Eu no seu lugar

22 Regras e exceções para seu primeiro amor - Parte I


Capítulo 22 — Regras e exceções para seu primeiro amor — Parte I

Katsuki acorda em seu próprio quarto, o que em condições normais não seria grande coisa, mas já que não é o caso, despertar com o barulho dos passarinhos cantando lá fora não pode significar nada de bom. Se ele acordou, é porque tava dormindo, se os passarinhos tão berrando, é porque já é de manhã, ou seja, ele passou a noite em seu próprio quarto, que tecnicamente não é o quarto dele, mas sim desse corpo quente e pesado respirando fundo ao seu lado. Surpreendentemente, uma das primeiras coisas que ele consegue pensar é na ideia foda que foi comprar as luvas de lavar louça, porque não fosse isso, os dois estariam dando com a cara no teto. Uraraka tá com a cabeça afundada nos… peitos dele, as pernas dela abrigadas por entre as dele enquanto ele lentamente retira o braço que envolvia os ombros dela. Desde que essa porra toda começou, Katsuki nunca esteve tão perto do próprio corpo, e é impossível não comparar a rigidez de seus músculos em contraste com a maciez do corpo que ele vem habitando, também é impossível não perceber o quão bem esses dois corpos se encaixam, o quão natural é estar perto dela assim e… porra, o que que é isso aqui?

Mexendo a perna um pouco, ele sente algo duro contra a coxa, ai caralho… literalmente, AI. CARALHO!

— Bakugou-kun… — ela diz baixinho, fazendo a voz dele soar rouca e preguiçosa — Vai pro meu quarto antes de amanhecer…

— Tsk, tá um pouco tarde pra você me falar isso, Bochecha! — ele a empurra pra tirá-la de cima dele, não é bem o que ele queria fazer, mas é o que tem que ser feito. Ele estica o pescoço pra olhar o relógio na parede.

— O quê? Que horas…? — ela pula de surpresa e também checa o relógio — Nove horas?! Ai caramba, Bakugou-kun! Eu ia… te chamar quando fosse de madrugada, mas aí… eu acabei dormindo e… eu…

— É, já percebi. Mas parece que você tem um problema maior que esse pra resolver, Cara de Lua. — ele sorri debochadamente, tentando não cair na risada quando ela o olha em confusão. Katsuki lança um olhar ligeiro na direção dos quadris dela, fazendo-a olhar também. A Cara de Anjinho arregala os olhos, encarando-o, depois a si mesma e pula da cama em choque — Eu sabia que você tava com saudade do seu corpo, só não imaginava que era desse jeito, sua pervertida maldita!

— B-B-Bakugou-kun, isso aqui é… é o que eu tô pensando?

— Não sei, o que é que você tá pensando? — ele dá de ombros, apoiando as mãos contra o colchão e cruzando as pernas.

— AAARRGH! Que horror! Que nojo! — ela sacode a cabeça desesperadamente enquanto esconde a cara por entre as mãos — Que coisa horrível! B-Bakugou-kun, eu juro que eu não… que eu não fiz isso de propósito, eu nunca… eu nem sei o que...

— Tesão de mijo. — ele a interrompe.

— HÃ?

— Isso daí é tesão de mijo, acontece com todo cara. É só você mijar que passa.

— C-como assim, você tá falando que… que é normal acordar… assim? — ela faz um gesto apontando para baixo, e ele se segura muito pra não cair na gargalhada.

— Tsk, você não aprendeu nada na aula de biologia? Não lembra quando a gente estudou sistema urinário? A bexiga dos caras fica bem em cima da próstata, quando ela enche, aperta a próstata e aí…

— Ok, já lembrei! Já lembrei! Para de falar! — ela sacode as mãos loucamente, completamente vermelha.

— Não vem dar chilique, Cara de Lua! Não é problema meu se você não presta atenção na aula!

— Ah olha quem tá falando! A gente também aprendeu sobre menstruação não só na aula de biologia, mas também na aula especial de educação sexual da Midnight-sensei, e você ainda assim fez um escândalo quando desceu!

— Porque tinha sangue pra tudo quanto era lado! Não é só nojento pra porra, é bizarro!

— Ah, e isso aqui é o quê?

— SÓ VONTADE DE MIJAR, SUA IDIOTA! — ele esbraveja, irritado pela cara de asco que ela faz. Tsk, também não precisa exagerar assim, essa maldita! Se fosse o Deku, ela não dava esse chilique todo! UGHHHH, por que caralhos ele foi pensar no Deku justo agora? — Eu… vou nessa!

— T-tá bom, só… não esquece de pôr a roupa que eu tava ontem pra poder ir pro meu quarto, se alguém vir meu corpo usando as suas roupas…

— É, eu sei, eu sei! — ainda mais que a vizinha de quarto dela é a Rosinha, ele fica com dor de cabeça só de imaginar as perguntas que ela faria. Katsuki marcha até o banheiro com raiva. Merda, merda, merda! Como caralhos uma noite tão boa pode terminar com uma manhã tão lixo? E o pior, não tem a mínima chance de melhorar por causa dessa porra de aniversário do nerd maldito!

Depois de colocar as roupas que ele tava usando ontem — ainda meio úmidas— pegar a mochila e flutuar de volta pra ala feminina, Katsuki para de frente pro quarto dela e apoia a cabeça na porta, respirando fundo. Uraraka maldita, como ela faz isso com ele? Como caralhos ela o faz se importar com coisas que não são nem de longe relevantes pra sua vida? Porra, quem liga pra o que ela pensa sobre o corpo dele e como funciona? O que importa é que funciona bem pra caralho e é esse corpo forte com uma individualidade foda que vai torná-lo o herói número 1, a Cara de Lua horrorizada em ter visto o que ela viu — e tocou pra mijar — não serve pra merda nenhuma, e ela e o nojinho dela podem ir se foder! Tsk, o que ela acha que vai acontecer quando começar a namorar o maldito do Deku? O que ela acha que ele tem por entre as pernas? Idiota! E o pior é que Katsuki também tá agindo como um idiota por causa das besteiras dela! Ughhhhh!

— Ochako-chan? — ele vira a cabeça pra encontrar a Rosinha botando a cara pra fora do quarto dela. Porra, mais essa agora? — Você… não dormiu aqui?

— Ah, bom dia… Mina. Não, eu fui pro meu apartamento, precisava resolver umas coisas na cidade. — ele mente mecanicamente.

— Ah, tendi. Aí, você tem um minuto? Podemos conversar? — a resposta óbvia é “não”, mas porra… tem alguma coisa estranha com essa menina, a cara dela… bom, a cara dela sempre foi estranha pra ele, mas tem alguma coisa diferente.

— Tá. — ele resmunga.

— Ok, entra aqui.

O quarto da Rosinha é… como ela, basicamente. Enquanto o quarto da Uraraka é simples e não tem quase nada que deixe óbvio que pertence a ela, o da Rosinha é rosa, obviamente, e muito mais decorado. Tsk, com essa história de troca de corpos, ele já entrou no quarto de quase todas essas doidas, maldita Uraraka e essa mania de socializar dela!

— Pode falar. — ele a apressa.

— Eu vou tentar ser rápida, juro! Imagino que você tá louca pra se preparar pra festa do Midoriya-kun.

— Hum… — só de ouvir o “tentar”, ele sabe que ela não vai ser rápida porra nenhuma.

— Então… como você tá se sentindo? É o aniversário dele, você tá animada? Nervosa?

— Você me chamou aqui pra falar sobre mim, é isso? — ele ergue uma sobrancelha em descrença.

— B-bom, mais ou menos, hahaha. — ela coça a cabeça — É que… sabe a conversa que a gente teve no quarto da Momo antes de ontem? Aquilo que a Jirou falou foi bem… cara, ela não tem filtro nenhum, né? — Olha quem tá falando, porra! — É tão raro ouvi-la falar da época que ela gostava do Kaminari, né? Ela gostava do Kaminari, gente! Nosso primeiro ano foi uma louc-

— Mina, vai direto ao ponto! — ela arregala os olhos e mexe no cabelo.

— Eu tô tão nervosa, Ochako-chan! — ela choraminga — O Sero me convidou pro aniversário do Midoriya, e na hora eu achei que ia ser um encontro duplo, mas e se não for? E se eu entendi tudo errado e ele só quer sair como amigo?

— E eu que sei?

— Exatamente! Eu também não sei! Porque parece que ele gosta de mim, mas às vezes parece que não, e os sinais dele são confusos e eu tô com medo de estar vendo só o que eu quero ver, igual foi com o Kiri!

— O Fi-Sero-kun… não é igual ao Kirishima. Ele não é gay. — disso Katsuki tem certeza. Ao longo desses dois anos, ele ouviu o cara fazendo um monte de comentários sobre as meninas, inclusive a Uraraka… otário! — Se os sinais dele são confusos, é porque ele é um imbecil, é mais fácil você chegar na lata e perguntar.

— Você acha mesmo?

— Lógico! Ele é um bestão que fica te olhando com cara de cachorro pidão, e você é… barulhenta e… tem certeza de tudo o que faz. O mais certo é você tomar uma atitude pra ir atrás do que você quer!

— Cachorro pidão… você acha? Hum… É, faz sentido… Eu vou pagar pra ver! — aquele sorriso costumeiro dela volta — Obrigada, Ochako-chan! Você é demais!

— É, eu sei. — ele revira os olhos, e ela dá uma risadinha.

— Então… já que você me ajudou, eu vou retribuir o favor! — ela o puxa pela mão, fazendo-o ficar de pé — Diz aí, como é seu biquíni?

— Quê? Que mané biquíni, eu não vou usar biquíni!

— Não?! Maiô, então? Ai, Ochako! Não me fala que você vai usar aquele maiô horrendo da aula de natação? — ela põe as mãos nos quadris, indignada. E porra, tá aí uma ideia que ele não tinha pensado. Ele não ia entrar no mar, mas com o calor que tá, seria bom, aquele maiô das meninas não mostra nada, então ele não ia ficar… curioso. Boa, Rosinha! — Não acredito que você tá mesmo pensando em usar aquela coisa feia! Não, nem pensar! Eu não vou deixar você se sabotar assim na festa do Midoriya! — a maluca vai até a cômoda e fuça em uma das gavetas, empurrando um treco laranja na mão dele — É maiô, pode ficar tranquila!

— Maiô? Isso aqui… parece um tapa-olho! — a Rosinha dispara a rir, empurrando-o pro banheiro e fechando a porta. Ugh, essa merda de novo!

— É que é um engana-mamãe, né? — Que porra é essa de “engana-mamãe?” — Experimenta! Vai ficar ótimo em você! Fora que… laranja é a cor favorita do Bakugou, sabia? — Essa menina… como… caralhos ela sabe disso? — Ei, Ochako, falando nele… foi ideia minha ele convidar a menina do Shiketsu, então… me desculpe se eu atrapalhei alguma coisa entre vocês, eu só… achei que você ainda tá esperando o Midoriya dar uma resposta e a festa seria uma boa chance pra vocês se acertarem, é melhor se… o Bakugou não ficar te distraindo, por enquanto.

— Tsk, vocês todas parecem achar que sabem o que é melhor pra mim. — ele resmunga.

— Ahh, pessoalmente eu acho que você combina mais com o Bakugou, se você quer saber! — ela… ela acha mesmo? — Mas você se declarou pro Midoriya, e honestamente, não sei porque tanta enrolação, tá na cara que ele gosta de você!

— Tsk, é porque ele é um idiota que gosta de complicar! — que caralhos ele tá falando? Katsuki não dá a mínima pra esse draminha da Cara de Lua com aquele idiota!

— Ah… isso é! Ele… não é muito decidido pra qualquer coisa que não seja ser herói! — ela ri — Mas é aquilo, né? É seu primeiro amor, e diferente do meu, você tem como fazer dar certo… — Tsk, e é óbvio que a Uraraka vai fazer de tudo pra dar certo com aquele nerd maldito! Katsuki abre a porta do banheiro, usando a porra do maiô que não parece um maiô nem fodendo, a julgar pelo vento que ele sente batendo nas costas. Agora ele entendeu o nome idiota dessa coisa, é porque tem pano na frente, mas não tapa quase nada atrás, tipo aquele jockstrap medonho que o Kirishima usa pra treinar, credo! — Ahhhh, tá linda!!! — ela o puxa pra fora do banheiro, e Katsuki tá com tanta vergonha que nem consegue protestar — Aí se você ficar com vergonha, é só amarrar uma canga na cintura, se bem que… seria bobeira sua ter vergonha de mostrar essa raba incrível, né? Não tem Midoriya ou Bakugou que resistam! — a cretina ri e, do nada, mete um tapa na bunda dele. QUE PORRA É ESSA?

Katsuki reage na hora, levando a mão onde a Rosinha bateu e… porra! Ele acabou de pegar na bunda da Cara de Lua! E o pior? É que não é nem de longe ruim senti-la assim em seu toque. Merda! Não é justo essa porra! Não é justo que ela tenha nojo do corpo dele enquanto ele sente que realmente, a Rosinha tem razão, não existe Bakugou que resista.

***

Ochako se alonga a apoia as mãos nos quadris, admirando a paisagem praiana. A chuva de ontem não atrapalhou em nada o dia ensolarado e quente que tá fazendo, tornando a praia de fato o melhor lugar pra se celebrar um aniversário. Ou dois, no caso.

— Quer ajuda pra montar as coisas aí, senpai? — o Kirishima oferece para o veterano Amajiki, que estaciona o carro bem no começo do píer, abrindo o porta-malas.

— A-ah, se você não se incomodar… — o senpai fala tão baixinho que é quase difícil de escutar, mas é o suficiente pro Kirishima, que puxa o Kaminari pra ajudá-lo.

— Peraí que eu ajudo também! — Ochako se oferece, incomodada em ficar só olhando.

— Vai mesmo? Valeu, mano! — o Kirishima observa o Kaminari se afastar um pouco e põe a mão no peitoral dela — Aí, cara… sobre aquele nosso papo da sexta… aquilo lá que você me falou… sobre hã… você e a Uraraka? — Ochako arregala os olhos — Eu fiquei pensando naquilo e…

— E aí você lembrou que não consegue pensar porque… porque você é um idiota! — ela responde na defensiva — V-Você mesmo disse, foi uma brincadeira sem-graça! Agora esquece aquilo e… vâmo ajudar o senpai que… que eu não sei o nome! — Ochako dá as costas pra ele, engolindo o nervosismo. Ela já tava errada de ter falado pra ele, o Bakugou ia surtar se soubesse que ela contou, então… é melhor mesmo que o Kirishima ache que foi só uma piada sem sentido e esqueça isso.

— Onde a gente põe a churrasqueira, senpai? — o Kaminari pergunta depois de um tempo, segurando uma extremidade da churrasqueira e a puxando para fora do porta-malas. O Tamaki-senpai parece não ter certeza — Porque acho que seria mais fácil se ficasse por entre as mesas ali. Eijirou, me ajuda aqui!

— Opa! — ele pega a outra extremidade da churrasqueira elétrica.

— Se a Uraraka tivesse aqui, hein? Facilitava metade desse serviço! — o Kaminari limpa o suor da testa, e Ochako sente um aperto no coração, porque ela tá aqui! Só que… não com uma individualidade perfeita pra essa situação…

— O que tem eu? — ela ouve a própria voz surgindo pelo lado oposto do píer. Ah, o Bakugou chegou! Ela queria mesmo falar com ele, já que ele saiu bem nervoso hoje de manhã e… pera, o que…? Antes que ela possa cumprimentá-lo, ele a puxa pelo braço pra longe das outras pessoas— Que diabos você tá usando, Cara de Lua? — ele a olha de cima a baixo — Onde você arrumou esse calção feio da porra?

— Com o Kirishima! Eu… fiquei com vergonha de procurar nas suas roupas e… não, eu é que te pergunto: que caralhos VOCÊ tá usando, Bakugou-kun?

— Peguei emprestado com a Rosinha, ela ia ficar me enchendo o saco se eu viesse de roupa normal ou com o maiô da escola. — ele dá de ombros como se pra ele fosse super normal usar… um maiô engana-mamãe, Ochako não quer nem ver como está a parte de trás — Então não vai tendo ideia errada, Cara de Lua, eu não tô usando isso porque eu quero ou gosto! Eu não tô nem aí pro seu corpo! — ele esbraveja

— Grosso! — ela sente o rosto pegar fogo, mas… não, ela tá mais com raiva do que com vergonha — Você… você é um babaca! Eu querendo vir aqui te pedir desculpa por hoje de manhã e você me vem com essa? Vai te catar! — ela dá meia volta, mas ele a segura.

— Você ia pedir desculpa? Pelo quê? — o olhar dele é firme.

— Pelo… escândalo de hoje cedo, eu… exagerei. Eu pesquisei depois e vi que a… tal ereção matinal é… é normal mesmo, e… é importante, né? Mostra que você tá saudável… eu… nunca me perdoaria se prejudicasse a saúde do seu corpo, Bakugou-kun… — ela abaixa o olhar, sentindo que não consegue encará-lo diretamente sem suas pernas fraquejarem.

— Ah… ah é? — ele pergunta, aparentemente interessado.

— É… mas… mas isso não importa! Porque você não liga pro meu corpo, né? — ela recupera a postura ofensiva, soltando-se dele e o olhando feio.

— Tsk, não exagera, ia ser escrotice minha se eu não cuidasse da saúde desse corpo também, Cara de Anjinho… — ela arregala os olhos, sabendo que o calor no rosto agora é de vergonha mesmo — …aliás, “anjinho” porra nenhuma, né? Que safadeza, Uraraka, você usar meu corpo pra se aproveitar do Kirishima... — ele dá um sorriso debochado, encarando o calção que ela tá usando.

— S-safadeza? Olha como você tá vestido, seu imoral! — ela esbraveja, aproximando-se dele — Isso é um calção de banho inocente, porque se eu fosse procurar nas suas roupas, certeza que ia achar só sunga, já que você é tão sem-vergonha!

— Vai se foder que eu nunca ia usar sunga, sua idiota! Qual o seu problema? Você é- — antes que eles continuem, uma mão grande e firme paira sobre o ombro dela e dele, Ochako olha pra cima, e encontra o outro aniversariante, Togata Mirio, sorrindo.

— Ah, como eu adoro jovens casais entusiasmados! — ele suspira — De você eu já esperava algo assim, garoto problema nº 2, agora você, Uraraka-chan, é novidade!

— Ei, ei, Mirio! Não falei? Não falei que a Uraraka-chan estava toda diferente, e você não acreditou? Viu? — Nejire-senpai… ela pula na frente dos dois, inclinando-se para encará-los de frente — O que vocês dois estão fazendo, hein? Não estão arrumando confusão de novo, né?

— C-claro que não! — Ochako nega.

— Ah que bom, bom! — ela sorri entusiasmadamente — Vocês são um casal tão agitado, né? Têm mais é que gastar toda essa energia acumulada de… outros jeitos, né? Vocês me entendem, certo? Você entendeu, né, Mirio?

— Entendi, entendi e concordo! Por que vocês não ajudam a gente a organizar tudo? Eu entendo que a parte boa de uma briga é a reconciliação, jovem casal, mas-

— A gente não é um casal! — Bakugou vocifera, livrando-se da mão do Togata-senpai — Nejire-senpai, que bom que você veio! Diz aí… por que você não tá de biquíni? — ele se aproxima da senpai, sorrindo de uma maneira que a verdadeira Ochako sorriria não fosse pelo olhar malígno que ele joga pra ela antes de puxar a senpai pelo braço e se afastar dela e do Togata-senpai. Garoto… abusado! Ochako fecha o punho em irritação.

— Cheia de marra essa sua namorada, hein, meu consagrado? — o senpai ri com gosto, e antes que Ochako possa protestar, ele a guia para onde os outros garotos estão.

Quase uma hora depois, ela começa a acreditar que a única missão do Bakugou hoje é torturá-la de todas as maneiras possíveis, talvez como forma de descontar a frustração de ter que comparecer à festa do Deku, ou como ela agiu hoje de manhã ao lidar com aquela… manifestação do corpo dele. Se ela perguntasse, ele negaria até a morte, mas Ochako percebeu que ele ficou carrancudo por conta da maneira que ela reagiu, e embora tenha sido chocante acordar com… aquilo… daquele jeito… não foi tão nojento quanto ela fez parecer.

A esse ponto, ela já tá acostumada a conviver com a parte mais diferente do corpo dele em relação ao dela, ela já viu, já tocou, e Ochako não é tão ingênua quanto parece, ela lembra da aula de educação sexual, sabe como essas coisas funcionam em teoria. Talvez o grande incômodo seja ter presenciado isso de uma maneira completamente diferente do que deveria acontecer caso ela nunca tivesse vindo parar em um corpo de menino. Ela sabe o que garotos têm por entre as pernas, só não achou que teria que lidar com isso assim, então não é nojo do Bakugou especificamente, longe disso…

Mas como ele é muito mais dramático e exagerado do que pensa que é, essa festa de aniversário tornou-se, para ele, uma maneira pra ela se arrepender de ter vindo. A prova máxima disso é quando Ochako tá tranquila bebendo seu refrigerante e escuta a própria voz se aproximar “Ó ele aí!”. Ao se virar, ela se depara com o Bakugou acompanhado do Todoroki, um outro garoto super alto, mais alto até que o Iida, e uma garota de cabelos dourados, usando um biquíni preto que deixa bem pouco pra imaginação. Não que importe, porque Ochako já a viu pelada.

— Oi, Bakutetas, tutu pom? — ela sorri e dá uma piscadinha.

— Hã… você tá perguntando se eu tô bem? Hã… vou- vou levando, e você? — olhando para os outros dois garotos, ela os cumprimenta também — Meio a Meio e hã…

— Você costumava chamá-lo de Carequinha. — o Todoroki oferece em tom inexpressivo.

— Não tá lembrado de mim, Bakugou? — o grandão pergunta, e Ochako se sente péssima, até que ele se joga pra frente com tudo, curvando-se — Yoarashi Inasa, tô no segundo ano do curso de heróis do colégio Shiketsu! A gente fez a recuperação do Exame de Licença Provisória juntos! Agora eu estou aqui como acompanhante do Shouto-kun!

— L-lembrei… — ela murmura — Então… Cara de Lua, você vai ficar por aqui? — Ochako o encara em irritação, ainda mais depois de ver a cara de deboche que ele tá fazendo.

— Ah não, já tô indo, Bakugou-kun, só vim guiar a sua acompanhante até você. Não sabia que você se dava tão bem com ela...

— Ah sim, o Bakutetas é tipo assim, todo marrento, mas eu sei que o coração dele é de mocinha. — a tal da Camie fala — E migues, adorei seu maiô, real!

— Hum. — ha! Ele fecha a cara e fica com vergonha, com certeza não tava esperando por essa — Combina comigo, não acha? Eu tenho essa carinha de sonsa, mas sou bem sem-vergonha, você nem imagina, Utsushimi-san!

— Real assim? — ela pergunta.

— Hahaha, não mais sem-vergonha que eu! Eu fico com essa cara de cu pra tudo, mas fico secando senpais quando tenho chance! — Ochako devolve em um tom igualmente infantil, os dois se encaram como se raios estivessem saindo de seus olhos.

— Hã… eu não sei se eu tô entendendo o que tá rolando aqui… — ela escuta o Yoarashi comentar com o Todoroki.

— Eu também não, embora tenha um palpite… — o Todoroki diz — Uraraka, Bakugou, vocês por acaso não trocaram de corpo? — O QUÊ???

Ochako se lembra de como o Deku lhe contou uma vez que o Todoroki perguntou se ele era filho ilegítimo do All Might. Daquela vez, ela achou hilário como o fato de ele ser calado não quer dizer que ele seja exatamente observador, o Todoroki só parece viver num mundo à parte. Agora… talvez ela tenha que repensar isso, por que como pode alguém acertar em cheio assim tão fácil e ainda questionar sobre isso como se estivesse perguntando o que ela comeu no almoço?

— De… de que porra você tá falando, Meio a Meio? Morre, seu merda! Vai te catar!

— T-Todoroki-kun… hahaha, você… de onde você tirou isso? — o Bakugou sorri, mas ela percebe o quanto ele tá entrando em pânico.

— Há algumas semanas, eu venho notando o comportamento estranho de vocês. Bakugou, você tem gritado bem menos e tem agido com o mínimo de decência com seus colegas e professores. E Uraraka, eu digo isso baseado na luta que nós tivemos, você está muito mais agressiva e direta, com uma postura muito diferente da de uma menina. — ele enumera monotonamente.

— Todoroki-kun… — Ochako o nota fechando o punho. Ai, Bakugou… — Você não acha que esse é um comentário machista? — O quê?

— Perdão? — ele arregala os olhos um pouco.

— Presumir que uma garota não pode ser agressiva e direta em batalha, você acha mesmo que é mais fácil acreditar que ela trocou de corpo com um garoto? Se você me conhecesse o mínimo e prestasse mais atenção em como eu sou quando luto, você saberia que minha postura em batalha é sempre agressiva, o Bakugou-kun que o diga, não é? — Quem é esse e o que ele fez com o Bakugou? Ochako só acena com a cabeça, abobalhada.

— Creio que eu tenha me expressado mal, não foi isso que eu-

— Agora ela te pegou, Shouto. — o Yoarashi comenta, olhando pro Todoroki como se ele estivesse encrencado.

— Lacrou, mana! — a Camie complementa

— Eu… eu sinto muito, devo ter interpretado mal algumas situações que observei. Perdão, Bakugou. E perdão principalmente a você, Uraraka. — ele se curva solenemente, e Ochako quer surtar com tudo isso.

— Esquece isso. — ela fala mecanicamente — Eu vou… nadar. — Ochako precisa se afastar um pouco e se acalmar.

— Ah, pera que eu vou contigo, Bakutetas! — a Utsushimi corre atrás dela.

Não é ideal, porque Ochako queria ficar sozinha e tentar processar o turbilhão de emoções que está sentindo. É tão estranho ter seu poder e habilidade reafirmados pelo Bakugou.

Se é pra ser honesta, sempre que recebe um elogio do tipo vindo do Iida, da Tsu ou mesmo do Deku, ela sempre duvida se é verdade, cogitando ser apenas uma maneira mais de incentivá-la a tentar mais. Agora, quando é o Bakugou, Ochako não duvida. Ela entra no mar, observando as ondas lamberem esses pés que não são dela. Claro que é só a água, mas por alguma razão, ela se sente flutuar mesmo estando bem longe dos efeitos de sua individualidade.

***

— Uau, Kacchan! Aquela foi por pouco, hein? — o Deku comenta depois que Katsuki se afasta do Careca e do Meio a Meio, indo até a mesa onde estão os refrigerantes. Ele precisa molhar a garganta pra se acalmar. Que merda foi aquela?

— Maldito Todoroki, fica com aquela cara de merda pra tudo, e do nada, me solta uma dessa? Qual o problema desse imbecil? — ele leva o copo à boca.

— Hã, em defesa do Todoroki-kun, eu não acho que ele realmente estivesse tentando arrancar uma confissão ou algo do tipo, é só o jeitão dele, ele fala o que pensa pois não consegue perceber que as pessoas estão constrangidas, hahaha… o Iida vive chamando a atenção dele pra isso. — o nerd coça a cabeça e dá um sorrisinho — Enfim… tirando esse incidente, fico feliz que você esteja aqui e tenha entendido o que eu te falei sobre a Uraraka-san querer socializar, Kacchan, eu-

— Vai se foder! Não tem nada a ver com você, Deku maldito! Ela ia acabar vindo mesmo sem eu concordar, aquela teimosa do caralho!

— Hehehe, olhando pra ela assim toda sorridente e fofa, ninguém imagina que ela pode ter um gênio difícil quando quer, né? A Uraraka-san é… cheia de surpresas… — Katsuki o olha de soslaio, e claro, o maldito tá todo vermelho.

— Aí, Deku. Por que você- — não, porra, o que ele tá fazendo? Katsuki não liga pra isso! Não dá a mínima pro que a Uraraka sente por esse otário, e muito menos pro que o otário sente por ela — Você é um enrolão maldito!

— Eu… eu sei… — ele abaixa o tom — Mas eu não posso dar uma resposta pra ela assim, né, Kacchan?

— Tsk, se você vai meter o pé na bunda dela, você- você deveria fazer comigo, e eu passo o recado. — ela ia chorar do mesmo jeito, mas… se é pra chorar, que não seja na frente desse cretino aqui. Deku não merece uma lágrima que venha dela.

— Ah, não! Eu não- eu não posso fazer isso, Kacchan, eu… prometi a ela que ia esperá-la. — Hã? Como assim? — Foi no domingo retrasado, a Uraraka-san me ajudou a carregar as compras da minha mãe, e… eu ainda não tava tão desconfiado, então achei que os rumores sobre vocês estarem hã… namorando eram verdade, mas ela me garantiu que não tinha nada e me pediu pra esperar o “treino” de vocês acabar, pra que só aí eu desse minha resposta.

— ELA O QUÊ? — ele esbraveja, amassando o copo — Maldita! Escondeu isso de mim porque sabia que tava fazendo coisa errada! Ah, mas ela vai ver o dela- — ele começa a andar na direção de onde a viu andar com a beiçuda, mas o Deku para na frente dele.

— Se você falar alguma coisa, ela vai saber que eu sei, Kacchan! — o maldito diz firmemente — Ela só fez isso porque não quer te envolver na vida pessoal dela, isso é entre mim e ela. Foi ela quem se confessou, é ela que tem que ouvir minha resposta.

— Tsk, fica todo valente agora, mas não teve coragem de decidir sua vida assim que ela confessou, seu imbecil! Tempo pra pensar… você é um cretino, Deku!

— Eu… eu sei que não foi certo, sem falar no quanto é egoísta da minha parte segurá-la quando ela podia estar dando uma chance pra outra pessoa… — quê? Não é possível que esse imbecil percebeu que Katsuki gosta dela! — Sabia que o Monoma-kun da turma B é apaixonado por ela? — ah, aquele outro merdinha… então tá — Quer dizer, deve ter mais gente que gosta dela, porque né? É a Uraraka, ela é sensacional… e… eu…

— Você é um babaca que vai ficar enrolando a menina pra no fim dar um fora nela. — ele murmura, enfurecido só de imaginar.

— Eu… nunca disse que ia dar um fora nela, Kacchan. — Deku lança um raro determinado olhar pra ele. E Katsuki sente que vai gorfar. Antes que ele possa dizer o que tá pensando, uma bola de vôlei atinge a cabeça do nerd maldito. Tsk, bem feito!

— Opa! Mal aí, Midoriya! Machucou, cara? — Pikachu, lógico que é esse idiota.

— Ah não, Kaminari-kun, tudo bem! Hahaha, a ideia do Togata-senpai de trazer a rede de vôlei foi boa, no fim, né?

— Pode crer! Acho que ele só não contava que ele e o Amajiki-senpai iam perder feio de mim e do Eijirou! — o Pikachu ri igual a um macaco — Assim como todo mundo que jogou com a gente, ahem. E aí? Tão a fim de desafiar o casal invicto aqui?

— Ah, não! Eu não sou bom em esportes… — o Deku balança as mãos.

— Se prepara pra perder, Kaminari-kun! — Katsuki agarra o pulso do nerd de merda e o puxa com força em direção à rede de vôlei.

— K- hã… Uraraka-san, o que você… tá fazendo? Eu não…

— Cala a boca e me obedece! Você é idiota de deixar esse paspalho te desafiar assim no dia do seu aniversário? Larga de ser trouxa, Deku!

— Legal! Você conseguiu fazer o casal vinte vir jogar, Denki? — Katsuki olha pro Kirishima apoiando as mãos nos quadris e sorrindo.

— Vou te mostrar o casal vinte! — ele resmunga, empurrando o nerd pra trás e se posicionando embaixo da rede — Aí, Deku, eu vou levantar, então você corta! E ai se eu te pegar olhando pra bunda d- pra minha bunda!

— EU NÃO- Aaaargh, ok! — o maldito faz que vai dar chilique, mas se controla, entrando em posição.

Casal vinte, hein? Tá mais pra vinte e um já que ele e o nerd venceram o segundo set depois de terem perdido o primeiro e… pera, que porra é essa de casal? Vai se foder! Katsuki tá louco pra meter essa bola bem na fuça do Kirishima por ter falado uma besteira dessa!

É ele que tá no saque pro match point dele e do Deku maldito. Ele se concentra, respira fundo e saca com força, mandando-a direto pro lado do casal idiota, o Pikachu defende no reflexo, e o Kirishima corre pra frente pra cortar.

— Ah, mas não vai mesmo, seu fodido! Minha, Deku! — ele berra, fingindo que ia bloquear só pra dar espaço pro nerd maldito vir por trás e fazer o bloqueio, a bola bate com tudo na cara do Cabelo de Ouriço, que ativa a própria individualidade por instinto, furando a bola e deixando-a cair no chão arenoso toda murcha.

— Hã… a gente perdeu? — o Pikachu pergunta, fazendo aquela expressão burra dele.

— A-acho que sim, não sei bem se tem uma regra em vôlei de praia pra quando um jogador fura a bola com sua individualidade de ficar duro que nem pedra… — o Deku responde, pensativo — Bom, ela caiu no chão, pelo menos, então… ponto nosso!

Katsuki nem escuta o Pikachu cumprimentando o nerd, só passa pro outro lado da rede e observa a bola furada, depois olha pro Kirishima encarando-o de um jeito estranho pra porra.

— Foi um bom jogo, Uraraka! — ele oferece a mão pra ele apertar, Katsuki aceita não só porque é o que a Cara de Anjinho faria.

— O Bakugou bem que me falou que você não reage tão rápido em um ataque vindo pela esquerda, presta mais atenção nisso daí! — ele responde, tentando não revirar os olhos.

— Ah, ok… obrigado… pela dica, hã… Uraraka. — ele ri de um jeito esquisito, meio forçado. E Katsuki dá as costas pra ele, voltando sua atenção para o nerd coçando o cabelo, meio sem jeito.

— Ótimo jogo, né K- hã… Uraraka-san? Eu já sabia que você tinha talento pra esportes sem individualidade, só não imaginei que fosse tanto e- — o bobão dá um gritinho de surpresa quando Katsuki o segura pela gola da camisa.

— Então é melhor você prestar mais atenção em mim, Deku-kun. — ele o solta, voltando para a mesa para pegar seu refrigerante.

Pode crer que é melhor esse nerd ficar esperto, ele não é o único de olho na Uraraka.

Notas finais
Oioi! Finalmente entramos no arco obrigatório de praia. Teremos fanservice? Sim, um pouco. Obrigada por ler! Espero que esteja curtindo!