Notas iniciais
- I was made to love her been working at it Half of my life I´ve been an addict

O porquê de um cara lindo tocando violão ter vindo até mim?

Essa é uma pergunta para mais tarde, pois eu tinha certeza que não tinha mais cérebro o suficiente para pensar nas hipóteses, era uma situação surpreendente demais para ficar pensando nas várias possibilidades de ter acontecido logo comigo, eu era apenas uma das milhares de pessoas espalhadas por aquela estação, um alguém qualquer no meio da multidão, um pontinho fraco no meio de tantas cores... e mesmo assim, foi até mim que ele veio.

Não dava pra acreditar, eu estava numa daquelas cenas de filme, só podia ser.

Meu cérebro deve ter explodido, essa é a única explicação.

Eu fiquei lá paralisada enquanto ele caminhava no meio das pessoas, exalando um charme contaminante, como uma daquelas super estrelas da música que conseguem encantar até a pessoa mais ranzinza do mundo, os sorrisos se derramavam para ele, palmas surgiam acompanhando a melodia, como se fosse sua banda pessoal.

E quando ele sorria de volta... Deus do céu, eu não sou religiosa, mas Deus do céu!

Meu coração estava batendo tão engraçado que sentia ele na ponta dos pés, como um beija-flor voando pra lá e pra cá, podia sentir meu peito se expandindo com cada respiração, e como um frio de arrepiar desceu pelo meu peito até o estômago, onda quebrando atrás de onda... aí meu Deus.

Eu tinha acabado de me apaixonar? Só podia ser brincadeira.

Eu juro que no começo só estava parada lá enquanto ele fazia seu show, hipnotizada como qualquer pessoa da estação estava não podia tirar meus olhos dele, de cada detalhe, cada cor que o iluminava, ou cada inclinação de seus lábios enquanto aquela voz linda deslizava ao seu redor. Só me dei conta de quão idiota estava quando seus olhos vieram em minha direção, assim que ele me viu eu tive a realização de mim mesma.

Primeiro de tudo, preciso dizer e juro que não estou sendo hipócrita, e sim realista, porque não tem nada pior do que uma heroína sonsa (não que eu seja uma heroína é claro), eu não sou feia, graças aos bons genes dos meus pais, que por acaso são lindos, eu tinha me tornado uma adolescente bonita ao invés de uma bagunça confusa, no entanto, eu vinha adquirindo essa coisa de me esconder há anos e meio que tinha tornado preto a minha coisa, desde a raiz do cabelo até a ponta das botas estilo tratorada, então, estar em um jeans preto velho que cabia desde a sétima série, usar um moletom duas vezes o meu tamanho apenas para esconder o fato de estar numa regata sem sutiã, e ter deixado o cabelo sujo e oleoso por uma semana (uma das mais difíceis, pois significou abandonar minha mãe numa clinica), olhos borrados de rímel e sombra para esconder o real negro sob meus olhos cansados... bem, vamos dizer que essa não era a minha melhore aparência, eu não estava nem um pouco apresentável no geral, ainda mais para o garoto mais lindo do mundo que estava só vindo em minha direção mesmo.

Eu nunca poderia ter melhorado a situação, então só fiquei lá parada como uma estátua enquanto ele vinha, seus dedos deslizando vagarosos pelas cordas do violão, eu pisquei atordoada enquanto ele cantava sobre o amor da sua vida, quase me quebrei quando um sorriso rachou no canto dos seus lábios.

— ...let my baby stay...

Um anjo estava parado na minha frente, me encarando com um sorriso contido, seus olhos com um próprio sorriso cheio de mistério e brilho, enquanto eu me desmontava toda por dentro em busca de uma ajuda fantasma para sair daquele estado paralitico.

Vendo esse momento a partir de uma perspectiva sóbria, eu diria que a atitude em si dele foi muito bizarra e até audaciosa, afinal de contas, quem é que vai na direção de um estranho, no meio de uma estação antiquada de trem, tocando um violão e sorrindo para as pessoas? Quer dizer, quem fez esse cara?

— O que foi isso?

Eu estava presa numa situação impossível de perfeita, e tudo o que podia ter saído da minha boca não era nada do que eu esperava e, no entanto, tudo o que eu sempre era entrou em ação, uma total dor na bunda, uma garota resmungona e ranzinza.

Sem entender o real significado das minhas palavras o anjo simplesmente rachou num sorriso satisfeito, como se eu tivesse realmente perguntado algo sobre a música, ao invés de ter perguntado “que merda foi essa??” que foi o que eu realmente quis dizer. No final não pude deixar de sentir meu coração se acelerando, ou os olhos se arregalando diante daquele sorriso glorioso.

— “Isso”, foi Mac Demarco, e eu aposto que você nunca ouviu falar dele, até hoje, é claro.

Ok...

— Você é real...?

Eu não podia controlar, minha mão estava indo até ele antes que eu pudesse controlar, então estiquei um dedo longo e pálido e cutuquei o seu antebraço com curiosidade, uma corrente elétrica zumbiu através do contato com sua pele e a minha, estupefação me atingindo assim que percebi o que estava fazendo, me afastei quando o som da sua risada baixa me assustou, seus olhos brincaram sobre o meu rosto.

— É claro que sou, e você, é real?

Não sabia que uma pessoa era capaz de mudar de expressão tão rápido até ver ele o fazer.

Era como se vinho tivesse voltado a ser água, num momento ele sorria e então no outro seus olhos tinham escurecido com intensidade, o sorriso se fechou numa linha séria e as maçãs do rosto se tornaram rigorosas, sem contar aquelas sobrancelhas grossas e cheias se franzindo com interesse.

Será que era possível ter um orgasmo apenas com uma expressão?

Soltei o ar com dificuldade enquanto processava tudo. Meus olhos se desviaram dos seus, pois eu estava nervosa, ele tinha se tornado muito intimidador, muito rápido, e tudo que eu podia fazer era olhar ao redor, para o fluxo de pessoas cuidando de suas próprias vidas, correndo e respirando.

Quando olhei para o grande relógio senti alívio deslizar por meus ombros tensos, eu tinha acabado de conseguir minha deixa.

Me abaixei e peguei minha mala de alça enquanto subia o suporte da de rodinhas, aproveitei que meu rosto estava longe do seu para pigarrear.

— Sim, eu sou real e agora, estou indo embora.

Não me deixei nem olhar mais uma vez para o seu rosto, minhas mãos tremiam enquanto me arrastava para a plataforma e minhas pernas tinham se tornado gelatina, eu tinha certeza que estava andando meio cambaleante, só podia estar, o olhar de uma mulher que passava me assegurou de que algo estava errado.

A vontade de me virar para trás e olhar se ele ainda estava no mesmo lugar comichava por baixo da minha pele como uma coceira insuportável, mas me forcei a ignorar tudo enquanto levava minhas malas para dentro do vagão, sem nem perceber eu estava sentada em uma poltrona qualquer, algum funcionário tinha checado e guardado minhas malas nos suportes de cima, e também checará meu bilhete, eu nem me lembrava de onde tinha tirado ele, só sentia aquele monte de algodão na minha cabeça abafando tudo ao meu redor enquanto a imagem do anjo se fixava na minha memória.

Olhos azuis incríveis brilhando na minha direção, como o mar no verão.

Não podia ter sido real, eu tinha estado sobre muito estresse ultimamente, não tinha dormido bem e a tristeza por minha mãe só crescia, então talvez tudo não passasse de um surto ilusório...

— Posso me sentar aqui?

Meu corpo todo tremeu com o som da sua voz e levantei a cabeça de supetão, não podia acreditar no que estava vendo, não de novo, duas vezes é real de mais.

Fiquei de boca aberta enquanto ele se mexia de um lado para o outro sobre seus pés, seus lábios torcendo em sorrisos contidos, entendendo minha reação como um sim ele jogou uma mochila no banco da frente e se sentou, colocando o case do violão entre as pernas enquanto o guardava.

— Você sempre foge quando percebe que um cara te quer?

Notas finais
Espero que gostem