos amigos.

— Não diga isso, Todoroki-kun! Nós somos amigos- Sua voz saiu trêmula, um olhar meio indignado em seu rosto- Eu e você, nós somos amigos!

— N-não somos não! – Retrucou, chateado.

— Claro que somos! – Izuku voltou a segurar suas mãos, e Shouto tentou afastá-las com um puxão- Nós estudamos juntos, e conversamos, e trocamos mensagens, e almoçamos juntos, e eu até consegui te fazer ler Kimetsu no Yaiba!

— Isso...Isso não quer dizer que-

— Todoroki-kun...Eu...Eu realmente gosto de falar com você! – Ele admitiu, encarando fundo nos olhos de Shouto- Eu gosto de falar com você sobre as aulas. Sobre nossos colegas. Sobre livros. Sobre séries. Sobre Soba ou sobre Katsudon. Gosto até das suas piadas ruins.

— Mas- Antes que pudesse continuar, Midoriya o interrompeu novamente.

Isso fora algo que aprendera em quatro semanas de convívio com o garoto. Quando ele começava a falar, nada mais o parava.

— Eu...Você pode sempre contar comigo! E eu também quero contar com você! Isso, isso quer dizer que somos amigos, Todoroki-kun!

— M-mas- Começou, sua voz saindo trêmula. Desviou o olhar, sentindo um rubor se espalhar por suas bochechas- Mas você nunca disse que éramos.

— E precisa dizer isso?!

— É claro que precisa! -Praticamente gritou- Como é que eu vou saber, porra?

— S-sabendo, ué! -Midoriya retrucou, sua voz saindo aguda.

— Não tem como saber esse tipo de coisa!

Virou a cabeça para o lado, tentando esconder a vergonha que estava estampada em sua cara. Perguntou-se se ele realmente era tão estranho assim. Perguntou-se quando fora a última vez que tivera esse tipo de relação para sequer conseguir distinguir um simples colega de um amigo.

— B-bem, agora você sabe! -Midoriya exclamou, sua face completamente vermelha. Shouto se sentiu um pouco melhor ao ver que não era o único constrangido.

Ficaram alguns segundos em silêncio, acalmando-se.

De repente, Shouto piscou. Voltou o olhar lentamente para Izuku, que retribuiu o olhar.

— Somos amigos?

A cara de Izuku fora impagável.

— Eu não acabei de dizer isso?!

.

Depois de praticamente ser enxotado por Aizawa e pela enfermeira, Shouto entrou no ginásio, cabisbaixo. Ainda estava um pouco chateado por Midoriya não ter vindo junto, mas o tom do professor deixara claro que seu amigo não arredaria pé de lá até explicar direitinho o que havia acontecido com seu nariz.

É óbvio que o Todoroki também queria saber, mas achara a abordagem do conselheiro um pouco...invasiva. Porém, Izuku não demonstrava desconforto ou medo de estar perto do homem, então Shouto só chegou à conclusão de que aquele era o jeito dele de ser. Claro que isso não deixava o garoto menos irritado por ter sido chispado de lá.

Aproximou-se de seus colegas, que formavam uma meia lua em torno do professor.

— Ora, resolveu nos abençoar com sua presença, jovem Todoroki? – Toshinori exclamou, uma risada exagerada deixando seus lábios.

Ao ouvirem a fala do professor, seus colegas se viraram em sua direção, olhando-o com olhares curiosos. Sentiu-se um pouco desconfortável com a atenção indesejada, postando-se ao lado de Iida e Uraraka, que o receberam com sorrisinhos gentis. Explicou aos sussurros para os dois onde Midoriya estava e voltou a atenção para o professor, que os encarava com um sorrisão no rosto.

— Bem, alguém poderia repetir o quê eu acabei de dizer para o colega? – O professor disse, juntando as mãos e sorrindo inocentemente, arrancando risadinhas de alguns alunos.

— Com prazer, Toshinori-sensei! – A vice-presidente da classe exclamou, um sorriso entusiasmado em seu rosto. Aproximou-se de Todoroki aos pulinhos, quase perdendo sua imagem de “aluna perfeita” -Todoroki-san, iremos fazer uma atividade em grupos de quatro, que consiste em três etapas- Ela disse, erguendo três dedos- Primeira, atravessar a parede de escalada. Segunda, encontrar um objeto escondido do qual receberemos as descrições depois. E terceira, levar tal objeto em segurança antes do tempo limite até a linha de chegada- Ela apontou para o final de uma pista de corrida, um olhar orgulhoso em seu rosto.

— Complementando a jovem Yaoyorozu, a equipe vencedora poderá-

— A equipe vencedora poderá escapar da limpeza do ginásio pelas próximas duas semanas! -Momo o interrompeu, ignorando (ou não notando?) o olhar vazio e cômico de Toshinori- Ou seja, durante duas semanas, os vencedores não precisarão ficar horas limpando tudo até que brilhe. Isso não é ótimo, Todoroki-san? – Ela exclamou, uma expressão de pura alegria em seu rosto.

— Yaoyorozu-san, não interrompa o professor! -Iida sussurrou, repreendendo-a, mas ela não parecia ter dado bola.

— Hahaha, bem...- O homem começou, uma expressão nervosa em seu rosto. Mexeu em alguns papéis em suas mãos, até suspirar e voltar a sorrir para os alunos- Sinto em informar que, dessa vez, serei eu quem irá decidir os grupos.

— Heeein... – Ashido resmungou, sendo seguida por alguns de seus amigos.

— Não é justo isso aí, hein? – Kaminari choramingou, levando as mãos de forma dramática até os olhos.

— Não reclamem, ora! – O homem disse, mas não parecia estar irritado de verdade com os estudantes- Jovem Iida e jovem Yaoyorozu, poderiam me ajudar com essas caixas? Dentro delas há papéis com números que vão de 1 a 5. Quem tiver números iguais, pertence à mesma equipe!

Os dois representantes foram em direção ao professor e tomaram as caixas em seus braços, aproximando cada colega e pedindo para que eles selecionassem um papel dentro das caixas. Shouto também pegou um papelzinho, hesitando em desdobrá-lo.

E se acabasse em uma equipe que não fosse a de Tenya ou a de Ochako? A ausência de Izuku já estava lhe deixando um pouco chateado, mas a ideia de ter que cooperar e interagir com colegas barulhentos e competitivos lhe causava enjoo.

— Qual número você pegou, Todoroki-kun? -Uraraka perguntou, balançando um “4” em cor vermelha.

Desdobrou lentamente o papel, sua face inexpressiva.

— 2.

— Puts, que merda- Ela disse, uma expressão cabisbaixa no rosto- Queria ficar no mesmo time que você...

— Eu também, mas, infelizmente, querer não é poder- Iida disse, mostrando o seu papel com firmeza, um “1” desenhado nele.

— Eu...Eu também queria- Disse, franzindo as sobrancelhas. Os dois lhe olharam com olhares perdidos- Quer dizer, ficar na mesma equipe que vocês. Eu também queria.

Os dois o encararam com olhos arregalados, expressões surpresas em seus rostos.

Ochako quebrou o silêncio com uma risada animada, abraçando Shouto de lado. O toque lhe pegou de surpresa, mas não demorou para se sentir confortável ao lado da garota.

— Não precisa ficar chateado, Todoroki-kun! -Ela disse, dando tapinhas em seu braço- Tenho certeza de que vamos poder fazer outras atividades juntos em outras aulas.

— A Uraraka-kun está certa- Tenya arrumou os óculos sobre o nariz, uma expressão determinada em seu rosto- Por enquanto, estou ansioso para batalhar com você, Todoroki-kun!

— Credo, isso é só uma atividade, não uma batalha- Uma garota (Jirou?) comentou, aproximando-se com o braço erguido, balançando o número “1” lentamente.

— Oh, então seremos companheiros, Jirou-kun? – Iida exclamou, uma expressão determinada em seu rosto.

— É, acho que sim. O Ojiro também faz parte do nosso time.

Tenya despediu-se de Shouto com um aceno de cabeça, indo junto de Jirou em direção à um garoto loiro e uma garota de cabelos castanhos (seu grupo?). Voltou a encarar seu papel, tentando ignorar o clima estranho que ficara entre ele e Uraraka com a ausência de Iida.

— Ochako! -Shouto ergueu a cabeça em alerta ao ouvir o grito, observando uma menina chamar Uraraka com um aceno de mão. Reconheceu-a como uma das garotas que tentou falar com ele no primeiro dia de aula e rapidamente desviou o olhar.

— Ah! Acho que encontrei meu grupo- Ochako disse, uma risadinha deixando seus lábios- Até depois, Todoroki-kun!

— Até.

Observou a garota se afastar, unindo-se ao seu grupo com gritinhos e risadas. Sentiu-se solitário com a ausência dos amigos (?) e voltou a encarar o papel com uma expressão vazia. Queria que Midoriya estivesse ali, mas ao mesmo tempo estava um pouco aliviado com sua ausência. Não sabia que tipo de expressão ele iria fazer se tivesse que observar Izuku se juntando com outro grupo.

— Todoroki-san!

Voltou a erguer o olhar, deparando-se com Yaoyorozu Momo. Embora aparentasse estar nervosa, tinha um sorrisinho empolgado no rosto, quase como se estivesse contente em interagir com ele. Afastou o pensamento, aproximando-se dela com uma expressão séria.

— Quê?

— Por o acaso você teria tirado o número dois? – Ela perguntou, erguendo o seu próprio papel com o mesmo número de Shouto. Ele ergueu o seu, e o sorriso da garota aumentou- Ah, então somos da mesma equipe! Graças a Deus!

— Hein? – Olhou-a com confusão- Por quê?

De repente, a expressão da garota ficou um pouco cabisbaixa. Shouto inclinou a cabeça para o lado, lançando-lhe um olhar ainda mais confuso.

— É que, bem, digamos que o restante da nossa equipe não é tão...cooperativo- Ela disse, cruzando os braços com uma expressão pensativa- Ah, mas é que eu também estava ansiosa para poder trabalhar com você! Pelo pouco que pude observar durante esse um mês, pude comprovar que você é uma pessoa responsável e calma. Fico incrivelmente feliz que finalmente possamos trabalhar juntos!

— Ah.

Desviou o olhar, um leve rubor se formando em suas bochechas. Sentia-se um pouco constrangido em admitir que sequer notara a garota lhe observando- e ela se sentava ao seu lado!

Trocara algumas palavras com ela algumas vezes, mas nunca se sentira muito motivado em continuar a conversa. Para ser sincero, as únicas vezes que conseguira falar com ela sem se sentir incomodado ou tímido fora quando estava junto de seu trio de amigos.

— Sim...Conto com você- Respondeu ao ver a face dela se fechar, temendo tê-la ofendido. Suspirou aliviado ao ver um sorrisinho amigável tomar praticamente toda a parte inferior do rosto dela.

— Ok, vamos indo? -Ela perguntou, o sorriso ainda em seu rosto- Bakugou-san e Kirishima-san estão nos esperando logo ali.

Ela apontou para dois garotos que estavam no outro lado do ginásio, um loiro e o outro ruivo, ambos de cabelos espetados. Ugh. Tentou disfarçar o ranço que sentia, seguindo a garota com a cabeça baixa e as mãos nos bolsos de sua calça de abrigo.

— Oh, a Yaomomo voltou- O ruivo, Kirishima, comentou com o outro, que simplesmente ergueu o olhar.

— Que demora, rabo de cavalo! -Ele resmungou, uma expressão incomodada em seu rosto- Quanto tempo você precisa para chamar uma pessoa?!

— R-rude!

— Bakugou! -Kirishima o repreendeu- Yaomomo, me desculpa! É que ele está um pouco ansioso para a atividade. Você sabe como ele fica competitivo quando temos que-

— Chega de papo furado! -Katsuki esbravejou, recebendo alguns olhares incomodados dos outros colegas.

De repente, o loiro parou, focando sua visão em Shouto. Olhou-o de cima a baixo, erguendo o lábio superior como que para expressar que não estava satisfeito com o que via à sua frente. Todoroki endireitou-se e cruzou os braços, uma expressão igualmente intimidante em seu rosto.

— Hah? Que olhar é esse?

— Bakugou, não começa-

— Cala essa boca, Kirishima- Ele afastou o outro com um empurrão, mas não parecia ter usado muita força. Ou isso, ou Eijirou era uma pessoa muito resistente- Você é o novato que tá sempre grudado no Deku, né?

— Deku? -Ergueu uma sobrancelha, um olhar frio em seu rosto. Sabia muito bem de quem ele estava falando, mas não gostava nem um pouco de seu tom de voz- Quer dizer o Midoriya?

Um sorrisinho provocador se formou nos lábios de Bakugou, e Shouto sentiu seu sangue ferver.

— E se for? Vai fazer o quê? Fique sabendo que eu chamo ele assim desde que a gente tinha quatro anos- Ele ergueu quatro dedos, o sorriso ainda em seu rosto. De repente, o sorriso sumiu de seu rosto, os olhos vermelhos de Bakugou fuzilando-o com algo próxima a ódio- Escuta aqui, seu meio a meio arrogante. Eu vou ignorar esse seu olhar e atitude de merda por hoje, mas é bom que você não me atrapalhe nessa atividade de merda. Faça o que eu mandar e eu vou te deixar na sua. Se você não fizer, eu vou-

— Cala essa boca.

Momo e Eijirou arregalaram os olhos, esperando o caos.

— Hah, como é que é?! -Bakugou gritou, quase avançando em Shouto, sendo impedido por Kirishima- Me solta, caralho. Você me deixa puto!

— Eu digo o mesmo- Shouto retrucou, fechando as mãos em punhos- Você se acha machão? Vem pra cima pra ver se eu não acabo com essa sua atitude nojenta.

— Hah, como é que é?! Você tá querendo morrer

— Bakugou-san, Todoroki-san, já chega! Isso lá é jeito de falar com seus colegas?!- Momo repreendeu-os, as duas mãos em sua cintura e um olhar reprovador em seu rosto. Parecia uma mãe.

— A Yaomomo tá certa- Kirishima apoiou-a, os braços ainda enrolados em volta do torso de Bakugou- Vocês dois ainda vão arrumar problemas. Olha a cara do Toshinori-sensei! Querem matar o cara do coração?

Ambos voltaram o olhar para o outro lado da quadra, deparando-se com o olhar nervoso do professor. O homem os analisava ansiosamente, como se esperasse o pior da situação e tivesse de pular entre os dois garotos para impedir um assassinato.

Shouto desviou o olhar e respirou fundo, tentando acalmar a sua raiva. Ouviu Bakugou e Kirishima se bicarem mais um pouco, mas o loiro não voltou a insistir no conflito.

— Seria lindo se vocês dois apertassem as mãos e-

— Calada- Bakugou silenciou-a, uma expressão quase cômica em seu rosto.

Como se fossem ímãs, os olhares dos dois voltaram a se encontrar, ambos queimando de raiva.

— Se a gente perder essa merda, você me paga. Estamos claros, Todoroki Shouto?

— Se você aceita a bronca, Bakugou...Kacchan?

Um silêncio perturbador tomou o quarteto. Eijirou e Momo arregalaram os olhos e levaram as mãos aos lábios, tentando segurar o riso. Todoroki inclinou a cabeça para o lado, tentando entender as reações dos colegas, e Bakugou o encarou com olhos arregalados, como se não conseguisse acreditar no que tinha acabado de ouvir.

— Como é que é, seu filho de uma-

— Certo, certo! -Toshinori exclamou, chamando a atenção da turma para si- Vamos salvar as nossas energias para a atividade, que tal?

A turma concordou, lançando olhares nervosos na direção de Todoroki e Bakugou, que simplesmente se afastaram um do outro com olhares mal-humorados.

— Antes de começarmos, alguém ainda teria dúvidas sobre a atividade?

Um garoto pálido e de cabelos negros ergueu a mão, um olhar hesitante em seu rosto. Shouto apertou os olhos, tentando reconhecer o colega. Precisava urgentemente decorar os rostos e nomes de seus colegas para evitar futuros constrangimentos.

— Diga, jovem Tokoyami?

— Sensei, o nosso time tem um integrante a menos.

— H-hein?

Toshinori (e a turma toda) olhou para o trio com olhos arregalados, como se não esperasse por aquilo. Começou a procurar por algo, alguém, pelo ginásio, o nervosismo aumentando cada vez mais em sua face.

— O jovem Midoriya não veio hoje? – A turma o encarou com olhares incrédulos, fazendo com que o homem se encolhesse um pouco.

Iida ergueu seu braço, recebendo a palavra.

— Toshinori-sensei, o Midoriya-kun sofreu um imprevisto no primeiro horário da manhã e agora está recebendo o auxílio necessário- Iida disse, sua voz reverberando pelo ginásio. Toshinori parecia querer perguntar algo, mas se manteve calado. Tenya limpou sua garganta, voltando a erguer o braço- Sensei, eu o aconselho a começar a fazer as chamadas antes da aula começar! Vai ajudar o senhor a manter um melhor controle sobre a classe.

— Eh...

A classe explodiu em risadas, achando a expressão cabisbaixa do professor engraçada demais. Até mesmo Bakugou parecia achar graça da desgraça do homem.

— Err...Então...O que podemos fazer...-O homem levou uma das mãos ao queixo, massageando-o com uma expressão pensativa.

Shouto não sabia explicar muito bem o porquê, mas sentia que aquela profissão não combinava muito com o homem. Era muito atrapalhado, e não parecia ter muita autoridade entre seus alunos. Sentiu um pouco de dó dele, mas logo se desinteressou.

— Sensei, eu não vejo problema em sermos um trio- O mais alto do trio comentou, sua voz soando abafada através da máscara- Só queríamos informá-lo da ausência de Midoriya. Não precisa se preocupar.

Os outros dois integrantes balançaram as cabeças, concordando.

Yagi suspirou aliviado, lançando um olhar agradecido para o trio. Ainda abalado, voltou a atenção para o resto da turma, um sorriso torto e cansado em seu rosto.

— Podemos começar agora?

Todos assentiram alegremente, dispersando-se em seus respectivos times para começar a atividade.

Todoroki encarou (ou fuzilar seria uma palavra melhor para descrever?) seu grupo, uma expressão desinteressada em seu rosto. Yaoyorozu parecia um pouco desconfortável, mas quando notou seu olhar se esforçou em botar um sorrisinho no rosto. Kirishima parecia animado, balançando o loiro pelo braço com um sorriso gigantesco no rosto. Bakugou ralhou um pouco com o ruivo, que não parecia levar os xingamentos a sério.

Katsuki, ao notar o olhar de Shouto, fuzilou-o com o olhar, seu lábio se levantando para completar a expressão de insatisfação. Desistindo de tentar fazer o mais alto desviar o olhar, bufou, virando-se de costas.

— Vamos logo, porra.

Assentiram, cada um seguindo o loiro com uma expressão diferente no rosto.

Eijirou estava contente.

Momo estava desconfortável.

E Shouto queria muito socar a cara de Kacchan.

Notas finais
Juro que no próximo capítulo o nosso Kacchan já vai estar mais suportável KKKKKKKK Pode não parecer, mas ele é um personagem que eu gosto muito, e espero desenvolver ele bem nessa fanfic. Já se passou 1 mês desde o primeiro capítulo, caso isso não tenha ficado claro. 1 mês e o Shoucchan não se ligou que ele já tem amigos. Triste isso, não? Ainda vamos ter muito drama em cima disso. Mas prometo que no próximo capítulo ele já vai fazer mais amigos (afinal, o time dele contém meus personagens favoritos KKKKKKKKKK). Gostaram do capítulo? Sinto que exagerei um pouco (muito) nas descrições. Se quiserem, deixem um comentáriozinho humilde pra autora aqui. Fico muito feliz em recebê-los! >.